O que ando a ler
Há muitos anos, mesmo muitos (contá-los far-me-ia sentir velha e escuso-me a esse embaraço), li Os Passos Perdidos, de Alejo Carpentier, que ainda consigo recordar em que lugar da estante se encontrava na casa dos meus pais. Mas, estupidamente, tinha-me esquecido de como este cubano escreve primorosamente, de como cada frase sua, cada parágrafo – às vezes longo, saboroso – é um presente para qualquer leitor digno desse nome. E digo isto porque, à procura de um outro livro, os meus olhos pousaram por acaso em Concerto Barroco, de Carpentier; e, dispondo de um meio dia para leituras não profissionais, logo me apropriei da novela que, por razões que nem eu própria compreendo, nunca me tinha passado pelos olhos (na verdade, nem a tinha, ganhei-a com o casamento – e o dote que o Manel trouxe tem muitas prendas destas). Pois, se a encontrarem à venda (eu sei que não é fácil), não a percam: é daqueles pequenos livros enormes! E tem como protagonista um mexicano (o «índio») que, em viagem à Europa, mais concretamente a Veneza durante o Carnaval, se mascara de Montezuma, o derrotado imperador dos Aztecas, e passa uma noite inesquecível com Vivaldi, Scarlatti e Haendel, além de com o seu criado negro que é uma espécie de improvisador de jazz avant la lettre. Anacronismos à parte – ou não, porque eles são parte integrante do enredo –, esta é uma história de como o Novo Mundo nunca foi bem compreendido pelo Velho Continente e de como as revoluções – como a cubana – são fundamentais para que certas coisas possam mudar. Procurem este Concerto Barroco e deixem-se, por favor, desconcertar.
Obrigado pela sugestão ! Eu comprei o "Concerto Barroco" num saldo ou num alfarrabista há bastantes anos, talvez por um único euro e ainda não o li. Anda perdido por em zona desarrumada dos meus livros (todas a semanas me prometo que irei dedicar uma hora por dia a arrumar livros porque se me está a tornar irritante saber que tenho um exemplar que não consigo encontrar). Sei que o Carpentier é o precursor, com Rulfo, do boom de realismo mágico latino-americano e pouco mais. Será o pai ou avô dos "Cem Anos de Solidão".
ResponderEliminarAgora estou deliciado com o "Pantagruel" do Rabelais, autor que leio pela primeira vez (numa edição do já saudoso Vitor Silva Tavares; quem pode esquecer as histórias do Pacheco contadas pelo Tavares em programa que passou na TV2?). Que imaginação sem limites e que escrita tão ágil a do Rabelais ! Um meteoro de fora do seu tempo, mas pertencendo a todos os tempos. Acabado o “Pantagruel” seguirei para o "Gargântua", ou seja, farei o percurso ao contrário, começando pelas aventuras do filho para depois ler as do pai.
Vou andando "A Passo de Caranguejo" de Günter Grass. Nunca se chega ao fundo desta Alemanha sem fundo. Boas leituras.
ResponderEliminarA reler:
ResponderEliminarO Leopardo de Guiseppe Tomasi di Lampedusa
Um dos meus livros preferidos! (E o filme de Visconti é também magnífico.)
EliminarQuanto mais o leio, mais razões descubro para o tanto que gosto deste livro! (Do filme também.)
EliminarNão andei a ler.
ResponderEliminarFérias, viagens, inquietações, e tal... Tenho andado com pouca pachorra para livros.
De modo que apenas tenho andado no meu vagar a, bocadito aqui, bocadito ali, vaguear pela antologia “Crónica, Saudade da Literatura” de Manuel António Pina.
«Grande parte da vida que temos e das vidas que sonhámos é feita de livros. Se calhar feita até dos livros que não lemos», diz ele a desculpar-me.
E até me adverte que «um dos piores crimes praticados contra os livros é obrigarmo-nos a lê-los. Alguns dos mais notáveis iletrados saídos das Faculdades de Letras obtiveram os “bons com distinção” a devorar livros sem gostar de literatura nem de livros (imagino-os, pobres livros!, transidos e inseguros, desnudados sem pudor por mãos cobiçosas e incapazes de medo ou enternecimento diante do rumor das palavras).»
Sendo assim, fico mais descansado por não os ter lido, que os livros também precisam de descanso.
Estou quase a acabar "A Noite das Mulheres Cantoras", da Lidia Jorge.
ResponderEliminarEstou a demorar muito tempo a lê-lo, o que quer dizer que este livro não me tem despertado interesse.
Como gosto da Lídia Jorge e de grande parte dos seus livros até tenho pensado que o problema pode ser meu, falta de identificação com a forma como está escrito e pela acção, etc.
Na minha opinião, é um livro para mulheres, acho mesmo difícil um homem gostar dele. Embora não me tivesse deslumbrado, identifiquei-me bastante com o enredo, pois também pertenci a grupos de danças e cantorias, na juventude.
EliminarDepois de Rentes de Carvalho, ando às voltas com autores MRP: Dinis Machado, João Pinto Coelho, por aí ;)
Fiquei mais aliviado, Cristina. :)
EliminarAndo a ler A Caverna de José Saramago.
ResponderEliminarAndo fraquinho ... desforrei-me quando aí estive em Agosto, mas não tenho tido o que preciso para uma boa leitura, no entanto vou-me entretendo a alternar a leitura de um livro que classifico de fundamental para quem como eu se encontra em Angola: "A pilhagem de África" . Tom Burgis.
ResponderEliminarÉ muitíssimo bom, do melhor que já li, com veracidade e objectividade, verdadeiro jornalismo de investigação. Até arrepia ... e remete-me ainda e sempre para o livro que mais me impressionou nos últimos tempos "O último europeu" Miguel Real.
"Guerra e Paz - Portugal/Angola" de W.S. van der Waals, é outro grande e imperdível livro, objectivo e honesto sobre o conflito, numa visão desapaixonada!
Boas leituras e saudações cá da Cidade Morena
"MULHERES DA BEIRA" de ABEL BOTELHO - um livro de contos escrito entre 1885 e 1896, um pequeno livrinho da excelente Colecção Lusitânia, que terá certamente mais de setenta anos (foi-me emprestado por pessoa amiga que está em óptimas condições, ela e o livro).
ResponderEliminarLê-se bem mas evidentemente que estamos a falar de um livro escrito há mais de cem anos, num português avoengo, mas é curioso porque nos descreve muito bem as terras do Douro naquela altura.
Ao mesmo tempo vou lendo também um dos últimos números da GRANTA -e continuo sem perceber onde é que está a qualidade tão altamente apregoada (e aqui mesmo neste blogue vi as maiores referências, mas, sinceramente, continuo sem perceber nem vislumbrar a dita qualidade -para mim é uma treta, desculpem a expressão)
Tenho, e já li...
EliminarMuito interessante, nos finais do século XIX e até meados do século XX produziu-se muita coisa interessante sobre as nossas gentes e a nossa terra! Tenho bastante material desse, que era de meu avô e eu fui lendo, pois sempre me interessei muito pelos temas da antropologia cultural e da sociologia.
Foi feito um filme baseado nessa obra, sabias?
Do Abel Botelho também já tinha lido "O CONDE DE LAVOS" e agora este "MULHERES DA BEIRA", muito interessante, sobre um tema que me agrada -a nossa terra e as nossas gentes-
EliminarO conto, que está em filme (disponível na Internet), é dos mais interessantes do livro.
Qual foi o número que leu?
EliminarPorque diz que é mau? Pergunto por curiosidade; nunca li nenhum dos números.
Já li na íntegra os nºs. 1 e 2, ando a acabar o 3 (tenho-os todos) não digo que é mau nem bom, o que me admira foram os elogios que fizeram a esta publicação (nomeadamente aqui neste blogue), um exagero absoluto, e ainda por cima é mais caro que um bom livro de contos, sim porque a GRANTA não é uma revista é um livro de contos, mas isto é a minha opinião que, perante tantos elogios de tanta gente sabedora, a minha opinião (muito modesta) vale o que vale; para mim, em bom português é um barrete autêntico.
EliminarTenho O Leopardo, com encadernação em pele (não de leopardo) enjaulado na estante há anos. Sei que ao livro falta duas ou três páginas. Deve ser para o leitor preencher esse vazio com a sua imaginação.
ResponderEliminarAgora ando a ler/estudar Antero de Quental. Espero, no fim, não ter a tentação de me suicidar.
ABC
"A FORÇA DA VONTADE-como aumentar o seu autocontrolo".
ResponderEliminarFoi este o primeiro livro que li do princípio ao fim - MIGUEL VELOSO no seu facebook em 29.09.2015- alminha que ao fim de 29 anos de vida conseguiu ler um livro (palavras para quê? é um artista português).
A propósito de jogadores de futebol e os livros, atrevo-me a dizer que o analfabetismo que grassa por esta gente é arrasadora.
Só me lembro de ver com um livro na mão (literatura) um jogador do Rio Ave (o ano passado, não me lembro o nome).
Por acaso o FC Porto já teve um jogador a quem apelidavam, na Argentina, de 'o bibliotecário", pelo facto de ler nos estágios em vez de jogar playstation . Isso mostra a raridade da situação.
O Simões do Benfica dos anos 60 disse numa entrevista que o Germano (seu colega de equipa) andava sempre a ler e sempre com um livro na mão -outra raridade-. O Passos Coelho em vez de andar sempre com um livro anda com um terço, foi ele que o confessou, portanto...
Aliás, os futebolistas, neste aspecto, são o espelho da nação -sem tirar nem pôr-! E temos futuro - veja-se o terço do Passos Coelho-!
Seria muito interessante um artigo -OS LIVROS E OS FUTEBOLISTAS-
"O BIBLIOTECÁRIO" que cito é o DIEGO VALÉRI, jogador argentino que jogou no F.C.Porto em 2009/2010 (não me lembro dele).
EliminarO jogador talvez seja Tamagnini e o terço de Passos não é um terço, é um crucifixo que lhe deu uma velhinha num lar: valha-nos Deus, já que as sondagens não parecem ajudar (estará tudo doido?!..). Entretanto, o que ando a ler é Manon Lescaut do Abade Prévost (Livros RTP, n. 90), uma estranha história de amores galantes e desenganos vários, a milhas do nosso mundo.
EliminarTarantini!
EliminarCreio que não foi um nem outro, até me parece que o jogador em causa já não estará (nesta época) no Rio Ave (mas não tenho a certeza).
Eliminar'Volfrâmio' do Aquilino Ribeiro. Que grande desenterranço!
ResponderEliminarEssa do desenterranço tá muita boa!
Eliminar«Concerto Barroco» tem edição portuguesa, mais ou menos recente (2013), da Antígona.
ResponderEliminarA Rosário anda numa onda de literatura latino-americana: há uns dias evocou José Donoso; hoje lê Alejo Carpentier. Hoje comprei uma cópia usada de El Obsceno Pájaro de la Noche, deve chegar de Espanha daqui a duas semanas; lembrei-me dele depois de falar sobre 'Casa de Campo.'
ResponderEliminarEntretanto comecei a ler o Diário: 1962-1972 de João Palma-Ferreira; as notas dele são bastante melancólicas, muito doridas; a mediocridade, a ditadura, aquilo que ele chama a "sonolência."
Também fala muito de livros, em particular dos latino-americanos: Cabrera Infante, Ernesto Sábato.
Para mim, este é um romancista, ensaísta e diarista demasiado esquecido. Quase tudo o que li dele até hoje tem tido valor.
«As revoluções – como a cubana – são fundamentais para que certas coisas possam mudar.»
ResponderEliminarSignificando..?