Fugir da infância

Dizem que todos somos marcados pela infância que tivemos – e isso é mais do que certo para José, o protagonista de O Caçador do Verão, o novo romance de Hugo Gonçalves (publicado cerca de dois anos depois do aclamado Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo). José nasceu e cresceu no seio de uma família um tanto desequilibrada – e, mesmo que o tente, não poderá esquecer aquele Verão em que a mãe o deixou numa aldeia algarvia em casa de uma desconhecida e se foi embora com um namorado para Espanha. Valeu ao rapaz a companhia de um trio de irmãos muito singular (e que são das melhores personagens do romance), estar no epicentro de uma aventura aliciante – a fuga da prisão uma perigosa quadrilha – e, por fim, ter um avô com a cabeça no lugar, que o vai recuperar ao fim de umas semanas e se portará doravante como seu pai. José, hoje quarentão e sem mãe, quer – por todas as razões – fugir a estas memórias magoadas, mas não consegue: o avô, com quem não fala há anos, convoca-o para uma reunião no lar onde vive. Afinal, que lhe quererá? Pois, é preciso chegar à última página para o saber... História séria mas com bons momentos de humor, triste mas com uma alegria muito terna, O Caçador do Verão é também um regresso a um certo Portugal que queria ser europeu, desconhecendo ainda o que isso tinha de perigoso.


Casa_Letras_9789897412806_o_cacador_do_verao.jpg

Comentários

  1. Estive com este livro à vista, nas prateleiras da FNAC, e não peguei nele. Tinha recebido dois dias antes as novidades que a Bertrand envia para o meu e-mail e apenas um factor me levou (não venham os puristas dizer levou-me, porque é "me levou") a desinteressar do livro.
    Estes pequenos pormenores, que são insignificantes na aparência, podem levar à rejeição liminar de uma obra. No caso, foi a leitura da sinopse editorial que aponta o nome do chefe do bando - Mancha Negra.
    Que coisa mais esquisita! Para além de não ser inédito em termos literários, faz-me lembrar uma personagem Disney ou, na melhor (ou pior) das hipóteses, aqueles bandoleiros do séc. XIX, como o Caca, o Remexido, o Espadagão e outros que tais.
    Há qualquer coisa de neo-realismo nesta obra.
    Quando me passar a veneta, adquiri-lo-ei para "passar" á leitura.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Atenção - "à leitura" e não "á leitura".
      Tenho de passar a verificar a ortografia através da
      placa esquerda da caixa de comentários.

      Eliminar
    2. Um purista nunca corrigiria o correcto: "apenas me levou", claro. "Apenas levou-me é que seria erro", embora se oiça muito construções dessas por cá, talvez por influência do português brasileiro das telenovelas.

      J.

      Eliminar
    3. Aspas fechadas demasiado tarde, claro...

      J.

      Eliminar
    4. Caríssimo,

      A quadrilha é real e fugiu mesmo da cadeia nos anos 1980. O autor está a relatar factos, não a inventar. Se quiser, pode procurar jornais da época e confirmar.

      Boa leitura!

      Eliminar
    5. Agradeço esta informação, Maria do Rosário. Um ponto essencial a favor do escritor, no meu entender. Na próxima surtida à livraria, passo com esta obra pela registadora.
      Confesso que durante anos trabalhei em casos de criminosos e bandoleiros portugueses, que publiquei regularmente num semanário (à compita com o Inspector Varatojo) e nunca deparei com este Mancha. Daí ter julgado - erradamente - que se tratava de personagem criada e baptizada pelo Autor. As minhas desculpas a ambos.
      Na pesquisa que fiz, hoje mesmo, pela net, encontrei esta casualidade num sítio brasileiro:

      "Na noite de quinta-feira 12/09/13, um jovem de 17 anos, Felipe Barbosa Nunes, foi morto a tiros no parque Ceci Cunha, área central do município de Arapiraca. Ele era torcedor do ASA; era também membro da torcida Mancha Negra e funcionário de uma loja de celular."

      É evidente que este trecho nada tem a ver com o assunto, mas achei piada à associação entre "torcedor do ASA" e à "torcida Mancha Negra".

      Do mancha Negra evadido, ainda nada encontrei, o que me levará a mais tentativas de busca através de outros meios.

      Eliminar
    6. António Luiz Pacheco12 de junho de 2015 às 11:12

      Não sou perito na matéria, mas, o famoso bando que fugiu da cadeia nessa época e ganhou notoriedade, não era a quadrilha dos Cavaco?

      Não, acho que não tinha a ver com o Sr. Silva que presentemente ocupa Belém... são de bandos diferentes.

      Saudações quadrilheiras cá da Cidade Morena!

      Eliminar
  2. Por falar em infância, queria chamar a atenção para o texto do Álvaro da Horta, publicado ontem no Sed Contra e que promete escandalizar mesmo os que não são dados a escandalizar-se, sobre o enormíssimo poeta falecido há poucas semanas e que tanto fez pela poesia em Portugal nas últimas décadas, mais concretamente ao impelir gerações e gerações de epígonos a levar mais longe os disparates a que se dedicou.

    http://www.sed5contra.blogspot.pt/2015/06/sed-contra-crianca-tolinha-1.html

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. As primeiras linhas:

      "Quando um poeta falece, os poetas que ainda não faleceram têm por hábito elogiar muito a poesia do falecido. O mesmo não acontece com a classe dos padeiros ou, para não se dizer que comparo injustamente, com a classe dos larápios. Tal como seria bizarro que um padeiro que ainda não faleceu elogiasse as carcaças de um padeiro acabado de falecer, é pouco provável que haja larápio que, presente nas cerimónias fúnebres do larápio falecido, se lembre de elogiá-lo antes de se lembrar de lhe larapiar o que quer que lhe tenham posto nas algibeiras do fato com que vai para a cova. O fenómeno é certamente explicável, mas seria decepcionante se, votando-me agora às manhas da sociologia para demonstrar que faz parte da vocação de poeta elogiar outros poetas, deixasse de lado o caso particular do poeta que deveras faleceu há dias e cuja poesia foi elogiada por todos ou quase todos os poetas que, por razões que cabe aos deuses explicar, ainda não faleceram. Que a poesia de Herberto Helder não merece os elogios que recebeu, e que os poetas que o elogiam não merecem, portanto, senão a consolação de ainda não terem falecido como ele, eis o que a análise tratará de mostrar de seguida. Correndo o risco de estragar a surpresa que o título, tendencioso como qualquer título, talvez tenha estragado antecipadamente, nenhuns desses elogios são merecidos porque, apesar de o considerarem poeta, melhor o consideraria quem o considerasse uma criança tolinha. Para não maçar excessivamente quem leia, e porque revela o que há a revelar de uma criança tolinha que acabou laureada a demonstração das tolices de criança por que se destaca, das tolices púberes que lhe formaram o carácter e das tolices adultas com que se explica o resto da sua existência, divido a análise em três textos, cada um demonstrativo de cada um destes três géneros de tolice. Importa ainda avisar, não vá alguém queixar-se de ter sido enganado ao descer do pano do que ficar dito, que, sempre que chamar o poeta falecido ao palco para mostrar o que sabe fazer, assim iluminando o que afirmo através da ribalta da citação, me reportarei sobretudo à sua poesia inicial. Para o efeito, ela me chega. Quem achar, porém, que a parte da obra assim aclarada não representa o todo da obra do poeta, achando em propô-lo a má vontade ou a vilania de quem o propõe, não deve esquecer-se de que aquele que, por deformidade original, dá em nascer coxo a vida inteira passa a coxear. Em vez de tentar provar-se atleta, melhor faria tal coxo, de resto, se respeitasse o exemplo dado por quem assim nasceu e pusesse o empenho em “provar-se vilão”. Mereceria com certeza outras palmas. (...)"

      Eliminar
    2. Não li todo o texto do link e Nem me parece que mereça apesar de - até onde li - estar bem escrito, mas a forma não é tudo. Julgo que o autor não só não é poeta como se desentende do que é poesia. Não lhe aceito a pretensa crítica e à babugem não se responde.

      Herberto Helder não é um dos poetas da minha preferência. Mas é um bom poeta. Enquanto poeta, É. Que a poesia não falece.

      Eliminar
    3. Beatriz, não aceita a crítica por alguma razão em especial ou é só por considerar que o HH é um bom poeta e o texto dizer o contrário? É que o Álvaro da Horta dá argumentos para considerar que não é...

      Eliminar
    4. Em primeiro lugar é pelo que afirmei, - li só duas páginas - do que li, pareceu-me que não existe um claro olho e pensamento poético em quem critica. Sem isso, de que serve escrever bem e apresentar bem os argumentos?! Ainda não reparou que os melhores críticos de poesia são geralmente, outros poetas? funciona um bocadinho como com os filósofos, não é necessário fazer-se história da filosofia para se ser filósofo, mas muitos fazem-na. E quem melhor que eles?!

      É que não existem apenas para escrever os seus poemas e tenho por certo que não os escrevem como afirma o autor do texto. E também duvido que o público que os lê seja todo assim tão palerma em relação aos poetas. A poesia não é para todos, mas quem a lê não apenas a encontra, vai em demanda dela. Mas não se bebe tudo que é líquido só porque temos sede. O mais certo é que se opte por água ou bebida que a incorpore.

      Na verdade, e ao contrário do que afirma, acho que o texto não tem chão que o segure.

      Não acolito missas sobre HH:), concordo que saltam todos os gatos pintados a elogiar o morto (tb fica mal fazer o contrário). E sim, não aceito que alguém com conhecimento de poesia diga que HH é mau poeta. É sintoma de que alguma coisa falha, porque quem conhece não pode, em consciência, fazer tal afirmação - pode, mas é falsa.

      Eliminar
    5. Vejam lá se se entendem a respeito da poesia, que o assunto já anda a ser tratado ao mais alto nível. Como aqui referi há poucos dias, o próprio Passos Coelho declara ao pagode que precisamos de poesia como de papos-de-anjo para a boca (cf Expresso on-line de 10 junho).
      Isto, provavelmente, porque o terão advertido da seguinte passagem de Herberto Hélder:

      «(...)
      E já nenhum poder destrói o poema.
      Insustentável, único,
      invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
      a miséria dos minutos,
      a força sustida das coisas,
      a redonda e livre harmonia do mundo.
      (...)»

      Para acautelar que o poder continue a ser capaz de destruir o poema, o mágico Passos vai tirando uns Coelhos da cartola e assim iludindo o pagode.
      Mas atenção, pois que, como nos adverte Álvaro da Horta, a tarefa de um mágico é enganar quem se dispõe a ser enganado.
      Portanto, pelo sim pelo não, é melhor defendermos o poema – fazer com que ele continue a invadir a miséria dos minutos, a redonda e livre harmonia do mundo.

      Eliminar
    6. O nível poético de PC nem na aparência é alto. E quando indivíduos como ele tratam de poesia não sei se é de poesia que tratam. As palavras são todas as mesmas, mas não têm em todas as bocas a mesma força; em algumas, soam a escárnio.

      O senhor da Horta tem razão quanto aos mágicos e à aceitação da magia de circo, mas talvez fosse melhor ir regar e plantar. Enfim, tratar da Horta.

      Que a poesia é magia bastante, do melhor quilate e acompanha mal com a demagogia.

      Eliminar
    7. E por falar em política e poesia, faz hoje 10 anos que morreu Eugénio de Andrade, um poeta que me é muito querido.
      Álvaro Cunhal, que também morreu nesse dia, é hoje capa de um grande jornal. Será que o Eugénio vai ter direito a umas míseras linhas e a uma fotografia pequenita no interior desse ou de outro jornal?
      Duvido...
      Antonieta

      Eliminar
    8. A Beatriz parte de vários preconceitos ou deformações de pensamento: 1) que a Poesia é uma coisa especial, mágica, não havendo, portanto, argumentos que lhe demonstrem as deficiências; 2) que a poesia de HH é boa porque sim; 3) que os melhores críticos são outros poetas. Deixe-me falar de cada um destes preconceitos.

      1) a poesia só é a coisa especial que a Beatriz pensa que é na cabecinha de quem não sabe o que é poesia. Reconheço que é a esmagadora maioria de quem lê poesia. O que o texto do Álvaro da Horta em parte mostra é que presumir que a poesia é livre de racionalidade e não admite argumentação é presumir que é parecida com uma birra de criança. E aí está certo. Se a poesia não aceita argumentação, tudo vale. E aí HH é tão bom poeta como Jaime Pacheco.

      2) dizer que a poesia de HH é boa e não admitir qualquer argumento em contrário à partida é um preconceito de tal ordem que só consigo compará-lo ao preconceito com que as pessoas reagiram à notícia de que a Terra afinal girava à volta do Sol ou de que o homem afinal descendia de outros mamíferos. Não ter lido o texto até ao fim, não querendo sequer saber das razões pelas quais o Álvaro da Horta defende o que defende apenas denuncia o preconceito da Beatriz.

      3) os melhores críticos são aqueles que fazem boa crítica. Acontece que, hoje em dia, sobretudo por uma questão de mercado, são os outros poetas que fazem crítica. Geralmente dizem bem porque o poeta de que estão a falar ou já fez uma crítica positiva a uma obra desse crítico ou é possível que ainda venha a fazer. Não dizem nada de interessante; falam vagamente, apontam ou outro aspecto pouco específico e está feito. Isso não é fazer crítica a sério. A crítica de poesia é, em termos gerais, tão má ou pior do que a poesia, por essa razão. De resto, é simplesmente mentira que os melhores críticos sejam poetas. Basta saber um pouco de História da Crítica Literária para saber que isso não é verdade.

      O Álvaro da Horta parece pouco preocupado com isso, mas a mim aborrece-me que as pessoas sejam preconceituosas a este ponto. Formaram uma ideia acerca do que é a Poesia e nem sequer admitem a possibilidade de ser outra coisa. A melhor maneira que tenho para mostrar a essas pessoas que estão enganadas é com argumentos, mas, como o preconceito se edifica em torno de uma ideia de poesia que nem sequer admite argumentação, a conversa está perdida desde o início. É lamentável, mas é assim. Resta aceitar a diferença, como aliás o Álvaro da Horta, de algum modo condescendendo, aceita que HH seja a criança tolinha que é.

      Eliminar
    9. "...na cabecinha de quem não sabe o que é poesia." Presumo, portanto, que o Francisco Lacerda sabe o que é a poesia. Que tal dar-nos a sua definição, em termos tão acessíveis que as nossas fracas cabecinhas entendam? Ah, e não vale mandar estudar, que eu fiz Teoria da Literatura. Com grande mestra.
      JCC

      Eliminar
    10. Prezado Francisco

      Antes de mais peço que me desculpe por insistir no assunto que o meu caro, a pretexto de “por falar em infância”, trouxe aqui à colação.

      Deixe, por favor, que lhe dê as minhas coordenadas, por modo a que possa melhor entender a questão que lhe trago: – não sou por aí além entendido em poesia; não leio livros de poesia; esta cruza-se comigo, aqui e ali, e perante a que assim se me apresenta funciona apenas a minha intuição, pois que não tenho melhores instrumentos a que possa recorrer; quando a intuição me dá um alerta, faço copy paste para uma pasta de ficheiros intitulada ”Versos Escolhidos a Dedo”; a essa pasta foram parar (até agora) apenas três poemas de Herberto Helder; foi de um deles, intitulado “Sobre Um Poema”, que retirei o extracto com que ilustrei o meu comentário aí atrás; os outros dois poemas de Herberto que a minha intuição me mandou guardar intitulam-se “Como Se Atira o Dardo Com o Corpo Todo” e “Não Sei Como Dizer-te”.

      Nem sei como dizer-lhe, de tão pouco entendido que sou nesta matéria, mas gostaria de, por seu intermédio, solicitar a Álvaro da Horta que – “por falar em infância” – analisasse estes três poemas com os mesmos instrumentos de pedo-psicologia que utiliza no texto que o Francisco nos recomendou.

      É que, diz-me a intuição, Álvaro concluirá que a obra de Herberto não é constituída apenas por aqueles versos “de criança tolinha” a cuja profunda análise se dedica.
      Palpita-me que, como naturalmente na obra de qualquer outro autor, no meio das muitas e variadas experiências feitas ao longo da carreira, haverá sempre uma ou outra peça mais amadurecida, mais “adulta”, mais estimulante e mais despertadora das intuições – diria das esperanças – de quem com elas se cruza.

      Pois bem: diz-me a intuição que são essas as que devem ser tidas em conta, porque existem, fazem parte, são o melhor resultado de muitas outras menos conseguidas, por isso não podemos ignorá-las, mas sim valorizá-las – sob pena de admitirmos que elas acabem por, no meio da confusão, nos serem servidas como meros “papos de anjo” pelos altos poderes da Cultura que agora começam a proclamar que, para acalmar, “precisamos de poesia”.

      É que, meus caros Francisco e Álvaro, diz-me a intuição que com papos e bolos se acalmam e enganam os tolos...

      Eliminar
    11. Caro JCC,

      O que disse foi que as pessoas que acham que a poesia é magia, que é qualquer coisa instintiva, que sai directamente da alma, e que, por isso, não se explica, não sabem o que é poesia. Posso não oferecer uma definição completa do que é, mas posso garantir-lhe que é tão racional como outra actividade humana qualquer. As pessoas que deram em elevar a Poesia à mais digna das actividades do Homem é que precisam de achar que a Poesia é outra coisa. Não é. É uma prática artística específica, aliás com uma tradição muito grande que a define e de algum modo lhe confere especificidade. E é essa tradição que, ainda que admita alguma flexibilidade, impõe que nem tudo possa ser poesia. Um poema escrito ao calhas, há-de convir, qualquer um pode fazer. Se o Álvaro da Horta tiver razão e o HH escrever versos ao calhas, então é tão poeta como outra pessoa qualquer. E é esse, parece-me, o argumento central do texto: a poesia não pode ser feita ao calhas, como a faria uma criança tolinha.

      Já agora, quem é a grande mestra de que fala? Até tenho medo de perguntar...

      Eliminar
    12. Caro Joaquim Jordão,

      Como o Álvaro da Horta explica no primeiro parágrafo do texto que citei acima, falará do HH ainda em outros dois textos. Desconheço se abordará algum desses poemas nesses dois textos. Como ele anuncia, detém-se sobretudo nos primeiros livros de HH e não sei se algum desses poemas é dessa fase. O que me parece - porém - é que o argumento do Álvaro da Horta não é o de que os poemas que cita são fracos. Parece-me que o texto é sobre o tipo de inspiração poética de HH, e o que ele parece dizer é que a inspiração pela qual HH escreve se caracteriza por ser idêntica à inspiração de uma criança tolinha. O Álvaro da Horta, tanto quanto percebi, está a chamar a atenção para o facto de o HH estar convencido de que fazer poesia é ser irracional como uma criança tolinha, e os versos que cita servem sobretudo para demonstrarem essa convicção. O texto não é sobre versos fracos; é sobre convicções erradas conduzirem a versos fracos. Se ele tiver razão, pouco interessa olhar para outros poemas. Se as convicções que os originam são erradas, é natural que eles se mantenham maus até ao fim da carreira. É preciso não esquecer ainda - e isso sei tão bem como o Álvaro da Horta - que a reputação poética de HH começou a ser construída precisamente a partir de 1961, com os seus primeiros livros de poesia, e que o seu estilo se manteve relativamente parecido ao longo dos anos. De certo modo, ao limitar a sua análise a poemas da fase inicial da carreira de HH, o Álvaro da Horta está a tentar dizer que o poeta construiu a sua carreira, desde o início dela, com base em convicções erradas e que, portanto, não fez mais do que versos maus desde que começou a fazê-los.

      Já agora, o que é que considera especialmente bom em cada um dos poemas de que fala?

      Eliminar
    13. Caro Francisco

      Como lhe disse no anterior texto, não sou por aí além entendido em poesia. A que calho de ocasionalmente apreciar resulta, como disse, de mera intuição – como acontece, julgo, com a generalidade das pessoas.

      Assim, receio não estar à altura de corresponder devidamente ao que me solicita, i. é: – que lhe diga o que considero especialmente bom em cada um dos três poemas de Herberto que referi.

      Tanto mais que, na expectativa dos aguardados dois futuros textos de Álvaro da Horta sobre a obra de Herberto – e sendo desde já certo, ao que nos diz, que a conclusão que ele vai tirar é a de que este poeta “não fez mais do que versos maus desde que começou a fazê-los” – então compreenderá que o desafio que me faz nestas condições me coloca desde logo de mãos e pés atados.

      É que, se, perante isto, me ponho para aqui a (tentar, que estou de mãos atadas…) esbracejar em público, procurando dizer, aqui da última fila, que não senhor!, ó Álvaro da Horta, pá, antes de concluir os dois textos veja lá bem, pá, que há pelo menos três poemazitos em que os versos de Herberto não são maus de todo, e tal… está a ver a triste figura que, de mãos e pés atados logo à partida, me arrisco a fazer?

      Atrevo-me, pois, a solicitar-lhe que telefone ao Álvaro recomendando-lhe que, por descargo de consciência, antes de terminar a redacção dos dois aguardados textos dê uma vista de olhos aos tais três poemas – quanto mais não seja para concluir que eles são a clássica excepção que confirma a regra…

      Eliminar
    14. Não sei, julgo que o ser discreto que o Eugénio foi não se importaria muito de não ser lembrado pelos media. Os políticos fazem mais estrilho no futuro próximo, dão mais brilho às manchetes, mesmo que no tempo em que vivia elas não se fizessem com Cunhal (vai haver tempo em que ninguém, salvo o PC se continuar a existir, o lembrará).
      Mas a poesia fica, é um testemunho em que os séculos vindouros hão-de pegar. E ela sim, é Eugénio de Andrade presente.

      Eliminar
    15. Sim, a poesia é-me especial e mágica, mas esse facto não é parente próximo de não poder ser criticada – a prova é que há imensas críticas de poesia. Não me leu a escrever que seja uma forma de escrita ou pensamento isento de racionalidade (o que seria manifestamente impossível). Não é pura inspiração – embora a admita, ou todos seríamos poetas o que não é verdade; mas mau poeta será o que releva apenas do querer – há na feitura de um poema muito e aturado trabalho, e leitura, e emenda, e raciocínio sobre o que se escreve e foi lido. Não sei definir poesia nem afirmar a natureza do sentimento que liga o leitor ao poeta/aos poemas – no meu entendimento o poeta é um intérprete privilegiado do que vive nos homens e os anima a ser homens e que, curiosamente, não sendo irracional, tão pouco é inteira verdade de razão. Talvez por isso mesmo, a importância da poesia, ela é filha do homem integral, uma mistura de razão e sentimento onde talvez o segundo seja primeiro. Deve ser um fenómeno de reconhecimento o que nela tanto nos agrada. E é para mim um milagre que tão poucas e curtas palavras nos expressem tão em profundidade. Que exponham e cumpram, pelo menos em teoria, essa verdade que nos falta e desejaríamos ser. Eu abençoo os poetas e o seu mundo de palavras completas. E é só. Não me apetece responder mais. Peço desculpa.

      Tenha um dia bom.

      Eliminar
    16. Concordando consigo, o que é que a poesia de HH tem, então, que permita à Beatriz garantir que HH é um desses poetas com capacidade para fazer as coisas que diz que os poetas fazem? Se nem todos podem ser poetas, como também diz, tem de haver um critério pelo qual dizemos que uns são e os outros não. Que critério é esse que distingue a poesia de HH de uma birra de criança?

      Eliminar
    17. Caro Joaquim Jordão,

      E voleibol, aprecia? Nunca percebi por que é que as pessoas, mesmo aquelas que dizem que não percebem muito de poesia, dão em ficar melindradas se lhes dizem que um poeta de que gostam não é assim tão bom. É o mesmo que, não sabendo nada de voleibol, ter ficado impressionado com um jogador uma vez e ficar muito chateado por alguém que até percebe alguma coisa do assunto lhe dizer que esse jogador, afinal, não é assim tão bom.

      Eliminar
    18. Carago ! Ó Francisco: sei que pareço melindrado, mas você parece mais melindrado comigo, por eu parecer melindrado, do que aquilo que eu pareço!

      É que, se pareço melindrado, é porque me ficou atravessada esta sua seguinte frase, que em vão tentei que me esclarecesse: «o Álvaro da Horta está a tentar dizer que o poeta construiu a sua carreira, desde o início dela, com base em convicções erradas e que, portanto, não fez mais do que versos maus desde que começou a fazê-los.»

      Então não poderá ter acontecido que o poeta, a meio da carreira, tenha mudado de convicções e, consequentemente, tenha mudado o rumo da sua poesia?

      Não poderá ele, por exemplo – e para usar palavras suas em sentido figurado – ter descoberto os logros do “voleibol” e mudado para uma “modalidade” mais estimulante?

      Acalme-se, pá, e trate de que o Álvaro acabe de escrever os textos com serenidade, a ver se neles inclui uma explicação isenta e credível dos poemas de Herberto que parecem mais “adultos”, mais “excepção à regra”.

      Eliminar
  3. Mas onde é que a gente arranja dinheiro e tempo para ler este mundo de escritores?! É que a Rosário é muito apelativa, os Extraordinários idem e aventam mais sugestões. De modos que uma pessoa fica à nora, chega à Feira do Livro e compra outra coisa - porque afinal ainda há um ror de autores fora da novidade e belíssimos. Muitos, muitos...

    Sorte para o autor e o novo romance.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "É que a Rosário é muito apelativa...". É, de facto. Eu , que odeio fazer sinopses do que escrevo, precisava de quem as fizesse assim por mim. Porém, será que quero? É que, tal como a Beatriz, sob a chuva de recomendações, chego à Feira do Livro e acabo por comprar outras coisas.

      Eliminar
    2. E não é bom sermos pessoas?!:). Saí toda feliz com as compras imprevistas e mais as previstas. Estão ali sobre a mesa, pesados, densos, folhas e folhas incógnitas. E eu num soslaio repetido, a pensar, quilos que hei-de converter em horas. E não sei porquê, esta ideia simples é uma amarra.
      A cada um suas âncoras.


      Eliminar
    3. A Beatriz tem um modo de escrever que me agrada muitíssimo, tanto na forma como no conteúdo.
      Não vou esquecer estes "quilos de livros convertidos em horas de leitura".
      E será que a Beatriz quer partilhar connosco o que comprou na Feira?
      :-) Antonieta

      Eliminar
    4. Pois...comprei o previsto "Os irmãos Karamazov"; e não trouxe o primeiro volume de "Em busca do tempo perdido". Mas, imprevistamente, adquiri Só" de António Nobre e "Apocalípticos e integrados" de Umberto Eco; acrescentados de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e Dom Casmurro" de Machado de Assis.
      É claro que encontrei mais uns quantos que me agradaria trazer. Mas temos de deixar alguma coisa para o ano:)

      Boa segunda feira

      Eliminar
  4. Ancorada aos livros. Lindo!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco12 de junho de 2015 às 11:16

      Eu gostei do "quilos convertidos em horas!" ... sendo embora uma improbabilidade física, transmite exactamente a idéia daquilo que são afinal os livros!

      Eliminar
    2. É pura metafísica:))

      Eliminar

Enviar um comentário