Comer, beber e falar
Paulo Moreiras já confessou gostar tanto de escrever como de cozinhar; e eu acrescentaria que este meu autor também gosta bastante de comer e beber – sem isso não conseguiria, de resto, escrever tão apaixonadamente sobre comida. Mas é verdade que para ele as palavras alimentam tanto como uma boa refeição e a sua paixão por elas levou-o recentemente a uma ambiciosa aventura, a de coligir num volume tudo o que há de interessante para saber sobre pão e vinho: festas, adivinhas, provérbios, lendas, superstições, poemas, pequenas histórias, filmes… e muito mais. Amanhã vamos poder saborear uma vez mais o seu Pão & Vinho – entretanto galardoado com o Prémio Gourmand! – na Figueira da Foz, onde estarei também eu a participar em mais uma 5.ª de Leitura que, excepcionalmente, vai acontecer à sexta. Será às 21h30, na biblioteca da cidade, e crê-se que a audiência já vá jantada, porque as palavras do Paulo Moreiras costumam fazer fome. Se estiver por perto, apareça e de certeza que não se arrependerá!
Aprecio bastante a postura de Paulo Moreiras!
ResponderEliminarAlém disso gosto daquilo que escreve e sobre o que escreve, e como o faz.
Teria o maior gosto em assistir... mas, a distância não me o permite.
Gostei ainda bastante deste seu Pão & Vinho
Saudações gastretas do Tômbwa
Também lá estarei, para saborear o pão e o vinho (muito bons, aqui na Mealhada), embora não leve o leitão assado à Bairrada.
ResponderEliminarAntónio Breda Carvalho
Prémio Gourmand... Este escritor deve estar prosa.
ResponderEliminarSerão certamente umas horas muito bem passadas!
ResponderEliminarRecomendo este livro, tem muitas histórias e curiosidades sobre duas coisas que não dispenso. Um daqueles livros para se oferecer e também para se ter em casa.
Rui Miguel Almeida
A propósito de vinho... era assim que se fazia!!!
ResponderEliminarO mano Augusto regressou pensativo a casa, nessa tarde. Proibido o Veneno de abrir a boca mandou-o mudar as éguas de pastagem, para longe, resolvendo não dizer nada ao mano Quim. Este como se nada se tivesse passado, depois de dada a volta matinal pelas vindimas, encontrava-se no lagar a fingir que pesava mosto e a moer o juízo ao esquelético Tóino Vinagre, mestre lagareiro afamado que nunca se livrava de um certo cheiro a azedo de adega, falador, pomposo e muito vaidoso da sua terceira classe, que repetia infindávelmente coisas como: “Os povos que invadiram a Península Ibérica foram os celtas, alanos, suevos e visigodos”, que decorara sem lhe entender o sentido ou utilidade e recitava até à exaustão, incitado pelo patrãozinho da Rebela, como prova da sua sabedoria e pensando assim instruí-lo também!
Houve depois noitada no lagar! Os homens, terminada a jorna, cearam e vieram pisar as uvas, o que fazia parte do trabalho. Descalços, calções cortados de calças velhas, pernas e pés lavados numa selha de água com meta bissulfito, muito brancos a contrastar com mãos e carões encardidos do Sol e do trabalho, formavam uma linha ombro com ombro dentro dos patamares, iam e vinham calcando uvas, revirando o mosto, devagar e compassados, levantando os joelhos, as pernas avermelhadas, atirando os calcanhares para o lado para não baterem nos fundilhos, pisando com força. Algum mais velho apoiava-se a um pau. À luz das lanternas de palheiro suspensas nas traves do telhado conversavam coisas de homens, que às mulheres era proibido só o assomar que fosse… nem sequer a recolher o mosto para um grande tacho de cobre que depois ferveria ao lume, com o melão, marmelos e maçãs para fazer o célebre arrobe. Se estivessem com as regras então… o vinho amuava! Pela noite fora se conversou e pisou sob as indicações do Vinagre, no dia seguinte e nos próximos ainda mais atento à lagarada, quando o mosto começasse a ferver, sendo ainda preciso virar a manta e voltar a pisar. De dia alguns garotos vinham dar uma ajuda que o mosto a ferver dava força às pernas segundo se dizia. Era como se fossem às termas! O mano Augusto, sempre com o conselho experiente do Vinagre e supervisão paterna, calculava a quantidade de água a juntar, esta era trazida em medidas, grandes canecos de folha de 20 litros, sempre ao ombro e despejadas sobre a uva e mosto, novamente pisadas e remexidas, numa ciência certa que desdobrava o açúcar e lhe permitia ferver. Primeiro levantava a manta e depois fervia, o cheiro se espalhando pelo bairro. Despejado então para uma pia de pedra ao lado do lagar, sobre um crivo que o coava, era daí trasfegado para os grandes tonéis onde ia cozer. Ao bagaço juntava-se mais água, pisava-se novamente e fervia ainda, outra ciência onde brilhava o Vinagre: fazer água-pé!
A água-pé era fundamental, ao ponto de fazer parte do contrato da jorna e fornecia-se
livremente aos jornaleiros. Sempre os ranchos e companhas levavam um rapazeco que andava de garrafão e púcaro a dar de beber a quem o chamava, a força no trabalho!
Depois da prensa o espremer bem, o bagaço era levado para a eira em carros de bois. Já seco separava-se com um ancinho de madeira o engaço que ia para estrume, do folhelho e grainhas para melhorar a ração do gado e criação. Algum bagaço, roubado à água-pé, era queimado para água-ardente, a bagaceira, limpa e aromática.
E assim eram as vindimas... noutro tempo!
EliminarHavia ranchos a vindimar! Ouvia-se pelas encostas o cantar e gralhar das mulheres e cachopos que devastavam as vinhas, suadas e tisnadas sob os chapéus de palha, de saias e aventais de riscado, floridas blusas de chita, desparrando e cortando à navalha ou tisoira os cachos, para dentro das cestas de asa de vime, pegajosas do açúcar suado pelas uvas maduras. Homens de ar grave e cigarro ao canto da boca, sacas de serapilheira atadas a tiracolo, passavam por entre elas que despejavam as cestas para os grandes cestos vindimos transportados ao ombro. Metiam-se com eles, provocavam-nos com ditos e cantigas. Eles em silêncio, passadas medidas em esforço por sobre os torrões. Era o tempo da brejeirice das mulheres, fortalecidas pela companhia, e, dos namoros! Algum, solteiro ou mais vivaço, respondia… mas elas ganhavam-lhes no jogo das palavras! Como formigas num carreiro, dirigiam-se para o alto, onde estavam os carros de bois que recebiam as uvas em grandes dornas assentes sobre molhos de tojo para não escorregarem, amparadas por fueiros de oliveira, grossos e polidos. A tudo o mosto dando cor e brilho! Subiam ao carro por uma grossa tábua com traves pregadas e viravam os cestos directamente do ombro para dentro da dorna, enchendo-a das uvas que um rapaz com um maço de madeira calcava.
Os carros não paravam! Enquanto enchiam um os bois eram engatados a outro já cheio que marchava para o lagar. As coleiras de campainhas, ranger de cabedais, a chiadeira de eixos e o estalar da madeira dos carros pesadamente carregados, soavam pelos caminhos, testemunho do esforço, com o vozear dos boieiros a encorajar os animais:
- “Éh qu’ié galante! Héi diamante!”.
Uma pausa para a comida:
EliminarEra meio-dia, o calor apertava! Os ranchos haviam parado a labuta e à sombra das sebes e das oliveiras ou de algum grande freixo, num lume de vides secas caldeiravam para o almoço, assavam sardinhas salgadas e catalões, chouriço ou toicinho. Outros, normalmente em família, comiam à colher directamente dos tachos, arroz de tomate com pimentos eventualmente aromatizado por uma sardinha que cozera em cima, ou a
molhanga de tomate e cebola com batatas às rodelas mais o ovo escalfado.
Deixavam passar o maior calor mas por pouco tempo, pois nem carros nem vindima paravam enquanto houvesse um cacho de uvas pendurado. Os bois tirados da canga e à soga, esperavam também na sombra, ruminando pacientes, que os boieiros comessem a invariável s’lada, de tomate cortado aos cubos grossos, cebola picada e o bacalhau por conduto, cru e desfiado para dentro da saladeira de esmalte pintada, tudo temperado com o sal grosso e azeite que levavam num corno fechado com uma rolha de cortiça, às vezes polvilhada de orégãos, onde molhavam nacos de pão tirado do saco de pano, que cortavam e espetavam na ponta da navalha.
Vão-me perdoar... é a nostalgia, não sei se do tempo, se da terra se de quê.
EliminarSaudações nostálgicas do Tômbwa!
de quê.
Eliminargrato Pacheco, de quem também andou pelas vindimas do avô.
Que seja uma noite bem passada. E o autor abra o apetite pelo livro a muita gente.
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