Escrever de graça

Quando eu comecei a trabalhar no ramo editorial, a maioria dos escritores com obra publicada tinha um emprego fixo e escrevia nas horas vagas (como não havia tantas solicitações como há hoje e a televisão só tinha dois canais, era mais fácil arranjar tempo). No entanto, hoje os escritores querem viver exclusivamente do que escrevem (que é, também, o seu trabalho) e, porque o País é pequeno, raramente o que tiram das vendas dos respectivos livros é suficiente para se sustentarem, tendo por isso de se lançar à escrita de guiões, artigos de jornal, recensões, peças de teatro, etc. Mas não é fácil, claro; primeiro, porque estas manobras os afastam muitas vezes das obras que estão a compor; depois, porque estão sempre a ser solicitados para escrever sobre tudo e mais alguma coisa, de borla! Pois, pois... Eu queria ver se alguém tinha lata de convidar um economista ou um médico para escrever ou falar sobre um assunto específico sem lhe pagar... A um escritor, porém, quase nunca se toca no assunto do dinheiro, como se ele vivesse do ar e fosse sua obrigação oferecer de mão beijada todos os seus textos. É, na verdade, escandaloso – e a verdade é que muitas vezes, ao convidarem escritores para discursarem neste ou naquele evento, ainda acham que lhes estão a fazer um favor e a dar uma oportunidade para promoverem os seus livros. Eu, por exemplo, estou a sempre a receber pedidos para fazer prefácios em livros de poetas estreantes, mas mais recentemente também me pediram artigos que me obrigariam a uma investigação séria sem mencionar o pagamento uma única vez. Fiquei até agradavelmente surpreendida quando há uns meses uma instituição me convidou para ler e falar de poesia e me disse logo que pagava. Mas foi uma excepção e não parece que ninguém lhe siga o exemplo. Escrever será pior do que fazer contas em quê?

Comentários

  1. a Cultura ainda é entendida como um "fair-divers" neste país de trampa.

    a literatura acaba por ser um parente ainda mais pobre, porque para se sobreviver se têm de fazer outras coisas e escrever acaba por adquirir mesmo aura de passatempo.

    o que me irrita mais são os municípios (mesmo os de esquerda...), que não t~em problema em sacar de 10.000 euros para qualquer músico "pimba" mas para pagar as deslocações e o almoço a um escritor ou poeta, é uma carga de trabalhos...

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  2. António Luiz Pacheco10 de abril de 2015 às 03:17

    De um modo geral concordo com o que se diz, pois entendo a cultura e neste particular a escrita como uma actividade económica, ou se quiserem forma de viver, logo deve ser remunerada!

    Claro que há os que escrevem para viver, poucos creio eu... e os que escrevem pelas mais variadas razões que não para viver, ainda que escrevam de forma ou sobre temas profissionais.

    Sou muitas vezes convidado a dar palestras ou a participar como orador em eventos que tanto têm a ver com a minha profissão (que aliás é muito larga e por isso abrangente, indo da apicultura aos supermercados...) como com as minhas outras actividades nomeadamente a cinegética ou a pesca submarina, e porque escrevo muito sobre todas elas em publicações temáticas.

    Já fui e tenho sido pago para escrever artigos em revistas, fui mesmo responsável editorial por uma publicação - tinha uma verba que cobria o meu trabalho e com a qual pagava a colaboradores eventuais que fossem publicando o que eu lhes pedia.

    No resto, nunca fui pago... nem nunca pensei nisso, mas é frequente e habitual oferecerem por exemplo a estadia ou refeições... quando são associações de estudantes ou escolas, juntas de freguesia do interior,, ou agremiações e clubes locais, eu faço-o sempre graciosamente! Pagam-me de uma outra forma que me enriquece muito mais, mas, lá está... posso dar-me a esse luxo, Graças a Deus e ao meu trabalho, não o tomem por exibição ou jactância mas sim porque eu acho que quem pode deve ajudar e partilhar, e acredito que o que deve ser bom em ser rico é poder ajudar os outros!

    Um escritor, conferencista, etc. pode e deve ser pago pois também assim exerce a sua função e executa uma parte importante daquilo que é a sua missão na sociedade!

    Saudações Grátis cá da Cidade Morena!

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  3. A BEM DA NAÇÃO - Ainda ontem o Coelho falou na necessidade de reduzir os custos do trabalho...

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  4. António Luiz Pacheco10 de abril de 2015 às 03:27

    De um modo geral concordo com o que se diz, pois entendo a cultura e neste particular a escrita como uma actividade económica, ou se quiserem forma de viver, logo deve ser remunerada!

    Claro que há os que escrevem para viver, poucos creio eu... e os que escrevem pelas mais variadas razões que não para viver, ainda que escrevam de forma ou sobre temas profissionais.

    Eu mesmo, sou muitas vezes convidado a dar palestras ou a participar como orador em eventos que tanto têm a ver com a minha profissão (que aliás é muito larga e por isso abrangente, indo da apicultura ao processamento de pescado, agropecuária, agroindústria, supermercados...) como com as minhas outras actividades nomeadamente a cinegética (em que tenho tido actividade profissional como avaliador de wild life estate, gestor e consultor) ou a pesca submarina, e porque escrevo muito sobre todas elas em publicações temáticas, aliás com boa aceitação e deixem-me vangloriar!

    Já tenho sido pago para escrever artigos em revistas, fui mesmo responsável editorial por uma publicação - recebia uma verba que cobria o meu trabalho e com a qual pagava aos colaboradores que fossem publicando o que eu lhes pedia.

    Calhou também escrever um romance... com o qual ganhei algum dinheiro, confesso, se bem que o meu plano fosse o de cobrir as despesas num risco bem calculado. Nunca foi meu objectivo ganhar dinheiro com ele, foi algo que eu tinha que fazer! Mas, não sou escritor!

    No resto, nunca fui pago... nem nunca pensei nisso, mas é frequente e habitual oferecerem por exemplo a estadia ou refeições... quando são associações de estudantes ou escolas, juntas de freguesia do interior,, ou agremiações e clubes locais, eu faço-o sempre graciosamente! Pagam-me de uma outra forma que me enriquece muito mais, mas, lá está... posso dar-me a esse luxo, Graças a Deus e ao meu trabalho, não o tomem por exibição ou jactância mas sim porque eu acho que quem pode deve ajudar e partilhar, e acredito que o que deve ser bom em ser rico é poder ajudar os outros!

    Um escritor, conferencista, etc. pode e deve ser pago pois também assim exerce a sua função e executa uma parte importante daquilo que é a sua missão na sociedade!

    Saudações Grátis cá da Cidade Morena!

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  5. Se há coisa que me irrita profundamente é o facto de algumas instituições acharem que os escritores não têm barriga, mesa de jantar e família. Que escrever não é profissão, tal como pintar, e por assim ser, faz-se só por que apetece fazer e daí não haver direito a remuneração. São levados quase como uns clandestinos porque as Universidades não dão canudos a escritores. Mas como até dizem umas coisas acertadas, vamos lá convidar este ou aquele para ganhar pontos na bondade. A MR diz escandaloso. Eu digo escandaloso, escandaloso, escandaloso, três vezes.
    Em Portugal muitos são os escritores que se queixam disso, como se tivessem uma placa luminosa na testa a piscar: caridade, caridade. Escrever é profissão, ponto! É-o no resto do mundo, ponto! Então só chamamos a globalização para algumas coisas? E o resto?
    Matilde Campilho, por exemplo, aprendeu a dizer que era poeta no Brasil, porque em Portugal não existe tal profissão (salvo raras excepções como HH).
    Na Noruega, outro exemplo, quando surge um escritor novo, o Estado compromete-se logo na primeira edição do livro a adquirir, salvo erro, 1000 exemplares para distribuir pelas Bibliotecas e assim garantir a venda e a subsistência do escritor.
    Noutros países as obras são vendidas antes de serem escritas, ou seja, quem escreve, escreve e recebe por isso.

    Portugal tem um mercado pequeno para a venda de livros, concordo e posso compreender a falta de verba suficiente para sustentar uma casa de família, neste caso do escritor, mas agora continuar a alimentar essa ideia de que a malta que escreve não tem contas para pagar é que não!

    Um dia destes discutia isso mesmo com um escritor português que tem obra publicada e até algum relevo na nossa praça literária. Contava-me ele que tinha sido convidado a ir a um desses eventos literários junto com Lobo Antunes e eu perguntei-lhe, inocentemente, se lhe pagavam. Ele respondeu-me, na mesma medida da minha inocência:
    - A mim? Não! Claro que não! A ele? Sim. Claro que sim. Dizem que tem o nome muito pesado e sofre de rabujice.

    Ai Portugal, Portugal... que mal te fazem os sorrisos!


    Um abraço aos extraordinários leitores e escritores e claro, bom fim de semana.

    Carla Pais

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    1. E ele (esse escritor português que tem obra publicada e até algum relevo na nossa praça literária) foi? se foi, então deveria era estar caladinho porque se foi era porque tinha certamente algum interesse ou então é um mole(co); ou estarei eu a ser injusto e/ou equivocado?

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    2. Severino, talvez esteja a ser injusto. O interesse dos escritores quando vão a eventos literários, e sabendo de antemão que não recebem por isso (porque é moda no nosso Portugal), fazem-no sempre com o interesse de divulgar a sua obra. Não é isso que está em causa. O que se discute é o facto das instituições se aproveitarem dessa fragilidade, que é o não reconhecimento da profissão de um escritor, para desatarem a convidar sem tão pouco se questionarem os aspectos financeiros. Mas todos sabemos que na praça literária, há escritores e escritores... Aquilo foi apenas um desabafo, uma ambição futura, talvez...


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    3. Severino, o principal problema é existir uma primeira vez...

      embora a maior parte dos escritores só sejam convidados sem custos (nas escolas é quase sempre, porque não há verba etc)...

      é mais um dos sintomas da nossa pequenez, só temos meia dúzia de "prima donas" que são de facto valorizados pelas editoras. :)

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    4. Carla, admito sinceramente que as minhas palavras possam não ser as adequadas, quiçá injustas, até porque estou a falar de algo que, confesso, não domino, daí...

      E quem, em situações semelhantes, não teve um DESABAFO idêntico que atire a primeira pedra.

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    5. E a vida destes escritores é feita de muitos desabafos. E por vezes saem livros, bons livros, excelentes livros. É isto que as instituições deviam respeitar: o trabalho de fazer um bom livro, um excelente livro.

      Neste campo, ainda somos muito pequeninos, no reconhecimento monetário de um jovem escritor comparativamente a outros. Mas estou convencida de que esses "gurus" de hoje passaram semelhantes peripécias no inicio da sua vida literária. A vida ensina!

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    6. Essa discriminação é que revolta. Se chamam um e o outro, por que não pagar aos dois? E por que razão o escritor aceita tal discrepância...

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    7. E por que razão o escritor aceita tal discrepância...

      Realmente Beatriz - afinal até o ALA é um homem!

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    8. Todos somos homens. Uma manhã (10 de Março)ouvi no programa "A Páginas tantas", Inês Pedrosa a contar que só negociou com a editora brasileira (já não recordo o objecto da negociação) depois desta aceitar publicar uma obra de Agustina no Brasil. É um gesto bonito. Porém, dito assim ao microfone e para todo o país, pela própria, não soou como devia. Todos somos homens. E somos injustos por pecadilhos da espécie e do indivíduo propriamente dito. Mas, por sermos humanos, temos também sede de justiça. Se eu fosse Lobo Antunes tentaria - caso tivesse conhecimento - que pagassem tb ao colega; ou dividia o pagamento com ele, à vista das entidades da instituição. Ah! E escrevia uma crónica a assinalar:). Mas não sou nenhum deles. Vou ser injusta para outro lado:)
      BFS

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  6. Vivemos num país em que a escrita é vista como um hobby, um passatempo idêntico a nadar, correr, jogar futebol nas horas livres. E, perante esta errónea concepção, é natural que se pense que fazem o que gostam e de cada vez que os convidam a escrever lhes fazem um favor.

    Suponho que se julga que recebem muito dinheiro com os livros que vendem:). A maioria das pessoas não lê e pouco escreve para além da lista de compras, dos lol e da escrita inteligente; portanto, não sabe o trabalho que dá encher uma página de boa prosa a desenvolver uma ideia. Para essa extensa maioria - mesmo a das pessoas que lêem - escrever é um dom e faz-se muito rapidamente desde que se possua o tal mesmo. E os poetas, é sabido, trabalham por inspiração divina e escrevem num sopro.

    Na verdade, talvez os escritores devessem começar por negar trabalhos grátis e afirmar o seu trabalho. E, nas suas prelecções - sempre vão fazendo algumas - poderiam ajudar o vulgo a situá-los e a situar a realidade do trabalho de escrita em Portugal. Farão isso?! Há muita gente a ir às escolas e a "conversar" nas autarquias.

    A realidade que se lê nas revistas tb contribui para essa ideia de prosperidade. Os entrevistados têm quintas e casas bonitas; e muitos deles escrevem num lugar só seu onde se isolam para tal próprio fim. Ora, meus senhores, a maioria dos portugueses, pagando renda ou não, não se pode dar a tais luxos de ir fazer o que gosta sozinho durante uns meses.

    Portanto: se são pobrezinhos e precisam de dinheiro como qualquer comum mortal, é anunciar. Ou apenas dizê-lo clara e realmente. Escusamos de viver iludidos com as carreiras fiugurantes de quem afinal, não tem um vintém de seu e é tão vazio de bolsa como qualquer português que se preze e não se venda ao capital:)) Desfaçam os preconceitos...

    Fiquem bem. Tenham um BFS.

    Senhores escritores pelintras, não se esqueçam de dizer a verdade, ok?

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  7. Partilhei este assertivo texto, é necessário e urgente "denunciar" a exploração dos Poetas e Escritores.

    Obrigado.

    Eduardo Júlio

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  8. Alguém tem aí uns trocos para um café?

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