Puro mal

Já aqui falei de A Zona de Interesse, do britânico Martin Amis, por causa da polémica que criou assim que foi publicado no Reino Unido e que levou alguns dos editores habituais do autor noutros países – especialmente em Franca e na Alemanha – a recusarem a sua publicação. Na altura, quando li o artigo que me serviu de base a esse post, fiquei com a ideia de que Martin Amis quisera apenas brincar com coisas muito sérias, como o Holocausto; mas, depois de ler o livro, não acho que seja brincar – talvez mais falar de um assunto que é muito sensível de forma completamente desbragada e introduzir na temática terrível dos campos de concentração uma história de amor entre as não-vítimas, que começa por ser um engate puro e duro, mas acaba por tornar-se uma paixão inusitada – de uma das partes, pelo menos. O romance, que tem lugar em Auschwitz (a zona de interesse), tem três narradores: o dandy Thomsen (sobrinho do secretário de Hitler e, portanto, intocável); o comandante do campo, Paul Doll, conhecido como o Velho Beberrão e marido de Hannah Doll, que Thomsen cobiça; e por fim o judeu Szmul, um dos homens mais tristes do Lager, escolhido para seleccionar entre os seus pares quem morre e quem se safa e para carregar os cadáveres para fora da vista da leva seguinte de judeus (a parte mais bonita, mas se calhar a mais chocante, sobretudo ao abordar velhos e crianças). Para quem gosta do humor inglês, talvez os editores que recusaram publicar a obra possam parecer demasiado picuinhas, porque, não fosse o tom (basta ler a página que o editor português destaca sobre as vítimas de experiências médicas), tudo o que aqui se conta é tremendo, mas soa autêntico e é profundamente interessante. Para mim, o maior problema foi acompanhar páginas e páginas cheias de palavras alemãs – nomes, cargos, tiques de linguagem das personagens (a extraordinária Cristina Torrão tem de certeza a vantagem de não sentir isto como obstáculo) que tornaram a leitura cansativa e não me permitiram tirar todo o partido da obra que seria desejável. Mesmo assim, acho que deve ler-se – mas, atenção, é um prato que se serve mesmo frio.

Comentários

  1. Toda a razão nas palavras alemãs, tornando-se mesmo incómodas para 'saborear' o discuso e pensamento profundos, ao longo do livro, nas três personangens principais. Quem seja conhecedor da obra de Martin Amis encontrará aqui uma grande mudança, mas julgo que em nenhum outro livro existiu uma intenção tão grande sobre o estudo da Humanidade. Como obra literária, não entendo a celeuma em não ser editado em alguns países. Que fariam então com os livros do Primo Levi?

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  2. Depois de ler este post da Rosário fui pesquisar e encontrei um texto muito interessante, publicado na The New Yorker em 29/09/2014 e assinado pela Joyce Carol Oates.
    Estas duas opiniões fizeram entrar este livro na minha lista de compras, embora ultimamente tenha evitado comprar obras que abordem este tema: não porque o assunto não me interesse, mas porque li imensos livros sobre o Holocausto na minha juventude.
    Antonieta

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    1. E também porque não posso comprar todos os livros que gostaria...
      Antonieta

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  3. Ora bem, horrores aparte que sempre aconteceram e os houve em toda a parte ao longo de toda a história da humanidade, eu muito pragmaticamente diria que "a vida continua", e quem dirigia, trabalhava, guardava, etc. os campos de concentração eram apesar de tudo pessoas, com as suas vidas, por mais sádicas, distorcidas, anormais, que fossem. Logo teriam as suas vidas próprias, e, escrever sobre elas não me parece coisa assim tão reprovável, é um tema como qualquer outro apesar de sensível.
    Interessa que não se deixe esquecer o que foi o holocausto, pois não apenas judeus sofreram a opressão e os horrores do nazismo!
    Hoje, há uma forte tentativa de branquear e fazer esquecer o holocausto, há até quem afirme que este não existiu e foi uma encenação criada pelos aliados para demonizar a Alemanha, imagine-se!
    E não são árabes, mas sim europeus quem o sustenta, por mais estranho que pareça...
    Não adianta falar dos Gulag da URSS e dos massacres na China vermelha... como forma de "distrair" o que se fez na Alemanha.

    Quanto à forma como o romance está escrito, pois aí pode haver polémica, não sei ... eu ainda hoje "me parto a rir" com o famoso "Allô, allô" da BBC, que deve ter sido a mais hilariante paródia a um assunto tão grave e sério quanto a ocupação alemã da França, aliás inteligentemente realizada, escrita e interpretada.

    Não sei se é comparável, e pelo que li não deverá ser, pois o detalhe (já referido num post antigo) do prisioneiro que "escolhia" a próxima fornada é demasiado violento e tétrico... não sei.

    Saudações arrepiadas cá da Cidade Morena

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    1. «quem dirigia, trabalhava, guardava, etc. os campos de concentração eram apesar de tudo pessoas» - é verdade. E é isso que assusta. Também os pides que torturaram compatriotas seus, por exemplo, eram pessoas. E, muitas vezes, dou comigo a pensar quem, das pessoas que conheço, era capaz de atrocidades, se lhes dissessem que essas atrocidades seriam legais, até bem-vindas, e que quem as fizesse não seria castigado por isso. Quer-me parecer que muito mais gente do que pensamos estaria disposta a tal. E que teríamos muitas surpresas...

      Quanto ao livro de Martin Amis, eu até podia lê-lo todo em alemão (se o houvesse). Mas não está nos meus planos, tenho tanta coisa para ler... Além disso, também já li muito e vi muitos documentários (muitos alemães) sobre os campos de concentração. Livros sobre o tema, num futuro próximo, só a Sarah Gross ;)

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    2. Olá Cristina,
      Por acaso o Perguntem a Sarah Gross também está ali no meu 'Everest de livros para ler' junto à entrevista que o autor deu ao ípsilon do Público..
      A Cristina viu o filme/documentário "O Último dos Injustos" do Claude Lanzmann?
      É sobre Benjamin Murmelstein e o campo de Theresienstadt. Confesso que fiquei perplexa e baralhada, sem saber o que pensar deste homem que conseguiu ser tão odiado pelos judeus que dizia defender.
      É um filme longo (cerca de três horas e meia) e muito, muito duro, ontem finalmente consegui arranjar tempo e coragem para o ver, e não vou esquecê-lo tão depressa.
      Antonieta

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    3. Não conheço esse filme/documentário. Mais uma boa sugestão, obrigada, Antonieta :)

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