O que ando a ler

Acabo de ler (por não ter conseguido parar enquanto não via virada a última página) O Meteorologista, de Olivier Rolin, autor francês de quem li outros romances, dos quais o meu preferido até hoje era Porto Sudão (e já aqui escrevi sobre ele), mas este não lhe fica atrás. É um livro apaixonante por muitas razões, investigado até ao osso, cuidadoso, muito bem escrito e realmente original (como uma radiografia de um tempo feita através da biografia de um homem). Evoca – e até cita às vezes – Tudo Passa, de Vasily Grossman (outro grande romance) e debruça-se sobre a história exemplar de um meteorologista que amava as nuvens, cumprindo com brio as suas tarefas na direcção do instituto meteorológico ao serviço da Rússia e do Partido. Mas estamos na época do Grande Terror estalinista, em que denunciar, caluniar e mentir podem salvar a pele. E eis que, como em O Processo de Kafka, este homem relativamente apagado, que acreditava no regime mesmo sendo filho da aristocracia latifundiária, se vê apanhado nas malhas das grandes purgas estalinistas sem saber como nem porquê (talvez lhe bastasse ser filho da aristocracia latifundiária); escreve então do gulag para onde é levado cartas nas quais tenta educar à distância a filha pequena, que não mais verá, através de desenhos e adivinhas, e presentear a sua jovem mulher com figuras feitas de pedrinhas representando o próprio Estaline de quem nunca deixa de esperar a correcção da injustiça. Morrerá fuzilado em 1937, mas isso – bem como a maneira e o local onde tudo acontece – só se saberá em meados dos anos 1990 (é importante ler este livro também para percebermos até que ponto foi a paranóia colectiva da URSS no tempo do Grande Terror). Sobrarão os seus desenhos para a filha, o motor que levou Rolin a pesquisar a história do seu protagonista. Com um final absolutamente notável, uma reflexão lúcida e desarmante, este é um daqueles livros que mexem connosco e nunca mais nos deixarão sossegados. Se não devemos esquecer nunca o Holocausto, também nunca mais podemos esquecer este período negro da história russa. Indispensável ler esta obra-prima.

Comentários

  1. Após ter lido o excelente "BREVIÁRIO DAS MÁS INCLINAÇÕES", estou a acabar o igualmente excelente "O RELÓGIO DO CÁRCERE" que tem como cenário o mundo rural português entre 1832 e 1834 dum autor que só agora descobri: JOSÉ RIÇO DIREITINHO. Vale a pena!

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  2. Agradeço a recomendação. Parece-me mesmo bom para ir procurar na Feira do Livro.
    E também tenho um familiar que é Meteorologista.

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  3. The Price of Salt, de Patricia Highsmith (no Kindle)

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  4. Curiosamente não ando a ler romances ultimamente.

    Como acabei de escrever uma biografia, as minhas atenções estavam noutros lado.

    mesmo assim fui lendo (está no fim) "Memórias, José Régio e Outros Escritores", de Manuel Poppe (e gostei...) e "Sombras e Lugares" de Serafim Ferreira (também com memórias e dedicatórias a escritores (está quase no meio).

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    1. Serafim Ferreira que, infelizmente, faleceu no passado dia 4 de Março.

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  5. Depois de ter devorado Perguntem a Sarah Gross do João Pinto Coelho (excelente escritor, livro extraordinário), meti-me a ler Stoner que é uma história tristíssima, de uma melancolia empolgante. E li também Elena Ferrante e Gonçalo Tavares. A vida pode-se transformar em muitas vidas... Só quem lê compreenderá.

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  6. A ler "Uma caneca de tinta irlandesa" de Flann O´brien. Desconcertante, é o mínimo que posso dizer. Estou a achá-lo muito bom, embora extremamente exigente. Com um sentido de humor cáustico, tem muita ironia e sarcasmo à mistura. Ainda estou a 1/3 se tanto.

    Uma boa semana,

    Rui Miguel Almeida

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  7. Não me levem a mal, mas ando ainda a ler “Gente Feliz Com Lágrimas”, de João de Melo. Aos poucos, que é grande de quase 500 páginas, e, como disse no mês passado, não é fácil – quer dizer: é difícil no bom sentido.
    Mas não é só pela “dificuldade” que tenho feito pausas. O caso é que, pelas (entre outras) razões que há um mês referi, a leitura de algumas passagens deste livro me tem trazido várias vezes ao subconsciente estas palavras: “Um homem não chora”.
    E, de repente, o consciente esclareceu-me que estas palavras são o título de um outro livro, que andará p’raí esquecido.
    De modo que fui à desarrumação procurar a (eventual) secção de Luis de Sttau Monteiro, e não descansei enquanto não encontrei (noutra secção…) este seu romance dos anos 60.
    Pensei que, tantos anos depois, ia relê-lo com outros olhos. Mas, afinal, tive a agradável surpresa de, finalmente, estar a ler pela primeira vez “Um Homem Não Chora” – com a acrescida vantagem de o ler motivado por “Gente Feliz Com Lágrimas”.
    Ainda bem que assim foi. Li-o em dois dias, de rompante.
    A combinação dos dois livros tem muito que se lhe pode dizer – mas não quero abusar deste espaço, prefiro sugerir que façam a experiência.
    … …
    Também doloroso é “A Segunda Guerra Mundial”, de Martin Gilbert.
    Nós temos tido um conhecimento disperso e pontual de muitos episódios, dramas, tragédias que ocorreram naquele conflito. Mas, graças ao recente acesso a muita documentação que estava sob reserva, o historiador Martin Gilbert conta-nos agora muitos mais, e de uma forma cronologicamente ordenada, percebendo-se a evolução, o crescendo do horror, a sua verdadeira dimensão.
    Entendem-se também com mais clareza os fundamentos que moveram os dois principais lados do conflito – o fanatismo obsessivo dos alemães, secundado pelos italianos, japoneses, etc / e a dignidade, o espírito de sacrifício e a rectidão dos ingleses, a que depois se juntaram os norte-americanos. Pelo meio houve, em vários países, muita gente que ficou mal na fotografia...
    … …
    Vá lá que, para aliviar, tive ocasião de ler o bem menos doloroso “A Comédia dos Anjos”, de Adriana Falcão.
    Mas não quero abusar deste espaço, sugiro que leiam, pois vale a pena, e depois falamos.
    Já agora, aproveitem para saborear os deliciosos dicionários de Adriana: “Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento” e “Mania de Explicação”.
    … …
    Para acalmar, tenho andado insistentemente a “reler” Chopin, “Sonata para violoncelo e piano, op 65”, no caso por Pavel Gomziakov e Maria João Pires.

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  8. lendo o pinguim do luís caminha, no kindle. Uma escrita delirante. A escrita no centro de tudo.

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  9. 1984.

    Estava em falta com esta leitura há muitos anos. O Grande Irmão e a política. Já vi isto mais longe....

    A suspirar que a Feira venha para o Porto!

    Beijinhos a todos!

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  10. João J. A. Madeira1 de junho de 2015 às 06:19

    A ler "D. Dinis - A Quem Chamaram o Lavrador" de Cristina Torrão. Belíssimo trabalho de pesquisa e rigor a par de uma ficção bem enquadrada. Muito bom.

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  11. Já tenho vergonha de dizer, mas ando a ler Do Lado de Swann. Comprei-o na feira de 2014 e estebeleci que o leria a tempo de comprar o volume 2 este ano. Isto cumprirei, mas no restante nunca passei da pág. 75 após diversas tentativas interrompidas por muitas outras leituras: as últimas foram Poemas Canhotos e Carta a um Refém, de Saint-Exupery. Cada recomeço obrigava-me a voltar ao início. Entretanto, muito recentemente, resolvi ir anotando o que se passa (?) página a página e algumas das frases mais marcantes, a ver se concluo Combray (Coymbra!), pág 199 salvo erro, durante Junho.

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  12. A ler a tetralogia lusitana de Almeida Faria, comprada há trinta anos. Mais vale tarde do que nunca.

    António Breda Carvalho

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  13. Como tem acontecido nos últimos tempos, leio textos biográficos. Uma biografia da coleção Folio de Michelangelo e um ensaio biográfico sobre André de Toth, realizador húngaro que fez quase todos os seus filmes em Hollywood. Ambos estão muito abaixo da obra-prima que li em abril-maio: Carmen Miranda, de Ruy Castro.

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  14. Diz-nos o Extraordinário Joaquim Jordão que a nova investigação nos tem dado a conhecer melhor a IIGM . Vejo precisamente o contrário: tem aprofundado a sua utilização no condicionamento psicológico dos cidadãos. Neste caso com êxito, pois fá-lo ver dessa forma "os dois principais lados do conflito", fazendo desaparecer da realidade histórica o lado que derrotou o exército nazi.
    A minha visão não coloca os ingleses nesse plano. Atente-se em 4 momentos: dois 1.ºs ministros ingleses deslocaram-se a Munique quando o formidável exército alemão estava em adiantado estado de formação e regressaram a Londres garantindo à assustada opinião pública que o que Hitler estava a construir não era para atacar a Inglaterra; todas as infraestruturas que a Alemanha construiu previamente - autoestradas , campos de concentração, campos de extermínio - fê-lo a leste; a marcha do exército alemão em direção ao objetivo passou pela ocupação da Áustria e da Checoslováquia, indispensáveis para alcançar a Ucrânia, e isso ocorreu com o apoio tácito da Inglaterra; no momento em que a Alemanha submetia a Polónia, parecendo que afinal estava a fazer algo diferente do previsto, mesmo aí Churchill ainda teve tempo para declarar que "Hitler tinha que explicar o que estava a fazer ali". Só a partir de então a posição mudou (que remédio!).
    O mérito dos ingleses (e persistência de Churchill) foi atrair os EUA para a guerra, onde vieram a ser decisivos no Pacífico e no Norte de África.
    Infelizmente também vejo viciação de dados na análise da mãe desta guerra, a IGM . A Alemanha ascendera ao clube das grandes potências e como tal exigia colónias e não lho permitiam (já não as havia para distribuir, a não ser que fossem retiradas a outros, e aí entrou Portugal e o seu desgraçado corpo de exército que foi morrer na Flandres). Explorou todas as situações para fazer deflagrar a guerra e assim consegui-las. Vejam em que ponto os analistas colocam este dado fundamental.
    Não esperava derivar para este assunto quando "o que ando a ler" é um ensaio de G. Duby sobre o desenvolvimento da arte por influência cistercience .

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    1. Grato pelo seu contributo.
      Em todo o caso, fica claro que, como eu intuitivamente refiro, a informação que, pelas diversas vias (cinema, etc) chega ao cidadão comum (como eu), é incompleta, parcial, possivelmente manipulada e, como tal, geradora de mitos.
      Ainda assim, vá lá que Churchill se apercebeu a tempo do logro em que, sem eu saber, estava a meter-se, e – como reconhece – agiu em conformidade.
      O que nunca tinha visto referido é esse outro aspecto que indica – a I Guerra mãe da II, o desejo alemão de ter colónias, como as outras potências.
      Quer dizer, portanto, que as colónias no Brasil, África do Sul, etc, são fruto da I Guerra?... Essa tinha-me escapado… E quem diz a mim… Sempre pensei que a colonização alemã vinha do séc. XIX…
      Se é como diz, calculo que este aspecto ainda possa vir a dar muito que falar.
      Certo é que – atenta a complexidade do que aconteceu e, feitas bem as contas, o curto tempo histórico que por enquanto decorreu – ainda muito haveremos de vir a saber. Graças a contributos como este seu.

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  15. Estou a ler "Perguntem a Sarah Gross", de João Pinto Coelho. Muito bem escrito, com excelentes diálogos, intensamente cinematográfico, com personagens muito bem caracterizadas. Excelente surpresa. Recomendo vivamente!

    E O Meteorologista não me vai escapar: fiquei deveras interessada.

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  16. Extraordinário Joaquim Jordão
    O assunto não se resume a Churchill evidentemente mas trata-se de uma figura que precisa de ser retirada do mito e submetida a crítica. É muito difícil fazê-lo pois não conheço outra que beneficie de tão boa imprensa.

    Como responsável pelas operações militares da batalha de Gallipoli (Turquia - IGM ) foi o causador de uma pesada derrota e de grandes perdas humanas; como membro do governo quando da IGM foi o principal instigador da entrada da Inglaterra na guerra, como os alemães tanto desejavam; e agora, mais no âmbito daquilo de que nos ocupamos diariamente, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura.


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