A arca do tesouro

A correspondência (no sentido de troca de cartas entre pessoas) deixou simplesmente de existir; todos nós trocamos e-mails quando a coisa exige mais explicações e SMS terrivelmente curtas quando queremos dar apenas um recadinho. No entanto, a correspondência ajudou muito ao estudo dos hábitos desta ou daquela época e geografia; e, na Holanda, encontrou-se recentemente uma arca carregadinha de cartas (mais de 2500) que podem contribuir com dados muito interessantes para o estudo da vida no país durante o século XVII. Parece que as cartas, muitas das quais estavam seladas e nunca tinham sido abertas, foram arrecadadas por um chefe dos Correios; na altura, era costume pagar a franquia quem recebia a carta, e não quem a mandava; e havia, pois claro, quem não quisesse pagar, ou não quisesse receber a carta, como o homem que morria de medo de que ela lhe trouxesse a notícia de que estava para ser pai (e tinha razão). E, assim, durante séculos, toda a correspondência que não chegou ao destino ficou guardada na arca, até que nos nossos dias a arca foi descoberta... e aberta! Agora, os académicos de cinco universidades espalhadas pelo mundo estão a deliciar-se com a leitura de centenas de missivas de aristocratas, espiões, actores, músicos, editores, mercadores e até gente do campo praticamente analfabeta. Uma arca do tesouro, sem dúvida.

Comentários

  1. Entre tantas cartas, deverá haver de certeza muitas com interesse, em vários campos.

    A leitura de correspondências continua a ser um meio extremamente importante para compreender as épocas e as próprias pessoas.

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  2. Uma verdadeira cápsula do tempo.

    No nosso tempo os textos são mais efémeros. E quem sabe daqui a uns 200 anos alguém quererá ler o que escrevermos em formato pdf ou em disketes.
    Quem conseguirá ler?

    Espero que encontrem mais umas arcas do tesouro. Pessoa não terá outra?

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    1. Realmente neste tempo tudo é efémero, é que antes os dias tinham manhã tarde e noite e agora? os anos tinham 12 meses , e agora? os meses tinham 30 dias, e agora? as semanas tinham sete dias e agora -amanhã já é sexta-feira ...

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    2. Desculpe mas acho que esse tempo dos relógios e que inventámos, continua o mesmo. É inegável que somos efémeros, mas não abuse da efeméride:)

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  3. Fascinante é que deve ser, essa extraordinária possibilidade de ler cartas de outro século, ainda que de algum modo seja uma devassa... mas creio que os elevados fins a justificam.

    Aqui em Angola, a correspondência enviada pelo correio não deve ir fechada, para verificação segundo eles... mas creio que serão vestígios de um controle totalitarista que ainda impera e deixou marcas na sovietização de muitas atitudes. Ignoro de lerão as cartas ou o que verificam, mas sei que mexem porque já tenho usado esse meio para enviar ou receber papéis e nota-se que foi aberto e revolvido, por exemplo se houver publicações ou revistas, normalmente não chegam ao destinatário!

    Saudações devassadas cá da Cidade Morena

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  4. As verdadeiras cartas modernas são os posts que a Maria do Rosário Pedreira nos vai oferecendo, a que se juntam as cartas e cartinhas que são os nossos comentários.
    Há um cuidado literário nos posts da MRP como havia nas cuidadas cartas do antigamente. E são vários os que aqui publicitam textos de excelente estilo literário.
    Serão os blogs as arcas aonde virão as gerações futuras investigar algo do nosso particular modo de vida?

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    1. (o "anónimo" autor anterior)

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    2. Ó Artur desta é que nunca me tinha lembrado:

      Serão os blogs as arcas aonde virão as gerações futuras investigar algo do nosso particular modo de vida?

      Se calhar até tens razão e estás a ver mais além.

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  5. A pena que eu tenho que já não se escrevam cartas. Que eu sim, as escrevo. Mas é um bocadinho aborrecido ligarem-nos a responder. E vou escasseando. Que eu saiba, ninguém se queixou. Sinal de que não faziam falta. Nós mesmos não fazemos falta senão enquanto somos necessários. Infelizmente, está a tornar-se regra. Ou talvez tenha sido sempre assim. Talvez já faça parte do conteúdo da dita arca, um comentário semelhante ao nosso desmazelo com os outros. Que os homens pouco mudaram no seu íntimo.

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  6. Apenas um breve bilhete-postal para notar que, pelos vistos, os Correios lá na Holanda não tinham ainda adoptado o “Devolver ao Remetente” – procedimento que me fascina desde criança.

    Punha-me a imaginar o percurso da carta desde a estação de origem, o carteiro a levá-la da estação de destino, a bater à porta do destinatário, este a recusá-la, de volta à estação, depois o regresso à origem, o remetente a recusá-la, regresso à estação, de volta ao destino, o carteiro de novo a bater à porta, a carta de novo recusada, de novo remetida ao remetente, este agora destinatário... e assim sucessivamente, para todo o sempre.

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  7. E como tenho saudades do tempo em que se escreviam e enviavam cartas.

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