O que ando a ler

Nestes tempos obscuros, o religioso é muitas vezes um tema sensível; mas, ao mesmo tempo, falar das aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos na Cova da Iria pode parecer descabido, atrevido ou até fora do tempo, sobretudo se for numa ficção presumivelmente séria. Porém, é mesmo esse, curiosamente, o ponto de partida do último livro de José Luís Peixoto, uma novela intitulada Em Teu Ventre, que se divide pelos meses de Maio a Outubro de 1917, ano das supostas aparições da Virgem a três primos que pastoreavam. Lúcia, a mais velha, é a protagonista, e o autor trabalha sobre as memórias da verdadeira Lúcia (a dos segredos de Fátima) para lhe construir na infância o quotidiano, no qual há irmãs casadas e solteiras que se juntam aos domingos, um irmão que cuida dos animais, um pai bebedolas com tendência para o jogo e, mais importante do que todos, uma mãe ríspida e crente que repudia as visões da menina, menina que – o leitor sabe – ouve na sua cabeça respostas de árvores, flores e lenços com quem conversa. Concentremo-nos, porém, na mãe – Maria de seu nome – pois este é também um livro sobre a maternidade, já que, a par da história da relação de Lúcia com Maria, temos, entre parênteses, uma voz que fala e que é de outra mãe – a do escritor? – para acusar, lembrar, recriminar o filho pela indiferença, a falta de atenção e de reconhecimento. Para temperar estes dois textos, versículos como os da Bíblia, em duas colunas e numerados, que dão voz a um filho que fala com a sua mãe e que, não por acaso, é o próprio Deus. Dito isto, fica certamente quase tudo por dizer, mas é preciso voltar à leitura para o descobrir.

Comentários

  1. Depois desta apresentação tão sedutora, vou ter que ler o livro do Peixoto, que será, lendo a apreciação da Maria do Rosário, uma espécie de psicanálise familiar retrospetiva de Lúcia, a vidente a quem foram confiados os segredos de Fátima. Mas sendo escrita por um criador literário será bem mais do que isso. Eu confesso que não era fã do Peixoto, mas fiquei a ele rendido com o seu "Galveias". Portanto, "Em Teu Ventre" será leitura da minha época natalícia.

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  2. Os três últimos livros que li foram:
    -Aquário do David Vann,
    -Contos de Cães e Maus Lobos do Valter Hugo Mãe,
    -Tóquio Vive Longe da Terra do Ricardo Adolfo.
    Livros bem diferentes mas que gostei muito de ler.
    Agora tenho ali à espera o Alberto Manguel, a Teresa Veiga, a Joyce Carol Oates, o Cortázer e nem sei por onde começar...
    Antonieta

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    1. "A FILHA DO COVEIRO" -Joyce Carol Oates - grande, grande livro!

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    2. Plenamente de acordo, ASeverino.
      O que eu tenho para ler é "A Mulher da Lama", acabadinho de sair e que me parece ser também muito bom.
      Antonieta

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  3. Continuo a ler livros antigos, da biblioteca da Incrível Almadense.

    Acabei de ler "Este Mundo dos Homens", contos de Orlando Gonçalves, do começo dos anos 1950, com bonitas ilustrações de Cipriano Dourado.

    É uma obra do neo-realismo, muito bem escrita.

    E agora estou a começar o "Cântico Final" do Virgilio Ferreira.

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  4. Por coincidência, também estou a ler "Em teu ventre". Vou muito no início, li umas 30 páginas, mas parece-me que é claramente um Peixoto em grande forma. Pela estrutura narrativa, talvez seja mais difícil que "Galveias" e "Livro", e seguramente mais que a compilação de crónicas "Abraço".

    Intercalo com o último prémio Leya, este já vai a meio e estou a gostar.

    Acabei há dias de descobrir John Fante, li 2 romances seguidos dele. Recomendo vivamente.

    Rui Miguel Almeida

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    1. JOHN FANTE - mas que grande escritor!!!!

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    2. JOHN FANTE-é daqueles escritores que nos empurram contra a parede e nos obrigam a pensar, nos fazem arregalar os olhos, abri-los muito e pôr-nos a pensar -eh pá este escritor é um homem que não veio ao mundo para ver passar os comboios...uma maravilha, este gajo tem que se lhe diga, não tem nada a ver com aquela gente que tem a mania de que os livros só servem para nos "divertir".
      Os livros são isto mesmo, como John Fante os pensa e no-los transmite, são para nos pôrem a pensar, nos abrirem a "cuca" e saber ler (possivelmente nas entrelinhas) o quanto este mundo é controlado pelos poderosos, é preciso é ler isso (e está lá escrito, leiam, meditem, pensem).

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    3. Severino,

      Li "Pergunta ao pó" e "A Primavera há-de chegar, Bandini". Tirando os livros da série Bandini, recomenda-me mais algum?

      Abraço,

      Rui Miguel Almeida

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    4. Para além dos dois que o que o Rui citou li (e recomendo vivamente):

      -ESTRADA PARA LOS ANGELES
      -SONHOS DE BUNKER HILL
      -A CONFRARIA DO VINHO

      Creio que apenas estes cinco estarão traduzidos em Portugal (não tenho conhecimento de mais nenhum).

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  5. Depois de acabar «Astronomia» do Mário Cláudio (de que gostei muito), deu-me para reler toda a obra do autor (às vezes, faço isto) e estou precisamente a reler «Guilhermina».

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  6. Depois de ter lido Amélie Nothomb e P.D. James, de que tanto gosto, voltei às biografias, que nunca largo: acabei há dias a de Truman Capote (fiquei com vontade de ler toda a sua obra) e continuo a ler a biografia do pintor Fragonard (é enorme mas fascinante).

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    1. Engraçado o João referir a Amélie Nothomb, uma escritora que muito aprecio e que nunca me lembro de ver aqui mencionada.
      Enquanto lia as crónicas do Ricardo Adolfo sobre Tóquio lembrei-me muito de alguns livros dela, precisamente pelo choque cultural entre o Oriente e o Ocidente.
      Que livro é que leu?
      Antonieta

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    2. Sim, o Stupeur et Tremblements e também o Ni d'Ève ni d'Adam. Mas tenho todos os livros dela excepto os dois últimos, ela tem uma escrita muito peculiar que me agrada bastante.
      Antonieta

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    3. Li Le fait du Prince, se quiser pode ler o que escrevi no meu blog: http://parisvertigo.blogspot.fr/search/label/Leituras

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    4. Já fui espreitar o seu blog e gostei, vou ficar cliente.
      Vou tentar encontrar a biografia do Truman Capote pois é um escritor com uma vida e obra bem interessantes.
      Também dou nota 10 ao The Misfits onde a Marilyn é, de facto, sublime. Outro filme dela que eu adoro é o Niagara.
      :-) Antonieta

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  7. António Luiz Pacheco1 de dezembro de 2015 às 04:41

    Li "Galveias", e gostei! Fico muito curioso com esta proposta incursão pelo campo da mística e da Religião ... creia-se ou não, Fátima (Cova da Iria) é obviamente um lugar de forte energia telúrica e um lugar sob todos os aspectos interessante!

    A nossa antiga cozinheira (a Hermínia que por sinal ainda é viva e fazia os melhores rissóis de bacalhau deste e do outro Mundo) é prima dos falecidos Jacinta e Francisco. Mero apontamento de curiosidade. Os homens naquela época e lugares pobres onde se vivia de uma agricultura de subsistência e anual, tinham uma certa tendência para caírem no álcool, e o José Catarino bem o sabe e pode falar sobre isso - "Entre Cós e Alpedriz", tem lá isso tudinho...

    Quanto às leituras... bom:
    Capacitação para a Gestão Sustentável de Terras (SLM) em Angola - Programa das Nações
    Unidas para o Desenvolvimento, e, O Regadio em Angola na perspectiva do Desenvolvimento Rural
    Ricardo P. Serralheiro (Universidade de Évora)
    F. Girão Monteiro e P. Leão de Sousa (Instituto Superior de Agronomia).
    Estes foi o que mais li ... confesso e são muito interessantes até! O primeiro escrito numa língua estranha mas que pretende ser português (fala por exemplo em gente influenciadora), o segundo sim, em bom português!

    Entretanto arrasto-me numa leitura interessantíssima e fundamental, (mas até me dão agasturas quando faço a ligação ao Último Europeu de Miguel Real... o que é uma constante!) que é "A Pilhagem de África" de Tom Burgiss.

    No entanto, este ficou relegado para segundo plano pois um dia destes comprei e já não larguei um outro que me apareceu à frente... Já não sei quem foi o Extraordinário que me aconselhou a ler Ondjaki, mas peço que se acuse para eu lhe levar de presente o seu último livro - "Os transparentes".
    É soberbo!!!!
    Não sei se ainda gostei mais pela boa surpresa, mas é um grande livro, e uma fiel ficção de Luanda e dos caluandas.
    A forma como trata a língua é ainda de mestre, sendo fiel ao linguajar, á construção e termos do povo de Luanda, estando ao nível de um Pepetela, ou Agualusa, sem dúvida... este é que era um grande e merecido Prémio Leya!
    Os personagens são ainda dignos dos melhores criadores da nossa literatura, um Jorge Amado ou quem queiram, genial!

    Recomendo a todos, é publicado pela Texto Editores, e fico contente em o ter descoberto.
    Vêem como vale a pena vir aqui dar uma bicadinha diária????

    Saudações livrescas e contentes cá da Cidade Morena.

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    1. Amigo Pacheco,

      Não tenho 100% de certeza, mas lembro-me de ter aconselhado Ondjaki e precisamente esse "Os transparentes", que ganhou o Prémio José Saramago aqui neste blog. Penso que terá mesmo sido a si. Já não é o último livro dele, mas continua a ser o meu favorito, entre os que li.

      Um abraço,

      Rui Miguel Almeida

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    2. Caro Pacheco, o Ondjaki não teve o Prémio Leya, mas foi Prémio José Saramago em 2013 o que, na minha opinião, é muito mais prestigiante, embora monetariamente inferior.
      Antonieta

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    3. Ó Pacheco ainda não leste "O LIVRO"? eu gostei muito. Por outro lado "DENTRO DO SEGREDO" -o da Coreia do Norte- é um barrete de caixão à cova, um fiasco total que quase me fez desistir de ler o Zé Brinquinho (um alentejano cheio de piercings é um desenraizado que não consigo entender)...

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  8. Ando a Ler_39

    Aqui atrasado encontrei na net , por mero acaso, um estudo de uma universitária brasileira sobre as obras de Carlo Levi .
    Veio-me logo à lembrança o livro de Levi que li pelos finais dos anos 60, e que muito me impressionou: “As Palavras São Pedras”.
    Ficou-me sempre na memória o pequeno parágrafo que terá dado origem ao título do livro: “As lágrimas já não são lágrimas, mas palavras, e as palavras são pedras.”
    Esta, digamos, metáfora dramática sintetiza tudo aquilo que Carlo Levi viu e partilhou nas suas andanças pela pobre Sicília nos anos 50, coisas que são a matéria central do livro (coisas que, digo eu agora, por lá ainda persistem).

    Entretanto, nas sequentes andanças na net à cata de palavras e pedras, deparei-me com estas: «As palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio. Se estão ali é para que possamos chegar à outra margem. A outra margem é que importa.»
    Estas são de Saramago, in “A Caverna”.
    Assim de repente não tenho a certeza de ter lido este livro. Vou tentar desencantá-lo e, se porventura já o li, tenho aqui um belo pretexto para o reler.

    Do texto da universitária brasileira anotei esta citação que ela traduz e transcreve da edição italiana daquele livro de Levi : “Todos se comportaram de forma perfeita: os lavradores, os senhores, as autoridades, os deputados (...), os comunistas, os padres, os parentes, e por fim as cabras e os asnos, e os cães, e por fim as moscas.”
    Ora bem: como não me lembrava de ter lido estas curiosas palavras, fui à procura do livro, e lá o desencantei.
    Trata-se do nº 34 da Biblioteca Arcádia de Bolso, que foi cá editado em 1964.
    Reli-o, li e vasculhei tudo para trás e para a frente, à procura daquelas palavras, e... nada.
    Atento o seu conteúdo, palpita-me que aquilo – e porventura outras partes – terão sido cortadas pela Comissão de Censura.
    Creio que, neste entretanto, não houve cá em Portugal uma nova edição deste livro.
    Mas era capaz de valer a pena a reedição, desde que devidamente revista e actualizada, repondo-lhe as pedras e as palavras que lhe foram retiradas – para que o leitor consiga chegar à outra margem, que isso é que importa.

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  9. Gosto da escrita de José Luís Peixoto. Colecciono, pronto. Mas o tema deste livro não me seduziu. Ainda. Por outro lado, já ouvi dizer -e li agora - que as aparições de Fátima são um pretexto para contar a vida rural portuguesa e não só. Suponho que, entre outra coisas, não o comprei com receio de embaciar a imagem:))

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  10. Flores, de Afonso Cruz. Não pára de me surpreender.

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    1. Por acaso este livro também está na pilha de livros para ler (que é enorme) e, com uma recomendação deste calibre, talvez comece mesmo por ler o Afonso Cruz.
      Antonieta

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    2. "PARA ONDE VÃO OS GUARDA CHUVAS" do Afonso Cruz também é um livro a não perder.

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    3. Hoje estamos concordantes, Severino.

      Acho "Para onde vão os guarda-chuvas" um dos melhores livros de autores portugueses dos últimos anos. Também gostei muito de "Jesus Cristo bebia cerveja". Já li "Flores", achei-o igualmente muito bom, embora prefira os dois que mencionei. Afonso Cruz é um dos melhores que temos.

      Rui Miguel Almeida.

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    4. Li de seguida 'Flores' e o mais recente volume da Enciclopédia 'As reencarnações de Pitágoras', reforçando a minha ideia que é um dos escritores tugas actuais mais interessantes. E tenho por isso andado a comprar tudo o que editou antes e que não conheço ainda.

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    5. Também gostei muito do da cerveja e do lava-loiças, mas os da Enciclopédia não gostei nada, ou então ainda não entendi o assunto...

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  11. Acabei de ler pela enésima vez "A Morte de Ivan Illich " de Tolstoi , talvez o melhor romance que conheço.

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  12. Pois eu tendo acabado a minha Trilogia Portugal 12-15, começada com o Futuro É Passado no Presente, intermediada com o Lusitana Melancolia e terminada com o Sem-Abrigo, S.A . - afinal a escrever e a publicar também se lê -, entremeio o último livro de Beevor sobre o último fôlego de Hitler, as Ardenas, com O Que Fazer Deste País de um dos mais promissores economistas deste país, o Ricardo Paes Mamede.

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    1. António Luiz Pacheco1 de dezembro de 2015 às 21:54

      O que fazer deste país . Recomendado por si, parece-me coisa de interesse... vou apontar!
      Tema pertinente e oportuno, aliás!

      Abraço cá da Cidade Morena

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  13. Quando comecei a ler Enrique Vila-Matas fiquei imediatamente seguidor mas com este "DA CIDADE NERVOSA" já começa a engonhar, e já não é este o primeiro que começa a empastelar...

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  14. Ando a ler "Tudo o que Conta" de James Salter e na frente poética, de Mário Faustino, "O Homem e a Sua Hora e Outros Poemas". Foi um poeta brasileiro (1930-62) e, antes disso, um militante da poesia: "Quem fez esta manhã (...) fê-la ter / Em si princípio e fim: ter entre aurora / E meio-dia um homem e sua hora."

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