A faca que une

Para começo de conversa, diria que nunca fui fã de Murakami (li dois romances e, como não me empolgaram, não reincidi), mas gosto muito da sua tradutora portuguesa. E não só como tradutora, mas como pessoa, que é o que mais interessa na vida (sobretudo na minha, que raramente preciso de tradutores). A Maria João Lourenço era minha colega na edição quando eu fui para a LeYa em 2010, mas pouco depois resolveu ir para casa traduzir a tempo inteiro e, por isso, falamo-nos e vemo-nos pouco. Nem isso, porém, a afastou do que faço e escrevo, e muito menos de ser a pessoa atenta e carinhosa que era antes. Um dia destes, numa daquelas entrevistas dadas ao telefone a correr, em vésperas da abertura da Feira do Livro de Lisboa, um jornalista do i fez-me umas quantas perguntas simples, entre elas, qual era o livro que eu nunca tinha conseguido comprar. Lembrei-me logo de A Faca não Corta o Fogo, de Herberto Helder, que outra ex-colega, a Ana Pereirinha, me emprestou por uns dias para lá pousar os olhos na altura em que saiu, mas que nunca tive na estante (nem o Manel). E um dia destes, vinha eu do almoço, encontro na minha secretária um envelope trazido em mão de casa da Maria João Lourenço pela minha colega Cristina Lourenço. Pois não é que era A Faca não Corta o Fogo? E ainda por cima com recortes de jornal com críticas ao livro, que a antiga dona juntou, dizendo que ficava feliz por me oferecer um livro muito lá de casa? Ainda estou sem palavras. E, agora, como é que se retribui um gesto destes? Além de boa tradutora, estamos perante uma boa pessoa, uma excelente pessoa. Tenho a impressão de que vou ter de ler todos os Murakami que traduziu para retribuir.

Comentários

  1. Com amor e companheirismo, Rosário.

    Sem necessidade de ler Murakami (isso pode levar à dor e a Maria João não iria gostar nada). :)

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  2. António Luiz Pacheco24 de junho de 2015 às 03:47

    Li um único livro de Murakami - Em busca do carneiro selvagem, ou algo assim. Foi-me oferecido num Natal não há muitos anos... e, confesso que fiquei interessado na forma como escreve (muito bem e aliás destaco a tradução que sendo boa nos mostra que o autor é bom!), se bem que a trama seja assim algo para o negro e onde se baralham várias coisas, mas é bom. No entanto não fiquei fã a ponto de comprar e ler outros dele.

    Curiosamente sei que Murakami foi ele mesmo tradutor, o que o terá influenciado... podia ser o tema de um romance: "O tradutor traduzido" ...

    Saudações traduzidas em felicidades, cá desde a Cidade Morena!

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  3. Os gestos quando são feitos de coração, não se podem retribuir, porque ainda há pessoas que são felizes só de ver ou fazer os outros felizes. Provavelmente é esse o caso... Num mundo tão torto é um alívio saber que ainda existem pessoas que valem a pena.

    Um abraço aos extraordinários desta sala.

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  4. Também não aprecio Murakami.
    Uma pergunta ingênua: traduz do japonês?
    JCC

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  5. Claudia da Silva Tomazi24 de junho de 2015 às 06:17

    Bom dia a todos. O sistema de expressão a comunicar japonês tem modo original sem camada superficial.

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  6. Já li alguns livros do Murakami (seis ou sete) e são assim uma espécie de pizza que se come de quinze em quinze dias...

    Se calhar mal comparado, Murakami será assim uma espécie de Fernando Namora -não aquece nem arrefece.

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  7. Tenho para ler do escritor H. Murakami, a obra Underground - o Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa, da Tinta da China, cuja tradutora foi a Suzana Serras Pereira, assim, não me atrevo a opinar sobre o escritor.
    Quanto ao gesto da sua amiga, é bom, é bestial, sentir a amizade fluir.
    Agora ler para agradar a outrém... haverá concerteza outras formas de retribuir o gesto e o cuidado!

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  8. Deve haver outras maneiras de retribuir...mais pessoais e próximas (também não aprecio tal escritor de que só li dois livros e devia ter lido um, mas dei-lhe o benefício da dúvida). Digo eu que penso que a dita senhora, Maria João de seu nome, está, pelo gesto, seguramente, num registo diferente da boa ou excelente pessoa.

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  9. Um excelente gesto de amizade.

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  10. Já que a MRP fala do HH aqui, aproveito para deixar o link para o segundo texto sobre ele que o Álvaro da Horta escreveu. Como o primeiro foi lido por algumas das pessoas que por aqui passam, fica a novidade:

    http://www.sed5contra.blogspot.pt/2015/06/sed-contra-crianca-tolinha-2.html

    Eis o primeiro parágrafo:

    Diz-se algures, numa parte do mundo que só importaria saber qual era se alguma coisa importasse, que uma criança tolinha só dá em poeta se ao gugu dadá com que escreve o primeiro poema lhe responder quem lho ler com o gugu dadá de volta que o incentiva a escrever o segundo. Quando a criança tolinha que Herberto Helder é – e que o seja foi retrato que os pincéis do raciocínio deixaram pintado no primeiro texto – escreveu o seu primeiro poema, qualquer criança tolinha lhe terá dito, portanto, que continuasse a ser criança e a ser tolinho. Assim encorajado, deu pois em continuar. O segundo, o terceiro e o quarto poema devem ter excitado tanto as partes às crianças tolinhas a quem os deu a ler como o primeiro, pois não tardou que fosse aclamado por uma multidão delas. E em pouco tempo, por qualquer razão que estará escrita onde estiver escrito o mistério de tudo, tínhamos uma criança tolinha laureada e um meio literário de crianças tolinhas aos berros, pedindo mais poemas com que, humedecendo-as, pudessem dar lubrificação à berraria por que mantêm a fama.

    Cumprimentos,
    Francisco Lacerda

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