As nossas bibliotecas

Uma vez falei com uma senhora a quem tinham assaltado a casa durante umas férias com a ajuda de uma camioneta de mudanças. Limparam tudo – até as gavetas da cozinha (provavelmente para tornar credível a suposta mudança de casa) – mas, curiosamente, deixaram ficar os livros todos; o peso deve ter desmotivado os ladrões, mas não foi só isso, todos sabemos. Muitas vezes me pergunto o que será dos meus livros quando morrer. Mesmo que alguns dos meus sobrinhos gostem de ler (uns são ainda demasiado pequenos para se saber se a leitura os vai realmente apaixonar), gostarão eles de todos os meus livros e, sobretudo, viverão em casas com espaço para os guardar? Grandes leitores e coleccionadores como Pacheco Pereira ou Vasco Graça Moura – e com dinheiro para isso – arrendaram quintas e armazéns para poderem estar perto dos seus livros. O primeiro criou um importante centro de documentação ao serviço de todos, o que garante já uma partilha; mas o segundo deixou, ao morrer, um espólio impressionante (cerca de 40 000 volumes) que não caberá, digo eu, na casa de nenhum dos filhos. Leio que a família pretende disponibilizá-lo, mas não doá-lo, à Faculdade de Letras do Porto. Quererá isto dizer que, apesar de tudo, gostariam de continuar a ser donos desses livros, mas provavelmente não podem tê-los em casa? Que farão um dia à minha desarrumada biblioteca os meus sobrinhos (não tenho filhos), gostando ou não de ficar com ela?

Comentários

  1. António Luiz Pacheco11 de junho de 2015 às 02:09

    Bom-dia e Bom Regresso!

    É algo em que tenho pensado também ... também eu venho herdando livros de familiares, ou então conhecidos que sabendo do meu gosto e espaço me os vão oferecendo por variadas razões.

    Muitos deles já estão na família à gerações, tendo alguns bem antigos, indo ao século XVII, pois sempre houve na família padres e homens de leis, que liam...

    O que lhes acontecerá um dia que eu parta?
    Não sei... já tenho pensado nisso, e só a minha sobrinha mais velha gosta de livros... creio que uma das mais novas que até gosta de escrever será outra possibilidade... ou o meu sobrinho Francisco que é biólogo se interessará por tudo que seja da sua área - e são até bastantes!

    Mas há uma solução... posso doá-los a uma instituição ou à biblioteca municipal, por exemplo... e assim ficarão na terra onde nasci!

    Acho que esta é a melhor solução e a mais correcta... afinal a Câmara de Santarém apoiou o lançamento do meu Largueza, e há nela grandes amantes de livros como o meu jovem amigo, historiador, investigador, escritor e poeta José Miguel Raimundo (Noras) que prevejo venha a ter lugar de destaque na cultura da cidade e inclusive como autarca ...

    Saudações bibliotecárias da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  2. Também tenho uma quantidade indecente de livros e discos que dificilmente interessará a alguém da minha família. Ainda por cima os livros são na maioria em francês. Mas há sempre a possibilidade de irem parar a um alfarrabista, afinal é nestes que eu compro 99% dos meus livros e discos. Volta e meia encontro nestas lojas pequenas bibliotecas e discotecas que tinham pertencido até há pouco à mesma pessoa, e que por falecimento desta ou por outra razão foram parar ao mercado. Assim encontrei recentemente à venda a um preço irrisório dezenas de livros em inglês sobre teatro, literatura e ballet (sobretudo biografias) e noutra ocasião a discografia quase completa de Alison Moyet e dos Yazzo (pop britânica dos 80's). Ainda bem que estas coisas voltaram ao mercado, pois puderam ir parar às mãos de pessoas que realmente se interessam por elas.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco11 de junho de 2015 às 05:17

      Olha... gosto muito da Allison Moyet! Tem uma voz fantástica... já dos Yazoo ... eheheh!

      Que nome se dará a um comerciante de discos usados???? Discalista????

      Saudações da Cidade Morena!

      Eliminar
    2. a discografia quase completa de Alison Moyet e dos Yazzo

      Que maravilha - pérolas!

      Eliminar
  3. Claudia da Silva Tomazi11 de junho de 2015 às 03:52

    Bom dia Pacheco quando terminar o próximo terá mais lugares a lançar.

    ResponderEliminar
  4. Também me pergunto, o que farei com os já mais de 5.000 livros espalhados por quase todas as divisões (e garagem)?

    Alguns já estão em caixas cujo destino é o sotão dos meus pais...

    ResponderEliminar
  5. Pois é, Rosário! É coisa que também me preocupa bastante! Enfim, não vivo amargurada, quem cá ficar que resolva, que divida, que venda, que doe, que destrua, o que quiser. Mas lá que os adoro, aos meus ricos livrinhos, adoro-os!
    Ainda este ano tenho a intenção de fazer mais uma doação de parte deles a uma biblioteca escolar. O meu pai, em vida, fez várias doações a escolas. Isso também é uma boa maneira de lhes dar utilidade. Uma parte fico com eles, outra parte, ofereço. Até porque as casas não recebem tanto livro! Onde é que se arrumam?

    Beijo, Rosário.

    Cristina Carvalho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco11 de junho de 2015 às 05:20

      Extraordinária Cristina, lembro que o nosso comum amigo, Pedro Almeida Vieira adaptou a casa à livralhada, o que eu acho fantástico ... em vez de ser ao contrário.

      Saudações Morenas cá desta cidade!

      Eliminar
  6. ... e não é que já pensei tantas vezes no mesmo!

    ResponderEliminar
  7. Caríssima Rosário

    Há pessoas que, em vez de doarem os livros, os entregam a instituições em regime de comodato, qo qual lhes garante o património livreiro.
    Há pessoas que têm bibliotecas recheadíssimas, mas haverá casos em que metade dos livros são até intragáveis para as ratazanas e ácaros.

    Tenho muitos livros e não me preocupo se os filhos os querem para eles ou os "despacham", porque eles próprios já têm esse dilema.
    Na minha vida profissional nunca deparei com herdeiros que disputassem o facto de as bibliotecas em partilha estarem omissas nas relações de bens. Mais ainda, que me esteja na memória, nunca deparei com uma biblioteca declarada.

    ResponderEliminar
  8. Que curiosa reflexão!
    Cá em casa os livros já se encontram espalhados por quase todas as divisões, este ano letivo que ora termina, deixou semi-vago o quarto da minha filha(nós residimos no Funchal e ela estuda em Lisboa) e para além dos seus livros, já guardo alguns meus e do pai, como no próximo ano letivo contamos que o nosso filho siga os passos da filha, já andamos a pensar trazer da arrecadação, os livros que lá acondicionamos temporáriamente com muita tristeza.

    Quanto ao destido dos nossos livros, eles acompanharam-nos há 19 anos quando viajamos de Lisboa para cá.
    Já oferecemos livros a infantários a a bibliotecas escolares.

    Acho que oferecer a bibliotecas escolares ou municipais é a melhor das opções.

    Porque realmente não há casa que resista!

    ResponderEliminar
  9. O mesmo me pergunto eu... Só de pensar onde vão parar os meus Attenborough, ai... ou o que vão fazer com os livros centenários, as primeiras edições, os autografados... Acho que vou virar fantasma e ficar de olho neles (nos sobrinhos!) não se vá dar o caso de terem ideias épicas.

    ResponderEliminar
  10. Talvez devessemos criar uma associação para a preservação dos livros ameaçados.

    ResponderEliminar
  11. Dá algum trabalho mas decidi vender a preços baixos os livros que não tenho especial interesse em guardar.

    Assim liberto espaço, financio novas compras e garanto que os livros vão para quem os deseja.

    A doação a bibliotecas é interessante mas muitas vezes condena os livros ao abandono e ao esquecimento.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório