Equivalências
Mia Couto é um grande escritor de língua portuguesa – e um escritor amplamente reconhecido lá fora, vencedor e finalista de prémios muito importantes (como o Man Booker International, por exemplo). Sempre me perguntei, porém, como seriam as traduções dos seus livros, uma vez que o prodigioso Mia é também um inventor da língua, de termos que poderíamos adoptar assim que os lêssemos na sua obra, como – só para dar um exemplo – «esparramorto» (nunca mais me esqueci desta palavra depois de a ter saboreado em A Varanda do Frangipani). Talvez os seus tradutores saibam mesmo muito português, conheçam a palavra «esparramado» («morto» hão-de conhecer), consigam encontrar uma equivalência qualquer que não perca a graça; mas o resultado não será, decerto, tão gostoso e imediatamente compreensível noutro idioma, mesmo românico. Agora, o escritor moçambicano está a escrever uma trilogia dedicada a Gungunhana – A Mulher de Cinzas já foi, aliás, publicado – e, tanto quanto me foi dado saber por uma entrevista recente, deixou-se das suas palavrinhas mágicas para se centrar noutras coisas. Mesmo assim, não resistiu a dizer que o que fazia ao escrever era «brincriar»... Mais uma para a colecção.
Playcreate...? Coitados dos tradutores, indeed!
ResponderEliminarPalavras para quê, é um excelentíssimo criador da língua portuguesa.
ResponderEliminarE ainda bem que não fica preso aos dicionários e gramáticas. :)
Gosto de ler Mia Couto como Pepetela (sou grande e assumido fã deste Mestre da escrita africana lusa), entre outras e variadas razões exactamente pela forma como usam a sua criatividade linguística ao criarem termos ou usando apenas os termos correntes entre os africanos que falam português e dele fazem uma língua viva e vivaça!
ResponderEliminarEstou actualmente a ler um autor que me foi aqui recomendado e a gostar muito, Ondjaki - "Os transparentes". Aliás vou até levar pelo menos dois exemplares para ofertar no Natal.
A forma como ele reproduz e usa o falar das pessoas é para mim um factor de enriquecimento e extremamente apelativo: gosto!
Saudações linguísticas cá da Cidade Morena
.
Já encomendei:). Mas, por ora, sei-lhe o título. Acredito, porém, que a alma de poeta de Mia Couto, com ou sem vocábulos inventados - sempre extraordinariamente próprios -, ressalte. Julgo não ser possível elidi-la.
ResponderEliminarDuvido que noutra língua se consiga tal identidade vocabular. Quem sabe...
Mia Couto é um bem para quem o lê. Muito se perde se a tradução não for fiel à origem das palavras para nelas encontrar similitudes e outros vagares de comparação. Cujos até podem não ser possíveis.
Vou ser "literariamente" incorrecto e dizer que Mia Couto é... uma seca. Muito difícil de ler mais de uma dezena de páginas dele.
ResponderEliminarBrincadeiras com as palavras, gosto delas na medida certa e quando são necessárias. Não por dá cá aquela palha, só para mostrar. Muito melhor do que ele, e bem mais adulto, temos o Pepetela. E, por cá, o Rui Vieira e o Luís Caminha, por exemplo, que brincam com a língua sem serem parvos e que também são intraduzíveis: mas, claro, são portugueses; e, talvez por isso, não valem nada.
Uma coisa é o nosso gosto pessoal; outra, o valor do escritor como produtor de algo novo e, neste caso, de rara beleza. O primeiro é livre de achamentos e gostos. O segundo, nem tanto.
EliminarPor vezes, ouvimos pessoas que, pelo domínio aprofundado da língua, leram Shakespeare ou Tolstoi na língua original. Ou pessoas que lamentam não o poder fazer. Menos frequente (infelizmente) é ouvir pessoas a regozijarem-se por poderem ler Mia Couto, ou Agualusa, ou Saramago no original. E devíamos.
ResponderEliminarObrigado, uma vez mais, pelas suas Horas Extraordinárias.