Diagnóstico

Desde há alguns anos (2010, creio) que os alunos do 2.º Ciclo do Ensino Básico de algumas escolas (no ano passado mais de 68 000 miúdos) realizam testes de Português e Matemática para se fazer um diagnóstico das suas dificuldades e tentar que, na prática pedagógica, se insista num ponto ou noutro. E agora o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) vem dizer que os resultados de 2014 não são famosos: os alunos escrevem com erros, não põem acentos, têm problemas em interpretar e escrever com coerência e – o que é ainda mais estranho, uma vez que o mundo tem sido regido mais pelos números do que pelas letras nos últimos anos – mostram não estar completamente à vontade no que toca a contar dinheiro. Em 2013, a apreensão do sentido de um texto revelou menos problemas – e parece que o que levou a que só 42% dos alunos tivessem em 2014 «o nível máximo de desempenho» se prende com o facto de o texto a interpretar ser um poema (mas o carteiro de Pablo Neruda entendia as metáforas e era quase analfabeto, digo eu). Quanto à ortografia, só 35% dos alunos escreveram correctamente as seis palavras pedidas e só 28% escreveram um texto sem erros; este texto só era coerente em 39% dos casos e só 38% dos alunos revelou um vocabulário adequado. Entre outras más notícias, verifica-se também que baixou desde 2013 a percentagem de alunos que interpretam bem o enunciado de um problema matemático (se calhar por causa das dificuldades com o português), enquanto sobe a dos que não conhecem o significado dos símbolos matemáticos e a dos que ainda se enganam a contar dinheiro. Fico tão estupefacta que nem consigo comentar.

Comentários

  1. Na rua à minha frente iam quatro jovens saídos duma escola, dois rapazes e duas raparigas, e a cada palavra que diziam duas eram asneiras (coza-se e por aí fora), sendo as raparigas as mais "faladoras", escusado será dizer que certamente será a linguagem que usam em casa e o problema estará certamente aqui. É que, por muito que me doa, a geração rasca gerou filhos ainda mais rascas que eles próprios e educou-os rascamente à maneira rasca...e quem torto nasce ...

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    1. Talvez até seja como diz. Mas a geração rasca que afirma, foi educada pela nossa geração:) Como é que os deixámos ser tão palermas. Sim, nós pais, nós professores, nós Estado e políticas educativas de chacha, papel e negligência, nós centros educativos de apoios e tempos livres, nós tios, avós e afins, nós sociedade em geral. Que vento (se calhar chamámos-lhe vento de liberdade) nos fez esquecer princípios básicos da formação humana...

      Pois não julgue que aponto o dedo - também a mim, sim - e possuo respostas. Porque não. Quer dizer, terei algumas, mas não esgotam nem solucionam.
      E o que eu gostava mesmo era de poder solucionar, fazer coisas no sentido de. Assim, não se pode ir em frente.

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    2. Nós - ponto e vírgula...

      É que eu nunca fui em conversas de traumatizados e nunca os meus filhos levantaram a mão para mim (como vejo frequentemente nos centros comerciais a berrarem e aos pontapés ao pai e os pais a rirem-se,,,,) e se alguma vez se aventurassem não ficariam traumatizados com a lambada que logo levariam-nunca foi preciso, bastava abrir os olhos-; o problema é o dos traumatizados e do politicamente correcto e o resto é conversa de ervanária e de Júlios Machados Vaz!!!

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    3. A propósito do politicamente correcto e de traumatizados:

      já repararam que quando, actualmente, em Portugal há, por exemplo, um incêndio, antes de irem os bombeiros chega primeiro uma brigada de gente destinada ao apoio psicológico...então mas isto não é andar com a carroça à frente dos bois...

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    4. Não, não. Nós. Sem ponto e vírgula. E sem Júlios Machado Vaz. Nós portugueses (afinal também com Júlios Machado Vaz).

      Quanto às birras infantis, nunca vi nenhum pai rir delas, são coisas que nos envergonham. E um bocadinho impossíveis de controlar por vezes (experiência pessoal). Uma ou duas podem acontecer. A eficácia do remédio inibe repetições.
      Não pertenço ao número de pessoas que pensa que não se pode tocar nas crianças. Uma palmada na hora certa não traumatiza e resolve muito problema. Mas "uma lambada" é assim uma coisa que me recorda violência e excesso, ira; nesse caso, o problema está em quem bate. É deformação do educador e dificilmente esquecida pelo educando.
      Ainda bem que não precisou dar nenhum sopapo.

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    5. Caro ASeverino, o seu problema são as sinédoques. Ou seja, toma a parte pelo todo. Não é um defeito só seu, acredite.

      Gosto também que venha criticar a educação dada por uma certa geração, à qual não pertence, presumo, num texto precisamente sobre o mau estado da educação, e demonstre que não sabe escrever. A menos que a pontuação inadequada, que torna o seu discurso uma salada de frases separadas por vírgulas ao calhas, seja uma saramaguice. Mais uma vez, criticar a má educação dos outros quando não se é bem educado não é um defeito só seu. Mas, já que gosta de provérbios, quem tem telhados de vidro...

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    6. Caro Ricardo - se as sinédoques são o que diz, talvez tenha razão, às vezes falo de coração na boca e caio nesse erro - o tomar a parte pelo todo; assumo, não sou calculista!

      -Eu ignorante me confesso, é a primeira vez que oiço esta palavra, sinedóques (conversa de almanaque)-. Mas já fui ao Houaiss.

      Se tiver a paciência de conseguir ler a minha salada de frases (sei que, como refere, escrevo mal) concerteza que se aperceberá de que critico costumes e não a educação que é ministrada nas escolas, mas aquela (educação) que faz parte do homem, que lhe é intrínseca, daquela que nos é transmitida em casa pelos nossos pais e familiares.

      Realmente eu não sei escrever, também assumo, mas ando a aprender e, curiosamente, já aprendi muito com a saramaguice e com ela quero continuar a aprender. Saramago sabia mais do que você quando estava a dormir do que você quando está (bem) acordado!

      De qualquer modo, não poderá esquecer que, como você e pressupõe e realça, está a falar com um ignorante, por isso há que levar isso em conta...

      E essa das vírgulas (e não só) ao calhas também não está mal vista e aceito porque, vindo de quem vem, certamente um sábio (ou será um sabichão?), há que amochar...


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    7. Com certeza que "concerteza" está mal escrito. Deixe os costumes e dedique-se ao português, mas é...

      Belo literato me saiu o ASeverino, que nem nunca tinha ouvido a palavra "sinédoque". Acham que literatura é os Peixotos e os Ondjakis e depois não sabem coisas básicas. E ainda têm a lata de presumir que é palavra de almanaque. Está bem...

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    8. Tal e qual.

      A palmada e a lambada são apanágio de (pre)conceitos muito diferentes.

      Eu sei. Levei ambas.

      PLFF

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    9. Eu bem dizia que o Ricardo era um sabichão...

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  2. Li o livro de Maria do Carmo Vieira, O Ensino do Português, há umas semanas, por isso estes resultados nem me surpreendem nem me chocam. Uma política de facilitismo, de pena pelas dificuldades dos alunos, de vitimização, de repúdio pelos velhos e comprovados métodos de ensino em prol de tudo o que tenha o rótulo de "novo" e "moderno," de destruição da autoridade do professor na sala de aulas, só pode gerar tais desastres, que continuarão a agravar-se.

    Antes de ser despedido há um mês, falava às vezes com alguns dos rapazes que chegavam ao call-center frescos do liceu; viam-me a ler nos intervalos e tentavam falar comigo sobre o pouco que sabiam da matéria. Havia os que nem sabiam os nomes dos três heterónimos principais; havia os que "gostavam de gostar de ler;" havia os que gostavam de ler, asseguravam-me eles, mas ao fim de 10 minutos começavam a ficar aborrecidos e tinham de parar; mas insistiam que gostavam de ler.

    Embora não aprecie quem me interrompe as leituras com conversa da chacha , tentava ter paciências com eles; sabia que a culpa não era deles, mas de toda uma política de ensino que falhou para com eles, mais preocupada em produzir estatísticas para Bruxelas ver do que em formar mentes discernentes e meditativas.

    Porém, tem a sua ironia poética ver a incapacidade para análise textual; MdCV enfatiza o descalabro de se ter confiado o ensino aos linguistas, que acham que os seus métodos vão produzir melhores leitores e escritores. Ela refere mesmo um encontro com um linguista que lhe sugeriu que se Pessoa, Camões, etc. tivessem estudado linguística, teriam sido melhores escritores. Quando a educação está nas mãos de gente tão arrogante e demente, que se pode esperar dela?

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  3. O facilitismo e a ideia peregrina de que tudo é um jogo e tem que dar prazer no imediato criou esse género abstruso que "não lê por ser demorado e não ter bonecos". As políticas educativas apaparicaram o conceito e preocuparam-se em mostrar serviço e não em servir e formar seres conscientes, na busca da sua autonomia. E os portugueses em geral descansaram e depositaram a responsabilidade nas escolas. Ora, sendo verdade que lhes cabe educar (formar e informar) elas não são veículo único de formação. Não esqueçamos ainda a burocracia crescente que obriga os docentes a um desdobrar de actividades que não deixa nem tempo nem mente livres para ensinar. O que era primordial nas escolas - ensinar e aprender - passou a quase acessório. E nem já me refiro a problemas de indisciplina em aula para não encompridar.
    Diz o povo com razão, "quem muitos burros toca..."

    Quanto ao uso das metáforas e ao facto de as não entenderem ao contrário do carteiro de Pablo Neruda.
    O carteiro é adulto. Sensível à poesia, mesmo analfabeto. A primeira característica eles não têm e a segunda só alguns terão, apesar de alfabetizados. Ora o carteiro precisou treino. No início também ele não as entendia. Teve o melhor professor. Será assim que se ensinam as metáforas hoje, andando como que de mão dada por dentro das palavras, até que a compreensão seja coisa sua deles?!

    Por último: se no final do 5º e 6º anos - 2º ciclo - os alunos ainda não dominem a dinâmica da metáfora, não me parece tão gravoso. Ainda lhes faltam mais dois ciclos, cada um com três anos de Português. Podem aí completar lacunas. Esta questão não me parece equivalente a outras lacunas dos alunos, afloradas no post da Rosário.

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  4. Números! É tudo o que as estatísticas de chacha são: números! Quem garante que os critérios de um ano são idênticos aos do ano anterior? Baixou a percentagem dos alunos que interpretam bem o enunciado de um problema? Mas como é que se mede isto? Como é que se sabe que um aluno intrepreta bem ou mal um enunciado? Há critérios objectivos para isso? Claro que não. Como é que se sabe que a apreensão do sentido de um texto revela menos problemas de um ano para o outro se o texto não é o mesmo, os alunos não são os mesmos, as condições escolares não são as mesmas e os critérios para medi-la, por mais uniformes que se possa pretender que sejam, não são necessariamente os mesmos? As estatísticas do IAVE sempre sofreram desse mal. Tirar conclusões acerca do estado do ensino através de comparações que consistem em quantificar aquilo para o qual não há critérios quantificativos é absurdo.

    Normalmente, há 3 tipos de pessoas que vão atrás de conclusões deste tipo. 1) Os estúpidos, que acham que qualquer estudo, só porque é estudo e mete estatísticas, é válido, e que não percebem que a estatística, não se baseando em critérios fiáveis, é uma ciência tão exacta como a futurologia, e que necessariamente acreditam em coisas tão estapafúrdias como em estudos que indicam que comer chocolate torna as pessoas melhores, ou que os adeptos do Sporting tendem mais para a homossexualidade do que os do Benfica. 2) Os políticos, sejam do governo ou da oposição: os do governo aproveitam isto para dizer que é resultado das políticas de educação dos governos anteriores; os da oposição, para dizer que é resultado das políticas actuais. 3) Os que têm interesses próprios. Incluo nesta categoria tanto os saudosistas, normalmente pessoas de gerações mais velhas que tendem a acreditar que no seu tempo é que era bom e que agora é tudo uma bandalheira, como as pessoas que gostam de coisas que acham que a maior parte dos miúdos hoje em dia não gosta, como sejam as leituras.

    Acho que a maior parte das pessoas que vieram aqui comentar se incluem nesta última categoria. Faço-lhes algumas perguntas, sabendo de antemão que têm uma opinião formada que dificilmente a mudarão, apesar das evidências quase pornográficas em contrário. Quantos dos vossos colegas de escola tinham hábitos de leitura ou vieram a tê-los em idade adulta? Acham mesmo que eram mais do que agora? Quantos dos vossos colegas, apesar de saberem nomes de rios e de linhas férreas de cór e salteado, sabem mexer em computadores ou falar inglês com fluência suficiente? Não acham que, apesar de os miúdos de hoje não saberem certas coisas que a geração dos seus pais sabia, sabem outras actualmente mais importantes? Acham mesmo que, em média, o ensino em Portugal está pior do que há 30 ou 40 anos? A sério? A geração mais bem preparada de sempre, como é costume dizer-se, é uma fantasia? O que é que interessa ler muito, se não se souber interpretar o que se lê e se não houver qualquer critério de selecção naquilo que se lê? Acham mesmo que um livro do José Luís Peixoto faz mais pela inteligência de um estudante do que o jornal A Bola? Acham mesmo que a imaginação de uma criança se desenvolve mais com um livro mal escrito ou aborrecido do que com um jogo de computador, por exemplo?

    No tempo em que se julga que era bom, as melhores cabeças só disseram disparates. A crítica pessoana, já que se falou no desconhecimento dos heterónimos por parte de alguns estudantes, era miserável. Ainda hoje, o Pessoa que se dá nas escolas é o Pessoa do Jacinto do Prado Coelho, que não percebeu nada do que estava a ler. Disse meia-dúzia de lugares-comuns e os livros escolares repetem-nas há séculos. Se querem criticar, comecem por criticar isso.

    Não, o passado não era melhor. Era muito pior, aliás. Em média, não tem sequer comparação. Evidentemente, há muitos alunos que não se esforçam e que não sabem muita coisa. Mas daí a achar que representam uma geração inteira é estúpido. Da mesma maneira que a designação "geração rasca" foi uma estupidez. Comparada com a geração dos seus avós e

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    1. "O que é que interessa ler muito, se não se souber interpretar o que se lê e se não houver qualquer critério de selecção naquilo que se lê? Acham mesmo que um livro do José Luís Peixoto faz mais pela inteligência de um estudante do que o jornal A Bola? Acham mesmo que a imaginação de uma criança se desenvolve mais com um livro mal escrito ou aborrecido do que com um jogo de computador, por exemplo?"

      O livro de Maria do Carmo Vieira incide precisamente nestes pontos. Os novos currículos enchem os alunos de textos para ler, deixando pouco tempo para interpretação ; não há critérios de selecção, visto que Camões e Pessoa são misturados com textos publicitários e artigos sobre o Big Brother ; e há uma ideia generalizada de que o que importa é pôr os miúdos a ler, independentemente do que seja. A escolha não é entre um livro mal escrito ou aborrecido e um jogo de PS3 , ou não devia ser; a escolha devia ser entre qualidade e mediocridade. A escola não tem obrigação de pôr o aluno a ler textos interessantes, porque nesse caso realmente mais valia ler José Luís Peixoto do que Padre António Vieira (para a maioria); mas o bom jesuíta DEVE ser lido porque é um dos esteios da Língua Portuguesa, e porque se os alunos não o descobrem na escola, com as pressões do mundo adulto também nunca o farão de livre iniciativa.

      A escola não tem de apaparicar o aluno, não tem de escolher textos mediante o interesse dele; não vejo as ciências escolhidas em prol dos interesses dele; se fosse esse o caso, a sempre impopular matemática deixaria de ser dada. A escola ensina aquilo que o aluno NÃO quer aprender, porque caso contrário nunca o fará. Ele terá toda a vida para se embrutecer a ver a Casa dos Segredos. Pelo menos durante alguns anos, na sua infância, deve estar protegido disso.

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    2. Caro Ricardo,

      Não leve as coisas tão a peito. Aqui não se discute a inteligência ou a falta dela, porque aparentemente todos somos pessoas com o mínimo de inteligência, o que faz com que tenhamos gostos e ideais diferentes. O que se pode aqui discutir é apenas o facilitismo de educar hoje. A forma leviana como muitas vezes encaramos a educação dos jovens, e digo-o no sentido emocional do termo. Há gerações brilhantes de facto, gerações que dominam a tecnologia, as línguas estrangeiras e por aí fora, mas há no seio dessas mesmas gerações um desequilibro pedagógico porque nem só de brilhantismos vive o Homem.
      Evoluímos em termos de sociedade, é um facto, e ainda bem que assim foi, mas no desencadear dessa evolução existem valores morais e humanos que foram dados ao esquecimento e, no meu ponto de vista, é aí que pode residir o fosso entre o antes o o hoje.
      Por vezes tenho a estúpida ideia de que fomos criando máquinas de competição, jovens brilhantes que se esquecem muitas vezes de dizer bom dia ou boa noite. E isto, nada tem que ver com inteligência, tem que ver com sensibilidade humana e talvez seja isso que falte dentro do brilhantismo.
      Um jogo de computador pode, e talvez deva, desenvolver mais o cérebro de um jovem em termos de perspicácia, mas um livro do Peixoto, seguramente, pode desenvolver o mesmo cérebro em termos emocionais. Não basta alimentar uma competência sem dar água à outra. Não sobrevivemos sem as duas e foi precisamente aí que falhamos enquanto educadores, enquanto sociedade.

      Desejo-lhe um bom dia.
      Carla Pais

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    3. Carla, desenvolver o cérebro em termos emocionais?? Como assim? Acreditamos mesmo que os livros, sejam eles quais forem, desenvolvem as emoções das pessoas? E, nesse sentido, ler os Maias não seria contraproducente, visto ser uma história de falhados? Esta ideia de que os livros fazem coisas pelas emoções das pessoas é outra das coisas que devia acabar. Um livro não é um fármaco. É um livro. Os do JLP têm a agravante de ser maus livros. Daí que nem sirvam para desenvolver emoções nem propriamente para ler. Quando muito, servem para embrulhar peixe.

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    4. O Miguel tocou num ponto interessantíssimo: “mas o bom jesuíta DEVE ser lido porque é um dos esteios da Língua Portuguesa, e porque se os alunos não o descobrem na escola, com as pressões do mundo adulto também nunca o farão de livre iniciativa. “ A didática do Português, enquanto disciplina curricular, sempre me intrigou. Leio desalmadamente desde o fim do ensino primário, e o hábito manteve-se desde então, mas, imaginem, fui incapaz de ler os Maias na adolescência; fi-lo aos 30 anos. Sabem que mais? Ainda bem, talvez fosse essa a altura certa. Há livros que têm o seu momento para serem lidos. O Fernando Savater diz que lamenta já ter lido a Ilha do Tesouro e Moby Dick . Segundo ele, ao fazê-lo, esgotou a experiência extraordinária de os ler pela primeira vez. Não vejo nisso mais do que um afeto para com as obras de Stevenson e Melville , até porque Savater não desconhece a probabilidade de não se deixar seduzir com a mesma intensidade. Lá está, gostava de ter respostas, mas sinto-me como a Beatriz, não sei. Resta a certeza de que a Escola tem de fazer (muito) mais para produzir leitores; e isso não cabe apenas aos professores de Português. Gostava, a propósito, de saber como se seduz certos alunos para a leitura, oferecendo-lhes Gil Vicente ou Almeida Garrett como livro de estreia. Num dos seus últimos posts , a própria Rosário nos disse que foi chamada a escrever um texto de incentivo à leitura de Gil Vicente para alunos do 10.º ano. A nossa anfitriã não nos disse como descalçou a bota, mas quem sabe parte da resposta não esteja nas linhas que escreveu. Não me oponho à inclusão dos nossos maiores autores nos currículos escolares - era o que mais faltava -, mas há um trabalho preparatório que é tão necessário como urgente.

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    5. Afirma que os critérios não são fiáveis. Fico, pois, convencido de que o Ricardo os conhece. Talvez fosse útil partilhá-los connosco, para que todos possamos partilhar a sua indignação. Não estou a ser sarcástico, acredite, acontece que fiquei curioso.

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    6. Que livros do JLP já leu?

      Essa do servem para embrulhar peixe paga direitos de autor (MAP).

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    7. Já percebi que não gosta do Peixoto, está no seu pleno direito. Não gostamos todos das mesmas coisas, isso é um facto. Acho que percebi igualmente que não gosta de livros (talvez esteja errada), mas fico com a ideia de que leu os Maias, pois menciona as vidas falhadas dos personagens. Se assim foi, será certo que os livros desenvolvem emoções (mais ou menos intensas), caso contrário o Ricardo não poderia identificar o falhanço, pois o falhanço está inserido num determinado estado de espírito que normalmente associamos a uma emoção negativa. Não conheço nenhuma equação ou teoria para medir o falhanço do outro, não há uma matemática o detecte, apenas a sensibilidade emocional para o perceber ou sentir.

      Não poderemos agradar a todos, mas devemos saber tolerar as opiniões, os pontos de vista, discuti-los, se assim o entendermos, sejam eles mais ou menos falhados que nós próprios. E com isto nos vamos afastando da questão essencial: a educação nos dias de hoje.

      Já agora, e por mera curiosidade, o que gosta de fazer o Ricardo dentro do seu brilhantismo?

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    8. A respeito de quê? Das estatísticas do IAVE? Nesse caso, não são fiáveis porque não podem sê-lo. Não há critérios objectivos para medir as capacidades interpretativas dos alunos, por exemplo. E menos objectiva é essa medida se os textos forem diferentes e os alunos forem diferentes. Cabe a quem é inteligente não aceitar um estudo só porque é um estudo. Os números, em si, não dizem nada. Comparar gerações de alunos que são diferentes, que são avaliadas de maneira diferente e com base em critérios de avaliação necessariamente diferentes é completamente absurdo.

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    9. Carla, leio. Mais e melhor do que a esmagadora maioria das pessoas. Isso não me dá o direito de achar que a actividade da leitura é a melhor actividade do universo. Do facto de eu gostar muito de uma coisa não se segue que tenha de achar que os outras pessoas seriam melhores pessoas se gostassem do mesmo que eu.

      De resto, saber identificar emoções em personagens não é o mesmo que desenvolver certas emoções a partir da leitura de livros. Eu vejo pássaros a voar e, até hoje, nunca conseguir voar. Admiro algumas personagens que, no entanto, acho execráveis. Isto porque as admiro como personagens. Não me passa pela cabeça copiar as acções do Iago, nem o Iago me ajudou a desenvolver o que quer que fosse. No entanto, admiro a personagem. É notável como destrói o mais orgulhoso dos homens.

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    10. Quem é o MAP?

      Li o primeiro, pelo qual ficou famoso, e nunca mais consegui acabar nenhum. Porquê? Preciso de ler todos para ter uma opinião fundada? Basta-me ver um jogo de uma equipa da distrital para saber que vai perder com uma equipa da primeira divisão.

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    11. Eu não posso avaliar a capacidade que alguém demonstra quando se lhe pede que interprete um texto, é isso? Ou a questão prende-se com o tratamento dos dados?

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    12. Quem foi o MAP ? ah... não sabe? eu também não lhe digo (toma, toma).

      Foi o tal que disse que os jornais (e não os livros, sô Ricardo) servem, quanto muito, para embrulhar peixe no dia a seguir.

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    13. Iago? quem é o animal? O que o Sô Ricardo nos ensina...

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    14. concordo.

      há ainda outra coisa, a "obrigatoriedade" de ler na escola, retira-nos o prazer de apreciar "Os Maias" ou "Os Lusíadas", por que também penso que não são livros para adolescentes ( e hoje pior ainda, porque esta malta nova tem muito menos capacidade de concentração).

      também não percebo como é que alguém é capaz de dizer que o Peixoto escreve mal (pode-se, ou não, gostar da sua escrita), assim como o Saramago.

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    15. Passei por acaso agora pela Casa dos Segredos e havia uma rapariga que não sabia quem era o Shakespeare. O ASeverino critica abertamente a educação da geração rasca e da geração descendente da geração rasca, mas também não conhece uma das personagens mais importantes de Shakespeare. Parece que não há muita diferença entre as duas pessoas, em termos de conhecimentos literários. Parece-me a melhor maneira de encerrar esta conversa. O Peixoto é que interessa ler, não é? Está bem...

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    16. Não, não é isso. Não pode é comparar as duas avaliações. E não pode porque os critérios de avaliação diferem necessariamente.

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    17. E a PQP, sabe quem é? É que eu também conheço gente que, quando as designo pelas iniciais, mais ninguém conhece...

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    18. Luis, vamos fazer um teste. Escolha uma frase do Peixoto. Uma qualquer, à sua escolha. Só lhe peço que seja uma frase suficientemente grande, com mais do que duas orações, de preferência subordinadas.

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    19. Joga, por vezes e assim-assim, um Iago na defesa da Académica, ou Briosa.

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    20. Ricardo,
      felizmente hoje uma boa parte dos escritores não se deixam "espartilhar" por regras que alguém impôs no passado. até para tentarem cultivar a diferença, terem um discurso pessoal.

      nós, enquanto leitores, podemos gostar ou não.

      felizmente não gostamos de coisas iguais, e é através da diferença que recebemos grandes lições de vida.

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    21. Luís, começou por dizer que não percebia como é que alguém podia não gostar do Peixoto. Agora diz que podemos ou não gostar de coisas diferentes. Então, em que ficamos?

      Mas escolha uma frase do Peixoto, que eu mostro-lhe como é que é possível não gostar dele.

      Quanto ao relativismo de podermos gostar de tudo, infelizmente é uma convicção de muita gente. Por aqui, já percebi que há quem goste muito de Peixoto. Se algumas dessas pessoas já tivessem lido Shakespeare, talvez fosse uma opinião minimamente respeitável. Assim, é só a opinião de quem acha que o tremoço é a melhor das iguarias porque nunca provou outras.

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    22. E um Paulo Oliveira no Sporting.

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    23. afinal aparece aqui com tanta sapiência e não sabe "ler" (ou não quer), Ricardo.

      eu disse que não percebia como é que alguém dizia que o Peixoto escrevia mal, não falei em gostos.

      o comentário continua lá em cima, é só ler.

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    24. Tem razão, Luís. Embora achar que alguém escreve mal implique não gostar do que essa pessoa escreve, tem razão, não foi isso que disse.

      De qualquer modo, permita-me explicar por que razão acho que ele escreve mal. Escolha uma frase dele que eu explico-me. E depois julgue a minha opinião como quiser.

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  5. Claudia da Silva Tomazi10 de fevereiro de 2015 às 05:44

    Enquanto uns... São gema e, outros clara; eu? Oivo.

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  6. Na semana passada fui ver a exposição 7 Mil Milhões de Outros. Estava pejada de jovens naquela idade saudavelmente parva e ruidosa, em excursões escolares, mas tirando algum ruído exagerado que faziam nos corredores, a exposição via-se relativamente bem: estavam maioritariamente a marimbar-se para ela, preferindo o convívio entre eles, ou o dedilhar dos artefactos digitais que todos ostentavam, e nas salas da exposição propriamente dita poucos entravam, e os que entravam, logo saíam.

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    1. Esse é apenas um pequeno exemplo de como os jovens de hoje podem ser tão brilhantes. Egocêntricos. Individualistas. Completamente alheios a tudo o que não diga respeito ao seu umbigo e ao seu conforto. Mas sim, criamos e vamos continuar a criar gerações brilhantes.

      Um abraço.

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  7. Li com muita curiosidade todos os comentários. Ficou-me apenas isto para acrescentar: o ensino está tão bom que todos os professores (ex-colegas) que encontro me falam invariavelmente de três coisas: (i) do seu desejo de sair, (ii) da impossibilidade de o fazerem, e (iii) da inveja daqueles que, como eu, fugiram a tempo.

    JCC

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  8. Claudia da Silva Tomazi11 de fevereiro de 2015 às 01:58

    A Doutora Maria do Rosário Pedreira utilizou a exposição de números que está referência a avaliação de ensino, porém a capacidade humana de apreender informações a desenvolve-las de modo harmônico ou seja do conceito Arte (no que toca poesia) seria assunto à manga regada o esforço a produção salvo entusiasmo, porque sei o quê é mar, e no mar minha gente, nem tem essa "se a canoa não virar chego lá".

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  9. E se olharmos para os resultados obtidos no 9. Ano e no ensino secundário ainda se torna mais preocupante, com as médias nacionais a descer ano após ano. A meu ver, as constantes mudanças nos programas não estão a ajudar nada.

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