Sinceridade

Recentemente, perdemos dois grandes vultos nacionais: Herberto Helder e Manoel de Oliveira. Os jornais deram-lhes naturalmente o merecido destaque, páginas e páginas de artigos sobre a sua vida e obra, com a recolha de testemunhos de figuras de proa, velhos amigos e confrades. Mas, como quase sempre nestas coisas, ao elogio unânime reagiram de imediato algumas vozes escandalizadas, alegando que os encómios eram, na maioria, todos iguais, o que de alguma maneira indiciava que muitos dos seus autores não conheciam assim tão bem nem o poeta nem o cineasta e alguns nem sequer gostavam realmente dos filmes do último. A este propósito, contaram-me recentemente uma história bem curiosa. Há uns bons anos, num evento cultural em França, participavam num debate António Lobo Antunes e Manuel da Fonseca; depois de terem dado o seu contributo, parece que o moderador lhes perguntou o que achavam da obra de Manoel de Oliveira, que em França tinha um enorme sucesso e era objecto de muitos prémios. Manuel da Fonseca resolveu ser sincero e disse que a achava uma grande chatice. Os ouvintes franceses ficaram então completamente chocados e ouviu-se um enorme burburinho na sala, impedindo sequer o moderador de intervir. Foi quando Lobo Antunes levantou a mão, pedindo silêncio à plateia (como sabem, é também um autor muito apreciado em França), que a sala se acalmou para o ouvir dizer: «O Manuel da Fonseca tem toda a razão.» Muitos outros não têm, claro, a coragem de ser assim sinceros.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco11 de maio de 2015 às 02:51

    Vamos lá a ver... eu tento não ser hipócrita, pois sincero nem sempre posso ou mesmo devo ser!

    E não posso nem devo, por mim mesmo (poria em risco a integridade, sobrevivência, etc.) nem pelos outros pois que quando a sinceridade magoa pode em vez de, passar a ser insensibilidade ou mesmo crueldade!

    Portanto e com franqueza, respeito de um modo geral aquilo que mesmo não gostando e sobretudo não compreendendo, possa no entanto sentir ou aperceber como "arte" ou como "cultura", e neste âmbito incluo desde a Paula Rego ao Toni Carreira, mas excluo por exemplo uma "peça" em que os "actores" urinam no palco em cima de jornais.

    A cultura e os divulgadores da cultura podem muitas vezes ser profundamente "chatos"... não vou dar exemplos pois isso é pessoal!

    Tenho o maior respeito pela obra de Manuel Oliveira, mas sim... não faz o meu género e considero-o chatérrimo! Idem para Lobo Antunes...

    Mas não sei se o diria em público, SE eu fosse uma figura pública e de referência... e não por falta de coragem apenas, mas por delicadeza ou por respeito a vidas e obras.
    Não teria esse direito, julgo eu, sendo no entanto possível e aceitável dizer que não sou apreciador do género! Creio que isto é ser sincero e correcto, como é fácil de entender que sendo um entusiasta de Silva Porto e Malhoa não aprecie Paula Rego... e por aí fora.

    Não sei se me fiz entender?

    Saudações Sinceras cá da Cidade Morena!

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    1. Não me parece incompatível gostar do Silva Porto e do Malhoa e também da Paula Rego (pelo menos de alguns quadros), assim como gostar do Van Gogh e do Picasso, por exemplo.
      E o mesmo acontecerá com a música e a literatura, penso eu de que...
      :-) Antonieta

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    2. António Luiz Pacheco11 de maio de 2015 às 06:31

      Caríssima e Extraordinária Antonieta:

      Não é uma questão de incompatibilidade e sim de sensibilidade, de estilo, se é que me entende... dei o exemplo de dois pintores da escola naturalista que retratam com rigor e são no meu fraquíssimo entender o oposto da Paula Rego que distorce as suas figuras... posso adiantar-lhe no entanto que gosto dos impressionistas, e por incrível que pareça de Pollock, para que não me julgue limitado.

      Saudações coloridas cá da Cidade Morena, também conhecida por das Acácias Rubras!

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    3. Caríssimo e Extraordinário Pacheco:

      Como poderia julgá-lo limitado se é uma pessoa tão viajada e, digam o que disserem, não existe nada melhor para alargar o conhecimento do que ler e viajar.
      Eu agora fico-me mais pelo ler por falta de verba (e não só) mas aproveitei muito bem todas as viagens que fiz.
      E afinal acabou por me dar razão admitindo que gosta do Pollock, tão diferente dos outros dois pintores; eu gosto de alguns quadros dele, doutros nem por isso.
      E o mesmo se passa com as pinturas da Paula Rego, os filmes do Manoel de Oliveira ou os poemas do Herberto.
      Já do Van Gogh gosto de tudo.

      Saudações Beirãs!
      Antonieta

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    4. António Luiz Pacheco11 de maio de 2015 às 15:11

      Confesso que também gosto de tudo de Van Gogh!

      Eheheh!

      Beira, terra da Boa Gente... bem-haja!

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  2. Faz-me lembrar este momento da troca de correspondência entre Jorge de Sena e Carlo Vittorio Cattaneo (reproduzido em 'Correspondência 1969-1978', Guimarães, 2013):

    «No encontro romano, Alexandre O'Neill, aos que lhe pediam uma opinião sobre Manuel Alegre (que conta muitos admiradores em Itália), respondeu muito duramente que Alegre não é um poeta ou, no máximo, pode-se-lhe chamar poeta somente porque escreve versos. Você também é desta opinião? A resposta interessa-me precisamente por causa do sucesso que Alegre tem com os leitores italianos.»
    (Carlo Vittorio Cattaneo, carta datada de «Roma 12/2/1973» - tradução de Jorge Vaz de Carvalho)

    «O que o O'Neill disse do M. Alegre é a opinião que eu também tenho. Não direi que o homem não é poeta, mas é sem dúvida um poeta muito menor. Não entendo o sucesso italiano dele, a menos que seja pelo tom "popular" e "engagé" que ele mistura muito bem para cantigas à guitarra.»
    (resposta de Jorge de Sena, datada de «Gregynog Hall, 7 de Março de 1973»)

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    1. A propósito, Rui Almeida, o Manuel Alegre é conhecido entre poetas como o melhor dos poetas assim-assim. Aliás, acho que já li essa referência num comentário antigo a uma publicação deste blog.

      Eu, sinceramente, acho que nem assim assim. É muito fraquinho, mesmo. Bem melhor escrevo eu, sem escrever bem, e nunca me quiseram publicar. Só que não sou político nem mediático.

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  3. não tenho qualquer dúvida de que os filmes de Manoel de Oliveira são difíceis, com filmagens longas do mesmo plano, muito teatrais, etc.

    mas ele oferece uma "poesia" ao cinema que é raro se encontrar nos grandes ecrans. é preciso estarmos muito serenos, com atenção e calma (com muita pachorra) para podermos apreciar a arte de Manoel de Oliveira.

    claro que isto não acontece em todos os filmes.

    vi mais de uma dezena de filmes da sua autoria, mas só depois dele partir é que percebi que não vi nenhum dos filmes que ele realizou no século XXI.

    a minha companheira ainda hoje me fala da filmagem da"roda" da carruagem do "Dia do Desespero", que vimos no começo da década de 90.

    aconteceu com ele o mesmo que aconteceu com Lobo Antunes (ironia das ironias, chamar aos filmes de Manoel chatos). a partir do momento que achei que se tornaram repetitivos e cada vez mais estavam a filmar e a escrever para eles próprios, desisti.

    mas continuo a achar que são duas grandes figuras da nossa cultura.

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    1. (afinal estive a ver a filmografia do Manoel e descobri que vi um dos filmes que realizou no século XXI, "Cristovão Colombo - o Enigma" - e não gostei nada...)

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  4. acabei por não falar da "sinceridade", algo que se usa muito pouco entre nós.

    acho bem que se diga o que pensa, como foi o caso de Manuel da Fonseca, reforçado pelo Lobo Antunes, ou o caso relatado pelo Rui, com o O'Neiil e o Jorge de Sena.

    mas o que mais reina na cultura é a hipocrisia.

    e há outro problema, muitas vezes mistura-se sinceridade com maledicência. ou seja, as pessoas só são sinceras com os autores que detestam, com a obra dos amigos (mesmo que seja uma "bosta"), está tudo bem...

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  5. É direito de cada um revelar seus gostos e dar sua opinião sobre quer o que seja. É direito do chato ser chato e como "gosto não se discute" sempre há os que gostam da chatice, a apreciam e a reverenciam.

    Há é que se respeitar o trabalho de cada um, seja ele de arte, ou não.

    Há os que aqui vêm ler este blog e que intimamente o acham chato e repetitivo. Não têm, porém, coragem de o dizer publicamente. Outros haverá que o admiram e elogiam a sua autora e sua obra.

    É complicado, sim, caríssimos, querer agradar gregos e troianos. Impossível, quiçá.

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    1. Oh, mas até eu o acho às vezes repetitivo... Impossível para mim ser original todos os dias, perdoem.

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    2. Cara Maria do Rosário porque não fala dos livros da sua vida, um por mês, por exemplo (hoje no meu blogue kontestu-falo dum dos meus).

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  6. Sim, há
    Em geral há mais interesse em dedicar-mo-nos a gostar de algo do que a desgostar. Gostar não acaba.
    Desgosta-se do que,por qq motivo não nos alimenta de nós mesmos sem nós...
    Talvez!

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  7. "Mas, como quase sempre nestas coisas, ao elogio unânime reagiram de imediato algumas vozes escandalizadas, alegando que os encómios eram, na maioria, todos iguais, o que de alguma maneira indiciava que muitos dos seus autores não conheciam assim tão bem nem o poeta nem o cineasta e alguns nem sequer gostavam realmente dos filmes do último."

    A autora referir-se-á por exemplo ao artigo de João Pedro George sobre Herberto Helder, publicado em O Observador?

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  8. Isto da sinceridade tem muito que se lhe diga. É uma óptima maneira de se fazer inimigos ou criar ódios de estimação.

    Lembra-me uma história que ouvi a um autor consagrado na apresentação de um livro. Referia o mesmo que uma vez alguém o abordou e lhe solicitou uma opinião sincera a um livro que tinha escrito. Ele deu-a e a pessoa terá ficado muito ofendida, pois pelos vistos o livro estaria longe de ser uma grande coisa. Afinal o que queria eram elogios e aprovação à sua obra e não uma opinião sincera.

    Dizer "não gosto nada" não é fácil, especialmente quando se trata de alguém amigo ou que nos merece a nossa estima. No meu caso pessoal, se me pedirem opinião, sou sempre sincero. Geralmente aviso antes que não sou de elogio fácil. Quando não ma pedem, só falo para elogiar, como aqui neste espaço ou no facebook. Falo dos livros de que gosto muito, nunca dos que não gosto.

    Rui Miguel Almeida

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  9. ah, ah, ah...amei esta história verdadeira:))

    Gosto de alguns filmes de Manoel de Oliveira. Mas há outros que são mesmo uma chatice de tão parados.

    Porém, e fora dos meus gostos pessoais os quais nada dizem acerca do valor do realizador, acredito na capacidade de realização do senhor - tanto prémio há-de querer dizer alguma coisa. E não sou entendida no ramo e menos ao nível da realização.

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