Em desuso

A minha sogra – que, desde que ficou viúva, viveu sozinha no Porto muitos anos, e morreu aos noventa –, sempre que o Manel lhe telefonava e iniciava a conversa com um «Tudo bem?», respondia, com alguma amargura, que o «tudo» era só ela... Na verdade, esta forma de cumprimentar é bastante recente em Portugal e foi claramente roubada às telenovelas brasileiras para nunca mais lhes ser devolvida. Antes disso, as pessoas perguntavam, por exemplo, «Como está?» ou «Como vai?» (um pouco como o How are you? inglês ou o mais engraçado Ça va? francês que, literalmente, quer dizer «Isso vai?» e que creio equivalente ao Qué tal? espanhol). Os italianos, de resto, ainda usam correntemente Come va?, embora a frase traduzida pudesse estranhamente suscitar também uma resposta do tipo: «De comboio.» Em português, porém, todas essas maneiras de perguntar pelo estado do outro, físico ou mental, caíram em desuso com a apropriação do coloquialismo brasileiro – e praticamente morta e enterrada está a fórmula «Como passou» (que era por vezes acrescentada ou substituída por um «Passou bem?»), a que o meu pai, que era um brincalhão, respondia: «Fui cabendo.» Não gosto de dizer «Tudo bem?» a pessoas que conheço mal, a pessoas a quem guardo respeito, a pessoas mais velhas, a pessoas com quem faço alguma cerimónia (e continuo a usar «Como está?» em todos esses casos). Mas creio que a minha geração será a última a conhecer estas expressões e que, no futuro, este «Tudo bem?» acabará por se tornar simplesmente um «Tá-se bem?» ou coisa do género.

Comentários

  1. Pois, nem sei qual será a fórmula de cumprimento no futuro. Mas o "tá-se bem" não me convence:)

    Mas o "Tudo bem", pegou como afirmação e como pergunta. Sem que seja universal. Até por ser expressão usada e abusada que,no cerne, não significa o que os vocábulos expressam. Tornou-se habitual, raro leva colada a preocupação de bem querer ou o cuidado com o outro. É apenas uma forma de começar conversa, que tanta vez nem espera resposta. E nem ela é dada em sinceridade, porque se responde com a pergunta estejam as coisas e a vida como estiverem.

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  2. Que engraçado!
    Este seu post fez-me recordar a minha avó paterna que reclamava para si o epíteto de pessoa extremamente doente. O meu avô troçava dizendo que desde que a conhecera (antes dos trinta anos) se encontrava enferma e ainda não morrera. Assim, quando a visitávamos e o meu pai lhe dirigia um cerimonioso "Passou bem?", ela respondia, invariavelmente "Não me pergunte se estou bem. Pergunte-me se estou melhor."

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  3. Claudia da Silva Tomazi22 de janeiro de 2015 às 02:04

    Porque cá em Brasil há melodrama.

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  4. António Luiz Pacheco22 de janeiro de 2015 às 03:03

    Walali (Bom-dia!)
    Walale-po ciwa? (Dormiram bem? Estão bem? Estão bem de saúde? Passaram bem a noite?)

    Cumprimentos em umbundu, a língua mais falada em Angola, sendo a segunda expressão a mais formal, como quando se cumprimenta um soba ou pessoa de respeito.

    No nosso linguajar, eu uso muito o "Como está?" ao qual posso acrescentar "Está bem?". Isto sendo pessoa conhecida, caso seja a primeira vez digo: "Muito prazer, com está?".

    Na despedida uso o fatal "Adeus", eventualmente acrescento "tive muito gosto" ou "foi um prazer".

    Foram as fórmulas que me ensinaram em pequeno.

    O "Olá como está (s)", só para pessoas ou mais novas ou com quem haja alguma proximidade.
    Se for uma pessoa mais velha ou categorizada, e próxima será "Olá! Passou bem?".
    Para os amigos, uso o popular "Viva! Tás bom?", ou "ora seja bem-aparecido!" após uma certa ausência.

    É toda uma ciência, a do cumprimento e da saudação, atrevo-me a dizer!!!!
    Na verdade, como leitores e amantes de livros que somos, não podemos ignorar o facto de haver até livros dedicados a tal!
    (Nota curiosa, em umbundu livro diz-se "elivulo", e por certo que é corruptela da nossa designação.)

    Por aqui à despedida diz-se normalmente um "fica bem", que eu acho muito simpático e já adoptei!
    Sem maka!!!

    Agora, a propósito disto das cumprimentações e das usanças diferentes entre povos, uma historieta:
    - Uma vez fui apresentado a uma senhora dinamarquesa, directora comercial da Danish Crow, uma grande empresa de produtos cárnicos de porco - têm o melhor bacon do Mundo!
    A senhora, branca, loiríssima e de olhos azuis muito claros, bonita, mandava um cabedal que nem vos digo nada... era da minha altura (1,78m)com ombros bem mais largos do que eu, com cachaço e tudo, parecia um toiro charolais...
    Estendemos a mão, e eu como fui ensinado que a uma senhora não se aperta a mão mas apenas se segura levemente, com gentileza, foi o que fiz... porém a nossa valquíria (ou dama-de-escudo) que sendo mulher de carreira provávelmente não queria saber de etiquetas, prega-me um "shake-hand" vigorosamente britânico com uma mão de torno que me estalaram os ossículos todos! Até me encolhi... ia-me partindo a mão, o estupor!!!!
    Soube depois que havia jogado na seleção dinamarquesa de andebol e até participado nos jogos olímpicos... por isso tinha uma patorra daquelas e uma força nas mãos que nem lhes digo nada, até vi estrelas!!!

    Bem-feita, já está a Cristina Torrão a pensar... toma lá para saberes como é! Ahahah! Gaita, e é que foi mesmo um apertão!

    Por isso "tua pandula suku tate", Maria do Rosário, que é como quem diz bem-haja e Deus lhe pague.

    Salapo ciwa (fiquem bem, adeus), saudações umbundas cá da Cidade Morena.


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  5. Não, não, não querida anfitriã, que eu não sou da sua geração e sejam próximos ou mais ceriminiosos pergunto sempre: como estão?
    Talvez porque há muitos, mas mesmo muitos anos que não vejo uma novela brasileira.

    Um abraço.
    Carla Pais.

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    1. Claudia da Silva Tomazi22 de janeiro de 2015 às 12:09

      Mas, tem quem goste cara Carla.

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  6. Ora bem: estamos a falar do acto de cumprimentar no sentido de “saudação”.
    Saudação tem a ver com saúde.
    Daí o “Como está?” ou “Como passa?”.
    A resposta habitual é: ”Cá vou andando...”.
    Em troca recebe esta: “O que importa é que haja saúde...”
    Regra geral returque-se: “Pois. O pior é o resto...”
    E, não havendo mais nada a tratar, o outro prossegue: “É. Isto está complicado...”
    E vai ele: “Se está...”
    E o outro: “Cambada de ladrões.”
    “Ui! Nem me fale, que ainda agora venho de pagar o imi”
    “Ó, ó! Se fosse só isso...”
    “Pois. É que um gajo anda uma vida inteira a pagar a casa ao banco, e ainda por cima o governo castiga-nos por ter casa.”
    “E o banco também castiga. Os juros, as taxas, e tal. E depois levam a massa toda para o estrangeiro.”
    “Bandidos! Depois falta a massa para a educação, a saúde...”
    “Ui! Nem me fale, que ainda ontem estive umas quatro ou cinco horas à espera de ser atendido no hospital.”
    “Uma bandalheira. Bem, tenho de ir andando... Abraço!”
    “ Outro. Haja saúde!”

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  7. António Luiz Pacheco22 de janeiro de 2015 às 07:39

    Ahahah!

    Grande Jordão, e não falo do rio, se bem que este também seja uma torrente...

    No meu Bairro Ribatejano, usa-se cumprimentar assim: "Atão como é?" ou então "Vai ou na vai?", ao que se responde invariavelmente: " Se na vai a gente empurra!".

    Ahahah!

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    1. António Luiz Pacheco22 de janeiro de 2015 às 07:43

      Os mais velhos, lá no Bairro, também cumprimentam com um "Éh!", mais ou menos assim:

      "Éh vizinho!", "Éh r´paziada!" , "Éh c'chopa", "Éh 'miga", "Éh prima!", "Éh nina", "Éh ti J'quim".

      Mas vai-se perdendo...

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  8. Muitos dos que usam "Tá-se bem" já só dizem "Tá-se" e grafam "Tasse".
    Para perguntar "Como está", "Como tem passado" na Guiné um balanta dizia "Corpo di bó" (escrevo como ouvia). Perguntava concretamente pelo estado do corpo, coisa que eu achava notável.

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  9. - E aí, tudo fixe?
    - Tirando o que não tá, o resto tá.


    - E aí, tudo porreiro?
    - Vaicindo ....
    - Vai na calma, meu.

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  10. Eu não sei qual a expressão a usar, mas espero que se deixe de usar a terceira pessoa e que o uso da segunda pessoa seja universal. Hoje em dia não faz sentido este tipo de formalismo arcaico.

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  11. Achei interessantíssimo este 'post' pois gerou uma série de comentários igualmente interessantes, reveladores das múltiplas experiências e vivências de cada um de nós no seu quotidiano. À minha volta (e eu já não sou nova...) instalou-se o 'tudo bem?'ou 'estás boa?' há bastante tempo. Só para pessoas com maior cerimónia continuamos a usar o 'como está?'. O futuro? Não faço a mínima ideia!... Tá-se bem!...


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  12. Uso muito o «Tudo bem?», mas muitas vezes penso no quão incongruente a expressão é, uma vez que fazemos a pergunta/saudação mas NUNCA esperamos pela resposta... Acaba por ser quase como um «Olá»...

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