Zumbir

Esta é a história da Abelhinha, mas não se iludam, porque é tudo menos infantil. É um livro de que me falaram muito – e bem – há já uns anos e cuja leitura fui adiando porque aparecia sempre outra coisa mais urgente, mas agora consegui degustá-lo de uma assentada. Passa-se entre Londres e a Nigéria, e faz-me alguma espécie não ter sido mencionado nos recentes artigos sobre africanos que vêm escondidos nos porões dos cargueiros em busca de estabilidade na Europa, porque é disso mesmo que se trata e não pode estar mais na ordem do dia. Chama-se A Pequena Abelha e escreveu-o Chris Cleave, autor que nasceu nos Camarões. Está traduzido em tudo o que é sítio e fez parte das listas dos livros mais vendidos em países como o Reino Unido e os Estados Unidos no ano da sua publicação, recebendo elogios dos mais prestigiados jornais e revistas (incluindo o Guardian e o New York Times). E fala da história verdadeiramente trágica da Abelhinha, nome escolhido por uma rapariga nigeriana de catorze anos que foi testemunha da destruição da sua aldeia por causa do malfadado petróleo e, conseguindo embarcar clandestinamente rumo a Inglaterra, é internada num centro de detenção para refugiados e libertada dois anos depois em Londres – mas seria talvez mais correcto dizer «despejada por engano» numa das maiores cidades do mundo. Na contracapa do livro pedem aos leitores que não contem a história a ninguém, por isso não vou ser desmancha-prazeres. Direi apenas que tem momentos terríveis, dolorosos, bonitos, duros, também algo lamechas, e – além da Abelhinha – tem mais duas outras personagens de peso: uma jovem viúva inglesa e o seu filho de quatro anos, o fã número um do Batman, que protagonizam cenas impressionantes. E pronto: se estão interessados no assunto dos novos migrantes, aqui têm uma obra para perceberem melhor certas coisas. Além do que já sabem, bem entendido.

Comentários

  1. Quando ouvi um ex-Ministro dos Exteriores francês contar como tinha recusado uma proposta do colega inglês para atacar a Líbia pensei nos livros que se podiam escrever sobre as guerras que foram organizar ao Afeganistão, ao Iraque, à Líbia, à Síria. Assim, estou reduzido à invasão de que sou vítima todos os dias no meu entendimento e nos meus sentimentos com as imagens dos refugiados. Será que também dos livros?

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  2. Li-o há cerca de dois anos e gostei muito. Apenas o fim me desiludiu um pouco, não por ser descabido, mas por o autor ter alimentado muitas expectativas em vão. Mas isto é uma opinião pessoal, aliás, contestada na caixa de comentários do meu blogue, quando a publiquei.

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  3. António Luiz Pacheco12 de outubro de 2015 às 05:19

    Infelizmente o tema não é original, e digo infelizmente pois tanto quanto verifico enquanto leitor, ao logo do tempo tem havido outras abelhinhas a inspirar tantos autores, sinal de que se repete, e provávelmente vai manter-se.

    A inspiração funciona assim, creio eu, tem a ver com o momento e com os acontecimentos que a ela conduzem, o marketing editorial trata do resto e tantas vezes a indústria cinematográfica dá continuidade... as pessoas choram, comovem-se e emocionam-se em geral, até se revoltam.

    Os livros e bilhetes vendem às carradas, o merchandising funciona, lêem-se no conforto de sofás ou vêem-se com baldes de pipocas e coca-cola, e é a realidade: nada solucionam... as abelhinhas continuam as ser violentadas, os negócios do petróleo e das armas prosseguem, os ódios raciais e ideológico-religiosos continuam e até crescem... e quem lê e come pipocas fica revoltadíssimo durante uns tempos, e ate é capaz de ir para o facebook manifestar essa revolta e despejar ódio contra quem não partilhe tanta revolta. É assim...

    Sempre será assim. Ficam-nos de facto os belos momentos que os livros sobre este tema nos proporcionam, nos nossos sofás aconchegados e como o ribeiro manso de A. Gedeão: em sereno sobressalto!

    Saudações apícolas da Cidade Morena - já hoje de manhã tive de ouvir a Mariana ralhar comigo que fui enganado ao comprar 3 ananases por 500 quanzas (um estragado)... e ia na rua descompor a zungueira se eu não lhe explicasse que não fui enganado, já comprei milhões de ananases, mas achei que por 500 Akz não podia ser considerado mau-negócio mas sim ajuda a uma mulher com o filho às costas e uma bacia enorme cheia de ananases de qualidade duvidosa e heteróclita
    à cabeça... afinal o que são 500 Akz?
    O preço da minha consciência mais tranquila?
    Quanto é que serão 500 quanzas de karma?


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    1. Caro António, gostei tanto das suas palavras...

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