O que ando a ler
Ora então sejam de novo bem-vindos a esta vossa casa. Espero que tenham passado umas boas festas, que o ano que agora começa vos traga coisas boas e que, claro, tenham podido ler bons livros. Como não tivemos post no dia 1 (eu sei, a culpa é minha), passei para hoje o meu relatório de leitura. Antes das férias estava a falar com um colega sobre os críticos e ele aconselhou-me a espreitar um excelente romance do argentino Ernesto Sabato que tem algumas linhas magníficas sobre a matéria. Chama-se O Túnel. O protagonista é um pintor, Juan Pablo Castel, que, além de ter bastante desprezo pelos críticos de arte (mais ainda pelos que o aplaudem), faz a crónica de um assassínio a partir da cadeia onde está preso; María Irribarne, a mulher que Castel matou, parecia, porém, a única pessoa capaz de prestar atenção a um pormenor de uma tela do pintor. Desde o momento em que a viu espreitar essa cena a um canto do quadro, Castel não descansou enquanto não a conheceu e essa relação tornou-se obsessiva. Depois, as coisas não correram assim tão bem, está visto. Mas o romance é notável sobretudo pela capacidade de dedução e argumentação, pois o seu narrador equaciona sempre todas as possibilidades e esse exercício a que eu chamaria, por vezes, exasperante é também uma prova de inteligência sem limites. A ler, claro.
Desejo a todos um extraordinário ano 2015 cheio de, entre outras coisas, boas leituras. Recentemente li o penúltimo Patrick Modiano, L'herbe des nuits, que não é tão bom quanto outros que li dele, e Amesterdão de Ian McEwan, que confirma o virtuosismo do autor mas não me conquistou por aí além. Ontem comecei Une ardente patience, do Antonio Skármeta, que em Portugal é conhecido por O Carteiro de Pablo Neruda. O início do livro é encantador.
ResponderEliminarnão ando a ler.
ResponderEliminarmas tenho aqui ao pé de mim, "O Meu Amante de Domingo", de Alexandra Lucas Coelho e "Domingos de Agosto", de Patrick Modiano, ambos a dizerem-me olá.
espero começá-los esta semana.
e gostei da proposta.
Ora, cá estamos!
ResponderEliminarEstou a ler um autor que sempre me despertou curiosidade mas que, por uma razão ou outra, sempre adiei: "O tambor de lata" de Günther Grass.
Antes deste, tive uma maravilhosa surpresa com "Os pedaços de madeira de Deus" de Sembène Ousmane. Um romance "velhinho", mas de grande fôlego e qualidade. Estou curiosíssimo para ler outros deste autor. Já alguém mais o leu?
Abraço a todos e Bom Ano!
Bom-dia, Bom-regresso e Bom-ano a todos os modos Extraordinários, cheios de leituras e sucessos!
ResponderEliminarSobre este tema, gostaria de começar pela reprodução das palavras in’”O Expresso” (Atual) de José Mário Silva:
“Acentuando uma tendência dos últimos tempos, cresce o número e a actividade de pequenas ou microeditoras, sobretudo de poesia, que apostam em tiragens curtas e em esquemas alternativos de distribuição. Alguma da melhor literatura actual passa cada vez mais por este circuito, que se desdobra numa actividade frenética de apresentações, leituras públicas e espaços de diálogo entre artistas, sobretudo em Lisboa”. (sic)
É muito claro! Parece-me que exprime o que vimos discutindo neste e noutros espaços, e sobre o fechar de portas à literatura defendendo-se os coutos dos autores eleitos pelas e pelos editores. Afinal quantos bons autores - melhores ou pelo menos tão bons quanto os “protegidos” - se perdem e que oportunidades se desperdiçam de alargar a leitura e o Mundo dos livros, da edição e da distribuição livreira?
Não sei… apenas me parece que com o alargamento teríamos mais e melhor, e sobretudo haveria mais leitura disponível e por consequência mais hábito de leitura, com esta digamos, banalização ou popularização, em que poderíamos ler o livro de colega, amigo, vizinho, conhecido… enfim notem que digo “me parece”, e, recorro ao Paulo Moreiras para explicar a minha suposição. Pois se foi com o alargamento das culturas cerealíferas que o pão se tornou o que é, alimento principal do corpo, estarei a pensar mal quando presumo que a seara livresca ia popularizar o livro enquanto alimento do espírito, se este fosse abundante no género e diversidade, barato até?
Só chamo a atenção para o “sobretudo em Lisboa”, pois fora desta urbe é capaz de haver mais destas iniciativas do que refere José Mário Silva, só que por serem pouco ou menos divulgadas com autores que não têm visibilidade e pouco publicitados, passam desapercebidas aos divulgadores e profissionais da cultura em geral.
Posto isto, e depois de iniciado o ano Extraordinário com esta reflexão, passemos às leituras deste período, sempre curto para o que gostaria de fazer!
Devo dizer que comprei uma livralhada tremenda, que nem sei quando lerei... mas pelo menos contribuo de alguma forma para a sustentabilidade livreira!
Assim, e para quem possa interessar-se e queira saber, li no entretanto:
EliminarNÃO-ROMANCE
Quem disser o contrário tem razão - Mário de Carvalho
- Tinha que ser! Parece ter sido uma obra fundamental de 2014. Gostei? Bom, confesso que ficou um bocadinho aquém das minhas expectativas, mas por defeito meu, de simplista e cultura literária deficiente para conseguir absorver tudo. Mas foi útil e sem dúvida que se recomenda a traças literárias, pois também nos desperta para outras e mais leituras, além de desvendar/confirmar muita coisa que ignoramos ou nem sabíamos que afinal sabemos!
Pão&Vinho - Paulo Moreiras
- Bom! Incontornável até, numa perspectiva de quem goste e se interesse por comidas e pelas nossas coisas, sendo que o pão e o vinho são elementos fundamentais da nossa cultura e história!
Os maus da história de Portugal - Ricardo Raimundo
- Uma curiosidade, que me despertou o interesse e vale a pena ler e referir. Pode ir-se lendo a par de outras obras, sem prejuízo de nenhuma delas. Reúne informação de forma despretensiosa, está escrito numa forma acessível, e divulga personagens e factos mais ocultos da nossa história não só a quem normalmente lê estes temas, mas para todos!
Moolb o reverso - Pedro A. Sande
- Cuidado com este!
Para quem conheça o pensamento do nosso Extraordinário, aqui expresso tantas vezes com a sua clareza, erudição e sobretudo visão esclarecida e desiludida, da vida, das coisas e das pessoas, é ainda uma viagem
em que embarcamos, ao correr da idéia e das idéias do autor que vai reflectindo e dissertando sobre o Mundo em que vivemos, não o imaginário de um escritor mas o real de quem vive com os pés assentes no chão e está atento, sabe interpretar e discorrer não como o mero literato mas como o cidadão e convenhamos que alguém com uma dada formação técnica, social, política, económica…
Pode ou não concordar-se com os seus pontos de vista, mas é interessante saber e acompanhar o autor e o seu alter-ego nesta viagem imaginada mas onde se analisa a realidade.
Só não o incluo na categoria “romance” e vou guardá-lo na estante nº 3 da “casa do meio”, onde estão os títulos de ensaios, reflexões, etc. Este não é o Pedro A. Sande de Obsessão, o romanceador, longe disso… é outra coisa, o filósofo, o analista, que no fundo usa a capacidade literária mas não faz só literatura
Há pessoas que me interessa saber o que pensam, Pedro A. Sande é uma delas, e, mo provou!
Aconselhar o livro? É um risco… depende daquilo que procuramos no momento ou num livro, mas gostei e a quem goste de o ler por aqui, sem dúvida que sim.
A galinhola - do bosque para a mesa - Alexandre Fernandes
Um livro dedicado á mítica “dama do bosque”, que desperta a paixão de uma classe especial de caçadores com cão, tradicionalmente encarada como o supra-sumo da actividade cinegética.
Um apaixonado da caça à galinhola que escreve, reúne textos de alguns caçadores e os seus, dedicados a este tema e como não podia deixar de ser ligando-o à culinária específica dedicada a esta ave, reputada como especial também na gastronomia.
Não é livro que aconselhe aos Extraordinários, mas que refiro aqui como prova de que há também literatura nesta outra minha actividade, e que goste-se ou não, é uma actividade com a sua própria cultura que está viva e de boa saúde, reflectida no nosso Clube Literário Cinegético onde se reúnem caçadores que escrevem e amantes dos livros e que caçam. Somos muitos mais do que possa pensar-se e temos a tal actividade, reunindo-nos em tertúlias, jantares, encontros, lançamentos, apresentações, por todo o país.
ROMANCE:
EliminarGalveias - José Luis Peixoto
- Não me vou alongar, pois trata-se de um dos mais celebrados e profícuos autores da actualidade, saudado pela crítica e bem-sucedido.
Gostei! Gostei muito! Li de uma só tirada!
Os segredos de Jacinta - Cristina Torrão
Outro que li de uma só tirada, fui buscar ao posto dos CTT na Junta de Freguesia, sentei-me em casa e ao lume, depois do jantar para o folhear e já não o larguei!
Atrevo-me a dizer que a Cristina Torrão se enquadra naquilo que José Mário Silva refere como sendo parte dos autores que mereciam atenção, divulgação e distribuição… esta “Jacinta” é um romance histórico, de aventuras e também de divulgação, que merecia ombrear com outras obras do mesmo quilate de autores com nome sonante e lugar cativo nas prateleiras das livrarias e mesmo supera alguns deles, para não falar dos muitos livros que vêm surgindo sobre temas históricos e ficam aquém deste!
Não apenas porque agora parece ser moda escrever sobre temas históricos, sendo que a Cristina Torrão já tem obra publicada nesta área bem antes de se tornar viral! Também não se resume ao óbvio rigor e cuidado que a nossa autora, aliás licenciada em história, põe na escrita. Não é ainda pelo seu estilo notávelmente fluido e directo, de contar uma história e ir direita que que interessa sem arrebiques nem altos exercícios de estilização ou exibição da arte da escrita que óbviamente domina mas de que não abusa, o que torna a leitura tão fácil e agradável, sem cansar, por isso nos arrasta e leva atrás a querer saber o que vai acontecer a seguir, porque vamos correndo pelas linhas da leitura sem subidas ou descidas nem obstáculos, é sempre a direito, até ao fim! Mas, porque reside sobretudo na originalidade do tema que afinal é sobre a condição da mulher naqueles tempos conturbados e de incertezas, ignorados e secundarizados pelos feitos da espada!
Vale como romance, sem dúvida, mas também pela recolha e divulgação do que era a vida das gentes não-guerreiras daquele período sobre o qual muito se fala, mas pouco sabe o leitor comum.
A meu ver, também este romance devia ser incluído no plano nacional de leitura e muito se ganhava havendo sessões de divulgação nas escolas! Até porque de leitura fácil, que não cansa nem maça, repito, portanto próprio para jovens e para divulgação junto deles.
O meu irmão - Afonso Reis Cabral
O mais recente vencedor do prémio Leya, e a sensação do momento.
Vale sobretudo pelo tema, desusado… mas que aposto vai ser moda nos próximos tempos e vamos ter livros com coxos, cegos, moucos (eu sou surdo que nem uma porta!), assim ao estilo de “O meu pé esquerdo” - lembram-se? Ou de “Rain man”.
É de facto um bom livro, e jamais imaginaria a idade do seu autor… a mim não é a sua escrita que engana, mas o tema e a forma como o desenvolve que seriam sim de uma pessoa bastante mais madura.
Está muito bem escrito, sem os tais exercícios de estilo que fariam dele uma coisa massuda e chata, conseguindo manter o leitor (neste caso eu) interessado em seguir o desenvolvimento, e, desperta a nossa sensibilidade até alguma ternura, sem deixar de ser crú e realista pois não embeleza nada!
Revela ainda uma alma, uma humanidade que essa sim é rara num jovem!
Gostei bastante!
Saudações leitoras e enregeladas cá do Bairro Ribatejano, onde faz frio cum’ó raio!
Um bom ano a todos, que contenha muitas e extraordinárias horas e leitura!
ResponderEliminarAo contrário do que é habitual, ando a ler os diários de um músico que gosto muito, é vocalista numa banda que os quarentões devem conhecer: Marillion. Uma das minhas grandes paixões, mas não aconselho os diários, são fraquitos e só podem interessar a fãs acérrimos da banda.
Tirando isso, que me tem consumido muitas horas, ando a ler "O meu irmão", já faltam menos de 100 páginas. Estou a gostar, sem estar particularmente a adorar. Dos prémios Leya que li, continuo a preferir o João Ricardo Pedro.
Começado, mas em stand-by há uns dias, "Que importa a fúria do mar", de Ana Margarida Carvalho, que quero saborear com calma, pois adorei as páginas já lidas. Temos escritora.
Sabe bem ter o blog de volta e ler os comentários dos extraordinários. Que seja um grande 2015 para estas bandas.
Rui Miguel Almeida
Quarentão acusa-se.
EliminarNem de propósito, The Thieving Magpie é o cd que tenho no carro. Nada contra o Steve Hogarth, mas espero que esteja a falar do diário do Fish (se é que existe). Que quer? Acontece-me o mesmo com os Genesis de Peter Gabriel e a banda só com o Phil Collins.
Já agora, confesso que li pouco estas férias. Comecei a Luz em Agosto (Faulkner), mas, por causa de certos afazeres e outras tantas interrupções, apetece-me voltar à primeira página.
Meu caro,
Eliminarconvido-o a dar uma oportunidade à H-era. Teria muito gosto em discutir este tema, fora desta casa, como é óbvio. Se quiser, adicione-me no facebook, prometo não chatear muito. O meu email é ruimca@yahoo.com
Sobre o Fish: ele planeia retirar-se em 2 anos, e fará uma tour de despedida onde tocará o misplaced childhood. A seguir, o plano é mudar-se para a Alemanha (a actual namorada é de lá) e escrever a sua autobiografia. Prometedor, estou certo que concordará.
Como pode ver, está na presença de um freak. :)
Grande abraço,
Rui Miguel Almeida
Não me queria meter na conversa, mas o Fish ainda está activo? Eu gostava dos Marillion... e dos Genesis também, fui ao concerto deles em Cascais!
EliminarSaudações musicais e africalhadas (ahahah, o termo pode ter a ver com África, também) cá do Bairro Ribatejano!
Avisem-me quando os Led Zeppelin vierem a Portugal...
EliminarHe he...
Uma piadinha, só isso...
Não estou no Facebook , Rui; temos de nos ficar por este canal. De qualquer maneira, tenho a certeza de que a Rosário (logo quem) não nos leva a mal por lhe invadirmos a sala para falar de música. E depois, pergunto-lhe, lembra-se de muitas bandas mais literárias do que esta?
EliminarFico contente por saber que o Fish vai voltar à estrada. Quem sabe...
A propósito, caro Vítor Ferreira, não me parece que vá ter sorte. Neste caso a culpa tem um rosto: Robert Plant. Dois, se quiser; o outro é a sua (dele) poltrona de veludo.
Por último, António Luiz, só lhe digo que o invejo pelo concerto a que assistiu. Lendário, diz quem lá esteve. Se lhe apetecer matar saudades, tem-no na íntegra, no Youtube. Sem imagens animadas, mas esquece-se disso mal comece a ouvir a melhor música do mundo, The Lamb Lies Down On Broadway...
João e Pacheco,
EliminarO Fish nunca parou, mas tem feito coisas meio para o fracote, com honrosas excepções. Oiçam o 1º album a solo, Vigil in a wilderness of mirrors.
Gosto muito dos primeiros albuns dos genesis sem o Gabriel, para mim só se estragaram de vez quando saiu o Hackett e mesmo assim tiveram momentos bons, como o Mama.
O melhor album ao vivo dos Genesis é para mim o Seconds Out, cantado pelo Phil, o que vocês deverão considerar uma quase heresia. Ainda hoje o oiço com muito prazer.
Já agora, para completar a galeria de grandes discos ao vivo: Paris, Alchemy e Delicate Sound of Thunder. Escuso-me de mencionar as bandas, estou certo que as conhecerão bem.
Como dizem os outros: it takes one to know one. :)
Abraço musical,
Rui Miguel Almeida
PS: mais literário que Marillion, talvez a Suzanne Vega dos 2 primeiros discos. Digo eu com os nervos....
Só por curiosidade, tinha 9 anos quando recebi o meu primeiro disco, precisamente o A Trick of the Tail. Salvo erro, o primeiro Genesis sem o Gabriel.
EliminarInteiramente de acordo... ainda hoje os oiço!
EliminarThe delicate sound of th. devia ser património imaterial da humanidade...
E o Selling England by the pound?
Os Yes foram uma referência também, em particular numa época importante para mim que foi o período do 25/4.
Para mim eternos são os Moody Blues!
Tenho um sobrinho com 23 anos, biólogo recém-formado que é músico (guitarra), este Natal dei-lhe os Guitar Monster Rock (imaginam quem, não é? Começando pelo Jimmy Hendrix...) o rapaz até se passou com os sons de há 40 anos...
Saudações musicais do Bairro Ribatejano!
Ó Pacheco - o que eu sonhei a ouvir os Moody Blues...
EliminarGosto muito desse livro. Há uma frase lá pelo meio que mostra que o protagonista tem a quem sair ;)
ResponderEliminar«- Há quanto tempo é que Maria Iribarne é amante de Hunter?
A minha mãe não perguntava nunca se tínhamos comido uma maçã, porque teríamos negado; perguntava quantas, dando astutamente por averiguado o que queria averiguar: se tínhamos comido ou não a fruta; e nós, arrastados subtilmente por este acento quantitativo respondíamos que tínhamos comido só uma maçã.»
Tenho andado a ler com a devida atenção Premières mesures révolutionnaires ”, Eric Hazan & Kamo (ed. La Fabrique, septembre 2013, 116 pages).
ResponderEliminarPena não estar (que eu saiba) traduzido e editado em Portugal.
É este, finalmente, o guia prático para concretizar como deve ser a revolução do séc. XXI?
Não – assumidamente, não é.
De facto, o livrinho dá que pensar porque, modestamente, apenas mostra as razões (as hipocrisias e os mitos instalados, etc) por que não é fácil avançar certeiramente para o inevitável.
Assim, propõe que nos deixemos de devaneios e discutamos com mais brevidade e maior objectividade o que devemos fazer, coordenadamente, por que ordem, consoante as circunstâncias concretas de cada sector, cada zona do mundo globalizado, cada instituição, cada comunidade local, por forma a conseguirmos detectar “o momento crítico” e, nesse momento, pela primeira vez na História darmos em conjunto o passo sem retorno …
Como era de esperar, nos debates que suscitou em França esta postura deu palco às correntes de pensamento que, sendo apenas teoricamente revolucionárias, no conforto dos seus blogues e colunas de opinião inundaram os comentários com as suas habituais ideias de que “ainda não é desta” porque “não estão reunidas as condições objectivas e subjectivas”, e que “com estes gajos não vamos lá”, etc. Propõem, portanto, que continuemos confortavelmente à espera que alguém “mais credível” nos conduza até ao “momento crítico” e aí, nesse momento, nos explique pormenorizadamente por que é esse, e não outro, o momento de avançar, e tal… – e com esses minuciosos debates lá se esvairá, mais uma vez, o momento…
Correndo o risco de ser algo indelicado para com a nossa anfitriã, atrevo-me a traduzir (rudimentarmente…) uma de entre as muitas passagens que nos obrigam a repensar:
(pp 93, 94) «(…) os procedimentos do marketing da Arte. O que se vende melhor é, como na Literatura, a “transgressão” dos “valores” tradicionais – valores esses que os coleccionadores abastados praticam todos os dias. A cultura industrial de hoje-em-dia, lastimosa caricatura das vanguardas literárias do início do século XX, funciona sob a aparência de que põe de novo em causa a ordem das coisas – ordem da qual é um dos principais pilares (…)»
Curiosamente, tenho andado a ler também Luiz Pacheco, “Crítica de Circunstância” (ed. Ulisseia, col. “Vária”, 1966), em cujo interessante prefácio (datado de Março 1965) Virgílio Martinho de algum modo já colocava, relativamente aos nossos escritores, críticos e editores dessa época, questões idênticas às do bocadito que traduzi no parágrafo anterior.
Seria interessante ver como reagiriam ao livro de Hazan & Kamo os nossos actuais pensadores aqui em Portugal.
Dom Casmurro, de Machado de Assis (no Kindle)
ResponderEliminarAndo a ler Dickens : Little Dorrit.
ResponderEliminarNo Dickens , está tudo.
E a escrita?!
E a ironia?!
Mais de 800 páginas de puro deleite.
Caíram-me no sapatinho três livros novos! O que não resisti a começar de imediato, Galveias de José Luis Peixoto, o Livro sem Ninguém de Pedro Moreira-Guilherme que será lido logo de seguida e O Meu Irmão de Afonso Reis Cabral.
ResponderEliminarFeliz Ano Novo a todos!
Beijinhos
Cláudia Moreira
Obrigado pela excelente sugestão de leitura.
ResponderEliminarBom 2015 com muitos e bons livros.
Há uma anedota curiosa sobre O Túnel; Sabato, um praticante tardio da literatura, acabou de escrever o romance e foi mostrá-lo a um dos decanos das letras argentinas, o grande amigo de Borges: Adolfo Bioy Casares. Sabato, com falsa modéstia, entrega o manuscrito ao mestre e pede-lhe que o leia e lhe diga o que está errado, pensando que vai receber louvores apenas. Mas ABC realmente lhe devolveu o manuscrito cheio de correcções e sugestões e sublinhados vermelhos. Coitado.
ResponderEliminarEu ando a ler "Textos e Ensaios," de João Palma-Ferreira: quando mais livros leio dele, mais injusto me parece o esquecimento deste autor. Descobri-o em 2014, por acaso, porque sou um rato de alfarrabistas, e deslumbro-me com a lucidez e erudição do seu pensamento, especialmente na área dos estudos literários.
Fez uma excelente tradução do Ulisses !
Eliminar(e era um intelectual interventivo, à antiga)
O meu autor Paulo Moreiras é o maior admirador de Palma Ferreira que conheço e diz que aprendeu a escrever com ele.
EliminarNão conhecendo a obra de Paulo Moreiras, embora esteja na minha lista para a próxima Feira, presumo que haverá semelhanças temáticas, narrativas, se não vocabulares, entre "A Demanda de D. Fuas Bragatela" e "Vida e Obra de Dom Gibão," dois romances que se apropriam do romance pícaro que, como Palma-Ferreira aventou num excelente ensaio sobre o assunto, nunca verdadeiramente teve uma tradição no nosso país. Ando muito curioso para comparar um com o outro.
Eliminar«O cão das ilhas», Maria da Conceição Caleiro
ResponderEliminarHum... se não fosse muita maçada podia falar-nos um poucochinho desse livro? Parece-me que o vi recentemente em qualquer lado... será?
EliminarGrato!
Posso dizer-lhe de que estou a gostar muito. Mesmo. Uma escrita cuidada, rigorosa, envolvente. Há palavras cruéis, poderosas. É uma «história a várias vozes» e isso agrada-me muito, pois permite, de facto, perceber o quão manipulador o ser humano consegue ser.
EliminarObrigado! Vou procurar...
EliminarSaudações interessadas do Bairro Ribatejano
Li uma extraordinária biografia escrita por João Magueijo sobre Ettore Majorana, um físico teórico da primeira metade do século XX, os mais revolucionários tempos da física nuclear. Nunca tinha ouvido falar em Ettore Majorana, eu que me considero um pouco como amador das teorias da subestrutura nuclear. Trata-se de uma personalidade fascinante, um génio matemático fulgurante mas com tendências depressivas e dificuldades relacionais, cuja história familiar e feitio dificílimo explicam que tenha sido apagado da história da ciência do século passado (só é praticamente recordado na sua Sicília natal). Era o mais prodigioso dos discípulos de Enrico Fermi em Roma e a sua vida teve um final romanesco: em 1938, com 32 anos, desapareceu enigmaticamente por sua própria decisão (o suicídio é a tese mais provável, mas o seu corpo nunca foi encontrado). Magueijo guia-nos na sua pesquisa sobre Majorana, explicando-nos os seus trabalhos científicos, levando-nos à sua família, a quem o conheceu, a quem sobre ele escreveu, a quem com ele teve confrontos, e, ao mesmo tempo, explica-nos a belíssima evolução das teorias de física quântica e atómica que se foram sucedendo ao longo das décadas dos anos 20 aos 50. Majorana tinha um particular prazer em mostrar como os outros estavam errados, e disso fazia grande gáudio, mas estranhamente não estava interessado em publicar as suas descobertas. Foi ele quem primeiro postulou a existência de neutrões e de neutrinos, embora os livros de física não lhe reconheçam a descoberta. Magueijo é físico teórico de consagração internacional (é professor no Imperial College em Londres) que se tem revelado um grande escritor. O seu último livro (“Bifes Mal Passados”) é um quase delirante, mas super hilariante retrato do comportamento do inglês médio, com umas boas tacadas no final do livro em alguns comportamentos lusitanos. Nós rimo-nos e os ingleses sentem-se insultados ! Tem tido múltiplas edições entre nós e será a face sarcástica e jocosa de um Magueijo que escreve sempre com grande sentido do humor e cuja face de sério ensaísta está na sua biografia de Majorana. Que grande livro !
ResponderEliminar"VICENTE JORGE SILVA conversas com ISABEL LUCAS" - Muito interessante de um grande, grande homem dos jornais. Fala de muitas coisas, muita gente (Belmiro Azevedo, Balsemão, Guterres, Cunhal, Sócrates...). Fala de jornais (O Comércio do Funchal, O Público, o Expresso,,,, de livros;
ResponderEliminar-A SANGUE FRIO do Truman Capote é de uma força esmagadora;
-AS PALAVRAS do Sartre talvez seja o livro mais fabuloso que li, sobre a infância e a construção de uma personalidade...
CONVERSAS NA CATEDRAL - Mário Vargas Llosa- com um início absolutamente inesquecível...
-CESARE PAVESE, Gabriel Garcia Marquez,,,
Ahahah!
EliminarÓ Severino, tens razão... coitado do Perú... (país e não a ave galinácea!), o que foste lembrar!
Realmente o começo além de inesquecível é no mínimo inusitado... mas por essa capacidade de ser assim, Vargas Llosa é dos meus autores preferidos.
A edição que possuo - por acaso foi herdada da biblioteca do meu sogro quando as filhas desmancharam a casa - tem um excelente prefácio de João Aguiar que é uma lição!
Votos de Extraordinário Ano, e um abraço cá do Bairro Ribatejano - tá frio com'á porra!
Caros extraordinários,
EliminarFalais do meu livro favorito, carago!
Ai, carago não, carago...
Também tenho a edição com o prefácio de João Aguiar. Mas para mim o livro não é só o início, é cada página. Já o li 3 vezes e a que gostei mais foi a última. Volta e meia pego nele e leio umas páginas ao calha, só para me deleitar um bocado.
Rui Miguel Almeida
Já agora: onde foi que te f*d*st*, Zavalita?
Atenção, amigos, os considerandos sobre os livros que citei, não são meus são do Vicente Jorge Silva (ei-los):
Eliminar-A SANGUE FRIO do Truman Capote é de uma força esmagadora;
-AS PALAVRAS do Sartre talvez seja o livro mais fabuloso que li, sobre a infância e a construção de uma personalidade...
CONVERSAS NA CATEDRAL - Mário Vargas Llosa- com um início absolutamente inesquecível...
Comecei a ler de Knausgard , “A Morte do Pai”, o primeiro tomo de “A Minha Luta”.
ResponderEliminarVou à volta da página 80 e já estou rendido. Estou tão rendido que profetizo Nobel daqui a uns anitos. Lembra-me um pouco o que senti há quarenta anos quando li os “Cem Anos de Solidão”. Um mundo e um estilo novos. Este primeiro tomo irá durar-me mais de um mês de leitura porque é de uma densidade e qualidade literárias que requer, para boa degustação, doses quase homeopáticas seguidas de um tempo de reflexão e de releitura. É irregular, mas sempre de excelente para cima. Tem páginas sublimes. Por exemplo: irei ver o último auto-retrato de Rembrandt de modo diferente depois da leitura da página do Knausgard sobre o olhar e o envelhecimento. O sentimento infantil de presença mágica da mãe está escrito como nunca o tinha lido, assim como o contraste que isso faz com a estranheza entre filho e pai. As dificuldades com corpo adolescente que cresce diferente do que se gosta. O deslumbramento dos primeiros episódios de embriaguez. É uma sequência de episódios distintos que se podem ler em separado. O autor intercala relatos da sua vida atual de escritor, que está a escrever o presente livro, com as suas recordações autobiográficas, organizadas cronologicamente, as quais constituem o grosso do texto. Confesso que estive quase para não pegar no livro por o autor ter dado o título de “A Minha Luta” à sua “À la Recherche …”. Não aprecio homenagens a Hitler. Mas o Knausgard tem um textozinho de uma página em que explica “a minha luta”: é o esforço dele, pai de crianças pequenas e com ao dinheiro a faltar, para encontrar cinco horas por dia para escrever o livro. [está junto a um texto em que relata muito impressivamente a sua tentação em ser violento com uma filha de dois anos que não o deixa trabalhar]. Com tantos sinónimos possíveis, podia ter evitado “a minha luta” mas desculpa-se: neste nosso mundo onde tantos escritores talentosos só pedem uns minutos de atenção, a tentação de atingir esse objetivo através da provocação é compreensível. Falei na Recherche ” mas este livro, sendo baseado em memórias pessoais, é muito diferente no seu estilo, nas reflexões e na organização da obra de Proust . Para mim é bem mais sedutor e faz-me refletir mais do que a Recherche (tenho alguma alergia ao modo de sentir da alta burguesia parisiense da Belle Époque …). Eu podia ser aquele rapaz cuja infância e adolescência Knausgard descreve desde que o acaso me tivesse feito nascer na Noruega. Curiosamente, a minha mulher, que é uma grande leitora, pegou no livro primeiro do que eu e largou-o, trocando-o pelo “Terra Amarga” da Carol Oates , dizendo-me que prefere livros que lhe contem histórias fantásticas, como o da Oates , do que aqueles que fazem relatos autobiográficos de vidas relativamente normais, como o do Knausgard .
Ó Artur a tua mulher já leu da J.C.Oates "A FILHA DO COVEIRO? mas que grande livro, "agarrou-me" do princípio ao fim.
EliminarHá de facto um tempo próprio, de preferências próprias e de ocasião, e um mood " para se ler qualquer livro.
EliminarArtur,
EliminarComecei a ler e, às primeiras linhas, soube que o comentário era seu. Gosto muito de ler as suas opiniões sobre livros. Levou-me a querer ler este. Obrigado e continue a comentar. Endereço-lhe daqui um forte abraço!
Rui Miguel Almeida
Julgava que a abertura do ano seria no próximo dia 12… Onde vi isto?
ResponderEliminarAcabei de ler dois romances que têm a particularidade de incluírem personagens com insuficiência mental. Trata-se de O Meu Irmão, último Leya, e de O Exército Iluminado, de David Toscana, escritor mexicano. Apesar do aspeto comum, são dois romances completamente distintos.
Em O Meu Irmão, as personagens estão bem construídas, assim como o desenvolvimento das pequenas ações, e há equilíbrio entre a ação no presente, no Tojal, e a memória do passado.
Curiosamente, estremeci mais com a história da família do Tojal do que com a história principal: a do narrador e do seu irmão. Senti que a história da família rural é mais cruel e miserável do que a vida do narrador e do irmão. É uma crueldade que vai brotando da terra como uma planta espinhosa. Segura bem a história principal.
O Exército Iluminado é um romance original. A realidade, o sonho, a fantasia e a utopia harmonizam-se maravilhosamente nas ações da personagem principal (única no universo literário), um professor, e no grupo de crianças, alunos, que ele transforma em exército iluminado.
António Breda Carvalho
Ando a ler Modiano - Dora Bruder -, a Gramática de Latim da Presença/Langenscheidt e Geografia Imaterial, três ensaios sobre poesia de João Barrento. Este último, só entendo a espaços, mas gosto verdadeiramente de me sentir perdido nestes textos mais eruditos sobre poesia.
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