O que ando a ler

Sempre curiosa a respeito de novos autores, leio uma estreia vigorosa e muito aclamada de uma mais ou menos jovem norte-americana (36 anos) que, ao que sei pela badana, foi para Brooklyn ser empregada doméstica para poder escrever um romance. Pois saiu-se bem: os principais jornais e revistas de confiança nestas coisas – o Guardian, a New Yorker, o Economist, entre dezasseis publicações – consideraram A Vida Amorosa de Nathaniel P. um dos livros do ano. O protagonista, Nate para os mais próximos, acaba de negociar a sua primeira incursão na escrita ficcional por uma bela maquia (tudo indica que vai ter sucesso), é inteligente, bonito e culto, mas soma culpas por todas as mulheres que tem vindo a abandonar ao longo da vida, porquanto não parece saber viver um relacionamento sério, mesmo quando isso o faz sentir surpreendentemente bem. Desta feita, é Hannah, também aspirante a escritora publicada, igualmente culta e sofisticada, quem sofre os reveses da sua relação com o belo e interessante Nate, que tão depressa quer como não quer a sua companhia, a sua conversa e o seu sexo. Uma surpresa mesmo boa é ver como a autora, Adelle Waldman, se mete na pele de um homem e pensa masculino o tempo todo, falando das obsessões e medos do macho intelectual americano, que não perdoa o menor deslize cultural às suas parceiras. As conversas do grupo de amigos são, de resto, de um elitismo bastante inesperado, mas, enfim, estamos em Brooklyn, o bairro dos meninos que estudaram em Harvard e na Brown, procuram empregos em boas editoras e leram Proust e Flaubert. Vou ainda a meio e posso dizer que gosto bastante desta Hannah, vamos lá ver se ela consegue dar a volta ao difícil Nathaniel P.

Comentários

  1. Eu cá li: A amante Holandesa de Rentes de Carvalho, Galveias do Peixoto, A vida inútil de José Homem de Marlene Ferraz e O fantasma sai de cena de Philip Roth. Li e reli, por motivos óbvios, a poesia de Herberto Hélder.
    O romance que a Rosário fala promete. Já a história da autora faz-me lembrar alguém: também eu vim para França para ser empregada doméstica; para ter tempo e disponibilidade mental para escrever. Falta saber se sairá alguma coisa que interesse à literatura. A ver vamos como dizia o cego.

    Um abraço ao extraordinários
    Carla Pais

    ResponderEliminar
  2. "A PEREGRINAÇÃO DO RAPAZ SEM COR" HARUKI MURAKAMI : bom livro, boa história, bem trabalhada, com publicidade e tudo pelo meio (Cutty Sark-o homem sabe viver-).

    Este Japonês, candidato ao Nobel ano após ano, é um bom trabalhador (e inventor) de histórias (tipo José Rodrigues dos Santos, mas para melhor) mas não é, na minha modesta opinião, um Prémio Nobel.

    ResponderEliminar
  3. estou a acabar de ler "Life" de Keith Richards dos Rolings Stones.

    podia ter tudo para correr mal, mas tem corrido bem a leitura, porque o Keith não esconde nada do seu percurso de vida, nem mesmo dos momentos em que foi um "agarrado".

    E nota-se que são as palavras dele que estão ali escritas (mesmo que tenham sido gravadas), é a sua vida, sem floreados.

    (claro que ler quinhentas e tal páginas é obra, pelo menos para mim, prefiro sempre ler dois livros de trezentas...)

    recomendo para quem gosta de ler biografias honestas.

    ResponderEliminar
  4. António Luiz Pacheco1 de abril de 2015 às 03:20

    Continuo com défice de leituras... não consigo ler o que queria e me apetece, por pura falta de tempo e muitas vezes falta de cabeça... agora ando a ler sobre a congelação e qualidade do polvo!

    Mas, mandei vir pela minha mulher alguns livros para que me foi aqui sendo despertada a atenção.

    Peguei logo n' "O último europeu" de Miguel Real, que prometia... e deveras se concretizou!

    Estou quase no fim, e é de facto um Grande Livro!

    Confesso que sou fã de Miguel Real, dos seus temas, da sua forma de escrever e partilho tantas das suas ideias, que lê-lo é um prazer enorme, como seria poder conversar com ele em tertúlia, à volta dos temas em cujo interesse temos tantas afinidades - Miguel Real, é um daqueles casos em que sem o conhecer, me parece ser um velho amigo!

    De resto, o livro além de muitíssimo bem-escrito como é a sua tónica, está numa linguagem clara e acessível, fluida, lê-se ao correr da vista e da mente, compreende-se e até se vê tudo o que ele descreve e vai-se para onde ele nos quer levar, sem hesitações!
    Miguel Real é um homem de grande cultura, mas que a torna fácil e acessível, tal como sendo um homem da ciência da história, sabe dela tirar o melhor partido e usá-la para nos explicar acontecimentos reais e ficcionados, por vezes enredados uns nos outros de forma a que não se sabe onde terminará uma e começa a outra... também tem a sensibilidade de um homem das ciências sociais, que compreende o ser humano na sua diversidade e consegue fazer dele personagens que nos arrepiam pela sua actualidade e porque parecem reais!
    O filósofo e o pensador também lá estão... a despertar-nos consciência e a passar mensagens, que nalguns casos arrepiam porque são assustadoramente possíveis...

    Convido e desafio francamente à leitura deste "O último europeu", onde vamos encontrar tantas coincidências com o que nos preocupa no dia-a-dia e que aqui são debatidas...

    Não deixem de ler!

    E vou mais longe, é um livro que deveria ser traduzido e divulgado, pela sua oportunidade e porque certeiro numa perspectiva actual da sociedade, da história e no momento em que estamos a nível global! É fantástica a forma como segundo a ficção de Miguel Real, o Mundo evoluirá nos próximos 300 anos, e o pior: É que pode muito bem vir a ser assim!

    Saudações europeias da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  5. Depois de ler "O Cavalheiro Inglês", de Carla M. Soares, um "livro RTP" (sobre o qual já publiquei opinião no meu blogue e no GR), estou a ler o último Prémio LeYa, "O meu Irmão".
    Sobre este livro, tenho o seguinte comentário a fazer:
    António Lobo Antunes inicou uma polémica, dizendo que ninguém escreve um romance aos 24 anos. Na defesa do livro, a Maria do Rosário alegou que Afonso Reis Cabral escrevia com uma maturidade impressionante para um jovem da sua idade. Pois eu penso o seguinte: o encanto deste livro está precisamente na escrita sincera, fesca e um pouco (só um pouquito) ingénua (no sentido de ainda não ter adqurido "vícios"), de um jovem de 24 anos! Afonso Reis Cabral tem muito talento e espero que continue a escrever.

    Agora, vou ser atrevida: não teria sido melhor defender o romance assim? ;)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Desculpem as gralhas:
      fresca; adquirido
      (as que notei)

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco1 de abril de 2015 às 06:11

      Apoiado Cristina!

      Foi o que senti... Afonso Reis Cabral consegue escrever um romance maduro e que revela maturidade e sensibilidade Extraordinárias aos 24 anos, tal como Patrícia Reis no seu "copo de whisky" se consegue meter na pele de um cinquentão desiludido que frequenta bares e meninas...

      Isso espantará Lobo Antunes?
      Talvez... como espantará todos os escritores que só sejam capazes de escrever sobre si mesmo, e que no fundo escrevem para eles-mesmo - caso de Lobo Antunes, independentemente de ser um grande escritor que eu aliás não aprecio - mas para quem seja capaz de imaginar e de romancear isso não é espanto nenhum, é ser escritor!

      Voltaríamos aqui à discussão da técnica e da alma... mas seria uma discussão sem fim!

      Na verdade há excepções nem que seja para confirmar a regra!

      Eliminar
    3. Ao ler-se Gargantua e Pantagruel, sobre um gigante que mija sobre Paris, ninguém diria que foi escrito por um frade de 50 anos. Ao ler-se o imaturo e grosseiro romance D. Quixote, com personagens malucos, que cagam de pé e que estão sempre a levar porrada, ninguém diria que fora escrito por um ex-soldado de 50 anos. Thomas Pynchon , aos 60 anos, pôs George Washington a fumar charros em Mason & Dixon.

      A maturidade nos escritores é sobrevalorizada. Tenho aliás pena de um escritor que aos 24 anos já parece tão velho. Que imaginação alguma vez terá?

      Eliminar
    4. Ó Pacheco, tiraste-me as palavras da boca (e da cabecinha) - há quanto tempo eu pensava isto ...

      - escritores que só sejam capazes de escrever sobre si mesmo, e que no fundo escrevem para eles-mesmo -

      É que o A Lobo Antunes escreve mesmo só para ele (afinal não sou só eu que julgo tal) . Obrigado ó Pacheco e bom fim de semana

      Eliminar
    5. Calma, gente! Eu não disse que Afonso Reis Cabral escreve com maturidade. Pelo contrário: na minha opinião, nota-se que o escritor ainda é jovem e, verdade se diga, acho um pouco disparatado a sua personagem já ir nos quarenta, porque se nota ali a juventude. O que eu disse foi que o encanto do seu romance está precisamente nessa maneira jovem de descrever o mundo.

      Também não quis criticar António Lobo Antunes, do qual, confesso, ainda não li nada!!! Por isso mesmo, não posso criticar, nem elogiar. Apenas referi que ele gerou uma polémica que, a meu ver, não teve a resposta adequada.

      Eliminar
    6. Por favor leiam o meu comentário que devia ser uma resposta aos vossos e que, não sei como, ficou ali em cima!

      António Luiz Pacheco: sempre que ouço falar desse livro de Patrícia Reis, lembro-me do filme "Lost in Translation". Confesso, no entanto, que não li o livro, nem vi o filme de Sophia Coppola. Mas algum dia hei de averiguar se têm algo a ver um com o outro...

      Talvez esteja a dizer algum disparate. Nesse caso, se alguém me pudesse elucidar, faça favor!

      Eliminar
    7. Só pessoas que nunca leram um romance de Lobo Antunes é que praticam o vício de insistir que ele só escreve sobre si mesmo. Como vocês parecem ridículos, com os vossos odiozinhos e preconceitozinhos e, presumo, estreitezazinhas de mentezinhas, a leitores como eu que realmente já leram vários romances e podem listar dezenas de personagens que não têm nada que ver com ele. A sério, ainde terão de me explicar o prazer que sentem ao ostentar ignorâncias que várias pessoas conseguem imediatamente detectar.

      Se não gostam de Lobo Antunes, digam-no; não faz mal nenhum; mas não distorçam a escrita dele tornando-a algo que ela não é.

      Eliminar
    8. Ó Rosa não sejas lorpa nem garganeiro - cada um com a sua!

      Eliminar
    9. E o Severino não seja ignorante e não escreva sobre escritores sobre os quais não tem conhecimento.

      Eliminar
    10. António Luiz Pacheco1 de abril de 2015 às 14:39

      Diz: " Se não gostam de Lobo Antunes, digam-no; não faz mal nenhum; mas não distorçam a escrita dele tornando-a algo que ela não é."

      Respondo: " Se gostam de Lobo Antunes, digam-no; não faz mal nenhum; mas não distorçam a escrita dele tornando-a algo que ela não é".

      Ou seja, para um argumento como o seu há sempre um argumento contrário...

      Ahahah!

      Tunga!

      Saudações cá da Cidade Morena

      Eliminar
    11. "o imaturo e grosseiro romance D. Quixote, com personagens malucos, que cagam de pé e que estão sempre a levar porrada, "
      Decididamente, o espírito do 1 de Abril atacou este ano em força. Parece que se pode dizer tudo sem justificar nada, sem exemplificar. Como se fosse coisa que todos soubéssemos. E ainda reli o D. Quijote há muito pouco tempo.

      Eliminar
    12. E o "para quem escreve um escritor" é importante? Não basta lê-lo e avaliar o lido? Há tempos ouvi Almeida Faria nas correntes de escrita dizer que não escreveu nunca para publicação; e que todo o escritor escreve para alguém nem que seja para si. E não o ouvi condenar. Há tanta mas tanta gente a publicar...

      Quanto ao novo autor que ainda não li: concordo com Lobo Antunes, aos 24 não há a maturidade dos 50. Mas há a maturidade dos 24. Que pode ser muito agradável de ler. E um caminhar para.

      Eliminar
    13. António Luiz Pacheco2 de abril de 2015 às 03:58

      Cara e Extraordinária Beatriz:

      Interessante a sua questão sobre "para quem se escreve" .

      Na minha opinião, que já se sabe nem ser a melhor e muito menos a última, é importante sim!

      Desde logo porque se o escritor não escrever para alguém, escreve porquê ou para quê?
      Quem escreva apenas porque lhe apetece escrever e não partilha, que valor terá? Pode escrever muito bem, coisas lindas ou interessantes, mas a quem aproveitam? De que serve?
      Isto porque acredito que a arte, seja a escrita, a música, a pintura é algo que se destina a ser partilhado com outros, em maior ou menor escala evidentemente até porque há géneros com mais ou menos divulgação e público, mas há sempre um público, seja ele popularucho, underground, de culto, de massas, etc.
      Não sei se me expliquei bem?

      E depois, a satisfação do autor não é também importante pelo reconhecimento do que criou?
      Vaidades à parte, porque um pouco de vaidade me parece ser saudável ou seremos seres amorfos e apagados tornados azedos e associais, quando o nosso âmago é sermos sociais?

      Mais, um autor que escreva para os outros, vai iluminá-los, ajudar em tanta coisa, seja porque divulga, ensina, distrai, acompanha, diverte, desperta, choca, mostra coisas... sei lá eu!

      Também, o autor que publica e aufere ganhos não é igualmente importante seja para a manutenção da sua actividade, seja para novos projectos, seja para divulgar um trabalho, idéias...

      De que serviriam os poemas de António Gedeão guardados numa gaveta para sempre?
      De que serviria a obra de Saramago, Torga, Lobo Antunes, Margarida Rebelo Pinto e José Rodrigues dos Santos, sem leitores que os lessem e gostassem ou contestassem, discutissem em volta deles e com essa discussão alargassem as suas mentes e evoluíssem como leitores ou pessoas?

      Parece-me uma questão pertinente e importante a que levantou, e sem dúvida que mesmo não concordando conseguiremos sempre chegar à luz que deve ser a finalidade da discussão!

      Creia-me com grande respeito e alguma amizade que já lhe vou tendo, a despeito das nossas discordâncias e talvez por isso mesmo, pois aprecio a sua forma de pensar e de argumentar!

      Cá da Cidade Morena e para quem nos leia!

      Eliminar
    14. Deve ter problemas de memória e compreensão de texto, nesse caso. Para começar, acho estranho que lhe tenha escapado as constantes pancadarias que Dom Quixote e Sancho sofrem do princípio ao fim, que aliás gera constantes comentários do escudeiro sobre a sua sina.

      A parte de Sancho se borrar em pé vem de um episódio qualquer em que ele está preso a Dom Quixote, que adormeceu, e não se se consegue soltar, por isso tem de baixar as calças e fazer as necessidades nas duas pernas.

      Quanto aos malucos, bem, escapou-lhe o facto de a loucura ser a razão por que Alonso Quijano se considera um cavaleiro?

      Eliminar
    15. Severino, sim, eu gosto bastante de Lobo Antunes, é por isso que eu leio e tenho vários exemplos de personagens que não são nada como ele. Cabe-lhe a si - já que leu tanto para poder comentar - explicar as semelhanças entre Rui S (Explicação dos Pássaros) e Lobo Antunes; entre os 4 soldados (Fado Alexandrino) e Lobo Antunes; entre as personagens históricas d'As Naus e Lobo Antunes; entre as personagens femininas do Auto dos Danados e Lobo Antunes.

      Consegue explicar?

      Eliminar
    16. Continuo sem perceber porque é que o romance é "imaturo e grosseiro". E a porrada e incontinência não legitimam a acusação. Penso que o extraordinário Miguel se assemelha àquele condutor que na autoestrada dizia que todos os outros que por ele passavam seguiam na faixa contrária. Isto de mandar uns palpites provocatórios tem que se lhe diga.
      JCC

      Eliminar
    17. António Luiz Pacheco2 de abril de 2015 às 06:53

      Caro Miguel Rosa, a questão sobre aquilo que eu afirmei, não reside em explicar porque ou como os referidos personagens são o alter ego do autor!

      Não foi e nem é isso que quero dizer quando afirmei que ele escreve para si-mesmo e sobre ele-mesmo.

      Que ele escreve para ele mesmo, bem, creio que é algo patente nas entrevistas e no que ele mesmo diz, pois (e corrija-me) assume que não escreve para o público e a crítica e nem está preocupado com eles.
      Na verdade estou-me nas tintas para isso, mas é elucidativo e conduz ao que eu disse.

      Que ele escreve sobre si-mesmo... bom, a sua obra é quase toda baseada ou influenciada na sua vivência pessoal e nas experiências como médico e do Ultramar.
      Estarei ainda enganado?
      Creio que não, e tal é um facto reconhecido e divulgado, creio eu...

      Não sou e nem serei seu biógrafo, mas é aquilo que julgo saber sobre Lobo Antunes, fora o que li dele ou não consegui ler (nem a meio cheguei de "Que cavalos são aqueles..." , deixei-o para um dia).

      Independentemente de ser inegável que escreve bem e de assumir que não sou apreciador do seu estilo, é o que penso e creio que há mais quem pense ou sinta como eu... logo repito e faço coro com essas pessoas, mas não me vê nem verá a deitá-lo abaixo, e, no dia em que ganhe o Nobel serei o primeiro a congratular-me com a sua consagração e o reconhecimento de uma vida e obra! Isso lhe garanto!

      Saudações livrescas cá da Cidade Morena

      Eliminar
    18. António Luiz Pacheco2 de abril de 2015 às 06:59

      Aliás, e deixem-me acrescentar o seguinte, enquanto traça literária que já leu de tudo ou quase tudo que se possa imaginar:

      Gosto mais ou menos deste ou daquele autor, todavia nem tenho inimizade especial por nenhum como tão-pouco os desprezo ou maldigo... limito-me a "gostar" ou "não gostar", e é tudo... coloco-os nas prateleiras e deixo-os ficar em sossego, mais nada.

      Poderei fazer uma crítica, ou assumir que não gosto, mas sem ser destructivo, pois no fundo me identifico um pouco com todos por algum motivo por muito escondido que esteja, mais não seja por escreverem.

      Saudações escritas cá da Cidade Morena!

      Eliminar
    19. Porque o romance tem incidentes envolvendo imaturidade e grosseria. Há humor escatológico, há partidas cruéis e sádicas (especialmente na segunda parte), há montes de violência gratuita, e apesar de tudo não há consequências a sério, as perosnagens parecem feitas de borracha, sem grande atenção a realismo. O romance D. Quixote não leva nada muito a sério, é isso que o torna tão aliciante há séculos, parece escrito por um escritor muito jovem cheio de energia, não por um homem de 50 anos com uma mundividência sofisticada, a reflectir pesadamente sobre os problemas trágicos da existência. A não ser que tenha sentido um ambiente á Vergílio Ferreira que me escapou de todo.

      Digo isso com o maior respeito por Cervantes; acho admirável a frescura e ligeireza dele, o desprendimento dele da tirania da seriedade que oprima tantas obras literárias, do riso saudável dele; oxalá tivéssemos mais disso na nossa literatura, mais Aristófanes e Henry Fielding e Rabelais. Infelizmente temos jovens precocemente velhos, com lirismo de pacotilha, temas "sérios" e "profundos" como deficiências mentais, e um estilo de choradinho a puxar a lágrima ao leitor, como o caso do mais recente Prémio Leya.

      Eliminar
    20. Assim já nos entendemos. Respeito opiniões diferentes da minha desde que, como é o caso, estejam fundamentadas. A propósito: deu importância aos nomes das personagens, por exemplo Friacona? Um abraço.
      JCC

      Eliminar
  6. Desta vez fiz todo o principal percurso do livro: Escritor - Editor - Leitor.

    Foi assim: da Editorial Escritor (1995) andei a ler “O Editor”, do incógnito português Leonardo Consei. E das Edições Asa (2007) li “O Leitor”, do alemão Bernhard Schlink.

    Livros que, como eu gosto, andavam esquecidos no amontoado, neste caso no quarto do meu filho.

    Surpresa: não sabia que tinha existido a editora Escritor, nem que tínhamos o escritor com o pseudónimo Leonardo Consei.
    Curioso é que encontrei finalmente um livro da tipologia com que sempre sonhei: é preciso desfolhá-lo para ver do que se trata, pois que na capa não tem o título nem o nome do autor. Talvez porque, neste caso, é o Escritor que edita “O Editor”...

    O livro é um “contoário”, e o primeiro conto dá o título ao livro.
    Este primeiro conto trata das intuições, dúvidas e angústias de um editor que decidiu recusar a publicação de um livro de um autor de quem já havia publicado dois outros, e das simétricas angústias, dúvidas e intuições que tal decisão causa no autor... e mais não conto.
    Mas sempre digo que vários dos outros contos mostram também o que pode a literatura, até pelas incógnitas que deixam em aberto à imaginação do leitor, casos de “ A Calúnia”, de “A Ameaça”, e outros – com destaque para, justamente, “O Que Pode a Literatura”.

    ... ...

    “O Leitor”, através de uma estrutura literáriamente magnífica, retrata o drama da geração do post-guerra que se debate com a carga que lhe foi deixada pela geração anterior, a qual, activa e/ou passivamente, colaborou com a prepotência e a barbárie nazi.
    A questão (aliás ainda actual e, em bom rigor, não apenas respeitante aos alemães) consiste em como lidar com a memória da geração que (con)viveu os anos 30/40 – ignorar, perdoar ou condenar?
    Perdoar ou castigar os culpados directos não apaga a culpa colectiva. Subsiste o remorso, porque o profundo sentimento de culpa passa de uma geração para a seguinte – e esta acaba por sentir-se culpada, quer por ter castigado, quer por ter perdoado a anterior.
    Ignorar, portanto, não é possível – e é isso que origina a grande variedade de dramas e tormentos, pessoais, relacionais, institucionais, etc, alguns dos quais são a matéria-prima deste fascinante livro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "O LEITOR" - ora aqui está um dos casos em que um bom livro deu um bom filme!

      Eliminar
  7. A Amiga Genial, da Elena Ferrante . Já aqui falei nesta escritora; é, sem dúvida, uma das minhas preferidas de sempre. Imperdível.

    E ao contrário do que é hábito ( não gosto muito de ler dois livros em simultâneo) a ler também Adília Lopes. O livro, intitulado "Manhã", é uma pequena pérola. É um livro difícil de catalogar; é poesia, sim, mas diferente dos livros de poesia tradicionais. É uma espécie de diário poético. Vale mesmo a pena, é belíssimo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. 'A amiga genial' da extraordinária Ferrante já está na pilha (muito perto do cimo...), mas terá de esperar pelo último da Teresa Veiga...

      Eliminar
    2. O da Teresa Veiga também já cá canta... eheheheh Vi-o no blog da Aldina Duarte e fui logo comprá-lo. :)

      Eliminar
  8. Ainda a ler "Vicios de amor" de Norberto Morais, um autor que recomendo.
    Comprei há dias e tenho muita curiosidade em o começar: "Uma caneca de tinta irlandesa" de Flann O'Brien, edição da cavalo de ferro.

    Rui Miguel Almeida

    ResponderEliminar
  9. Passei de Sinais de Fogo (Jorge de Sena) para Peregrinação de Bernabé das Índias (Mário Cláudio), e agora vou lendo A Lã e a Neve (Ferreira de Castro) enquanto estudo a obra de Manuel Laranjeira.

    ABC

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A LÃ E A NEVE - ainda me lembro muito bem do MARRETA (que personagem)!

      Eliminar
  10. Têm sido várias as leituras mais recentes, algumas porque são curtas, outras porque não se pára (é mesmo com acento) enquanto o fim não aparece.

    Assim: 'Ana de Amsterdam' e a escrita sem espinhas (mas cheia delas...) da Ana Cássia Rebelo, 3 Modianos de seguida ('Dora Bruder', 'Avenidas Perféricas' e 'Um circo que passa') que às vezes mostram que o Nobel é bem dado, e a acabar o por vezes desconcertante 'Vale Abrãao' da Agustina que estava em lista de espera vai para alguns anos. Tudo isto antes de me atirar ao 'Gente melancolicamente louca' da Teresa Veiga.

    ResponderEliminar
  11. Eu estou num impasse. Tenho lido basicamente poesia - Echevarría , Melville , Andreia C. Faria (que é uma moça que estabelece que "O mundo não aguenta a narração de mais nada"). Sobre Herberto Helder li o que disseram os jornais e apreciei as magníficas fotos de velho marreta no último Expresso. Poucos dias antes tinha comprado milagrosamente o esgotadíssimo A Morte Sem Mestre, o que me deixou uma sensação estranha: vou lê-lo mais tarde, quando não houver poeira. Entretanto, tinha já poisado Modiano e a sua Dora Bruder , que li devagarmente seguindo pelo google maps os percursos reais e imaginários do autor, e de Dora, por Paris chegando ao pormenor de recorrer a um mapa antigo, pois a páginas tantas o autor convoca Valjean de Os Miseráveis. Agora, teria de cumprir a autopromessa de acabar Em Busca do Tempo Perdido a tempo (precisamente!) da próxima Feira do Livro onde é suposto comprar o Volume II, mas está difícil tanto mais que, por acaso, reabri O Retrato do Artista Quando Jovem e apeteceu-me logo relê-lo menos jovem: Era uma vez (...) uma vaquinha mumu ... Que fazer? Mais Flaubert, não!

    ResponderEliminar
  12. Comovem-me as coincidências. Lia no blogue a menção à intolerância perante deslizes culturais quando tinha acabado de ler a crueldade de escritores franceses para colocar em lista negra este ou aquele grande autor já falecido ou saído de cena. No caso a vítima era Anatole France, a obra é uma recolha de intervenções de Kundera sobre artistas diversos (Um Encontro - Dom Quixote). Boas leituras.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Os surrealistas detestavam Anatole France, viam-no como um escritor retrógrado, ultrapassado, o oposto do que Breton pregou no seu Manifesto Surrealista.

      Tem piada porque o sonho dos surrealistas de criarem uma nova forma de romance - o tal romance que mistura o comum e o fantástico - nunca se materializou graças a eles (não existe nenhum grande romance surrealista, isto é, escrito por artistas oficialmente pertecendo ao círculo tirânico de Breton); por sua vez, um romance de France, A Ilha dos Pinguins, é um dos mais divertidos livros de fantasia que já li. Mais depressa o releria do que perderia o meu tempo com os escritos dos surrealistas. A diferença em qualidade é tão abismal. Realmente eram garotos tentando competir com um mestre.

      Eliminar
  13. Ando a ler "A Frolic of His Own ," de William Gaddis , um escritor norte-americano ainda pouco conhecido em Portugal: é um romance bastante divertido sobre a obsessão por litígios dos americanos, o sonho de se levar alguém a tribunal e enriquecer com uma indemnização choruda. O conhecimento dele sobre o sistema legal é avassalador, especialmente quando imita o estilo e circunlóquios da escrita legal.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco2 de abril de 2015 às 04:11

      Caro e Extraordinário Miguel Rosa

      É evidente a sua bagagem literária e cultural, e creia que aprecio os seus comentários por isso mesmo, pois tento aprender sempre!

      Estimo que não o tenha de algum modo ofendido com a minha resposta acerca da sua defesa ao Lobo Antunes, e se o fiz peço me desculpe na minha ignorância e atrevimento ao tentar fazer humor com a situação. Não era essa a minha intenção!

      De qualquer modo, deixe-me dizer-lhe que não conhecia o autor que refere andar a ler, e pelo que resume parece-me ser um tema dos que me agradam.

      A propósito do que diz sobre essa obsessão americana, lembro-me de uma vez, numa visita profissional a supermercados nos EUA, ter referido a extrema limpeza e cuidado com o chão de uma secção de frutas e legumes numa grande loja. O gerente que nos guiava, explicou que se houvera um simples talosito de alface no chão, capaz de fazer escorregar alguém, logo haveria quem se servisse dele para uma queda e tentar nunca mais trabalhar com a indemnização recebida!

      Haverá esse livro traduzido para português? Confesso que detesto ler inglês... e só o faço por razões profissionais, como ainda há pouco acabei de traduzir um excerto do "All aboutPotatoes by Tolsma", sobre conservação da batata de semente.
      Mas ler por prazer... em inglês, não!

      Saudações cá da Cidade Morena

      Eliminar
    2. Do mesmo autor há "Ágape Agonia" da belíssima editora Ahab.

      Eliminar
    3. Pacheco, como a Patrícia respondeu, existe o "Ágape e Agonia," (belíssimo romance) e nos anos 80 traduziu-se o "Gótico Americano," hoje esgotado. Gaddis nunca foi muito famoso nos próprios EUA, é mais um escritor de culto, admirado por outros escritores mas ignorado pelo grande público, por que motivo temo que não suscite interesse nas editoras portuguesas. Convém sempre notar que a heróica Ahab faliu, essa é a sina das pequenas editoras que tomam riscos.

      Eliminar
    4. Miguel, tem a certeza que a Ahab faliu?

      A Rosa Azevedo disse-me que a editora voltaria em grande no início do ano.

      Uma pena...

      Eliminar
    5. Não tenho certeza, não; deduzi isso do silêncio longo. Não me importaria de estar errado.

      Eliminar
  14. e é bom o livro - que, ao contrário da personagem, se aguentou até ao fim.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário