O que ando a ler
Há muito tempo que não lia um livro tão triste, digo eu. Triste e ao mesmo tempo muito belo. Esteve, de resto, na long list do Booker Prize deste ano, mas não passou à short list – e tenho pena, porque adorei este Lila (que é o nome da protagonista), da norte-americana Marylinne Robinson, nascida em 1947 no Iadho, mas há muito a residir no Iowa, a cujos habitantes dedica, aliás, a obra (curioso, lembrou-me Carson McCullers). Lila é, aos quatro anos, arrancada de uma barraca imunda de migrantes esfomeados e levada por uma mulher – Doll – que não lhe é nada, mas decide salvá-la de um destino terrível. Juntam-se as duas a um grupo de trabalhadores nómadas pagos à tarefa, deambulando pela América, experimentando os terríveis tempos da Grande Depressão e o medo de Doll de que alguém venha cobrar-lhe o rapto da menina e fazer-lhes mal, razão por que anda sempre com uma faca – único objecto que lega a Lila quando, uma noite, desaparece. Lila não tem absolutamente mais ninguém no mundo e, por isso, dificilmente escapará a muitos anos de uma vida indigna de sacrifício e deambulação até ir dar a uma terra pequena onde o reverendo John Ames, viúvo e triste como ela, mudará a sua vida. Com diálogos incríveis, personagens densas e humanas, descrições da natureza de tirar o fôlego, citações da Bíblia que são um hino à literatura, um encadeamento perfeito de passado e presente, este romance incomoda-nos e toca-nos muito, magoa-nos e ao mesmo tempo alivia-nos, ensinando-nos que às vezes o amor dedicado a alguém desprotegido pode salvar a vida dessa pessoa, mas sobretudo a nossa. Uma excelente tradução de Maria do Carmo Figueira.
É a maldita ditadura dos prémios: se ganha, é fantástico. Se entra na "shortlist", deve ser bom. Se se fica pela "longlist", é mau com certeza. O caso de Lila (que ainda não li) faz-me lembrar uma experiência que tive em 1996, quando um editor me pediu que lesse um livro que era finalista no Booker Prize e ele queria editar SE O LIVRO GANHASSE O PRÉMIO. Não ganhou. Mas o livro era (é) fantástico! Chama-se "A Fine Balance" e o autor é Rohinton Mistry. Quem lê em inglês, pode ter o privilégio de o ler. Quem não lê... chapéu (slogan da campanha de lançamento da Colecção Unibolso - alguém se lembra?) Até porque saíram goradas as diversas tentativas, que desde então fiz, de convencer outros editores portugueses (também não conheço muitos, é verdade) a edita-lo. Quem diz este, diz muitos outros. "É o mercado", já sei!
ResponderEliminarAndo a Ler_38
ResponderEliminarAqui atrasado vi na TV um documentário sobre um jovem músico inglês, cego de nascença e autista, mas que é um pianista magistral.
Isto fez-me recordar que, aí por 1973/74, vivia eu ainda no Porto, na casa onde estive refugiado li (e fascinei-me com) “O Músico Cego”, de Vladimiro Korolenko .
De modo que, perante estes factos, tratei de fazer duas pesquisas: uma para recuperar e reler o livro, outra para saber mais sobre o pianista inglês.
Este é Derek Paravicini , actualmente com uns trinta anos de idade, e que não precisou que lhe ensinassem a tocar piano, aprendeu sozinho logo a partir dos dois anos.
Consegui localizar o tal documentário, que é da série Channel 5's Extraordinary People ”, e que podem encontrar aqui:
https:/ www.youtube.com /watch?v=fibZudrZUto
Tem a duração de cerca de 50 minutos, mas vale-os bem.
Ainda assim, recomendo que, antes de o ver, leiam o livro – que, entretanto, recuperei.
Foi escrito em 1886 por Vladimiro Korolenko (1853-1921), e o exemplar que me coube é um Livro de Bolso da Europa América (ed. 1973).
O protagonista é Pedro, também ele cego de nascença (embora não autista), e que desde muito cedo desenvolveu a capacidade para a música.
Tanto Pedro (na ficção) como Derek (na realidade) viveram desalentos e tormentos com a sua (in)capacidade, mas ambos a superaram e a transformaram, à medida que foram compreendendo que a música, sendo uma arte, é por isso mesmo uma forma de entender a realidade, de a descrever, de se envolver com ela.
Não fora o autismo e quase se poderia dizer que Derek é a incarnação de Pedro.
Disse o também cego J.L.Borges : «Para a tarefa de um artista, a cegueira não é necessariamente uma limitação. Ela pode ser um instrumento».Derek e Pedro confirmam-no, pois que acabam por transformar a sua limitação natural num instrumento de realização artística, e como tal numa vantagem para se relacionarem com as outras pessoas e com o mundo real.
Vale a pena ler o livro e depois ver o documentário, para se compreender que os limites podem sempre ser superados.
Se bem me lembro o excelente "O MÚSICO CEGO" seria o nº. 1 dessa excelente colecção de livros de bolso da Europa América. Está na lista dos melhores livros que li até hoje.
EliminarOra deixa cá ver, Severino...
EliminarOnde diabo deixei eu o livro? Ah!, cá está ele. Ora deixa cá ver...
hum... hum...
Ná! É o nº 2, pá.
O nº 1 foi o “Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes, e anuncia aqui o que viria a ser o nº 3 – “Frei Luís de Sousa” de Garrett.
Mas pronto, isto é um pormenor.
Já que leste o livro, trata agora de ver o documentário sobre o outro músico cego, que é muito interessante.
Acabei o 3º volume d' 'A amiga genial' da Elena Ferrante, 'História de quem vai e quem fica', que mantém a fasquia altíssima, tudo é tão tão sólido, da escrita às personagens. Atrevo-me a dizer que este quarteto vai ser das obras fundamentais deste princípio de século, mesmo sem ainda ter lido o 4º volume. Espero que a sua saída em português não demore muito.
ResponderEliminarDepois da apresentação feita pela MRP, a "Lila" deve ser sublime ! Fica debaixo de olho (a ler, como primeiro contacto, a página 99 numa livraria).
ResponderEliminarAcabei de ler duas belíssimas e curtas biografias de Séneca e de Cícero, publicadas pela Inquérito e da autoria de grandes especialistas portugueses: Maria Cristina Pimentel e de João Daniel Lourenço, respetivamente.
Tinha lido parte das "Cartas a Lucílio" e um excelente romance de Robert Harris, "Lustrum" que tem Cícero como protagonista. Isto somado a um fim de semana Ryanair em Roma, aguçou-me a vontade de me aproximar destes fascinantes gigantes romanos.
Quatro Rios e um Destino, de Fernando Sousa: para partir pedra, rachar cacholas - a ver quantos aguentam com as memórias do autor na Guiné, durante a guerra colonial - vá, experimentem, depois não digam que não vos avisei...
ResponderEliminarEstou a ler dois livros, "Intervenção Sonâmbula" de José Gomes Ferreira (muito bom, escrito no Verão Quente, quase como diário) e "Flores ao Telefone" de Maria Judite de Carvalho (contos de 1968, cheios de pessoas...).
ResponderEliminarQuanto a mim, terminei a leitura da revista Ler deste Outono, depois a revista Granta 6, tudo em simultâneo com a descoberta do "O Segundo Sexo" de Simone de Beauvoir ...
ResponderEliminarAnónimo, não senhora, Ana Ribeiro.
EliminarEstou a ler " A lógica do cisne negro " nassim nicholas taleb a editora BestSeller.
ResponderEliminarMuito bom Cláudia!
EliminarOs acontecimentos improváveis que passam a acontecimentos reais...
"A TERRA DO PECADO" o livro da juventude de José Saramago.
ResponderEliminar"A TERRA DO PECADO" o livro da juventude de José Saramago.
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