Ler é sexy

Uma vez convidaram-me para ir à Feira do Livro de Guadalajara, no México, e foi na sessão inaugural que ouvi Vargas Llosa dizer que se tornou leitor (e mais tarde escritor) porque teve uma infância difícil (a mãe, de quem ele era muito próximo, casou-se pela segunda vez e pô-lo num colégio interno porque ele e o padrasto se davam mal). A leitura permite-nos, de facto, ter outras vidas ou identificar as ficcionadas com a nossa (numa espécie de psicoterapia) e isso torna-nos mais flexíveis e compreensivos com os outros, ou seja, melhora as nossas relações sociais, até porque, como disse algures Shopenhauer, «ler significa pensar com uma cabeça alheia» – e, pondo-nos no lugar do outro, tornamo-nos menos egocêntricos. Leio num artigo de jornal que, por esta e outras razões, devemos tentar incutir o gosto da leitura nas crianças o mais cedo possível, incluindo porque a estrutura de uma história introduz conceitos como o da sequência de acontecimentos e a relação de causa-efeito e desenvolve a atenção – além de aumentar o conhecimento e o vocabulário e de ser uma actividade relaxante (ao que parece, é também por isso que muita gente acaba por adormecer a ler na cama). O que não sabia era que ler também era sexy... Diz o mesmo artigo que as estatísticas mostram que as pessoas que lêem são mais inteligentes e cultas, manejam melhor a língua, têm uma inteligência emocional mais desenvolvida, são mais compreensivas e que todos esses factores atraem os outros, inclusive sexualmente. E esta, hã? Este argumento pode convencer muitos fracos leitores, não?

Comentários

  1. António Luiz Pacheco15 de junho de 2015 às 02:36

    Hum... é capaz de ser verdade!

    Aquela história de as mulheres gostarem de gajos intelectuais e isso... deve haver alguma verdade nesse mito.

    Quanto ao que a Nossa Extraordinária Anfitriã cita acerca do tal resultado (sexo àparte) creio que quem lê sistemáticamente adquire essas qualidades sim, pois exercita a mente e se cultiva nos aspectos referidos.

    Saudações com isso tudo cá da Cidade Morena

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  2. Oh, não acredito. Apesar de serem muitos e bons argumentos, o mais longe que algumas pessoas que não lêem chegam é a carregar um livro debaixo do braço. Pela sua natureza - tempo despendido, atenção requerida, repetição mais ou menos continuada da actividade - a leitura, mesmo com tanto benefício, torna-se uma actividade sempre adiada no mundo da imediatez. O que liga os homens à leitura é mais da ordem do sentimento que da utilidade. Gosto de pensar num gosto que não é para nada, que é por ser gosto. E aí, permanece. É quase indestrutível.

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    1. António Luiz Pacheco15 de junho de 2015 às 03:58

      Bom dia Estimada Beatriz!

      Permita-me uma pequena discordância sobre a sua interpretação (e cito) : "O que liga os homens à leitura é mais da ordem do sentimento que da utilidade. "

      Olhe que eu diria o contrário... hoje lê-se mais por necessidade útil (informação) de que por outras razões. O meu caso parece-me exemplificativo: embora adore ler, actualmente leio muito mais por razões de necessidade de saber e investigar em termos de utilidade profissional do que pelo puro gozo, se bem que também obtenha prazer da leitura de livros técnicos. Neste momento há em Angola um surto de febre aftosa (doença dos bovinos) tem sido o tema da minha leitura e pesquisa nos últimos dias.
      Impossível ter na cabeça tudo aquilo para que sou solicitado e recorro por isso à leitura técnica.

      Também me parece haver sentido no demais que a nossa Extraordinária Anfitriã trouxe aqui hoje, embora não que me sinta superior porque leio!
      Mas tal como a prática no ginásio, o exercício da mente pela leitura tem de produzir algum efeito... seja no domínio da linguagem seja noutras vertentes das referidas.

      Saudações Extraordinárias cá da Cidade Morena!

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    2. Talvez eu não me tenha expressado de forma muito clara. Admito que a leitura por necessidade, laboral ou de outra natureza, existe (essa é a que, na maioria dos casos, não pode mesmo deixar de existir), mas o gosto pela leitura - romance, poesia, ensaio... lidos porque sim e em tempo que se faz livre - não advém do mundo da necessidade. Era o que referia.

      Concordo que podehaver razão nos motivos apresentados, acredito medianamente no valor dos estudos que se fazem (desconfio do valor de alguns, é verdade). Disse que quem não lê, não é por existirem motivos para, que vai passar a ler (até porque, não lendo, é mais difícil saber que eles existem).
      Tudo que é verdadeiro e de continuidade é interno ou tem esse princípio (o filósofo tinha razão, não se dá vista a olhos cegos). Mantenho, criar o gosto, puxar por ele, faz falta; ainda que eu não saiba como.
      As leituras técnicas podem, não havendo gosto formado, prejudicar e mesmo inibir as outras. Sei bem que não é o seu caso:)

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    3. António Luiz Pacheco15 de junho de 2015 às 09:59

      Compreendi-te ... (sic Rufino Fino, canalizador, in O Pátio das Cantigas).

      Eheheh!

      Fora de brincadeiras, compreendi agora melhor o que que diz dizer, e parece-me que o filósofo estava certo.

      Mas deixo ainda uma questão, se ler por mero prazer não será também e afinal uma necessidade?

      E creia que lhe dou ainda inteira razão quando diz que a leitura técnica inibe a outra, sobretudo no meu presente caso, infelizmente!!!! Mas trata-se sei que é uma situação anómala e circunstancial

      Saudações filolivrescas (existe?) cá da Morena Cidade!

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  3. A minha mãe nunca me internou :) mas a minha vida social era um desastre: gorda, caixa-de-óculos, desportivamente apta apenas para segurar a corda de saltar ou o elástico, sem jeitinho algum para desenho, trabalhos manuais ou quejandos... tudo isto contribuiu IMENSO para arranjar novos amigos nos livros, amigos que mantive até hoje e não vejo forma de estragar a amizade.

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    1. Bom...eu era mais ou menos igual mas na versão trinca espinhas e sem óculos:) e não me parece que tenha sido esse o motivo por que comecei a ler. A leitura foi uma descoberta que me entusiasmou qb. Não me lembro de querer conhecer o mundo pelos livros, a falar verdade pouco entendia do que lia. Eu gostava mesmo era de ler. Formar palavras e frases. Ler um artigo de alto a baixo, uma espécie de música com palavras a sair cá de dentro ainda que estivesse fora. Isso sim, era o que achava extraordinário. Quando cheguei aos romances esparveci. Uma forma de estar não estando que não nos abandona. Dura. É coisa de valor.

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  4. A leitura até pode ser uma espécie de psicoterapia, agora tornar os leitores (de uma maneira geral) menos egocêntricos? Custa-me a acreditar...

    Por outro lado, a leitura também pode causar traumas, ou pelo menos, ser motivo para tristezas e pensamentos desagradáveis, por exemplo, para crianças que leem livros não adequados à sua idade e se veem confrontadas com problemas que até para os adultos são difíceis de aceitar e/ou de resolver. Aí, claro, apela-se ao bom senso dos pais/educadores.

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    1. hummm...em criança, todos os livros que li não eram para a minha idade. Devo estar cheia de problemas e não dei por isso:)), bem que a minha mãe me dizia isso mesmo, mas não havia outros. Porém, ler é sempre preferível a não ler.

      Também é verdade que os que eu não deveria mesmo ler, não existiam em minha casa. Hoje as crianças estão muito mais expostas e nem faço ideia de como podem ser acompanhadas. A net é um mundo perigoso e ao alcance de qualquer dedo perguntador.

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    2. Beatriz, depende muito das crianças e dos livros. Nem todos os livros inadequados para uma determinada idade são suscetíveis de traumatizar. E as crianças também reagem de maneira diferente a determinado estímulo ou experiência. Não cometamos o erro de medirmos tudo pela nossa medida ;)

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  5. Acredito verdadeiramente no poder dos livros. Mesmo que não trouxessem qualquer tipo de mais valia... Quem lê, sente a diferença, mais tarde ou mais cedo, disso não tenho qualquer dúvida.

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  6. Depende das leituras, dos livros que se lê, não é? Transcrevo a frase:

    (...) Diz o mesmo artigo que as estatísticas mostram que as pessoas que lêem são mais inteligentes e cultas, manejam melhor a língua, têm uma inteligência emocional mais desenvolvida, são mais compreensivas e que todos esses factores atraem os outros, inclusive sexualmente. (...)

    Acho interessante, numa vertente analítica. Contudo, digo novamente: depende do que se lê. E há pessoas que só lêem coisas horripilantes que a nada, mesmo a nada conduzem. E ainda pior quando esses textos, desses tais livros, apresentem um ar inócuo. Isso, então, ainda é pior. Há pessoas que começaram a ler tardiamente e que, infelizmente, só lhes são apresentados livros de literatura grau zero.
    Sexys? Ai senhores!

    Cristina Carvalho

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    1. Não depende só da natureza do que se lê. Depende e muito de quem lê. O melhor livro escorrega em alguns espíritos porque a mesma coisa é apreciada diferentemente por diferentes pessoas.

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    2. Ora bem, está a ver? Com as crianças é a "mesmíssima" coisa :)

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  7. É que não imagino mesmo alguém a dizer de si para si: - Ora deixa-me cá ler este livro, a ver se me torno mais sexy.

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    1. :)) até porque isso de ser sexy eu nem sei bem o que seja. Antigamente, no tempo em que não pensava nisso, achava que era andar por aí de minissaia ou assim e estava o assunto arrumado. Mas hoje, garantidamente, não há-de ser. Uma vez li num livro que um homem se sentia incentivado pelas axilas não depiladas duma mulher, os seus cabelos ásperos, a dureza da pele. Sexy deve ser isto, porque eu se fosse homem não lhe encontraria gracinha nenhuma - no caso de continuar a pensar como mulher, o que provavelmente não sucedia.

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  8. Que espampanante conclusão!

    Reconheço os múltiplos beneficios que a leitura de lazer nos traz, inclusive, a nível profissional.

    Se começarmos a ler por lazer, depois fazer a transição para as leituras escolares, antes de iniciarmos uma vida profissional, a apetência por procurar aprofundar os assuntos, a maior facilidade em compreender, em interpretar, e sobretudo uma maior capacidade em organizar as ideias e refleti-las na escrita vem ao de cima.

    Para além, do enorme prazer que é ler, apreciar, descobrir, sonhar, viajar, eu sei lá!

    Agora acreditar que ler é sexy!
    Que ideia peregrina!
    É o que eu acho...

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  9. Pode-se dizer tudo sobre tudo, até mesmo sobre leitura...

    E como hoje tudo pode ser "sexy". :)

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