Mais sucesso
Ontem falei aqui de sucesso e hoje é também de algum modo esse tema inesgotável que volto a trazer. Desta vez, porém, tem que ver com alguém a quem o êxito trouxe um certo desconforto – porque, não nos iludamos, também há quem não goste de se tornar conhecido e ser abordado por causa disso. Falo de um homem que se tornou conhecido e que, enfim, quisesse ou não, devia ser abordado de vez em quando no seu país: o autor de Pela Estrada Fora, Jack Kerouac, que, segundo agora se conta, escreveu um dia ao seu editor uma carta onde fazia a seguinte confissão: «Começo agora a aperceber-me de que sucesso é quando já não conseguimos almoçar em paz.» Percebo o desabafo, evidentemente, deve ser mesmo chatinho ter sempre alguém à perna (cá os escritores estão dispensados desses «afectos» porque ninguém sabe quem são), mas a verdade é que isso tem também vantagens – e é por isso que esta carta de Kerouac que referi está a ser objecto de um leilão e vai certamente render muito dinheiro… Parece que lá se descreve o que o escritor ia fazer no seu livro Spotlight, que ficou inacabado, e há muitos maluquinhos malucos por saber…
Não devemos esquecer que "Pela Estrada Fora" foi escrito em menos de um mês e só foi aceite cinco anos depois, após muitas recusas por parte dos editores. Mesmo assim, só conseguiu ser publicado após muitas alterações impostas pelo editor, quiçá semelhantes às que a Maria do Rosário sugere (ou ordena, e bem) aos adventícios da escrita que pretendem o abrigo da sua chancela.
ResponderEliminarSobre a fama (Aquilino acrescentaria e a escama), há um ditado popular que diz: fama sem proveito, faz dor de peito.
"PELA ESTRADA FORA" está na minha lista dos livros difíceis, a par de:
ResponderEliminar-A DOR - Marguerite Duras
-O AMANTE - Marguerite Duras
-EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO- Marcel Proust
-ULISSES - James Joyce
-MARGARITA E O MESTRE - Mikkail Bulgakov
-O SOM E A FÚRIA - William Faulkner
A estes e mais alguns terei de dar uma segunda oportunidade, já que "O MEMORIAL DO CONVENTO" só o consegui ler à 3ª. tentativa e é dos melhores livros que li até hoje, absolutamente notável, tornando-me um fanático do excelente Saramago.
Saramago sempre !
EliminarCaro Severino,
EliminarFez-me sorrir, porque considero difíceis, cada um à sua maneira, todos os livros que refere, sendo que de Duras só li "O amante" e Joyce, Proust e Faulkner ficaram adiados para quando os neurónios tiverem mais disponibilidade ao fim de umas poucas dezenas de páginas. Como vê, neste particular, estou consigo!
Isto para lhe dizer que o "on the road" dificilmente vejo nesse rol de livros "indigestos". Aquilo é uma loucura do início ao fim, viagens para trás e para a frente, muito clube de jazz, muita droga, muito álcool, muita libertinagem, num ritmo frenético (mas que entendo ser fácil de acompanhar e nada "académico" ou intrincado) onde estão sempre a acontecer coisas e as personagens parecem todas sofrer de alguma perturbação ou ser todas um pouco chanfradas. É autobiográfico, além do mais.
Como já foi dito nos comentários, foi escrito em poucas semanas, julgo que 3, com a ajuda de muito café e sabe-se lá mais o quê.
Se o tiver na estante, pegue nele um dia destes e depois conte coisas. Sou menino para apostar que é capaz de me dar razão.
Um abraço para si,
Rui Miguel Almeida
Acredito. Terei assim de lhe dar uma oportunidade pois faz parte da minha "biblioteca" -é o nº. 42 colecção Mil Folhas"; excelente colecção de 100 (mais três) livros que, há cerca de dez anos, "O Público" lançou.
EliminarNão sei se se lembram mas tem um GUIA DE LEITURA que é excelente, ali se abordam os autores e os livros publicados, uma peça preciosa!
Agora ando de braço dado com o ABEL BOTELHO (1855-1915), e os seus livros (O BARÃO DE LAVOS e MULHERES DA BEIRA, dois livros lindíssimos da Colecção Lusitânia da Livraria Lello -certamente uma raridade).
E que bem escrevia este escritor (actualmente um verdadeiro e absoluto desconhecido) que morreu na Argentina em 1915, faz precisamente agora cem anos.
E ultimamente tenho descoberto outros grandes escritores antigos - que bem escreviam Júlio Dantas, António Ferro, Fialho de Almeida...-.
O élan do Kerouac deriva também de ele vivido o que muitos de nós fantasiamos ser o modo como gostaríamos de ter vivido pelo menos parte da nossa juventude. A liberdade caótica, a amizade funda, a utopia anárquica e a criação literária superlativa. Esquecemos a pobreza, a doença, o sofrimento, as adições... No meu imaginário guardo a imagem dele fechado em quarto de hotel de 5ª categoria, a suar profusamente em dias seguidos de tórrido verão nova iorquino , sem ar condicionado, a bater à máquina sem descanso o seu "On the Road" num rolo contínuo de papel (que julgo ter sido leiloado por milhões há poucos anos ). A felicidade da criação, em suma.
ResponderEliminarO texto bem escrito gera conforto.
ResponderEliminarKerouac era um tipo no mínimo, estranho ... ou não fosse considerado na sua época um iconoclasta, portanto é do mais natural que fosse essa a sua reacção.
ResponderEliminarA obra "On the road" é genial, ainda hoje, e um livro de culto que terá inspirado outros...
Há quem conviva mal com o sucesso em termos de publicidade ou ser reconhecido em público, pois a perda de privacidade e o deixar de poder andar incógnito por onde apeteça e como apeteça há-de ser verdadeiramente incómodo. Acredito que sim!
Saudações incógnitas cá da Cidade Morena... on the road aqui, bem ... dava para vários livros!!!!!
Talvez um das palavras, com produtividade, actualmente, que mais me irrita: sucesso! Não como sinónimo de bom resultado, mas como sinónimo de boas vendas ou muita popularidade. Boas vendas porque uma boa venda pode significar do outro lado uma má compra. Popularidade, se ela não for apenas baseada numa estima universal pelo carácter. Sucesso, para mim, só mesmo a sua raiz latina successus , «de local (repleto de universalidade) onde se entra». E de onde convém sair, «pelo sucesso», de mãos inteiramente limpas.
ResponderEliminarVamos lá Pedro, sucesso apresenta qualidade.
EliminarCara Cláudia, parece-me que cada vez menos o sucesso assegura que haja qualidade, pelo menos na literatura.
Eliminar"Percebo o desabafo, evidentemente, deve ser mesmo chatinho ter sempre alguém à perna (cá os escritores estão dispensados desses «afectos» porque ninguém sabe quem são), mas a verdade é que isso tem também vantagens"
ResponderEliminarFicou pendente a explicação das vantagens que isso teve para Kerouack.
A vantagem era justamente o que pode render uma carta (para os herdeiros, pelo menos).
ResponderEliminarBem, então não foi uma grande vantagem para ele em vida, pois não?
EliminarTambém não deixa de ser irónico que uma carta onde repreende a sociedade de voyeurismo se tornou num item da mesma.
Por fim, considero lamentável estar-se sempre a equacionar "vantagens" e "sucessos" com dinheiro, ou neste caso leilões de objectos pessoais.