Da estante

Mergulho num velho livro com a capa a desfazer-se, um desses romances publicados há muito tempo que, por qualquer razão, toda a gente leu na juventude e, no entanto, me passou ao lado. Não se riam: trata-se de Olhai os Lírios do Campo, do brasileiro Erico Veríssimo, tanto quanto sei um dos autores preferidos da escritora Alice Vieira. Se calhar, devia mesmo tê-lo lido mais cedo, porque, não sei se é do papel amarelecido, se da impressão feita ainda a partir de caracteres de chumbo, o livro me está a parecer coisa um pouco antiga, um pouco datada. Conta a história de Eugénio, um rapaz pobre com vergonha dos pais e da sua condição, que com esforço consegue tornar-se médico; mas, atraído desde menino pela vida desafogada dos ricos, troca uma colega muito querida por uma rapariga de famílias finas, dada à psicanálise e saída da casca, com quem será, de resto, muito pouco feliz e que o fará sentir-se permanentemente humilhado. E, lamentavelmente, não poderá voltar à sua vida com a compreensiva e engraçada Olívia (esta, sim, uma personagem interessante) pois, quando o livro começa, está Olívia a morrer num hospital onde pede que chamem o seu Genoca, que – é mais do que provável – não chegará a tempo. Não querendo contar muito mais, para não estragar o prazer a quem se atreva a este clássico, tenho a sensação de que Eugénio ainda vai aprender a gostar de si mesmo olhando os lírios do campo. Estou a cem páginas do fim e já se fala de Hitler e de judeus, pelo que é de esperar que, diante do Holocausto, possa o homem relativizar a sua própria tragédia. Talvez então o romance me consiga agarrar.

Comentários

  1. Não sei porque (as associações que o nosso pensamento faz são por vezes insondáveis) o seu texto fez-me lembrar do Stoner. Já leu? Ando com vontade de ler este novo que agora lançaram do mesmo autor, mas dizem-me que não se lhe iguala... Um bom dia para todos os extraordinários. Tenho andado fugida, mas sempre atenta.

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    1. Bem lembrada, essa analogia com o Stoner. O outro é Butcher's Crossing - cito o nome de cor - que começa muito bem com descrição da chegada da diligência à tal Crossing, no meio de solavancos e relinchar de cavalos. Atraiu-me.

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  2. Claudia da Silva Tomazi13 de novembro de 2015 às 03:29

    Nem menor querida Rosário a ombrear o romance (por sua vez) Honore de Balzac em Verde Vale qualquer um ou todos nós a literatura amantes ou nem às letras ía-mos detetar semelhanças a notável escrita.

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  3. Só o nome "olhai os lírios do campo", poesia aparte, me sugere a sabedoria que a frase contém, como se uma fábula de Esopo.

    E o livro exprime bem essa sabedoria, que o autor usa magistralmente no seu celebrado romance, ou não fora considerado e muito justamente um clássico!

    Da trilogia "O tempo e o vento" "Arquipélago" é outro grande livro e posteriormente "Um certo capitão Rodrigo" com uma das personagens ali criada... e fica ainda a Ana Terra! Erico V. é um escritor universal, e diria que Jorge Amado ou José-Mauro de Vasconcelos são dessa escola aliás como o nosso Ferreira de Castro.
    Eu gosto de toda a literatura Sul-americana (como de muita da Norte-Americana) justamente por causa dos personagens e da sua força que nos marcam para sempre!
    Vejo o Capitão Rodrigo em cada bar, taberna, café, boteco ou coisa do género! Está lá sempre um Capitão Rodrigo: Meu nome é Rodrigo e me esbalho, nos grandes dou de corte e nos pequenos dou de talho (ou coisa parecida que estou a citar de memória).

    Sobre estas alegorias ou fábulas sociais, lembro o clássico de Georges Onhet "O grande industrial", por exemplo, que não é muito conhecido... mas merece ser referido, e temos desde Dorian Grey a Bel-Ami... creio que terá havido uma certa escola desse tipo de romance?

    Vai interessante a conversa e espero não estar a falar sozinho, mesmo dizendo tolices!

    Saudações cá da Cidade Morena

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    1. A falar sozinho não está, com certeza. O título sugere-lhe uma fábula de Esopo, é bem visto. Não estou certo, mas julgo que se terá inspirado no Sermão da Montanha, palavras de Jesus Cristo reproduzidas nos evangelhos:
      «Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.»

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    2. Sozinho ou não, falou - escreveu - muito bem:)) Eu agradeço. É um prazer amiudar opinativos estilosos

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  4. Também tenho esse sentimento perante certos livros que não li, quer os de juventude, quer os de maturidade. Tento apaziguar-me dizendo-me que ainda vou a tempo. Infelizmente não vou. Assim, há uns anos li o D. Quixote e há tempos Os Miseráveis. Lá mais no fundo aguardam (sepultados?) alguns romances de Walter Scott e As Minas de Salomão.
    Bom fds com muitas leituras para todos os Extraordinários.

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    1. E faz muito bem, se me permite a intromissão!

      Já agora permita-me ainda acrescentar, para esclarecimento de quem não saiba (não creio ser o seu caso!) que o escritor Rider Haggard foi um símbolo da Inglaterra Vitoriana que inspirou umas quantas gerações de jovens ingleses!
      Cito Graham Greene quem disse que África será sempre a Vitoriana, a das explorações e da aventura e o continente que tem a forma de um coração!
      Haggard escreveu As minas do rei Salomão (soberbamente traduzido por Eça) e a sequela que pouca gente conhece, e, ainda mais um par de romances fantásticos de aventuras que me encantaram na juventude - tive a sorte de meu avô ter sido um seu leitor também e os livros existiam lá em casa.
      Também Edgar Rice Burroughs que alguns desprezam mas foi outro criador fantástico!

      Desejo-lhe que possa apreciar Haggard!

      Saudações africanas de um africanista do Bairro Ribatejano, cá da Cidade Morena!

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  5. Li-o na adolescência, e apesar do Érico Veríssimo me ter conquistado com outros livros dele, o "Olhai os lírios do campo", não foi livro que tivesse achado grande piada. Mesmo aos 16. :)

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  6. Nunca li mas parece-me livro da estante da minha Avó. Ainda vou ver...

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  7. Como eu amei a Olívia na minha adolescência dos anos 70 ! (e a Sónia do "Crime e Castigo").

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  8. Li o livro há bastantes anos e se a Rosário não fizesse um resumo, já nem me lembrava das personagens e da história.

    Mas gostei de o ler na época.

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  9. Pois é, os gostos são eles. E relativos. Gostei bastante desse livro que recebi na na verdura dos dezoito anos, em data memorável. Teria que o reler para saber se ainda causa efeito. Mas já foi bom termo-nos conhecido e saber de um escritor brasileiro tão próximo do leitor. Gosto da forma de contar de Erico Veríssimo.

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    1. Também li este livro há muitos, muitos anos e ficou-me a ideia de que gostei.
      Tal como a Beatriz "teria de o reler para saber se ainda causa efeito". E é o que farei um destes dias pois, por coincidência, comprei uma reedição do livro há um par de meses.
      Bom fim de semana para todos!
      :-) Antonieta

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