O espião e o embalsamador

Finalista do Prémio LeYa há uns meses, eis um livro que é um exercício de imaginação e que, assim mesmo, não desaproveita a matéria do real. O Dia em Que o Sol Se Apagou, de Nuno Gomes Garcia, recua ao reinado de João II e conta em simultâneo a história do seu espião – quase sempre disfarçado de mouro – Pêro da Covilhã (em demanda de segredos que permitam que os negócios do reino sejam o mais lucrativos possível para a coroa) e de um embalsamador albino, Salvador, que procura desesperadamente um par de olhos que devolvam a visão ao seu irmão morto (e embalsamado): Mil-Sóis, o menino de olhos de diamante que encandeava quem para ele se atrevia a olhar. Tanto Salvador como Pêro da Covilhã viajarão de Lisboa à Etiópia (não juntos), o segundo quase sempre enrolado com mulheres em bordéis, o primeiro mais discreto, mas com poderes para um dia apagar a luz de Portugal inteiro, fenómeno de que os Portugueses culparão, alternativamente, o inimigo espanhol e os judeus. Para a voltar a acender, talvez seja, porém, preciso que os olhos roubados de Mil-Sóis cheguem às terras do Preste João e sejam colocados na imagem de uma santa cega; ou que o menino embalsamado torne a ver com outros olhos, que até podem ser os da mulher de Pêro da Covilhã, paixão antiga do embalsamador. Muito rico em detalhes e absolutamente delirante, este romance inventa um improvável cataclismo para reescrever o período áureo da História de Portugal e responder a uma questão: É a Europa o lugar certo para que Portugal continue a existir?


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Comentários

  1. Não gosto da capa, mas gosto do título.

    Deve ser uma leitura entusiasmante, pela época escolhida pelo Nuno.

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  2. António Luiz Pacheco25 de maio de 2015 às 02:17

    Vai para a lista...

    Quanto á Europa... saudações africanas da Cidade Morena

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  3. Para a pergunta final da Rosário podia puxar da minha cátedra Europeia e responder com alguns termos, com os quais os meus alunos seniores de Estudos Europeus reviraram os olhos dos nossos hóspedes, numa visita recente ao Espaço Europa e quando lhes serviram um prato institucional confeccionado entre Bruxelas, Berlim e Lisboa: polarização, Myrdal , Valor público, Balance Scorecard Europeu, Escala, Alinhamento.
    O ensaio do Homem Doente Europeu responde a isto mas, no plano mais literário, Moolb , o reverso, também podia dar uma ajudinha na forma de uma resposta mais actual sem ter de recorrer a Dom João II.
    Mas quando não se aprende com o presente, que se recorra ao passado: Prestes João, embalsamadores, cegos, bordéis, cataclismos e um sem número de critérios são sempre bem-vindos.

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    1. António Luiz Pacheco25 de maio de 2015 às 07:06

      Eheheh!

      Gostei mesmo da resposta...

      Abraço cá de fora da Europa, e como estou em latitude negativa considere-me no "reverso".

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    2. Vamos tentar dar-lhes um pontapé para aí, António. O reverso deles será o verso do seu bilhete de retorno. Embora aí, António, seja mais fácil saber onde estão as feras. Abraço.

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  4. Se comprasse livros pela capa este não o compraria.

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  5. Claudia da Silva Tomazi25 de maio de 2015 às 05:59

    Bem, quando Umberto Eco escreveu O Nome da Rosa foi pouco destacado, enfim transfomada a obra o filme fez sucesso. Este modelo de resgate histórico por vezes, importante a dimensão a impressão a perspetiva humana.

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  6. O meu exemplar, a esta hora, já deve estar dentro de um envelope dos correios. Tenho muita curiosidade quanto a este romance.

    Concordo com o Luis: gosto do título, da capa não, mas as capas nunca foram importantes para mim.

    Uma boa semana,

    Rui Miguel Almeida

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  7. O Mil-Sóis é uma homenagem a um soldado que apenas tinha sete?

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  8. Afigura-se nesta obra, ainda não lida por mim, que há qualquer semelhança de estilo narrativo no género de "A Demanda de D. Fuas Bragatela", de Paulo Moreiras ou de "A Viagem do Elefante", de Saramago.
    Seja como for, é uma incursão no campo histórico ficcionado, se bem que gire a trama à volta da lenda do Preste João.
    Confesso que não compreendo a pergunta de fecho da Maria do Rosário - "É a Europa o lugar certo para que Portugal continue a existir?" -, mas não li o livro e pode estar neste a razão da questão colocada e a pertinência, que esta tenha, de cotejo com a situação actual.

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    1. Eu li os três romances em questão. Não encontrei a menor semelhança de estilo narrativo entre nenhum deles.

      PLFF

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    2. Agradeço-lhe o esclarecimento, PLFF.
      O meu parecer, naturalmente resultante de uma leitura do post da MRP, tendia nesse sentido, mas enganei-me pela aparência.
      Dos três, apenas li o "D. Fuas Bragatela" e a "Viagem", que nada têm em comum, a não ser o ambiente da respectiva época em que decorre a acção.

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    3. Acho que vai gostar do "Sol..."

      Abraço,

      PLFF

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