Palavrinhas
Ando intrigada com a familiaridade de algumas palavras (em termos de parentesco linguístico, por assim dizer) cujo sentido actual me parece muito distante. Cabeça, por exemplo, que vem do latim caput e em italiano se diz capo. A raiz latina torna claro por que razão o capataz e o capitão estão à cabeça das suas equipas e tropas e também porque chamamos capo ao chefe da mafia italiana. Também se percebe facilmente porque usamos a expressão per capita (por cabeça, por pessoa). Se considerarmos que a cabeça é a parte principal de uma pessoa (se a perdemos, adeus!), também compreenderemos porque se chama pena capital à pena de morte e porque um decapitado perde a cabeça, bem como porque a capital de um país é a cidade principal. É ainda mais ou menos óbvio para mim que a letra capital (também denominada capitular) seja a que está à cabeça do texto. Já menos clara é a palavra capítulo como divisão de um livro (parece que deriva de capitulum, que é um diminutivo de cabeça, mas não encontro a relação entre cabecinha e parte de um livro), embora seja mais simples de entender a mesma palavra como assembleia de monges (em sala do capítulo, por exemplo), pois consigo visualizar cabecinhas pensantes tomando decisões (mas provavelmente é outra a explicação). E, quando penso em recapitular – verbo giro, este –, entendo que voltar ao princípio é também regressar ao que estava à cabeça – e até aí tudo bem. Porém, mais uma vez tenho dificuldade em associar o verbo capitular e o substantivo capitulação a uma cabeça (uma cedência ou transigência feita com a consciência de que era o melhor para todos? Pode ser); e ainda mais estranhas me parecem as palavras capitalismo ou capitalizar, já que as relaciono com dinheiro e me parece que a paixão pelo dinheiro nada tem que ver com uma boa cabeça (sim, eu sei que é preciso ser inteligente para acumular riqueza ilicitamente e não ser apanhado, mas mesmo assim). Enfim, andei às voltas com isto, mas não consegui tirar as devidas conclusões. Conto com quem tenha melhor cabeça do que eu para o fazer.
sem ser especialista em linguística, percebo que a troca de uma letra faz toda a diferença (trocar o principio pelo fim das nossas vogais...), o A pelo U. :)
ResponderEliminarBem, o escritor brasileiro Machado de Assis no livro "Dom Casmurro" desenvolve a personagem Capitu.
ResponderEliminarCom relação a(s) palavra(s) em itálico que a Doutora Maria do Rosário desenvolve a língua latina está evoluída a partir da raiz, assimilado prefixo e sufixo.
E, para quem estuda ou estudou a linguagem Tupi Guarani percebe (semelhante) grafia em alguma sílaba.
Hum... sim, mas "capítulo" era uma reunião diária no convento para discutir ou estudar assuntos respeitantes à religião. Por isso quando há um conclave ou uma reunião para analisar algo, diz-se que se vai "levar o assunto a capítulo" ou que se "vai a capítulo".
ResponderEliminarDaí, que os livros sejam compostos por capítulos, isto é, assuntos ou partes.
Creio que faz sentido...
"Capitular", talvez tenha a ver com o sentido usado popularmente de "baixar a cabeça" ou seja desistir, ceder, entregar-se portanto.
Também me parece fazer sentido... pois quando se entrega ou perde a cabeça (capitula), é o mesmo que estar vencido.
Já "capitalismo"... tem na palavra capital dois significados, que são ou o mais importante ou o conjunto de bens.
Penso que capitalizar é mesmo no sentido de juntar bens, já que capital é o que é vital... e como a cidade-capital atraía e ou portanto capitalizava, pode vir daí... será?
Capitalismo, vem na sequência desse significado de juntar bens e de ganhar importância tornando-se afinal na "cabeça", em que a capital é como a cabeça do país e onde se reúne tanto o saber, como a cultura, a economia, etc.
Mas isto são elucubrações de um final de manhã chuvoso, morrinhento e fatigado em Luanda onde vim finalmente desaguar depois de uma incursão ao planalto!
Anseio voltar para a calma morna da Cidade Morena!
Saudações húmidas kaluandas!
Ai que cabeça a minha!
ResponderEliminarÉ que não faço ideia onde é que deixei a pen, e tenho lá um textozito que andei a rabiscar, que era por mor de colocar aqui, como habitualmente, nesta secção mensal dedicada a palavras, terminologias, expressões em desuso, etc.
Bem: vou ter de voltar a casa a ver se por lá encontro o diacho do hardware, ou lá como é que se usa agora dizer.
Mas... espera aí!... onde é que eu pousei a chave do carro?...
É de capital importância não perder essas coisas, e ao invés capitalizar a memória por mor de conservar o capital que elas constituem!
EliminarSaudações da capital Luanda... eheheh!
Umas achegas:
ResponderEliminar- CAPÍTULA -
A) Aquele que se deixa induzir por uma extensa dissertação não conseguindo fazer uma pausa.
B) Capítula é fazer uma leitura de um livro sem interrupção
- CAPITOLINO - uma das mais altas e famosa das 7 colinas de Roma!
Ora Roma era a Capital... e o capitólio é a sede do Congresso nos EUA. A palavra significando triunfo, glória, elevação.
Penso que se vai compondo a coisa...
- Capitolina, por curiosidade, é o epíteto de Vénus, que teve uma estátua erguida no capitólio.
Saudações elucidativas e esclarecidamente kaluandas!
Enquanto não recupero a pen que vem a caminho, a propósito de “cabeça” recordo abreviadamente uma história que se conta aqui em Amarante.
ResponderEliminarAlguns anos antes do 25 de Abril era Presidente da Câmara um conhecido industrial cuja empresa exportava muito para a Suécia – tanto que lhe foi lá concedida a comenda da Ordem dos Amarantes . Esta Ordem foi criada em 1652 pela Rainha Cristina da Suécia, em honra do então embaixador D. António Pimentel (*), natural de Amarante, e distingue as personalidades que se notabilizam no relacionamento com o Reino.
[(*) Segundo algumas fontes, as suas aventuras em Estocolmo deram origem ao mito do macho latino...]
Em contrapartida, o agraciado promoveu a vinda a Amarante de uma importante comitiva de altas figuras do Estado sueco, com destaque para a Princesa Cristina.
Na sede da empresa alinhou tudo quanto era figura importante aqui da terra, e iniciou-se a cerimónia das apresentações. O Presidente ia nomeando o apresentado, um intérprete ia traduzindo para a Princesa, e esta ia murmurando um breve hm , hm » que era traduzido para «muito prazer».
Chegado o momento de apresentar o Sr A.V ., o Presidente ia enumerando os muitos cargos que ele detinha: «Membro do Conselho de Administração da T.» - e o intérprete: Msonrtr cohavtr adirgfu T» - «Presidente da Associação Humanitária...» - Pfenfia Baombps Humenfr » - «Presidente do Futebol Club ...» - « Pfenfia Fotmeh Chawni » - «Vereador da Câmara...» - Bsuanf Gucxso Munla » - «Vice-Presidente da Associação dos Industriais...» - Bcaqur Jhavrop Indxte » - «Director da Confraria...» - Cnfrio Dcatkis » - ...
... e por aí adiante, até que, lá pelo 12º cargo, a Princesa exclamou:
Lniak animhe ! Lniak animhe !»,
que o intérprete se apressou a traduzir:
«Grande cabeça! Grande cabeça!»
Credo!!!!
EliminarIsso é sueco mesmo? Ou é "sueco a fingir" como o do cozinheiro dos Marretas?
Eheheh!
Abraço para Amarante!
É sueco do melhor que consegui arranjar. E, se bem reparar, respeita o acordo ortográfico, que não abre, apenas fecha as aspas». Quer dizer: desde o tempo de D. António Pimentel que isto lá na Suécia é mesmo assim, as aspas estão automaticamente abertas. E muitas vezes nem as fecham, deixam-nas apenas encostadas.
Eliminar[Da série “Palavras e Expressões Em Desuso”]
ResponderEliminarQuem quer que fez isto
Nos inícios da minha vida de estudante em Lisboa fui, com mais uma malta, passar um sábado em Cascais, a convite de um nosso colega que ali vivia na vasta casa do pai, latifundiário alentejano.
Foi pela mão desse colega que vi pela primeira vez a Boca do Inferno.
Logo à primeira vista, ali no miradouro de cima, fiquei impressionado, sem palavras. Depois, no outro miradouro junto ao mar, idem aspas – se assim se pode dizer da ausência de palavras.
No decurso da visita o anfitrião contou-nos o que ali se passou quando, uma ocasião, a convite do pai vieram, de lá das profundezas do latifúndio, o feitor mai’la patroa, e estiveram alguns dias instalados na casa de Cascais.
Foram levados numa ronda a conhecer as coisas interessantes da região, circuito que foi concluído em beleza aqui mesmo, na Boca do Inferno.
Tal como eu, também o feitor, rendido à imponente magia do sítio, sem dizer palavra ia apreciando o furioso combate do mar contra os gigantescos rochedos, avaliando a dimensão das enormes nuvens de espuma de cada vez que uma onda assaltava o grande buraco...
Quando regressavam ao carro ele deitou uma última olhadela e, cofiando o queixo enquanto acenava um vagaroso assentimento com a cabeça, proferiu finalmente o seu ponderado juízo: «Sim senhor! Quem quer que fez isto trabalhou muito riglar.»
Ora bem: o feitor tirou-me as palavras da boca.
... ... ...
Claro que aquela expressão entrou rapidamente em uso no nosso círculo, pois que aproveitávamos todos os pretextos para a aplicar. E o seu uso alargou-se consideravelmente, à medida que cada um de nós ia contando o episódio do feitor aos seus próximos, e assim sucessivamente.
A coisa ainda durou uns anitos, mas foi esmorecendo.
Até que, por fim, fiquei eu o derradeiro portador da expressão – que teimosamente semeio sempre que posso nas minhas conversas.
Aqui atrasado a minha filha e o meu respectivo neto vieram cá passar um fim-de-semana.
Estivemos à lareira até tarde na conversa. E eu não deixei escapar a ocasião de lá meter a tal expressão.
Na manhã seguinte andava eu para baixo e para cima a tratar das lides, e estavam eles animadamente na cozinha a saborear os iogurtes artesanais que faço todos os oito dias, há décadas. Não é para me gabar, mas aquilo, acompanhado por canela, mel e cereais ou nozes...
Ao passar na escada ouvi o miúdo a rapar o copo e, enquanto lambia a última colher, comentar com risonha cumplicidade para a mãe: «Sim senhor! Quem quer que fez estes iogurtes trabalhou muito riglar.»
Ora bem: a semente está de novo a germinar...
E por falar em cabeça, vem-me à memória o capote.
ResponderEliminarHugh Capet, (assim chamado porque se julga ter o hábito de usar um capote), o primeiro rei da "ilustre" dinastia dos Capetos, cujo ramo secundário do Ducado da Borgonha deu origem à nossa 1ª Dinastia, a dita "Afonsina".
Como curiosidade: com excepção dos três Filipes (casa dos Habsburgos), todos os outros reis pertenceram a ramos da dinastia do Capetos.
A propósito de "capitular" e "capitulação", também me ocorreu o "baixar a cabeça", uma atitude muito simbólica de submissão ou rendição.
ResponderEliminarCapítulos de um livro: bem, se considerarmos o início de um livro como a sua cabeça, talvez as várias partes em que ele se divida tenham a sua cabecinha própria, ou seja, várias unidades com o seu início, meio e fim.
"Capital" e "capitalismo" - confesso que não fui pesquisar, mas tenho na ideia que estes conceitos surgiram por alturas da Revolução Industrial, em que o dinheiro surgia como o motor de todas as transformações mundiais. Era um novo modelo de sociedade, regido pelos lucros, a riqueza que cria mais riqueza, ou seja: o dinheiro todo-poderoso. Isto, à custa da miséria de muitos, pelo que surgiu Marx, com o seu "Das Kapital", propondo um novo modelo de sociedade, o proletariado contra o "capitalismo" - terá esta palavra sido criada pelo próprio Marx, que assim denominava o novo sistema, em que o dinheiro é a cabeça que tudo dita?
Afirmo-o à cabeça: quando bato com a cabeça na parede estou a castigar a peça principal.
ResponderEliminarParênese
ResponderEliminarCapitólio
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