Matemática e poesia
Aqui há uns tempos escrevi (e escarneci) sobre uma «maluqueira» que alguém tinha inventado – um programa informático que permitia baralhar palavras e fazer de cada utilizador um poeta. Na altura, pareceu-me que era mesmo de loucos pretender que uma máquina fizesse poesia se lhe déssemos palavras para ela (des)arrumar, mas talvez tenha subestimado a relação que existe entre a composição numérica e a composição de palavras (talvez, no nosso cérebro, as combinações sejam todas uma única coisa, pelo menos). Digo isto porque sou surpreendida com uma proposta interessante do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, no próximo dia 31 às 16h00: no âmbito do centenário do nascimento do escritor Joaquim Namorado e de uma exposição de obras suas (poético-matemáticas?) de pintura, o museu convida para uma conversa-palestra sobre Matemática e Poesia Eugénio Lisboa e Natália Bebiano: um crítico de literatura e ensaísta (mas com formação em engenharia, actividade que desenvolveu quase toda a vida), a outra doutorada em Matemática e professora catedrática em Coimbra (mas, ao que leio, especialista em matemática recreativa e uma referência no campo da literatura infanto-juvenil ). O assunto espicaça a curiosidade, naturalmente, e fico tentada a ir ouvir que afinidades têm duas coisas à primeira vista tão diferentes como a poesia e a matemática… Vamos ver, claro, se consigo ir até Vila Franca...
Lembrei-me imediatamente desta:
ResponderEliminar"Para compreender a poesia, temos de conhecer a métrica, a rima e as figuras de retórica. Depois, fazemos duas perguntas. Como é apresentado o objectivo do poema? Qual a importância desse objectivo? A primeira pergunta avalia a perfeição do poema. A segunda, a sua importância. Uma vez respondidas estas perguntas, torna-se simples determinar a grandeza de um poema. Se a perfeição do poema for representada na horizontal de um gráfico, e a sua importância na vertical, calculando a área do poema chega-se à medida da sua grandeza. Um soneto de Byron pode alcançar grande craveira na vertical e apenas a mediania na horizontal. Um soneto de Shakespeare, por outro lado, alcançaria grande craveira, tanto horizontal como verticalmente, com uma área total, revelando assim a verdadeira grandiosidade do poema. À medida que forem lendo o livro, pratiquem este método de avaliação. À medida que a capacidade de avaliar poemas aumenta, aumentará também o deleite e a compreensão da poesia."
Não identifiquei, mas certamente todos se lembram do saudoso Robin Williams a ler este excerto aos seus alunos. E de ter mandado arrancar a página, claro.
EliminarTranscrevo o que diz Maria do Rosário: “talvez tenha subestimado a relação que existe entre a composição numérica e a composição das palavras”.
EliminarO texto transcrito por João PCoelho é-me familiar, mas assim de repente...
(A minha cabeça já não é o que era)
Ainda assim, a conjugação dos dois faz-me lembrar o "LogiComics ”.
O João PCoelho, artista da área, conhece certamente este maravilhoso livro de banda desenhada – que pode muito bem vir à baila lá em Vila Franca de Xira.
"Logicomix" em vez de "Logicomics".
EliminarNão, não fui induzido em erro pelas trapalhadas do Acordo Ortográfico. É a minha cabeça...
Logicomix! Excelente referência, Joaquim. E gostei imenso de o ver usar "banda desenhada" em vez de "novela gráfica".
Eliminar........................
O texto é retirado do filme Clube dos Poetas Mortos, (a cena da página rasgada).
Hum... deve ser interessante, sobretudo para si que escreve poesia!
ResponderEliminarHá quem defenda que em tudo existe poesia... e não será assim na verdade?
E de resto não se diz "métrica"????
Saudações poéticas aqui da Cidade Morena, também conhecida por, das Acácias Rubras.
Desde os fractais que admito: a poesia coexiste perfeitamente com a matemática. Até por ambas estarem em toda a parte. Com o pormenor de não serem Deus.
EliminarDesculpem, mas relativamente ao texto da nossa anfitriã (matemática e poesia) não consigo evitar o recurso a um lugar comum: "dizem que os extremos se tocam."
ResponderEliminarQuanto ao comentário do João PCoelho, faz-me lembrar uma mania minha de avaliar um livro em três prismas diferentes:
1- a escrita (a língua é a ferramenta do artesão/escritor)
2- a sensibilidade de quem escreve (originalidade/diferença da sua visão relativamente ao mundo e/ou condição humana, a riqueza do enredo e das personagens)
3 - Para mim a mais importante e que nada tem a ver com a temática (amor, guerra, sexo, morte, etc): a possibilidade de sintetizar o texto numa frase, numa ideia, ou seja, o seu objectivo.
Cheguei a isto há alguns anos e desde aí tornou-se automático.
Agora, como se o fizesse no consultório intimo das revistas de coscuvilhice, lanço a seguinte questão: Cara "Maria" estarei com este sistema a ser preconceituoso?
Mais nada, abraço a todos.
Jamais li um livro a tentar adivinhar-lhe o objectivo. Sobretudo porque decerto encontrava vários e nenhum seria o do autor.
EliminarMas escrever com um objectivo determinado faz sentido. Não sei bem se se consegue, se a obra não dá por si mesma umas guinadas e o altera; se não pode mesmo operar-se um ruptura.
A sua expressão final está uma delícia. Vou plagiar, se me permite
"Mais nada, abraço a todos."
Sei que a poesia não é só combinação de palavras. Mas também o é. E combinação de palavras soa muito matemático.
ResponderEliminarDe resto, já se tem feito a afinidade entre a matemática e uma outra arte sublime: a música.
Há matemáticos que dizem que, no mundo, tudo pode ser explicado pela matemática. Quem sabe, não tenham razão...
No tempo de estudante de matemática havia exercícios que muito me agradava realizar. O espírito espraiava-se livre por largos espaços e variáveis tempos, as designações de algumas operações eram verdadeiramente deliciosas, poéticas mesmo: infinitamente grande, infinitamente pequeno, levantar a indeterminação, discussão das raízes, número mágico. Ah, a poesia.
ResponderEliminar"O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
ResponderEliminarO que há é pouca gente para dar por isso."
:)
à partida não encontro pontos comuns entre poesia e matemática.
ResponderEliminarembora alguns pessoas defendam que a poesia está em toda a parte (é quase como Deus...).
mas lembrei-me logo de António Gedeão e de Rómulo de Carvalho...
E a matemática não está tb em toda a parte? Logo, andam juntas. Pelos mesmos caminhos. Que são todos.
Eliminarnão sei, Beatriz.
Eliminaré que ser poeta é também não gostar de números e das coisas complicadas da vida. :)
O que queria dizer é que a proporção e o número estão presentes em tudo que é matéria e não que os poetas gostem de cálculos complexos (admito até que alguns gostem). A poesia depende de uma certa forma de olhar que é tanto interna como externa e encontra a sua proporção na palavra.
EliminarA realidade é um gigante que tateia com mão(s) de fada.
ResponderEliminarÉ tal a magia da matemática que chamei número mágico ao que é número imaginário (raiz quadrada de -1). Muito poético também.
ResponderEliminarCuriosas reflexões.
ResponderEliminarSó posso acrescentar, o que já vários vezes escrevi: gosto tanto de palavras como gosto de números.
Saúdem-se abordagens da poesia a partir de diferentes perpetivas, no caso matemáticas, estatísticas, o que seja, tanto mais que a análise crítica mais corrente explica-a com uma linguagem que é, ou pretende ser, ela própria, também poética, sobrepondo assim novos poemas aos poemas que pretende analisar.
ResponderEliminarPerspetivas, queria eu dizer.
EliminarPaulo Oliveira fiz as contas e você elucidou qualquer opinião com a palavra saúdem-se, parabéns!
Eliminar
ResponderEliminarPoesia Matemática
Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.
Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág. sem número, publicado com o pseudônimo de Vão Gogo.
Com o pseudónimo de Vão Gogo, colaborou Millor Fernandes, no extinto Diário Popular.
Amílcar Mendes
Ora aqui está um belíssimo contributo para o debate em Vila Franca de Xira.
Eliminar“Um Quociente apaixonou-se por uma Incógnita…” – só este bocadinho diz tudo.
Abusando de palavras de Maria do Rosário no último parágrafo do post, “fico tentado a saber que desafinidades têm, afinal, duas coisas à primeira vista tão semelhantes como a poesia e a matemática…”
Eugénio Lisboa publicou há anos um belo livro de poesia, "O Ilimitável Oceano", com poemas sobre cientistas e matemáticos desde a Antiguidade até os nossos dias.
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