Eça no prato

Todos os que leram Eça sabem que a comida tem uma grande importância em muitos dos seus livros – n’Os Maias, por exemplo, é descrito em pormenor um jantar em casa da Condessa de Gouvarinho, e alguns dos padres d’O Crime do Padre Amaro são mesmo uns lambões (lembro-me ainda dos arrotos de um deles no confessionário). Pois está de novo no mercado o livro Comer e Beber com Eça de Queirós, cujas receitas são assinadas pela grande Maria de Lourdes Modesto (que as elaborou tendo em atenção os vários pratos referidos na obra do romancista) e é prefaciado pela estudiosa Beatriz Berrini, que explica que, em Eça, a comida marca também, de forma decisiva, as diferenças de classe pela oposição da escassez à abundância (e como comem alguns, meu Deus!). Os 50 pratos incluem coisas tão populares como ovos com chouriço, cabidela ou bacalhau com grão (numa clara homenagem à cozinha tradicional portuguesa, que é a preferida das personagens aristocráticas queirosianas), mas também coisas bastante mais sofisticadas, como um consommé frio com trufas (para falar do exotismo de alguma gastronomia internacional, provavelmente saboreada pelo romancista em Paris) ou tão risíveis como, riam-se, os «folhados do cocó» E porque não experimentar também a comidinha de Eça, se ele nunca nos desiludiu noutros campos?


 


P.S. Já depois de ter escrito este post, encontro um artigo no Público em que a autora das receitas diz que nem sequer teve conhecimento desta reedição e pede que tirem o livro do mercado (a editora, por seu turno, diz que os direitos são da Fundação Eça de Queirós, mas que Maria de Lourdes Modesto estava ao corrente).

Comentários

  1. António Luiz Pacheco19 de janeiro de 2015 às 02:43

    Guerras autoro-editoriais à parte, creio que será uma edição de grande interesse, os comeres em Eça... se bem que possa ser alargado a outros autores clássicos que também dedicaram interesse à arte da gastronomia!

    Não o tenho aqui à mão e por isso não me recordo exactamente, mas creio ter sido o Prof. Hermano J. Saraiva quem publicou um romance gastronómico...

    Afinal, a gastronomia em Portugal é um assunto muito sério, divulgado, amado, discutido... creio que é mesmo um dos nossos traços culturais mais fortes!

    Repare-se que nas nossas andanças pelo Mundo trouxémos sabores e produtos que assimilámos e divulgámos pelo nosso antigo império.

    Diria que é uma paixão nacional e peça de resistência nas conversas. Quantas vezes não estamos numa mesa com desconhecidos e em ambiente formal, desconfortável até... pois a propósito do vinho, do pão ou da sopa, da ementa... quebra-se imediatamente o gelo e as pessoas logo se soltam e descomprimindo desatam a falar de comida, e em breve se trocam receitas e opiniões, saberes e sabores!

    Nada como uma boa refeição para aproximar as pessoas, sobretudo os do Sul da Europa, pois experimentei o mesmo com italianos, franceses e espanhóis - y como no...

    Estou em casa e a Mariana para festejar o meu regresso está a preparar um calúlú de garoupa que rescende... eheheh, vou-me lambuzar...

    Saudações gastronómicas da Cidade Morena!

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  2. A minha cena preferida relacionada com comida, em Eça, é quando o elevador da dita, na casa de Paris de Jacinto, encalha, com a travessa do peixe assado (já não me lembro que peixe, já há muito tempo que li "A Cidade e as Serras"). Gera-se uma grande confusão, com todos os convivas a espreitar pela caixa do elevador, que está aberta, e veem o peixe apetitoso lá em baixo, que não anda nem desanda. Até há um senhor que, bem ao estilo de Eça, exclama, de olhos esbugalhados e dedo trágico, apontado ao peixe: "Lá está ele!"

    É mais ou menos assim, como disse, já lá vai muito tempo.

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    1. António Luiz Pacheco19 de janeiro de 2015 às 05:48

      É um salmão!!!!
      E creio que o avô Jacinto, auto-exilado, recebia lampreias lá em Paris... já não sei se estou a inventar, mas a do salmão ficou-me na memória!

      Não lhe mandam de vez em quando umas alheiras por DHL???? Ahahah!

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    2. Debalde (há quanto tempo não usava esta palavra) procurei um exemplar de "A Cidade e as Serras", mas não tenho nenhum aqui na Alemanha. Gostaria de ter citado passagens dessa cena deslumbrante.

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  3. Eu substituiria a casa dos Gouvarinhos pelo jantar do Hotel Central e a sua sole normande avec petits pois à la Cohen regada pelo Saint-Émilion ...

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  4. Puxa! A nota de rodapé deixou-me de cara à banda. O poder das fundações. Ou será que a autora não leu as condições plenas do contrato que assinou...
    Será um livro de receitas curioso.

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