Estranho estrangeiro

No ano em que Albert Camus, Prémio Nobel da Literatura, faria cento e dois anos, falo aqui daquele que é o seu primeiro romance, O Estrangeiro, de que Lucchino Visconti fez um filme que vi há muitos anos e do qual, infelizmente, me lembro muito pouco. Nascido na Argélia, Camus faz acontecer aí a acção deste livro, que se inicia precisamente com a morte da mãe do narrador, um homem que aparenta uma estranhíssima insensibilidade quanto a tudo (mesmo a morte da mãe), ainda que a certa altura se diga que são justamente os seus sentimentos que impedem muitas vezes que sejam diferentes as suas reacções. A morte da mãe não é, pois, um verdadeiro desgosto, mas mais um aborrecimento que o obriga a tomar o autocarro até ao asilo, a assistir a um velório no qual adormece, a acompanhar um enterro sob o sacrifício de um sol ardente. E desse incidente passaremos para um quotidiano no qual o protagonista se envolve com uma antiga colega (mas nem parece gostar muito dela) e com um vizinho pouco recomendável que quer dar uma lição a uma mulher árabe com quem andava e que o enganou. É por causa dele, de resto, que o narrador matará um homem e se verá a braços com a justiça. E é no período em que se encontra preso que mais estrangeiro o sentiremos, incapaz de colaborar com o advogado para salvar a própria pele, ilustrando a tese existencialista de que cada homem constrói o seu próprio destino. Segundo se diz, O Estrangeiro recebeu influências da literatura norte-americana (especialmente de Hemingway) – e é de facto algo seco, directo, essencial; mas traz um desconcerto muito peculiar que é altamente apelativo, mesmo que não consigamos criar muita empatia com o seu estrangeiro. Ou sobretudo por isso. A ler, evidentemente. A tradução é de António Quadros.

Comentários

  1. O cume ao primeiro romance ! Considerado pelos franceses, por votação popular, o mais apreciado livro do século XX. E eu estou de acordo ! O desconforto existencial na sua máxima expressão literária. Inesquecível e relido variadas vezes durante a minha já longa vida. Duas ou três horas chegam para o saborear por inteiro e num suave ritmo de leitura. De preferência no original (só acessível às gerações mais velhas). Para os outros, seguramente que o António Quadros fez uma muito cuidada tradução.
    Que coisa estranha terá sido para Camus ter escrito a sua obra-prima à primeira ! Depois de "O Estrangeiro", escreve-se o quê? "A Peste" e pouco mais, pelo menos a um nível que se aproxime da primeira obra.
    Dramático. Tão desconfortável como se sentia "O Estrangeiro" no mundo?

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    1. Eu sou da tal geração mais velha que teve oportunidade de o ler no original, quando estudava no Instituto Francês, e nunca mais esqueci o perturbante Meursault e aquele "Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas."
      Mais tarde, comprei este e outros livros do Camus, mas O Estrangeiro continua a ser o meu favorito.
      :-) Antonieta

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    2. Obrigado por me lembrar esse começo do livro. A novela tem de facto um início fulgurante que dá logo o tom ao texto e oferece de rajada o interior do personagem/autor do relato, um homem incapaz de ligação emocional aos outros ou ao mundo. Um grande retrato do autismo moderado, em grau que não afeta o cumprimento das tarefas do dia à dia. Há mais gente assim do pode parecer à primeira vista. Têm dificuldade em ler emoções e em expressá-las, e em distinguir o que é socialmente certo do que é errado. O julgamento final de Meursault mostra que os "normais", perante a diferença, podem ser cruéis e desalmados. Que madrasta pode ser a condição humana ! Fiquei com vontade de voltar a reler "O Estrangeiro".

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  2. Talvez eu tenha lido "O Estrangeiro" quando era demasiado nova para ele, já que não me deixou memória e foi um nobel; tb não me lembro de ter visto o filme de Visconti. Em compensação, tenho presente "A Peste" e outras obras de Camus.

    Por vezes julgo que o existencialismo desemboca no pessimismo; que talvez dramatize as impossibilidades reais da existência que puxa ao limite.

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  3. Para quem goste de ler/ver Banda Desenhada - e não me parece que a maioria dos comentadores aprecie o género (cruzes, credo!) - há uma magnífica edição da Arcádia, com desenhos e adaptação de Jacques Ferrandez, que soube criar o ambiente idealizado por Camus.
    Quando disse que a maioria dos comentadores e leitores do blog não aprecia BD, não quis com isso macular as suas apetências literárias ou artísticas plásticas, mas tão só deixar claro que esta arte narrativa e ilustrada (que muitos injustamente consideram menor, exclusivamente para crianças), quando devidamente aplicada, congrega duas características fundamentais, que nem todos os autores conseguem: a do desenho e a da escrita.

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    1. Sou grande fã de Tintim e Astérix!
      Confesso que não tenho procurado outro tipo de BD, mas admiro autores e ilustradores.
      Há instantâneos nas duas coleções que mencionei que são absolutamente geniais, posso ficar minutos a olhar para eles ;)

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    2. Pela minha parte, concordo com o Fernando... e considero que a BD é uma inegável forma de arte!

      Só discordo quando acredita que os Extraordinários não sejam sensíveis e nem apreciadores da mesma... em jovem fui um furioso consumidor e até "estudioso" da BD o que em nada me prejudicou ou desviou da leitura.

      Saudações ilustradas cá da Cidade Morena.

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    3. Concordo com o ALP . Penso mesmo que todos os grande leitores foram grandes aficionados de BD . E recordo com saudade o genial Tintim que engrossava ao fim do ano (de anos a fio) num álbum fenomenal e diverso, onde constava desde o Príncipe Valente, ao Spirou , ao Astérix, ao Blake and Mortimer , ... até ao Tintim ele mesmo. E quem devorou isto já tinha devorado desde os Pato Donald , ao Zorro, ao super-homem, ao homem-aranha , ao Falcão do Major Alvega e a tantos tantos outros que serviram de iniciação e complemento de Dumas, Hugo, Dickens , Tolstoi , etc. Ler é construir e desconstruir imagens!

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  4. Ontem A Pérola, hoje O Estrangeiro. Só grandes escolhas.

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  5. E os anúncios dos livros do Chagas chegaram à TV!!! Já nem um telejornal sobre a Grécia se pode ver descansado sem ser chagado !!!

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    1. Brevemente, Artur Águas, Chagas será como a viajada Anita, desembarcando em Creta ou outra ilha Grega!

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    2. Boa profecia !
      É pena que um homem que até tem algum talento de escrita se dedique a alinhar piroseiras só para (presume-se) encher os seus bolsos à custa, pelos vistos, do agrado de mentes pueris. Mas não são só os intervalos dos telejornais que começam a estar chagados: vi ontem que a FNAC já alugou espaços para destacar os livros que todos os meses o Chagas põe no mercado. Quanto custará esta campanha comercial ? Custa-me a crer que o Chagas venda tanto quanto ele apregoa. Será um investimento estratégico a longo prazo em que por enquanto só se acumulam perdas ? A criação artificial de uma nova "persona" da literatura pop ? Porque não se dedica a escrever guiões de telenovela ?

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    3. Claudia da Silva Tomazi7 de julho de 2015 às 11:19

      Excelente mediação a seda também, nasce no casulo.

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  6. Claudia da Silva Tomazi7 de julho de 2015 às 07:05

    Dever-se-ía considerar diferentes (fases) de"Ernest Hemingway".

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  7. L'Étranger é um dos livros que mais vezes reli e um daqueles a que volto frequentemente. No topo dos meus favoritos. As razões? Aquelas que a Rosário, o Artur Águas, a Antonieta, aqui apontaram. Também eu encontro no romance um espelho magistral da Comédia Humana e, talvez, me identifique demasiado com Meursault... Gosto tanto dele como, por exemplo, de Le Rouge et le Noir, que, seguramente, muito o influenciou.
    JCC

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