Uma pérola
Pronto, cá estou de volta para falar de coisas de que todos gostamos: livros, claro. Tirando partido das novas edições da editora Livros do Brasil e da querida Colecção Dois Mundos que consumi muito enquanto jovem, leio e releio títulos vários de grandes autores, ente os quais A Pérola, de Steinbeck, uma novela que me dizem estar integrada no Plano Nacional de Leitura – e não admira, pois veicula valores importantes e uma certa moral contra a ganância e o desejo de riqueza tão patentes nas sociedades modernas. A história é, de resto, muito simples: um pescador índio chamado Kino encontra uma grande pérola nunca vista, talvez a maior pérola do mundo; e se, ao início, o seu desejo é que, com a venda dessa pérola, o filho bebé possa ser um dia um homem letrado e mais abastado do que ele próprio, pois a verdade é que a pérola acaba por só trazer problemas à família: a inveja alheia, antes de tudo, mas também a atracção desmedida por aquilo que ela poderá proporcionar. A vida do índio muda então drasticamente da noite para o dia: enganam-no, incendeiam-lhe a casa, atacam-no, levam-no inclusivamente a fugir e a matar. E o seu filho não terá nada do que o pai desejou para ele no dia em que encontrou a pérola, nada de nada, porque também ele será vítima do mal trazido por ela. Sucinto, sem gorduras, belo na descrição das paisagens, A Pérola é uma pérola muito simples que todos os jovens deviam ler – e os mais velhos também – neste tempo escuro em que parece muito mais importante ter do que ser.
Bom dia a todos , bem vinda Rosário e há quem não saiba sobre o plano educativo brasileiro (àquele) diretrizes à base e certamente a implicar valores a formação infantil.
ResponderEliminarBem profundo "Steinbeck" e claro gostamos de livros com histórias fantásticas.
Claro.
EliminarSubscrevo. O ter e o ser sempre guiaram a humanidade. Mas indubitavelmente há tempos bem mais desvalorizados do que outros.
ResponderEliminarA Pérola... é quase um conto! E muito bom, claro.
ResponderEliminarLembro-me até de em garoto ter visto na TV uma adaptação a peça de teatro...
Gosto muito de ler Steinbeck porque dos seus escritos transpira e nós respiramos, uma humanidade que me parece intemporal, daí ser um clássico?
Saudações humanas cá da Cidade Morena.
Ontem, numa das lojas Bertrand (digo loja porque se encontra dentro de um centro comercial) fizeram o favor de me trazer à mão a revista "Somos Livros", aquela que eu acho uma boa iniciativa da livreira/editora/distribuidora.
ResponderEliminarNa página 35, lá está a colecção "Dois Mundos" e, entre outros títulos da mesma, "A Pérola" e "As Vinhas da Ira".
Para além de uma referência ao blog da Rosário, na página 2, na seguinte refere-se a odisseia literária, uma ideia peregrina e mirabolante de escrever agora para ser publicado daqui a 100 anos. Os originais, inéditos portanto, repousarão num cofre (ou numa arca congeladora) para verem a luz do dia quando os seus autores já a perderam.
Bom regresso à Rosário, de que já tinha saudades.
Ainda não li "A pérola"; apesar da colecção Dois Mundos me ter dado bons momentos (ainda mos dá quando a compro nos alfarrabistas).
ResponderEliminarJá duvido que seja de hoje essa questão entre ser e ter e do que origina se o segundo é tomado como sinal do primeiro. Na verdade, cada vez mais me parece uma questão que acompanha o homem desde sempre e lhe é intrínseca. Há muito poucas madres Teresa no mundo. E ao despojamento verbalizado não corresponde o material. A verdade é que o mundo é de ter e haver e cada um se precavê como pode. Quantos de nós, mesmo tendo lido "A pérola", se a encontrássemos, não sonharíamos idêntico?! Hummm...quem não o fizesse que atire a primeira pedra.
Contudo, concedo, a dimensão material é demasiado curta para a ambição de merecermos ser chamados homens.
E assim vai a vida.
Ou mulheres, Beatriz! De facto a dimensão de eremita está ao alcance de muito poucos. Há uma mão onde se esconde a segurança e a liberdade que ela traz, mesmo que essa possa ser uma despicienda liberdade. Mas há outra onde se esconde a vaidade, a comodidade, a ganância, o poder, ... ;)
EliminarA Beatriz desculpe-me a intromissão, mas ocorreu-me que nesta sua frase – «Quantos de nós, mesmo tendo lido “A Pérola”, se a encontrássemos, não sonharíamos idêntico?! Humm... quem não o fizesse que atire a primeira pedra» – se calhar ficava mais apropriado «... que atire a primeira pérola».
EliminarNão sei se teremos de ser tão maus só porque não somos eremitas. Entre o preto e o branco há muita cor
EliminarTem razão. Seria a primeira a ser atirada ao Deus dará:)
EliminarLi "A Pérola" e praticamente toda a obra de Steinbeck, disponível na colecção dos livros do Brasil.
ResponderEliminarÉ um dos meus escritores de culto.
Um dos seus livros que gosto mais é o "Bairro de Lata", muito por ele ter consigo contar uma história de amor, sem precisar da presença de qualquer casal amoroso.
Bairro de lata é talvez dos menos conhecidos... mas creio que deu um filme? Ou estou a inventar?
EliminarE sim, é outra grande obra com a tal dimensão humana que me parece ser a marca de Steinbeck.
Sem dúvida que é também um dos meus escritores de culto... embora não tendo a certeza de ter lido tudo dele...
Uma aventura a propósito foi quando em jovem, teria eu 26 anos, conheci nos Açores uns franceses que vieram no seu veleiro desde Marselha, uma goleta de 12 metros, desenhada pelo pai que era arquitecto naval ou coisa assim e construído por eles mesmos. Chamava-se "Tortilla Flat" ... imaginem! Era tripulado por dois filhos e suas mulheres e um amigo (Eugéne). O Patrick e o Eugéne eram mergulhadores profissionais e o outro irmão dedicara-se à construcção de veleiros como o pai. O pai e a mãe, já de idade avançada, foram de avião juntar-se a eles na Terceira, depois velejando pelas ilhas. Eram apaixonados pelo mar e pela pesca submarina, encontrámo-nos em S. Jorge, pescámos juntos usando o barco (Lord) do mestre Augusto e travámos inevitável amizade, atrás dos peixes que acabavam na mesa em caldeiradas/bouillabaisses, muito aioli, com pastis ao final da tarde! Depois fui com eles correr as ilhas, no veleiro... um sonho realizado!
Saudações Steinbeckianas cá da Cidade Morena!
Sim, extraordinário Pacheco, deu um filme com o Nick Nolte, que não se afasta muito do livro.
EliminarCuriosamente este livro não foi editado pelos livros do Brasil (o que li...), penso que era da Ulisseia, daqueles livros quase de bolso.
É Steinbeck, ponto.
ResponderEliminarTambém eu devorei Steinbeck na minha juventude, hoje destaco Ratos e Homens e A Um Deus Desconhecido.
ResponderEliminarJCC
Parece-me que Steinbeck está mais actual do que nunca... e a sua leitura é altamente recomendável às novas gerações (a Beatriz vai-me matar...) habituadas a literatura negra e deprimente escrita por deprimidos... os ambientes de Steinbeck em vez de deprimidos e depressões, geram pelo contrário uma luz Extraordinária !
ResponderEliminarSaudações Extraordinárias cá da Cidade Morena
Eu??? Me? Só mato moscas e formigas em caso de invasão de domínios.
EliminarOs estilos de escrita podem - e devem - diferir e manter a qualidade.
Quando li As vinhas da ira não achei um romance propriamente optimista. Mas gostei bastante da escrita, surge tão real aquela luta pela sobrevivência que nos esquecemos de ter-se passado noutro país. É o homem que está ali; não este ou aquele, mas nós, povo do mundo.
Apoiadíssimo Extraordinária Beatriz!
EliminarSaudações Humanas e Steinbeckianas cá da Cidade Morena!