O que ando a ler
Recentemente, pediram-me que escrevesse um texto de incentivo à leitura de Gil Vicente para alunos do 10.º ano. Ao que parece, os autores clássicos não convocam hoje grande simpatia por parte dos jovens (nem sequer Fernão Lopes, pelos vistos, que é um dos meus preferidos) talvez por terem um grau de dificuldade associado aos arcaísmos que inibem muitas vezes a leitura. Não quis, porém, escrever sem reler a peça que os alunos estudarão: Farsa de Inês Pereira, que até representei em menina no auditório da escola; e, como já nem sabia onde estava o meu Gil Vicente, aproveitei a versão digital gratuita, descarreguei-a e li-a num iPad (estou a adaptar-me aos tempos modernos, mas nem custou nada, são só 40 páginas). E que alegria assim que voltei a pôr os olhos no texto e a ouvir dentro da cabeça a língua do mestre! Os versos maravilhosos, às vezes divididos ao meio por duas personagens, marcando um ritmo acelerado e bem-disposto, a rima perfeita, tantas palavras gostosas de que nem me lembrava. E que reviravoltas surpreendentes, sempre a contrariar aquilo que esperávamos, quanta sabedoria e quanta coragem de dizer verdades incómodas (e sabemos que o dramaturgo trabalhava na Corte, mas não se ensaiava nada em cascar na Nobreza). Enfim, a experiência foi tão boa (são assim os clássicos) que agora ando a (re)ler Gil Vicente. Rápido, grátis e muito compensador.
Bom dia e boa semana para todos!
ResponderEliminarMas Gil Vicente e outros autores clássicos (do mesmo tipo) não convocam hoje nem convocaram ontem grande simpatia por parte dos jovens e creio até que, para alunos tão jovens, são uma absoluta inibição e um total desincentivo à leitura -estou a falar por mim e o que eu penso, claro-
Na obra de Gil Vicente há muitos aspectos que, se bem explorados, com toda a certeza convocariam a simpatia dos jovens – linguagem directa, satírica, transgressora, uso de plebeísmos e palavrões, etc , como por exemplo nesta passagem do Auto da Barca do Inferno:
Eliminar«Entra Domingas e diz:
Eramá, esses bastardos
nada querem da labuta.
Muita parra, pouca fruta,
pouca ervilha e muitos cardos.
Triste vida fideputa !
Antes irei de bom grado
ver se acaso estou doente:
sempre o físico consente
em me passar atestado
e então folga toda a gente.
Ó filhos de Belzebú
acaso perdeis o siso?
Aos livros limpai o cu,
ou metei-os no baú,
que os lerdes não é preciso.
(vai-se bailando)».
O problema é, para os professores, como lidar com isto na aula... E como evitar a banalização, p. ex. pela legitimação da Casa dos Segredos de Mr Ed , que o Severino tanto refere...
SEM DÚVIDA!!!!
EliminarCalhando...
EliminarRaymond Carver, DO QUE FALAMOS QUANDO FALAMOS DE AMOR (Teorema)
ResponderEliminar"AS LOUCURAS DE BROOKLYN" - Paul Auster é sempre uma agradável surpresa, linguagem simples, sempre histórias e personagens fascinantes e, ao mesmo tempo, tão reais que parecem que estão mesmo a acontecer aqui em frente de nós. Paul Auster é um belo escritor (em todas as circunstâncias)!
ResponderEliminarE a reler CONTA CORRENTE ( e são nove volumes)- mas que grande escritor é Vergílio Ferreira!
Não consigo encontrar os volumes de Conta-Corrente, infelizmente.
EliminarÉ fazer figas para que a Quetzal os reedite.
Ó Catarina 80% das centenas, talvez milhares dos livros que tenho em casa ainda não os li (quem é viciado sabe do que falo), ora o que teria de ser a minha casa (e o meu ordenado) se tivesse de comprar todos os livros que leio...frequento bibliotecas municipais, Catarina.
EliminarDos que tenho em casa vou lendo (um por mês)...
Obrigada pela resposta, ASeverino .
EliminarMas não vivendo em Portugal não encontro "Conta - Corrente" nas belas bibliotecas da Escandinávia.
Assim torna-se efectivamente mais difícil e creio que CONTA CORRENTE estará esgotado nas livrarias portuguesas, ou pelo menos sei que será muito difícil encontrá-lo à venda a não ser um ou outro volume disperso.
EliminarO regresso aos clássicos da literatura portuguesa ou universal é sempre uma mais valia. Mesmo os escritores actuais não deviam "ser autorizados" a editar sem conhecerem os clássicos.
ResponderEliminarComo ando a assistir à integral de Racine (12 peças), que me vai ocupar até abril, decidi ler um breve estudo biográfico sobre este autor francês que eu desconhecia. Estou também a terminar as biografias de dois outros dramaturgos (é coincidência, juro): Noel Coward e Terence Rattigan. Estão um tanto esquecidos, mas eles marcaram o teatro britânico do século XX. Estas biografias são ao mesmo tempo livros de História, o que me agrada muito.
ResponderEliminarBem vinda leitura e, Mário Quintana referência brasileira a poesia nos 80 anos, editora Globo.
ResponderEliminarTalvez porque não me assustem arcaísmos e maneirismos de época, adoro Gil Vicente até ao tutano.
ResponderEliminarE por falar nisso: lembro até a argumentação com uma brava "extraordinária" acerca do "Eurico o Presbítero".
Grosso modo, de acordo com a Senhora, esta era uma obra datada pois estava pejada desses arcaísmos.
Enfim, todos temos o direito à opinião. Hoje como ontem há pessoas para todos os gostos e gostos diversos para todas as pessoas... Ou será o inverso?
Abraço a todos
«obra datada pois estava pejada desses arcaísmos»?
EliminarDesminto, nunca disse tal coisa! Aliás, "Eurico, o Presbítero" não contém os arcaísmos de que aqui se fala!
Acabei há dias "Uma Outra Voz", de Gabriela Ruivo Trindade. Foi o terceiro Prémio LeYa que li e, de longe, do que gostei mais. Um livro que me apaixonou e que eu largava sempre contrariada. Que mais se pode pedir a um(a) autor(a)?
Parabéns à autora!
Comecei agora "Moolb, o Reverso", do extraordinário Pedro Sande.
O Pai Natal trouxe-me, lá da Islândia, “Rosa Candida ”, de Audur Ava Olafsdóttir (tradução de João Tordo / Ed. Marcador, 2014 / 348 páginas).
ResponderEliminarPois nem de propósito: os dias límpidos que estiveram, manhãs geladas e tardes quentinhas ao sol, foram o clima ideal para ler esta obra singular na qual predomina o poder da Natureza.
Como muito bem refere João Tordo na sua nota nas últimas páginas, a Natureza predomina até sobre as convenções, tais como a geografia, pois que nunca nos é revelado em que país decorre a história, nem para que região viajou o protagonista, como se chama a cidade onde está o mosteiro em cujo jardim teve origem a rara rosa de oito pétalas e sem espinhos, etc.
É um pouco nesse sentido da ancestralidade cultural da Natureza que prega frei Thomas na pág. 191: “O corpo é discutido em cento e cinquenta e duas passagens na Bíblia, a morte em cento e quarenta e nove, e rosas e outras plantas, em duzentas e dezanove. Contei-as para teu agrado. As plantas são o tema mais referido. Existem figueiras e vinhas escondidas por todo o lado (...)".
Aliás, já na pág. 177 o mesmo monge nos havia passado a seguinte mensagem da autora: “A reivindicação segundo a qual a arte tem de representar a realidade é, no mínimo, estranha. (...) Acho que as pessoas já estão fartas da realidade mundana.”
Digo isto porque a autora, que é Prof. Universitária de História da Arte, escreveu o livro por volta de 2006/2007, na altura em que os especuladores financeiros estavam a destroçar a Islândia.
A esse contexto a autora contrapõe esta obra plena de idealismo e delicadeza, verdadeiro antídoto contra o sentimento de medo que se convencionou associar à escuridão boreal – a qual, como nos mostra o livro, é, afinal, esplendorosa.
Aka!
ResponderEliminarEnfiei o barrete do ano e o maior dos últimos tempos!
Acabei de ler - aproveitei a viagem para cá - o último de Pedro Pinto, com o sugestivo embora cacofónico título: Serpa Pinto, o Mistério do sexto Império!
Li o seu "O último bandeirante" e gostei bastante, logo achei que este seria ainda melhor, sobretudo pelo tema que promete e leva ao engano!
Nem nada!!!!
Uma sensaboria... mais chato que os sermões do Padre António Vieira (o do quinto império) e uma grandessíssima desilusão.
Em vez de acção é um livro sobre estados de alma dos personagens, que descreve exaustivamente, perdendo-se em floreados que se pretendem de estilo ou de grande literatura inúteis e totalmente descabidos, até excessivos num livro que se apresenta como de aventura (treta!).
Usa e abusa das descrições de estados psicológicos que só prejudicam porque retiram interesse e quebram qualquer ritmo que houvesse, se o houvesse... Além disso está cheio de erros e de imprecisões, fez mal o trabalho de casa!
Se Serpa Pinto tivesse tanta hesitação, se tivesse passado tampo tempo a fazer introspecção, não teria atravessado África, à frente de uma expedição de negros africanos, sem mapas, guias Michelin, GPS, rádio, telefone satélite... etc. Coisa que o autor devia saber ou pelo menos desconfiar! A psique de um explorador e militar do século XIX não era nem podia ser aquele que ele pretende dar, achando que o engrandece por talvez assim o dar a ver com tantas fraquezas e dúvidas!
Muitíssimo maltratado o tema, aliás que me remete para o meu Largueza, com o qual e sem querer fui levado a fazer comparações pelas muitas semelhanças encontradas, até e logo no começo no facto de haver um investigador a cujas mãos vão parar uns documentos e se apaixona pela perita que o ajuda a desvendar os mesmos... mas isso é mera coincidência e há-de ter sido usado por dezenas de escritores no género...
Só me pergunto é porque não terei eu tido a ventura de achar quem me o editasse, revisse e distribuísse... sei que é feio e vaidosice o que vou dizer, mas sinceramente acho que as 1100 páginas de Largueza dão 10 a 0 às 195 páginas deste...
Para me recompor, resolvi ler um livro que em tempos emprestei e nunca mais recuperei, vai para uns 30 anos! Ficou-me sempre na idéia, e como um dos grandes made by USA - num género de literatura e com autores que muito aprecio: A estrada do tabaco, Erskine Caldwell.
Este nem vale a pena comentar... é muito bom!
Saudações de leitura cá da Cidade Morena!
Caldwell!... No verão passado descobri o seu "Amor e Dinheiro" numa papelaria de vilória de interior, da Coleção Dois Mundos da Livros do Brasil. Nunca tinha lido nada do autor e fiquei logo preso, com vontade de procurar mais. Como nada encontrasse em livrarias, e quando já pensava descarregar Tobacco Road para o Kindle, eis que sou surpreendido com uma edição recente da Saída de Emergência. Grande obra, descrevendo com crueza a Grande Depressão, e grande autor.
EliminarEu tive essa edição da Colecção Dois Mundos!
EliminarFoi um dos raros livros que emprestei... já lá vão muitos anos, e também há já muitos anos que não empresto livros, salvo raríssimas excepções a gente de muita confiança e depois de assinarem um registo! Tal e qual!!!!!
Comprei-o recentemente numa edição da Saída de Emergência, ao vê-la na Bertrand! Últimamente tenho recordado ou lido autores Norte-americanos, e deveras houve uma geração fantástica a aproveitar a recessão, o entre-guerras e o pós-guerra, ou é impressão minha?
Saudações livrescas da Cidade Morena!
livro emprestado livro dado.
EliminarA ler A Educação Sentimental, um pouco tardiamente, e a fechar assim Flaubert: paixões inacessíveis - até à página 121 - galantemente alimentadas pelo roçagar de vestidos ou pela visão fugaz de tornozelos femininos em salões da sociedade parisiense. Depois, no campo da poesia, um livro que me saltou à vista numa prateleira fnac: Da Vida das Marionetas, de Ricardo Gil Soeiro, que presumo vai estabelecendo paralelos entre um boneco inerte e o ser humano.
ResponderEliminarEu ando dividida entre Herta Müller com "Tudo o que tenho trago comigo" e Alexandra Lucas Coelho "O meu amante de domingo".
ResponderEliminarBem, quem sou eu para criticar um escritor, mas confesso que o livro de ALC me desiludiu um bocadinho. Pelas 5 estrelas da crítica achei que teria mais história, mais mestria. Não digo que não seja bom, mas não o considero genial como o apelidaram. Talvez haja, a meu ver, demasiado calão para tão poucas páginas. Dá a impressão que foi um livro escrito a correr. Mas isso sou eu que não percebo nada de Literatura.
Entretanto vou de férias e comigo vai o mais recente Nobel da Literatura, Modiano, que vou ler pela primeira vez.
Ando também a reler o "principezinho", mas em francês e confesso que vou ficando, de novo, encantada.
Um abraço aos extraordinários leitores.
Carla pais
E agora o que ando a ler: um livrinho de um amigo pintor, o Eduardo Santos Neves, tipo mini catálogo, um grande pintor num país onde os artistas são quase nada. Um catálogo com trinta ou quarenta páginas, quase só fotografias da sua obra... mas como um quadro para mim é como se fosse um conto... :) E Os Segredos de Jacinta, editado pela Poética Edições, um romance histórico da nossa extraordinária Cristina Torrão, um percurso entusiasmante de uma jovem no século XII português.
ResponderEliminarPerdão... da nossa Extraordinária Cristina Torrão, ó igualmente Extraordinário PAS!
EliminarSaudações Extraordinárias da Cidade Morena!
Toda a razão, António, um abraço!
Eliminarestou no começo de "O Meu Amante de Domingo", de Alexandra Lucas Coelho.
ResponderEliminarEstou a acabar 'O Endurance - Encurralados no gelo' de Caroline Alexander que descreve a épica proeza da tripulação liderada por Shackelton, baseando-se nos seus diários, para se safarem após o navio Endurance ter ficado preso no gelo do mar antártico e se ter afundado. A capacidade de lutarem pela sobrevivência, num meio isolado e totalmente hostil, até ao 'infinito e mais além' é espantosa. Não deixa de ser irónico que seja esta epopeia, que resulta de um falhanço (o objectivo da expedição era atravessar pela primeira vez a Antártida a pé pelo seu interior de uma ponta à outra), que perpetuará o nome de Shackelton. E as fantásticas imagens, tiradas pelo fotógrafo que ia na expedição, são um complemento fundamental deste livro.
ResponderEliminarConcordo consigo em toda a linha!
ResponderEliminarMuitos feitos da humanidade ou dos seus actos mais espantosos e até heroicos, são reveses ou falhanços...
Mais do que irónico é Extraordinário!
Saudações Extraordinárias da Cidade Morena