Um senhor escritor
Já não fui a tempo de ler Tudo O Que Conta em vida do autor, James Salter. O livro saiu cá um mês e picos antes da sua morte, ocorrida no dia 20 de Junho, em que me cruzei na Gulbenkian com a jornalista Isabel Lucas, que o tinha entrevistado recentemente e estava inconsolável, pois ele era, além de um senhor escritor, um homem especial, que adorava comida e lhe tinha mostrado a sua cozinha na casa onde a recebera para a entrevista. Nunca tinha lido Salter – falha minha, claro, pois já me tinham falado muito bem de The Hunters –, mas em Portugal só foi publicado agora e confesso que não tenho lido muitos livros estrangeiros nas respectivas línguas ultimamente. Este Tudo O Que Conta (com tradução de Francisco Agarez, e boa) lembrou-me o romance Stoner, de John Williams, de que já aqui falei, talvez por ser também a história de um homem que gosta muito de livros; o protagonista chama-se Philip Bowman e, depois de combater na Segunda Guerra Mundial, abraça a edição (Stoner tinha sido professor). E é da vida de Bowman, entre mulheres e livros, que saberemos o que realmente contou, entre a experiência na Marinha contra os Japoneses nos anos da guerra, os almoços com a mãe e os tios, os encontros com editores e escritores, a comunhão funda, mas quase sempre passageira, com várias mulheres: Vivian, com quem se casa, Enid, uma inglesa casada com quem tem uma relação entrecortada, Christine, que o engana e rouba indecentemente, Anet, a filha desta (a vingança deve servir-se fria) e, já a caminhar para velho, uma mulher que trabalha também com livros e nunca teve um homem antes dele. Não é só isto, evidentemente, porque teremos, a par das histórias de Bowman, muitas outras sobre as pessoas que realmente contaram na sua vida e, além disso, uma prosa limpa e culta, cheia de referências literárias raras na literatura americana contemporânea. A ler, claro, mesmo que já não possamos dizer ao autor como gostámos deste seu romance.
Também me passou ao lado.
ResponderEliminarMais uma sugestão que promete...
´´E um título a considerar.
ResponderEliminarQuanto à vingança...só se for uma vingança boa se pode servir - a frio ou a quente. De outra forma, ainda assim, parece-me preferível "a quente", pela quase inevitabilidade que comporta. A premeditação da vingança é mesquinhez. No entanto, a vida, por vezes, vinga-nos. Não é regra, mas já tem acontecido.
É melhor pensar noutra coisa; contudo, aceitam-se vinganças benéficas.
Parece-me bastante monótono; para mais "prosa limpa e culta" leva-me a crer que é um daqueles estilos simplistas para não estragar muito a vida ao leitor.
ResponderEliminarEste comentário de LSR faz-me lembrar a história que me contava Jorge Manuel Martins, de um crítico literário que dizia que nunca lia um livro antes de o criticar, "para não me deixar influenciar"!
EliminarEste livro do James Salter está na minha lista de compras, até porque li a entrevista no ípsilon de 15 de Maio e confio muito nas recensões da Isabel Lucas.
ResponderEliminarTambém o Stoner, do John Williams, mereceu nota máxima da Isabel e foi um livro que gostei imenso de ler.
Não compro um livro só porque muitos dizem que é bom, de modo nenhum, mas há pessoas cuja opinião respeito e admiro: a Isabel Lucas é uma delas e a Rosário é outra.
:-) Antonieta