Bio-romance

O narrador deste romance é um condenado à morte a quem é concedido um último desejo; e o que escolhe é contar uma história, mais precisamente a da vida do Língua, um escravo que falou aos sete meses de idade e teve direito a biografia encomendada pelo rei de Portugal. Dá-se então um verdadeiro milagre: não só a história parece não ter fim, porque a vida do Língua está recheada de episódios em que os detalhes são de extrema importância, como começa a juntar-se cada vez mais gente para a ouvir – são às centenas os que todos os dias chegam à falésia de armas e bagagens, filhos, mulas, araras e macaquinhos, dispostos a fazer do lugar a sua casa só para não perderem pitada do relato. E, enquanto o narrador vai ganhando anos no cadafalso parindo magia, é toda uma comunidade que se vai criando em torno da maravilha de contar histórias, passando a língua a ordenar o tempo em vez do relógio. Inspirado na vida de um homem, talvez o único que viveu o colonialismo, a abolição da escravatura, a guerra da independência, a independência, a ocupação, o capitalismo, o imperialismo e o comunismo, sucessivamente e num mesmo lugar, Biografia do Língua, de Mário Lúcio Sousa, galardoado com o Prémio Literário Miguel Torga, é uma homenagem às pequenas histórias que nos salvam da penosa realidade.


 


O Língua K (2).jpg


 

Comentários

  1. António Luiz Pacheco9 de novembro de 2015 às 01:49

    Manifesto-me um pouco confundido... o livro que refere é de publicação recente?

    É que me faz lembrar um que eu li... e agora de repente no meio de tanta linha, letra e página, de nomes e títulos, não consigo enquadrar se li algo de muito similar ou se terá sido este...

    De qualquer forma, se é o que eu li é excelente!
    Não sendo, afigura-se-me igualmente excelente!

    É Extraordinário!

    Saudações Extraordinárias cá da Cidade Morena!

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    Respostas
    1. É recente, sim. Mas duvido que seja parecido com alguma coisa, tão diferente é de tudo. Talvez a história do homem que atravessou tudo isso que eu digo no post lhe seja - essa, sim - familiar.

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    2. António Luiz Pacheco9 de novembro de 2015 às 05:47

      Sim... ao ler o seu post, tive um "déjà lu" !
      Sem de modo algum sugerir falta de originalidade ou plágio, eu já li algures um livro qualquer com uma história assim, de um escravo que contava uma história interminável indo ao fundo das suas memórias (e não era a Sherazade!)... não me consigo recordar quando, quem ou onde...

      De qualquer modo fica a anotação para comprar e ler este livro que se afigura interessantíssimo!

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  2. Parece interessante. E a ideia que une as histórias é engraçada e imaginativa. A lembrar Xerazade e sua magia contadora. Tem até o mesmo objectivo:))

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  3. ler isto enquanto ouvia o Mr. Bojangles da Nina Simone, veio-me à cabeça a eternidade da magia duma historia transformada em dança


    Peguei-lhe na mão
    e num segundo dançamos a vida inteira

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