Livro deitado

Há livros que chamam por nós, apesar de não serem para a nossa idade. Foi o que se passou comigo recentemente com A Cantora Deitada, de Sandro William Junqueira (autor de um romance de que já aqui falei, Um Piano para Cavalos Altos); mas não por conhecer o nome do escritor de outras literaturas, antes porque a capa, que abaixo reproduzo, da grande Maria João Lima, é um assobio todo virado para quem a olha. Gosto de meias às riscas e os sapatinhos de presilha transportam-me logo para festas de infância, mas a ilustração, acredito, tem o mesmo efeito sobre quem já cresceu a usar ténis ou alpergatas. E, aberto o livro, ele está deitado, como, aliás, a protagonista, Alice, que se deita na esquina de uma cidade e desata a cantar, crente de que, se o fizer de pé, como a maioria das outras pessoas, a canção que lhe sai da garganta cairá ao chão, não podendo chegar aos ouvidos dos pássaros. O resto não posso contar, que o livro é mais ilustração do que história, mas há aqui um casamento muito feliz entre imagem e texto, qualquer coisa que, enfim, sabe chamar por nós, obrigar-nos a parar um instante e... ler. E isso, num livro para crianças, é fundamental. E, se é para crianças e os adultos gostam, cinco estrelas! Parabéns aos autores.


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Comentários

  1. Um livro deitado requer uma estante deitada?
    A capa é bonita e naturalmente apelativa. Faz-me lembrar as pernocas da Pippi das Meias Altas ou, se preferirem, a Pippi Meialonga (como se diz no Brasil), pois talvez o acordo "hortográfico" também queira incluir estas "nuances".

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  2. Sandro William Junqueira foi das descobertas mais surpreendentes e mais arrebatadoras que a literatura portuguesa contemporânea me proporcionou.

    O prazer de ler a obra toda do autor deu-me a conhecer uma voz única que se ouve na perfeição de cada frase, capaz de misturar o onírico e o real, a profundidade e a vertigem, preocupada em juntar ao serviço estético da criação um compromisso ético de intervenção. Não se sai inteiro depois de ler um dos seus romances, mas a sensação de arrebatamento com que se fica após o transe faz-nos sentir seres humanos mais completos. Estas são as razões pelas quais considero que a crítica e os responsáveis pela cultura do nosso país (porque o Sandro também tem uma ligação muito forte ao teatro) lhe deveriam render mais atenção.

    Carrego muitas expectativas relativamente a este livro. Faço votos para que traga ao Sandro William Junqueira o lugar de destaque que ele merece na literatura portuguesa.

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    1. Nunca li tal autor, mas o transe literário também não me apetece:)).
      Isso é que foi uma experiência...

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    2. Se decidir ler alguma coisa escrita pelo Sandro William Junqueira, aconselho o «Um Piano para Cavalos Altos», Beatriz. Mesmo que o transe não aconteça, mesmo que não haja êxtase literário, vai ver que cada linha valerá o tempo que nela se demora.

      Cumprimentos.

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    3. Obrigada:)

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  3. Hoje faz-se literatura infantil de qualidade. E a ilustração ganhou novas dimensões, o que leva a que os bons livros sejam, tanta vez, casamentos felizes de palavras e cores desenhadas. E eu que gasto tempo a ver a Snow White e sou adulta e isso, não me inclino nem um pouco para a literatura das crianças.

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  4. Nem de propósito, Junqueira escreveu hoje no DN um texto bonito, quase comovente, sobre como viveu, na qualidade de sportinguista, a inexplicável vitória do passado domingo: é que, tendo sido dos que desistiu a meio da peleja televisiva por descrença, não viu o desfecho e, pior, impediu o filho de o saborear, antecipando uma qualquer viagem em família por alguns minutos. Declarava assim humildemente o seu falhanço pessoal, não obstante a épica vitória da cor. Talvez assim, espero eu no entanto, fique um sabor mais épico na memória de ambos, porque para quem assistiu ao emocionante transe com um olhar mais descomprometido, pareceu apenas um simples acidente: o céu desabou sobre o estádio nos minutos derradeiros, quando todos davam o assunto por arrumado, apardalando ambos os contendores. Só que a bola, finalmente livre, ressaltou caprichosamente para a baliza dos de Braga beneficiando os de Lisboa. Todos se mostraram surpreendidos, e só depois celebraram vitória ou choraram derrota.
    E acrescento também que o DN está hoje muito bonito, com ilustrações em vez de fotografias e, já agora, que escrevi o presente comentário de acordo com o Acordo - mas isso não se nota, nem tem nada a ver - e com a mais rigorosa equidistância face aos dois referidos contendores, sem sofrer qualquer contaminação por alguma das outras cores habituais nestas discussões mais prosaicas, a saber benfiquistas e portistas, cujo amor também não partilho.

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    1. Li o post com interesse moderado e estava a ler os comentários pensando nas melhores técnicas para cantar (explico já), quando tropecei na sua expressão «na qualidade de sportinguista». E, de repente, na minha qualidade de leoa, Sandro William Junqueira assomou-se-me bem mais interessante ;)
      Mas foi imperdoável impedir o filho de saborear a vitória. E ainda que o Sporting tivesse perdido, o jogo era para ver até ao fim, consolando-se ele e o filho mutuamente, na derrota. Os momentos tristes fazem parte da vida e são para viver na sua intensidade, assim como os momentos felizes. A dois (ou a três, ou quatro, etc.) é muito mais fácil e/ou divertido. Principalmente, estando o nosso clube do coração em causa.

      E, bem, agora vamos às técnicas de canto. Pertenci durante vários anos a um coro e posso afiançar que a melhor posição para cantar é de pé. Qualquer cantor clássico (de ópera), o confirma. Por isso, fico bastante desiludida quando vejo um cantor famoso e/ou considerado nos melhores círculos a cantar sentado, tentando mostrar descontração e familiaridade, com a sua guitarra. O diafragma tem de estar livre, não dobrado, para se poder usar todo o potencial da voz.
      Deitada... Bem, não sei. Só mesmo para transmitir a poesia e o simbolismo de um enredo ;)

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    2. Tenho o livro, tenho o livro, tenho o livro e é lindo! Parabéns ao seu autor.
      Isabel

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  5. Soube agora, pelo Facebook, que o sportinguista Sandro William Junqueira é Caranguejo como eu. Já são duas coisas em comum. O que se seguirá?

    Acho que também vou começar a cantar deitada...
    (com uma ajudinha nossa anfitriã, até ia...)

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