Surpresas

Todos sabemos que as redes sociais – sobretudo o Facebook, que é a mais frequentada (ou mal frequentada, sei lá; digo isto fazendo parte dela, evidentemente) – estão cheias de lixo que as pessoas partilham, crendo muitas vezes que estão a facultar aos «amigos» verdadeiras gemas ou pepitas. Porém, de vez em quando, também lá se encontram coisas mesmo boas, entre vídeos, fotografias e textos. Foi, de resto, do portal de um facebookiano amigo (já não me lembro qual, lamento) que rapinei uma carta que vos quero mostrar, um texto que, como agora se diz, se tornou viral e foi dos mais partilhados dos publicados no jornal El País do último mês. A carta foi escrita por um rapaz de dezassete anos que vai ter, pela primeira vez, a disciplina de Filosofia na escola e está obviamente entusiasmado com isso; mas, ao mesmo tempo, francamente desiludido com o facto de pertencer à última leva de estudantes que aprenderá filosofia no Secundário, pois parece que o Ministério da Educação em Espanha se encarregou de suprimir o estudo desta disciplina, reservando-o apenas a quem queira cursar Filosofia na universidade (os Governos autoritários não gostam que se ensine a pensar, já o sabemos). No entanto, em vez de me pôr aqui a descrever a carta, sugiro que consultem o link abaixo. Um rapaz de dezassete anos humanista já não é coisa que se encontre frequentemente e vale mesmo a pena ler o que escreve.


 


http://elpais.com/elpais/2015/09/17/opinion/1442504361_281943.html?id_externo_rsoc=TW_CM

Comentários

  1. Cláudia da Silva Tomazi14 de outubro de 2015 às 01:57

    Claro. Espanhóis dirvetem-se assimilando outro modo (aprendizagem) posto a Filosofia em arte pictórica.

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  2. António Luiz Pacheco14 de outubro de 2015 às 02:33

    Bom dia Extraordinários:

    - Com efeito no Facebook encontra-se de tudo, aliás como em toda a parte, é uma questão de uso e de selecionar ... no emprego, no café, na rua e até nas nossas queridas livrarias se encontra aquilo que nos interessa e o que não, logo é tratar o facebook como tratamos o resto.
    Quando era jovem, ia de propósito passar uma tarde ou manhã à Bertrand do Chiado a consultar e a ver revistas, que não tinha dinheiro para comprar... era assim uma espécie de facebook da época! Não há dúvida que a vida moderna facilitou e melhorou muita coisa!

    Quanto ao tema da carta do jovem ... pois é ainda o preço dessa modernidade, em que as humanidades vão sendo postas de parte, pois a prioridade são as técnicas e as financeiras... e lembro o post de há dias, onde se falou de ética, que faz parte da vertente humanidade e não é ensinada nas universidades - mas devia!

    Também concordo com a opinião de que a quem governa não interessa (e alguma vez na história ou em algum lugar, interessou?) que se pense!

    Quem manda é a economia (estúpido?) e todos nos lamentamos mas continuamos a manter assim as coisas. Deixamos, pois também nos afecta os bolsos ...

    Não me surpreende que se deixe de leccionar filosofia nas escolas secundárias... nada mesmo, e até me admira como ainda faz parte do programa!
    Filosofia e outras disciplinas, podemos imaginar quais... o que seria até um Extraordinário
    tema de discussão para aqui, onde de resto há tanta gente da área do ensino! E das humanidades acrescento.
    Humanidades que são cada vez mais um nicho em vez de serem um Universo, pois se cruzam com todas as disciplinas. Mas a economia prevalece, e muita gente desta área entende que não há nela lugar para humanidades, talvez porque informando e alertando sobre causas e efeitos, sejam entrave!

    Saudações filosóficas da Cidade Morena, aliás convidativa à filosofia!

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  3. Talvez o jovem preocupado, seja um professor de filosofia...

    Acho que eles estarão muito mais preocupados que os jovens adolescentes, com outras filosofias de vida...

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    1. É verdade que periga o emprego desses professores. É verdade que um deles pode ter escrito em nome de um garoto (ainda que um professor de filosofia seja em geral muito mais palavroso). Mas a grande questão aqui não são os professores que ficam sem emprego - o ministério arranja-lhes outra disciplina ou qualquer outra coisa para fazer. E mesmo que desempregados, afirmo, o problema mantém-se. Há que ensinar a pensar. A reflectir. Dar a ver a diferença entre aparência e real; entre o que é dado e o que lhe está por detrás. A liberdade, caro senhor, creio que começa aqui: no pensamento. Porque, ao contrário da canção, também ele tem de ser ensinado a ser livre (ou aprender a estar o mais perto possível dessa íntima coerência) E a filosofia pode ajudar a fazer isso (também depende dos professores, diria que, mais do que noutras disciplinas, o professor é fundamental).
      E perder essa visão mais desimpedida é que não. É por eles - os jovens em idade escolar e portanto universalmente considerados - que há que lutar. Até porque os docentes vêm por arrasto.

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    2. Esqueci um pormenor: os jovens não têm que estar preocupados. Nós, sociedade civil, é que temos de nos preocupar com eles - é nossa obrigação moral e cívica cuidar das gerações futuras - que são adolescentes e merecem um futuro mais humano.

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    3. "Talvez o jovem preocupado, seja um professor de filosofia..."

      Esse cinismo é bem desnecessário; porque não hão (alguns) adolescentes de estar preocupados com o desprezo da Filosofia na escola? Não têm todos de aderir ao estereótipo.

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  4. Na verdade a carta merece leitura. Muito obrigada. E, como diz, não apenas pela pertinência do conteúdo. Porque os jovens humanistas são cada vez mais difíceis de encontrar. Ou porque des-existem ou porque vivem penumbrosos. Que os tempos, que é como quem diz, o mundo e os outros em geral, se riem dos seus anseios se acaso os desenrolam à luz. Não acredito numa juventude maquinal. Não de raíz. Contudo, reconheço nela o poder da formação e também da deformação; e é nesse sentido que talvez consigamos essa maioria de eficazes desumanos.

    A verdade é que o mesmo já se tentou em Portugal. Banir filosofia, música, literatura, teatro... não é educar.

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    1. Gostei de ler, Beatriz. Parabéns pelos dois comentários.

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  5. Gostei muito de vos ler, a todos. Mas uma dúvida subsiste: conhecem os programas de Filosofia, sabem o que nas respectivas aulas se ensina e se aprende? Se sim, calo-me. Se falam dos vossos desejos, que tal cair na real?
    Mais: já fui tantas vezes ludibriado com testemunhos e cartas forjadas que por sistema duvido de todos e de todas que me não surjam com evidências credíveis.
    Abraço.
    JCC, cliente diário e assíduo do Facebook.

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    1. António Luiz Pacheco14 de outubro de 2015 às 08:24

      Hum ... por acaso não conheço o actual programa de filosofia, não ... conheci quele que me foi dado, ali por 1972 a 74 ...

      No sexto ano era uma introdução à psicologia ... gostei bastante. Tive uma excelente professora que se chamava Tereza (creio) Galvão Teles.
      No 7º ano dávamos uma iniciação à filosofia e estudavam-se os grandes filósofos e correntes... a professora era a drª Maria dos Reis, uma mulher seca, masculinizada e pouco agradável... não me cativaram por aí além as aulas, mas a matéria sim, até porque naquela idade e época filosofia era uma coisa quase do outro Mundo ...

      Os programas actuais desconheço... confesso, e em particular o de Espanha. Será essa a razão para a extinção da disciplina? Então mudem os programas, sei lá...
      Ali na Espanha, calhando os gajos do Livre serem governo, o programa se calhar passa a ser a filosofia vegan... unicamente claro, pois tem todas as respostas e será a única admissível!

      Abraço cá da Cidade Morena!

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    2. Amigo António Luiz Pacheco, fui professor do ensino secundário de 1976 a 2012, ano em que saí, com fortíssima penalização, por me não rever naquilo em que o ensino, minha paixão de 36 anos, se tinha tornado. Três anos após a saída, não posso ainda expor publicamente o que vivi, nem dizer o que sei, nem divulgar os escritos íntimos do período final. Fica o orgulho legítimo de ter cumprido o meu dever e a saudade dos alunos e da profissão.
      JCC

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    3. António Luiz Pacheco14 de outubro de 2015 às 14:55

      Como creio que sabe, fui professor do ensino secundário entre 1989 e 1994- com habilitação suficiente, do miniconcurso, no 11ºGrupo B - e concorri sobejamente para a degradação do ensino (era ao mesmo tempo aluno universitário e depois alguém sem emprego...) em Portugal!

      Um dia talvez conte, o que era aquele ensino ...
      Évora, Montemor, Santarém, Alcanena, Salvaterra... e quem éramos nós, os do Miniconcurso, sei onde andam alguns hoje e até bem alto! Estou como você... mas se não conto é porque não quero ou não acho que seja oportuno!

      Um abraço cúmplice cá da Cidade Morena!
      - PS - Já comeu as aves?

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    4. José, espero que te resolvas a escrever sobre os teus tempos de professor. Algo me diz que gostaria de ler.

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    5. O meu pai foi professor de Filosofia durante cerca de vinte anos. Licenciou-se com mais de 40, era professor primário e, depois, acumulou os dois tipos de ensino, porquanto o secundário era praticado num externato.

      Os programas de Filosofia dos 10º e 11º anos eram quase uma História de Filosofia: começava-se com os gregos, passava-se para a Idade Média (já não me lembro se havia alguma coisa da era romana), com a escolástica e a nova interpretação de Aristóteles, depois o Renascimento, o Iluminismo, por aí fora, referindo nomes que todos conhecemos, como Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche (agora não sei se Schopenhauer tem dois "p", logo eu, que vivo na Alemanha!). Conclusão: era interessante aprender o pensamento destas personalidades, mas não havia grande tempo para discutir as suas ideias, ou desenvolver filosofias próprias.
      Não sei se hoje é diferente, o meu pai reformou-se em fins dos anos 90.

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    6. ALP: as aves ainda estão congeladas. Cristina Torrão: como dizia o corregedor de Gil Vicente, Non est tempus. Quando saí, viam filmes. Pirateados. A disciplina não tinha exame final. Logo...
      JCC

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  6. É verdade que os governos autoritários não gostam que se pense.
    O problema é que os governos não autoritários, simplesmente, não pensam.
    Os governos não autoritários (que são uma ilusão) implementaram a ideia de que só o que dá dinheiro vale a pena.
    Se dermos uma olhadela às notas de entrada na faculdade, para os cursos ligados às humanidades, poderemos constatar como são baixas. Como dizia há uns anos a criadora do big brother "a ética não mata a fome"
    E assim, entre o ter e o ser, vamos continuando a escolher ser o que temos.

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