Apelidar

Usamos em Portugal a palavra apelido para sobrenome, termo este usado pelos nossos irmãos brasileiros, para os quais apelido é aquilo a que nós cá chamamos alcunha. E, por falar em alcunhas, são famosas as alentejanas, claro, mas descobri numa crónica escrita pelo escritor e jornalista Joel Neto que, nos Açores, também as há com graça e imaginação e que por lá se designam curiosamente apelidos. Diz ele que só na sua terra a variedade é grande, que há apelidos antropomórficos (como Barbado, Carrapicho, Fininho ou Rasteiro – e explica que chamar Rasteiro a alguém é muito diferente de chamar Anão) e zoológicos: Besouro, Formiga ou Porca Amarela são exemplos disso (e eu, não sendo açoriana, fui Formiga anos a fio na escola por ser pequena e não parar quieta, mas nunca me chamaram, graças a Deus, Rasteira); que podem vir de uma antiga profissão de família (Cabreiro, por exemplo, e até Bispo), de um lugar a que se pertence (Das Bicas, Da Serra) ou mesmo de uma dinastia (Das Bernardas); que reflectem singularidades individuais (Mudo, Ligeiro), estão cheios de ternura (Cachinha, Estacinho, Zanguinha), acusam o ponto fraco (Chorica, Cara Suja) ou, como ele diz, são para esquecer (Peidão e Cagão). Portanto, se pensavam que só as alcunhas do Alentejo (e os apelidos também, porque os alentejanos têm sobrenomes ultracoloridos) tinham graça, desenganem-se. Os Açores fazem boa concorrência.


 

Comentários

  1. Era um costume medieval, nessa altura, quase toda a gente tinha alcunhas.

    Na aldeia transmontana de onde o meu pai é oriundo, também se usam muitas alcunhas, antigamente, talvez mais. Assim, de repente, não me estou a recordar de muitas, talvez ainda faça uma resenha. Mas vem de lá uma das alcunhas mais curiosas que já ouvi na minha vida: Prantafuso! O senhor em questão já faleceu há muito tempo, mas ainda hoje os seus descendentes são conhecidos como os filhos e os netos do Prantafuso.

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  2. Na terra da minha mulher, na zona de Tourais, Seia, Beira Alta, cada família tem uma alcunha, muitas vezes herdada dum antepassado ou do pai de família: Cheira-Mamas, Batatas, Pastão, Cantigas, Estrume, Poeira, Pendura Balões, ou a minha preferida O Pecado das Matas.

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    1. é curioso, Paulo, na Beira Baixa, há bastante variedade, usam-se animais, defeitos físicos ou até "descuidos".

      há famílias inteiras a que chamam os "macaquinhos", os "gatos", os "galinhas".

      há também os "mancos", embora já ninguém manque na família...

      mas a alcunha mais vistosa é a da família do Manel Cagado (nenhum dos filhos escapou à sina e os netos também vão pelo mesmo caminho...)

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  3. ,António Luiz Pacheco10 de março de 2015 às 06:31

    A alcunha muitas vezes acaba por ser apelido!
    Muitos dos apelidos que conhecemos, uns mais esdrúxulos ou estapafúrdios que outros, derivam de características, qualidades ou idiossincrasias como de defeitos, e sobretudo de actividades ou profissões...

    À força de serem repetidos e de uma pessoa ser conhecida pela alcunha, que muitas vezes se estende à família, filhos ou todo o núcleo ... tenho uns vizinhos no Graínho cujo chefe da família é conhecido como "Bombeiro", por ter sido bombeiro municipal. A mulher é "a Bombeira" e os filhos são o "O João do bombeiro" etc. . A família é referida como "os Bombeiros" , a casa dos Bombeiros, etc.

    Outro exemplo flagrante: O marido de minha madrinha, era Manuel Vieira Rodrigues, porém trazia a alcunha "da horta" (era o Manuel da horta, seu pai havia sido qualquer-coisa-da-horta) e assim era de tal modo conhecido que figurava na lista dos telefones como Manuel Vieira Rodrigues Horta!

    Creio que é uma característica muito humana e não estou certo de que seja apanágio das gentes do Sul da Europa, pois portugueses e espanhóis são useiros em colocar e usar alcunhas... mas também os Italianos (quem duvide leia Giovanni Guareschi que traça retratos perfeitos dos tipos populares na sua fabulosa série de romances D. Camilo).
    Os africanos idem... adoram alcunhas e são certeiros, e mais ainda adoram diminutivos! O seu Ginha, o seu Néné, o seu Jójó, o seu Dadinho, a Quina, a Titi ... etc. De Cabinda ao Cunene!


    Agora lembrei-me e não resisto a contar a do índiozinho que questionou o pai sobre o nome!

    O pai explicou-lhe que os ameríndios praticavam o culto de pôr nomes com sentido, que ilustrassem uma qualidade ou característica ou tivessem a ver com algum acontecimento... seu avô era Urso Grande porque homem forte e valente! A mãe era Gazela Veloz porque em jovem corria muito, a irmã era Linda Manhã por ter nascido numa... e concluiu: Está a perceber ó Preservativo Furado?
    Ahahah! Me perdoem...

    Mas a ciência das alcunhas é imensa, e o meu amigo Norberto Franco, investigador, escreveu mesmo uma obra a respeito, aliás a Amareleja é uma terra onde toda a gente tem uma alcunha! Dizia um da Granja, que a ele não apanhavam e não lhe punham alcunhas, ele nem lá passava, ia de roda! Puseram-lhe o "Vai de Roda"... eheheh!

    Saudações divertidas cá da Cidade Morena

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  4. Nem só brasileirice (apelido brasileiro) o exemplo dona Tinoca filha do seu Bem Bem destaca algures no livro Emerentina da Silva.

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    1. Perdão... "vulgo Dinha", é um pseudónimo da Nossa Extraordinária Cláudia da Silva Tomazzi?

      Saudações curiosas cá da Cidade Morena.

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    2. Papai o carinho tratava-me desta feita.

      Não é pseudônimo Pacheco está a ser meiguice.

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    3. Ah... Ok! Dinha... bem me pareceu, você é única demais para haver outra!
      E não consegue me enrolar... ahahah!

      Saudações e um carinho cá da Cidade Morena!

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  5. Claudia da Silva Tomazi10 de março de 2015 às 15:22

    Largado, chorava

    chorava a distância

    crescia lho destino

    olhos húmidos

    esperança tardia

    em lume; ardia, ardia

    o braseiro a cinza o dia.

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  6. Eu trabalho na Banca e, aquando do processo de informatização, encontrei fichas com nomes de clientes engraçados.
    Porém, o mais curioso, foi ter-me deparado com aberturas de contas antigas em que os sobrenomes nem eram precisos: "Marcolino da mercearia", "José barbeiro", "Joaquim da retorta", e por aí fora.
    Pelos vistos, abriam-se contas assim, nos belos tempos da simplificação.
    O mais estranho é que, se alguém perguntasse quem era o senhor Marcolino Neves, toda a gente encolheria os ombros e coçaria na cabeça, sem resposta pronta. Contudo, se perguntassem pelo senhor Marcolino da mercearia, ah, toda a gente saberia de quem se fala.
    Confesso-vos também uma coisa: nunca soube o sobrenome do senhor Joaquim da retorta.
    Mas era uma excelente pessoa!

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  7. Na terra do meu marido, em Trás-os-Montes também há imensas alcunhas engraçadas, e algumas até são recentes (50/60 anos). Gosto particularmente do "Meia Bolacha" (um merceeiro tão forreta que quando lhe pediam 200gr de bolachas, partia uma bolacha ao meio para não vender só 190 gr.. e fazer a conta certa, os filhos e netos também são conhecidos pelo mesmo nome)
    Aqui ficam algumas

    Albardeiros; Arreputas; Bairras; Balaças; Batóras; Bicos; Biroscas; Bispos; Boches; Bolos; Brasileiras; Buraqueiros; Cabritas; Cachucho; Cagalhoças; Caretos; Carmelinos; Carrriços; Cesteiros; Chiça; Chicharro; Chilamonca; Chochas; Croças; Cucos; Doceiros; Escaleiras; Embelinos; Esgueiras; Espreita buracos; Estrugidos; Falseiras; Farristas; Faz-rodas; Ferradores; Ferreirinhos; Focinho de reco; Fogueteiros; Forneiros; Furões; Gaiolas; Galegas;; Grifos; Grilos; Isolinos; Labitas; Latas; Licréus; Licroas; Manatas; Marós; Marucas; Meia Bolachas; Meio Quilo; Melros; Minhotos; Mochos; Molha o Bico; Monhés; Morracos; Nengrinhas; Ovos; Pai-Avô; Panarras; Pardais; Pechincha; Pedros; Pelicras; Pelotas; Penetras; Peixes; Perdigotas; Pileus; Pinta navios; Piroilas; Pitos; Pobres; Praganas; Raieiros; Rapasocas; Ratos; Regalheiras; Resineiros; Rigolos; Rinóias; Ronca o burro; Rossas; Rucas; Saias; Sapos; Saragoças; Sardinhas; Sete malgas; Tatos; Tecedeiras; Tintins; Titaita; Turras; Trinta velhas; Tróias; Viaicas; Vitelas; Zé Boi; etc. ...


    Patarás, Ovelhinha, Lagartão, Cá-te-espero, Frade, Furacácos, Tralhão, Cobra, Cardeais, Reis, Recussos, Cabras, Grelos, Bacalhaus, Migas, Barbeiros, Chachoilas, Chocos, Vidalegres, Bombinhas, Cavalinho, Contágulhas, Panárras, Gerigôtos

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    1. Que fartura! Acho que não preciso de me dar ao trabalho de fazer a tal resenha...

      No entanto, o Prantafuso continua a ser único ;)

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  8. Os antepassados alentejanos de D. Albertina Cubaixo ainda usaram o apelido formado por duas palavras.

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  9. Sendo açoriana, sempre convivi de perto com esta realidade. Levou algum tempo para que me apercebesse da existência deste costume de "apelidar". Muitas vezes ouvi a minha avó falar de gente esquecida pelo tempo....Assim e, apesar de não o ter conhecido, fiquei a saber que chamavam ao meu avô "Perna de ferro", por exemplo. Havia um suposto Manuel "Bicho", de quem ouvi falar vezes sem conta...um senhor a quem apelidavam o "Caça"; ou o enigmático "Meia-Noite", que tem o costume de deambular noite dentro; "Vira mundo"...

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