Levar à letra

Por vezes afligem-me algumas pessoas que têm pouca elasticidade mental, não entendem uma metáfora ou um eufemismo e levam tudo à letra. Mas nem sempre a atitude de ser literal é defeito ou falta de inteligência – e a verdade é que se pode inclusivamente construir um objecto artístico bem interessante levando as palavras à letra. Que o diga, por exemplo, um criativo fotógrafo francês chamado Janol Apin, que resolveu pegar no nome de certas estações de metropolitano de Paris para compor imagens hilariantes, tentando fazer com que o cenário das fotografias correspondesse literalmente às palavras. Para achar graça, é necessário saber um pouco de francês, mas estou convencida de que os leitores deste blogue não encontrarão, à partida, grandes dificuldades. Em todo o caso, porque não posso aqui colocar todas as fotografias, adianto duas ou três composições: na estação Gare du Nord está na plataforma um pinguim e um esquimó; na de Porte Maillot, Apin ateve-se ao verbo porter (trazer, usar) e fotografou alguns jovens em maillot; e, na estação Rome, um centurião de coroa de louros olha o comboio que está a chegar. Abaixo, estão outras destas formas adoráveis de levar tudo à letra. Divirtam-se.


JanolApin-MaisonBlanche.jpg


Janol-Apin-Photograpy-Paris-Metro-Duroc.jpg


59c352fc5a11940d83614d69a0f198db.jpgJanol-Apin-Photograpy-Paris-Metro-Invalides.jpg


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Comentários

  1. Pois é ...
    O humor tanto funciona pela via do literalmente, como pelo lado do burlesco...

    Pessoalmente divirto-me com o humor do literal, imaginem que o Senhor D. Duarte Pio não anda na autoestrada porque à entrada desta está um placard que diz: Retire o título!

    Aqui em África, rir é uma qualidade inestimável e o sentido de humor e a argúcia desta rapaziada são do mais certeiro... eu divirto-me com isso, e de que maneira. Faço um ar sério e mando ao guarda que feche o portão do quintal para não entrar mosquito! Ele fica primeiro muito sério a olhar, na dúvida... depois percebe e ri como uma criança, batendo palmas e tudo!
    Já me sucedeu ir a uma loja em Cabinda comprar 30 pares de galochas para o pessoal, ali chamadas de "bota-mata-cobra". Depois de preparada a encomenda, com o meu ar mais sério, perguntei ao empregado se tinha cobra! Ele espantado, que não! E eu em tom zangado, então levo bota-mata-cobra e não tem a cobra? Come é? Silêncio na loja, tudo a olhar expectante... o empregado foi chamar o patrão, quando este ouviu largou a rir, e a loja inteira explodiu também numa gargalhada geral, tudo a fazer troça do pobre funcionário, que já ria também e me apertava a mão aliviado, já a achar muito engraçada a idéia ... o que é certo é que fiquei conhecido no estabelecimento e até na rua...

    Enfim, haja humor que nos ajuda a passar as agruras e as dificuldades da vida. O humor na arte é também algo de sublime e há artistas do humor e outros com humor, graças a Deus!

    Saudações humoradas cá da Cidade Morena e risonha.

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  2. A exploração artística da realidade também nos pode deixar a sorrir.

    E acho que há aqui também alguma ironia do autor, pela mensagem ser tão objectiva. :)

    Fiquei logo a pensar na "arte" que se poderia fazer a partir do nome das nossas Cidades, Vilas e Aldeias...

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    1. Ahahah!

      É bem verdade e seria extraordinário Luis Eme... era um trabalho interessante um fotógrafo dotado desse humor ir por aí fora tirando fotos às placas toponímicas e fazendo a devida correspondência a algo... e se calhar até estamos a pensar nas mesmas, ahahah!

      Saudações humoradas aqui de uma terra onde há nomes como Chinjenje, Chongorói, Caimbambo, Balombo, Bocoio mas também Praia da Lua, Baía dos Elefantes, Serra da Neve, Baía Azul ... Baía Farta...

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  3. Um dia, no tempo em que os animais falavam, eu e uma amiga entrámos numa loja que vendia tabaco e digo eu:
    - Quero um Português Suave!
    No mesmo instante, olhámos uma para a outra e desatámos a rir que nem duas tolas... perante a perplexidade da empregada que lá me vendeu o tabaco.

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    1. Desconheço a qualidade do tabaco, mas o nome é airoso.

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    2. Eu devia ter, pelo menos, experimentado fumar. Não faço ideia o que se sente, ou o que seja a suavidade tabágica:). Obrigada.

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  4. É interessante isto de o fotógrafo arranjar maneira de as imagens corresponderem literalmente às palavras.
    Mas também é interessante – porventura mais... – quando uma pequena frase se transforma numa imagem que decifra o conteúdo de uma palavra.
    A brasileira Adriana Falcão é perita nessa arte.
    Vejamos alguns exemplos tirados de um dos seus dicionários:

    Autocrítica – Quando se tira a vaidade do caminho para se enxergar melhor por dentro.
    Cabisbaixo – Quando o chão é a única coisa que não incomoda a pessoa.
    Calendário – Onde moram os dias.
    Educação – Português, matemática, ciências, geografia, história e, principalmente, gentileza.
    Grade – Que serve para prender todo mundo, uns dentro, outros fora.
    Ignorância – A sala de espera do conhecimento.
    Juventude – os primeiros capítulos da pessoa.
    Mania – Atitude que pensa que é eco.
    Página – Cada uma das pétalas de um livro.
    Razão – quando o juízo aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato
    Silêncio – Quando os ruídos estão sem assunto.
    Universo – Um só verso que contém toda a poesia deste mundo.
    Virgula – A respiração da ideia.

    O facto é que as palavras estão antes das coisas, o “verbo” está antes de tudo.
    É isso que Adriana Falcão nos mostra aqui:
    “Verbo – A primeira coisa que Deus fez, e em seguida, como para cada palavra tinha que ter uma coisa, Ele teve que fazer uma porção de coisas, para ficar uma coisa para cada palavra.”

    Ora bem: Levado à letra, isto é dos livros.

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    1. Tão poético o que ela escreve! E também razoável.

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  5. obrigado pela dica, preciosa! o humor louco e elegante das fotos de Janol Apin é genial!

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