Lá e cá

Chegámos àquela altura do ano muito tola em que os jornais e revistas se multiplicam em listas de livros para o Verão, para as férias, para a praia, etc., como se o bom tempo ou um areal sugerisse um certo tipo de livro, e não outro. Enfim, faz-se em todo o mundo e não há como evitá-lo, mas, na verdade, há quem torne o artigo mais interessante, como o Guardian (mas o Guardian é habitualmente um jornal interessante), que resolve a coisa perguntando a autores conhecidos, como Ian McEwan, William Boyd, Antonia Byatt ou Chimamanda Ngozi Adichie (no Reino Unido são mesmo muito conhecidos) os livros que vão levar para ler nas férias. Na verdade, eu gostaria muito de saber o que alguns dos nossos escritores mais destacados vão ler nas férias, até porque isso pode dar pistas sobre o que andam a escrever e fornecer ideias para mim própria; mas tenho a suspeita de que, ao contrário dos britânicos e anglófonos (Chimamanda é nigeriana), que lêem livros acabadinhos de sair e de escritores jovens e menos conhecidos, os portugueses se apressariam a citar clássicos intocáveis ou livros de confrades bem estabelecidos. Pelo menos, é o que acontece quando perguntam a um escritor português numa entrevista o que anda a ler – e raramente é uma coisa recente. Porque será tudo tão diferente cá e lá?

Comentários

  1. Não posso responder pelos escritores. Mas pertenço ao número dos leitores que preferem um clássico. Bom, de vez em quando, sigo um palpite e compro um livro de autor desconhecido. Também é verdade que folheio com frequência alguns autores aqui referidos. Mas, e apesar das boas críticas, tem de me agradar. Foi assim que fiquei fã de Rentes de Carvalho. Por exemplo. Que também não é um jovem autor:)

    A razão de escolher um clássico é apenas ainda não o ter lido o que considero uma falha a reparar e ter maior grau de confiança em que a escrita seja escorreita. Além disso, aprecio livros sem soluções mirabolantes e muita volta no caminho; prefiro-os parecidos ao quotidiano, com suas gentes de assim assim. E aprecio bons contadores de histórias, qualidade que reconheço nos clássicos.

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  2. Subscrevo inteiramente. Os autores atuais às vezes até contam uma história interessante mas quanto aos restantes fatores que concorrem para a escrita de um livro é que é descoroçoante quase sempre.

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    1. De que factores fala? Pergunto por curiosidade.

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  3. Eu tenho uma teoria.

    Uns, porque são snobs. Outros, porque têm medo de “ferir susceptibilidades”.
    É assim na literatura (“ando a reler Tolstoi”), na música “o Bach vai sempre comigo” ou no cinema “todo o Visconti”.
    Com isso, têm a reputação e as amizades asseguradas.
    Para a leitura é pouco útil. Ficamos com a sensação de que o mundo, hoje, não interessa. Perpetuamos a imagem do autor longe e distante.

    Cumprimentos,

    Miguel

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    1. Bom. Tem razão, talvez. Mas sabe o que me seduz nos tais autores do longe e da distância? É não lhes sentir a idade.

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    2. E isso é maravilhoso. Não há nada de errado nos clássicos. Só que, às vezes, desconfiamos de quem se apropria deles. Boas leituras.

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    3. ...e Boas Férias para nós:))

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  4. Fui espreitar o artigo no Guardian. Ainda li outro sobre o que ler em determinados países. Muito bom.

    Acho que os escritores, sendo o país um pequeno mercado, queiram ficar bem vistos e assim não referir autores recentes, dividindo amizades, além de quererem mostrar o "peso" dos livros que leem e não responder sobre livros mais simples de autores do social ou do jornalismo.

    Há-de ser sempre diferente de outros países nas diversas àreas artísticas, porque Portugal é um pequeno país onde todos se conhecem.

    Eu ando a ler o último do Miguel Sousa Tavares que se lê bem no Verão e a imaginar os terraços do Mediterrâneo. Boas férias.

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  5. Listas de 'livros de Verão' não me dizem nada; eu leio sempre o mesmo ao longo de todo o ano: o melhor que conseguir arranjar; já levei Raul Brandão, António Lobo Antunes, José Saramago e Eça de Queiroz para a praia. Eu simplesmente não compreendo a assunção de que, durante os meses quentes, devo desligar o cérebro e abraçar a porcaria.

    Quanto a ler livros acabados de sair, bem, também não vejo o que tem isso de tão especial. Nos últimos meses li especialmente escritores americanos dos anos 50, 60 e 80. Ando a ler Lolita, de 1955; não conheço nenhum romance do ano passado que lhe chegue aos calcanhares em termos de beleza estilística, de mestria da língua inglesa. Quando se quer o melhor que há, o passado é sempre a melhor solução.

    De resto, os melhores romances que saíram o ano passado provavelmente passarão despercebidos de qualquer modo, como Moby Dick saiu despercebido, como Os Maias levou 15 anos a esgotar a primeira edição, como tantos grandes romances passaram despercebidos e só décadas mais tarde foram descobertos. Vamos ver se os romances que o Sr. McEwan anda a ler agora daqui a cinco anos ainda são falados.

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    1. A propósito de LOLITA, acabei de ler um livro escrito há mais de cem anos pelo português ABEL BOTELHO (1855-1917) -um desconhecido total na actualidade-, pois o livro que acabei de ler "O BARÃO DE LAVOS", em nada fica a dever a LOLITA (um clássico mundial).

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    2. Nada tenho contra Abel Botelho, mas falta-lhe o trabalho de linguagem que obcecava Nabokov e que ele levava até à perfeição. Basta pensar na beleza do primeiro parágrafo:

      "Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta."

      O uso constante do som L (lolita, light, life, loins), depois o S (sin, soul), por fim o T (tip, tongue, taking, trip, three, tap, three, teeth) mostra que Nabokov não estava apenas interessado em narrar uma história, mas estava a usar palavras para criar um objecto estético agradável a todos os sentidos, inclusive à audição. Pense na dificuldade que deve ter sido encontrar as palavras certas para realizar esta visão, o apuro, a dedicação que isso evidencia. Há várias passagens do livro que se podem e devem reler apenas pela beleza do som.

      O estilo de Botelho - como aliás o estilo da maioria dos escritores - não me impressiona nada pela simples razão de que não há lá estilo nenhum; são apenas palavras atiradas à página para contar uma história da forma mais directa, económica, sucinta, anónima e anódina possível, à boa maneira realista do século XIX e começo do XX. Como gosto de ler, tenho de ignorar isso ou leria apenas 3 ou 4 livros por ano; mas por favor não me diga que Botelho nada deve a Nabokov. Tirando talvez Lobo Antunes, John Lyly, James Joyce, William Gass e um ou outro, não deve haver muitos escritores que dessem tanta importância à construção estética de um texto literário.

      Dêem-me barrocos exuberantes como Nabokov, que adorava sobretudo brincar com palavras.

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    3. Quem te manda a ti rabecão meteres-te com gente tão letrada...

      Até fiquei a falar sozinho...só me resta amochar...

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    4. De modo algum.

      Apenas olhamos para a literatura de forma diferente.

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  6. Estas férias vou ler Tio Patinhas, Mandrake e Fantasma, do Mundo de Aventuras, e um livro de Os Cinco. Rejeito livros da coleção Seis Balas, porque não gosto de cowboiadas.

    ABC

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    1. António, isso é má vontade contra os livros da coleção Seis Balas! Lembro-me que, invariavelmente, lá surgia o topos: logo lhe nasceu escuro buraco na testa de onde jorrou o sangue... É preciso talento para inventar imagens destas!
      Falta na lista o Salgari.
      JCC

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    2. Ora, segundo o texto, sendo o amigo ABC, para mim, um autor destacado da nossa praça, podemos então concluir que o próximo romance terá muito de magia, acção, policial e será passado nas esferas da alta finança. Não faltará aí um Max du Veuzit, uma Barbra Cartland? É que nestas coisas dos livros, o amor vem sempre a propósito.

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  7. António Luiz Pacheco29 de julho de 2015 às 08:06

    Interessantes os comentários... como quase sempre aliás.

    Também não tenho própriamente livros-de-Verão nem de nenhuma outra estação no que toca ao conteúdo mas em termos de volumetria sim, ou seja: na praia aproveito para ler livros pequenos mas sobretudo que possam ser interrompidos ou poisados a qualquer momento sem interferir na compreensão e seguimento do texto - colectâneas de contos por exemplo são ideais!
    Estes os meus parâmetros balneares...

    Saudações calorosas cá do Bairro Ribatejano!

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    1. colectâneas de contos por exemplo são ideais (também os há de bons autores, Maupassant, por exemplo, acho-o excelente)

      Bem visto ó Pacheco -

      Nada Pacheco

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    2. Ó Pacheco para reforçar o nada Pacheco - ando a ler um grande calhamaço (oitocentas páginas) ideal para a praia: "Nós, os Afogados"...

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    3. António Luiz Pacheco29 de julho de 2015 às 15:57

      Livra! Ó Severino ... atolados sim, afogados ainda não ...

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  8. Também eu não possuo listas de livros para ler no Verão. Tenho uma espécie de plano de leituras que vou seguindo, gosto de voltar a autores que já li, mas sempre a obras diferentes, gosto de intercalar escritores clássicos (tanto que tenho ainda para ler!), com outros mais contemporâneos.
    Posso até tomar a atenção a "conselhos", mas, eu é que faço as minhas escolhas.
    Quanto a "novos valores", prefiro deixar a poeira assentar.

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  9. Costumo reparar nos livros que as pessoas estão a ler e nesta altura reparo sobretudo nos livros que os estrangeiros (certamente em férias) estão a ler e o que noto é que (na quase totalidade) é só lixo...será por serem livros para férias? claro que não, quem lê aquele lixo no Verão não lê outra coisa durante o resto do ano (e isto não é uma opinião é uma verdade-a minha verdade, claro)!

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  10. De facto, uma pena se o William Boyd não for conhecido cá.

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    1. Realmente o desconheço; porque o recomenda?

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    2. Hum... William Boyd? Conte lá ...

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    3. Desconheço se o William Boyd está traduzido para Português. Tem um humor genial e cria as personagens mais humanamente confrontadas com as pequeninas coisas humanas que imaginar se possa. "A Good Man in Africa", "Stars and Bars" os meus preferidos.

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  11. José Catarino: e a surpresa e a aflição do bandido desarmado com dois tiros de pistola certeiros, um em cada arma?

    João Madeira: ou o contrário disso tudo, muito longe da coleção Azul da velhinha Romano Torres, que publicou Max du Veuzit (pseudónimo de certa senhora) e quejandos.

    ABC

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  12. Eu como não tenho o hábito de ler entrevistas de escritores, não sei bem de que livros falam os nossos autores, mas suponho que esta queixa de MRP terá algum fundo de verdade. Lembro-me agora de que li há pouco tempo um livro de ensaios de Fernando Venâncio e já ele lamentava a tendência de os escritores estabelecidos raramente mencionarem os novos e darem a impressão de que a literatura acabou com eles e que não há nada de entusiasmante depois deles.

    Acho, porém, que isso é bastante comum entre os escritores, de modo geral. Há sempre uma cegueira geracional.

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