Na cozinha

Já estamos longe das festas (o tempo voa), altura em que muitos (muitas?) não conseguiram sair da cozinha para deixar tudo num brinquinho para a consoada, o almoço de Natal e a noite de fim de ano. Pois a mim, que sou fraca cozinheira, serve-me a cozinha de inspiração palavresca, tantos são os utensílios ali arrumados que dão origem a significados e expressões bem coloridos. Na gaveta dos talheres, por exemplo, encontro logo um bom garfo, que não é o que espeta, mas o que come bem; e também o que aprecia meter a sua colherada (mesmo que se diga «entre marido e mulher não metas a colher») ou que, mais subtil, dá uma colher de chá; ao lado, estão os que dão facadas no matrimónio, os que vão à faca na sala de operações, os que têm a faca e o queijo na mão ou lidam com assuntos que são uma faca de dois gumes, os desgraçados a quem põem a faca ao peito ou estão com a faca na garganta e ainda os de faca na liga, que são, de todos, os menos aconselháveis. Já no armário dos vidros, temos um bom copo, um copofone, o que está com os copos (tudo sinónimos), mas também o menino copinho de leite que não provou álcool no copo-d’água da irmã, bem como gente pires, gente manteigueira, gente meia-tigela e os que, no fim de uma discussão, gostam de levar a taça. Em baixo, entre as peças mais grosseiras, há um cara de tacho que arranjou um bom tacho sem saber fazer nada (dizem que foi tudo uma panelinha e que, quando isso vier a lume, ainda há-de sair da frigideira para o fogo) e também um homem que aprecia homens (com vossa licença: um paneleiro); nos carros, fala-se também de panela de escape, não é? Por fim, na prateleira do serviço que está a uso, lembro que a vingança é um prato que se serve frio, que Cristiano Ronaldo acusou Mourinho de cuspir no mesmo prato em que comeu, que há quem não vale o prato que come, que é bom deixar tudo em pratos limpos, que não comemos no mesmo prato de pessoas com quem não temos intimidade, que uma coisa rotineira é o prato do dia e uma coisa ou pessoa divertida é um prato ou um pratinho. E pronto. Já estão com vontade de partir a loiça toda?

Comentários

  1. António Luiz Pacheco15 de janeiro de 2015 às 02:11

    Ahahah!

    Extraordinário, uma vez mais... bem conseguido!

    A propósito e apenas por curiosidade, sem cair em extremismo homofóbico, na minha terra diz-se numa associação sexo-culinária: ser panelêiro com'ás couves. Absolutamente lógica!

    E já agora, há quem tenha uma "grande bilha (nádegas)" ou quem "encontre o testo (tampa) para o seu tacho" - no sentido de emparelhar. Também sucede ter-se uma grande "prateleira dos queijos" (seios)...
    Já a outros "salta-lhes a tampa", e há quem "ferva em pouca água".
    Aliás pode até "entrar o bispo" (ficar a comida um pouco queimada e com mau sabor...), mas há sempre quem esteja disposto a "rapar o tacho" ou a "limpar a travessa" (no sentido de comer tudo até ao fim), e por isso gostam de uma "boa tachada" (comer bem) ou apanham "grandes tachadas" (embriagam-se).
    Afora os que estão sempre de "faca afiada" (prontos a discutir por qualquer motivo), enquanto noutros "foi a gota que fez transbordar o copo" e depois "alimpem-se a este guardanapo" o que pode mesmo ser "como um copo de água fria"!
    E haver quem "não tenha bebido chá em pequeno", preferindo ser "pãozinho sem sal", mesmo quando "leva mão de vaca", porque há muita gente "insossa".
    Já nós Extraordinários, somos o "sal e a pimenta" nestas conversas!

    A cozinha é uma fonte de inspiração... eheheh!

    Saudações culinárias kaluandas!
    Por cá, há quem não goste de "comida que dormiu" - comida da véspera, requentada!

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    1. Lá diz o provérbio: quem faz uma panela faz o testo para ela. A tradução, para quem não saiba de testos: não desanimem, há parceiro para todos e todas.
      JCC

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    2. Ou "a cada panela, seu testo".

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  2. olha só o que se diz na "cozinha". :))

    grande sabedoria popular.

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  3. Haverá tempestade em copo d´água se disser que é a panela velha que faz o bom caldo?

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  4. Mário Silva Carvalho15 de janeiro de 2015 às 02:51

    Como a 'carne é fraca' não resisti, faltava aqui a opinião de um 'broeiro'. Antes que me mandem 'semear batatas' e me digam que não passo de um 'meia-tijela' deixo aqui uma frase de um tipo que não era propriamente um 'pap'açorda ', o Jorge Amado:
    "A gastronomia é a mais sublime das artes"

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  5. Mais uma entrada para o futuro livro do MRP, a cujo lançamento nos vai a todos convidar !

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  6. Claudia da Silva Tomazi15 de janeiro de 2015 às 02:57

    Bala de café? Aprendi desde cedo.

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  7. Está tão bonitinho! Um prato! Não há colherada que lhe falte. E nem precisa de uma colherzinha de chá. Tem, digamos, a cantareira bem armada.

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  8. [Uma vez que, ao que parece, já terminaram os cozinhados e arrumaram a loiça, o mais que posso fazer é deixar-vos aqui, a título de sobremesa, esta peça que tinha preparado há já uns tempos para a série “Palavras e Expressões Em Desuso”]

    Quem Tem Uma Porta Aberta…

    Quando, no início dos anos setenta, me refugiei no Porto, fui acolhido por uma família que residia num quinto andar de um edifício de apartamentos acabadinho de construir mesmo em frente à Quinta do Covelo.
    Esta parte da cidade era ainda meio suburbana, casinhas modestas e um tanto antigas, habitadas por trabalhadores de diversas fábricas e oficinas que por ali havia, e a Quinta (actual parque público), com forte presença por ser de grande dimensão, dava até uma nota de ruralidade.
    Mas a zona estava em transformação. O edifício onde eu habitei foi um dos primeiros, outros se lhe seguiram, e com isto vieram para ali residir muitas pessoas da classe média, mudando gradualmente o ambiente social da zona.
    No nosso prédio habitavam advogados, médicos, uma conhecida locutora da televisão, creio que um militar, e assim. Nos outros novos prédios ia-se estabelecendo idêntico padrão.
    Numa ruazinha ali a poucos metros havia uma velha mercearia à moda antiga, daquelas que vendiam de tudo um pouco e mais alguma coisa. Entusiasmada com o aparecimento da nova e tão distinta clientela, a dona da mercearia em poucas semanas a transformou num vistoso mini-mercado , com letreiro de néon e tudo.
    Pois um belo sábado de manhã ali estava eu com mais alguns vizinhos do prédio, numa espécie de fila à espera de sermos atendidos. Antes de nós estava uma mulher, antiga residente no bairro. Quando chegou a sua vez avançou para o balcão. Mas a dona do mini-mercado quis atender primeiro os novos clientes. A outra protestou. Nós bem queríamos que fosse respeitada a ordem de chegada, mas a dona armou um banzé, agarrou a mulher por um braço e pô-la na rua, depois ainda foi a gritar-lhe pelo passeio adiante até ela virar a esquina.
    Ao regressar dirigiu-se a nós e, embrulhando e desembrulhando as mãos no avental, disse-nos:
    – “Os senhores doutores desculpem, mas isto… é bem certo: quem tem uma porta aberta tem de aturar todos os caralhos .”
    … … …
    Moral da história
    Cenas como esta continuam a existir, mas a expressão nunca mais a ouvi – nem mesmo no Porto… Deve ter caído em desuso logo ali, por determinação dos doutores presentes.
    Ainda assim, se fosse eu que mandasse, punha-a de novo em uso. E, sendo preciso, por via das dúvidas até a publicava no Diário da República.
    Porém, com uma pequena correcção, por evidentes razões de boa educação: –“Quem tem uma porta aberta tem de SABER ATURAR todos os caralhos ”.

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    Respostas
    1. ahahaha ... bem "dizido", sim senhor, pois quem não tem competência, não se estabeleça.

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    2. António Luiz Pacheco16 de janeiro de 2015 às 00:16

      Ahahahah!

      Onde é que assino a petição ó Joaquim Jordão?

      Saudações hílares e kaluandas!

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