Interpretar

A tradução é um trabalho profundamente exigente: é preciso conhecer bem a língua de partida e escrever maravilhosamente na língua de chegada; é preciso ter senso comum, cultura e, quantas vezes, imaginação e elasticidade mental para resolver questões que quem não se quer dar ao trabalho normalmente remedeia com chatíssimas notas de rodapé. Conheço vários bons tradutores que admiro, com intuição para a tarefa, com um sentido apurado para o que fica bem no idioma para que traduzem, com respeito pelo autor e pelo leitor. Nunca lhes chegaria aos calcanhares se tentasse fazer o mesmo, estou certa; mesmo assim, acho que me sentiria muito mais à vontade diante de um livro e alguns dicionários do que numa daquelas cabinas de intérpretes que se dedicam à tradução simultânea em encontros e congressos, sobretudo quando aparecem situações de quase impossível solução. Contaram-me que, um dia, Cesária Évora foi ao Japão e, numa entrevista, tinha, claro, uma intérprete à disposição. Quando, porém, o jornalista perguntou à cantora como ia a sua carreira, ela respondeu, bem ao seu jeito, «que se ia desenrascando». Ficou então estarrecida a pobre intérprete japonesa, que, acto contínuo, lhe perguntou como é que podia traduzir aquele verbo. Mas Cesária respondeu, lacónica: «Olhe, desenrasque-se.»

Comentários

  1. Fez-me este texto lembrar os meus (cada vez mais longínquos) tempos de tradutor.

    Existem histórias engraçadas, como aquela (não se sabe se mito ou facto) que aborda o caso de um autor que sendo apreciado pela crítica mas apenas medíocre nas vendas, vê de repente o seu livro ser transformado num fenómeno comercial num obscuro país de leste. Ao abordar o editor nesse sentido, responde-lhe este zombeteiro: «olha, talvez o tradutor desse país escreva melhor do que tu».

    Partilho a opinião da MRP, ser (bom) tradutor é um grande desafio (sobretudo na área literária), mas as coisas que se encontram, até mesmo nos clássicos, fazem duvidar bastante dos critérios de selecção. Até parece que se entregam as coisas ao amigo ou ao amigo do amigo. :)

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  2. Tantas são as vezes que, perante certa literatura traduzida, dou por mim a torcer o nariz. Como raramente tenho acesso ao livro na língua original, resta-me a desconfiança de que o tradutor trocou os pés pelas mãos. Sendo pouco fiável, um pouco intuitivo até, ocorre-me, não tenho como evitá-lo. Vem isto a propósito de dois livros que li recentemente, ambos de autores americanos: um do Hemingway -que prefiro não nomear-, e “A Lição de Anatomia”, do P. Roth. Se no primeiro, página sim, página não, e mesmo sem conhecer o texto em inglês, engasgava a leitura numa ou noutra opção do tradutor, o livro do Roth, traduzido pelo Francisco Agarez, foi lido como se do original se tratasse. Ora isso, reconheçamos, está ao alcance de poucos. Agarez traduz como um autor maior; reescreve e reinventa e nunca expulsa o autor da sala.

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    1. Interessante, João. Não conhecendo os originais, tive recentemente a mesma sensação com dois livros do Hemingway: "Na Outra Margem, Entre as Árvores" e "Ilhas na Corrente". Acho que o tradutor apanhou o Autor distraído e fez das suas. :) Abraço

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    2. Sou um "fanático" do Roth e efectivamente é como se lesse os originais.

      Atrevo-me a fazer esta afirmação mesmo sem conhecer os originais nem os ter lido na língua mãe, mas é a sensação que tenho quando leio qualquer livro do Roth -achei "A PASTORAL AMERICANA", simplesmente um monumento-.

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    3. Extraordinário João PCoelho, inteiramente de acordo quanto à opinião expressa sobre o Extraordinário F. Agarez! As suas traduções honram qualquer autor que se preze, sem dúvida e como muito justamente refere a Nossa Extraordinária Anfitriã, o tradutor é uma mais-valia!

      Hemingway mal-traduzido... isso cheira-me ao "Verdade ao amanhecer"... aceito e entendo que para um leigo em assuntos cinegéticos e similares haja termos, frases ou passagens difíceis de traduzir, mas um pouco de trabalho de sapa permite interpretar e portanto transmitir ao leitor cabalmente o que o autor tinha em mente.

      Saudações cá da Cidade Morena

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    4. Ilhas na corrente é talvez o livro de HH de que mais gosto! Tenho uma edição que julgo ter sido recente em relação à publicação do original, e se bem me recordo brasileira... não me recordo o nome da colecção e nem da editora. E tendo-o lido já uma quantidade de vezes, creio que se trata de um trabalho limpo...

      Uma vez num Campeonato do Mundo, os americanos arranjaram um intérprete português, que era uma moça venezuelana (de Miami) e que me dizia descoroçoada que não percebia nada do que nós portugueses dizíamos... desvendei o mistério, ela aprendera português em Miami com um professor brasileiro... tive alguma dificuldade em lhe explicar que sendo embora a mesma língua nem os brasileiros nos entendem e nem fazem por isso, aliás... o contrário sim, mas talvez porque sendo nós falantes da língua-mãe entendemos todas as suas variantes (ou filhas), seja o angolano, moçambicano, açoriano... etc.

      Um abraço linguista cá da Cidade Morena

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  3. Concordo. E parabéns aos bons tradutores, fazem um trabalho importante e decerto com interesse. Comprei Les Fleurs du Mal tão mal traduzido que até eu arrisquei traduzir os versos e me pareceram assim mais fiéis ao original:) Maria Gabriela Llansol não me parece boa tradutora e não repito obra que traduza. E já ouvi opinião semelhante de pessoa entendida.

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  4. Os tradutores Guerra são a nata da nata.

    Escrevem tremendamente bem.

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    1. "As in" Nina e Filipe Guerra.
      Os tradutores habituais dos escritores russos.

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    2. Ah, tinha ficado com essa dúvida. Sim, concordo. Obrigado pela resposta.

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  5. Há muitas tradutores mas poucos são bons.
    O mesmo digo dos revisores.

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    1. Revisores - o meu caro amigo Luís Amaro é muito bom.

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  6. Cláudia da Silva Tomazi10 de novembro de 2015 às 08:59

    Ressalva: O título original "Islands in the Stream" de Ernest Hemingway aqui no Brasil traduzido segundo Milton Persson "As ilhas da Corrente" publicação Abril Cultural.

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  7. Ahahahahah o que me ri com este desenrasque-se! Muito bom!

    Eu costumo dizer que, embora respeite e aprecie muito os tradutores, um tradutor pode estragar um livro. Já li livros que tantas eram as notas de rodapé sem relevância para a história que eu já estava a dar em louca. O tradutor decidiu, além de traduzir, acrescentar explicações que nada tinham a ver com o que estava escrito, era apenas "mostrar" que percebia do assunto e punha os seus conhecimentos acima da história que estava a ser contada!

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  8. Pode ter piada, o "desenrasque-se" para não explicar o que significava "desenrascanço". Mas, não conhecendo a Cesária Évora, diria que a saída tem o seu quê de soberba.

    É bastante fácil arranjar uma explicação para a palavra "desenrascanço" por mais limitada que a Cesária pudesse ter sido de vocabulário (não sei). E não facilitou nada o trabalho de uma pessoa que estava aflita e que se calhar não tinha as artes dela para se desenrascar.

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    1. Inteiramente de acordo. E já pensava que ninguém ia pôr o dedo na ferida, denunciando a soberba.
      JCC

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  9. Estou admirado por ninguém ter vindo aqui aos comentários com a velha fórmula traduttore , traditore ” – tradutor, traidor.
    O facto é que cada língua, cada cultura, tem as suas limitações relativamente aos outros contextos linguístico-culturais , e isso muitas vezes torna complicado o trabalho dos tradutores.
    Traduzir é, regra geral, por tal razão um trabalho necessariamente redutivo, pelo que tem de (deve) ser acompanhado por um esforço de recriação – o tal “interpretar” a que se refere Maria do Rosário.
    Quando esse esforço resulta bem, nós, os leitores, regra geral nem damos por ele. Mas quando damos, ficamos duplamente satisfeitos.

    [Já por várias vezes dei comigo a imaginar escrever um livro sobre um escritor que domina bem duas línguas (p.ex. alemão e português) e julga dominar também as respectivas culturas. Ele escreve um livro em alemão e também a sua versão em português. Depois entrega a versão em alemão a um tradutor português, e a versão em português a um alemão, para as converterem.
    Quando as duas versões em português são editadas, gera-se uma guerra civil em Portugal, os partidários de uma versão contra os da outra.
    Ao mesmo tempo, e por idêntica razão, na Alemanha gera-se um elevado debate intelectual sobre as tão relevantes diferenças culturais que ainda persistem em plena União Europeia…
    …ou vice-versa, debate cá, guerra lá, ainda estou por decidir…
    Para o que der e vier, ficam já aqui registados os direitos de autor.]

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