O que ando a ler
Com meia tarde livre num domingo de trabalho atrasado trazido para casa no fim-de-semana, lancei mão ao mais recente romance de Milan Kundera (na verdade é tão pequeno que lhe chamaria apenas uma novela ou coisa assim), A Festa da Insignificância, título, de resto, belíssimo. A letra gorda ajuda a que as páginas corram depressa sob os nossos olhos, e pareceu-me ideal para quem, como eu, tinha pouco tempo. Conheci, pois, com muito prazer um grupo de homens maduros – Alain (que gosta de miúdas novas), Ramon (que não tem paciência para filas), D’Ardelo (que mente sobre o cancro que não tem), Charles e Caliban (que organizam cocktails em empresas ou casas particulares, entre elas a de D’Ardelo). Quando se juntam (sem D’Ardelo, que não é um amigo, embora os conheça), contam divertidas histórias de Estaline (Kundera sabe do que fala), têm saudades das respectivas mães e conversam, claro, sobre a insignificância, que um deles defende ser a essência da vida e estar presente, mesmo que nos recusemos a vê-lo, nas instâncias mais dramáticas da existência. Um livro com imenso humor que fala de coisas muito sérias, este A Festa da Insignificância talvez não mereça a celebração de alguns livros mais notáveis do escritor checo, mas vale ainda assim a pena ser degustado, sobretudo pela inteligência com que nos apresenta a vida contemporânea (e às vezes realmente insignificante).
O QUE ANDO A LER - Parte I
ResponderEliminarOra vivam Caríssimos Comparsas dessas Extraordinárias Horas que Passamos a Ler!
Sabem, isto a leitura parece ser inversamente proporcional à intensidade da vida!
Este mês tem sido intenso, fértil em acontecimentos, movimentado e desde uma avaria num desses caminhos perdidos e esquecidos de Deus, a mudanças profissionais de final de ciclo, fora umas aventuras pseudo-Hemingwescas com peixes a sério, muita coisa aconteceu com a chegada em força das chuvas ao planalto, e, até aqui em Benguela, onde o calor se instalou!
Ler, li… até muito! Sobre maquinaria (há que estar up to date num projecto tão grande), e sobre solos, fertilização, cultivos vários do arroz ao feijão, prados e pastagens! Nesta actividade temos sempre de estudar, na análise permanente das condições edafoclimáticas, que são um desafio constante e talvez componham a magia de fazer agricultura! De criar e ver crescer. Que a agricultura é também ciência… metade de planificação e outra metade de improviso, mas sem dúvida que possui além e para lá da técnica, uma mística… coisa que pode ser contestada por quem a veja de fora, mas não negada por quem a vive e dela vive!
Leituras própriamente ditas nem por isso.
De destaque, o meu velho amigo e companheiro de aventuras, João António Boavida, finalmente lançou este mês o seu romance “Beatriz” – atenção Extraordinária homónima – sendo eu o prefaciador.
Não corro o risco de o aconselhar a ninguém!
É um livro escrito com alma e nenhuma técnica, direi até que ingénuo, no mais puro género naif que a alguns soará como piroso ou desprezível, mas talvez por isso com um encanto de bucolismo, kitsh, sobre o qual reproduzo parte do meu prefácio, que não sendo também nenhuma obra-prima literária, quiçá pretensioso, pode eventualmente conter algum interesse, o que seria Extraordinário!
“De uma forma mais directa, diria que como verdadeiro Caçador, o JB é um contador de histórias, mas das suas próprias histórias que ele escreve em as vivendo, nesses lances únicos e muito seus!
O JB sempre foi igual a si próprio, fazendo as coisas à sua maneira e no mais puro gozo, confiante e na procura dessa felicidade, algo egoísta porque a atinge sózinho como um epicurista que acredita nos finais felizes e deita o sofrimento e tristezas para trás das costas. Ele é um purista, na forma como procura integrar-se na Natureza e fruir sensações puras, como seja na caça com arco em que prefere recusar a facilidade de usar um óculo e uma carabina; ou como na pesca submarina mergulha atrás dos peixes no seu próprio elemento e os persegue a fôlego; como cavalga as ondas na sua prancha sem mais do que os seus meios; como no vôo livre abdica do motor que o sustenta no ar, e, na pesca de caiaque se locomove pelos seus próprios meios!
Mas não se enganem, ele não é um “radical”, como se diz modernamente! Não! Ele é um clássico Homem da Natureza, é um romântico verdadeiro nessa procura da pureza e na recusa das facilidades maiores, buscando a satisfação pelo seu próprio esforço e capacidades, ou arte… que o faz para si e por si, não para exibir a sua diferença ou na busca da adrenalina e sim pelo lado romântico da realização!
E, como o romântico que também é, na mais pura acepção da palavra, como um Júlio Dinis contemporâneo, conhece e ama, celebra ainda uma ruralidade ancestral que lhe está entranhada nos genes e lhe corre no sangue, que ele procura e revive nas suas incursões, que cultiva e só poderiam ser assumidas na escrita deste romance, que encontraremos cheio de personagens à Júlio Dinis mas sempre actuais pelo que diria clássicos, de um romantismo cujo manto diáfano da fantasia todavia nos permite entrever tantas pessoas e casos reais e que conhecemos ou reconhecemos do dia-a-dia deste nosso querido meio rural e cinegético, sem necessidade sequer de inventar, basta-lhe colar e desenvolver os retalhos de uma vida a ver e a viver estas coisas.
Não me espanta pois que tenha acabado por dar corpo a este romance,
O QUE ANDO A LER parte II
EliminarÉ um romance rural, no mais puro romantismo, vivido no século XX ou XXI, que talvez não agrade à actual corrente de pensamento urbanita e sobretudo social-deprimido, deprimente, em que os autores procuram em romances negros e tristes, exorcizar os seus fantasmas e partilhar a sua depressão e desencanto, e, em que os leitores encontram o espelho das suas frustrações e depressão também, num ciclo vicioso. É pelo contrário, um romance luminoso e de côr, onde se faz apologia de sentimentos bons e de coisas boas, optimista, com algum fado ou fatalismo bem nosso, mas no fundo alegre e campesino!
É bom que se saiba que no interior também há vida, e há gente ilustrada e esclarecida que por ser isso mesmo ali se mantém e opta por viver segundo as tradições, numa certa qualidade de vida afinal, que outros tentam alcançar mudando de modas todos os anos ou em cada estação, o que diz bem das convicções e bases em que estas se fundamentam…
Nós, rurais, caçadores e românticos, falamos de outras coisas, lemos e escrevemos sobre outras coisas, duradoiras e sem tempo como os sobreiros, quentes como o Sol, claras como a Lua-cheia, aromáticas como o vento Leste, revigorantes como a chuva, chamativas como o mar, vivas e vigorosas como o vinho seivoso que nos corre nas veias aqui neste cantinho metido ao mar, finisterra de um continente onde somos um pouco de tudo: Europeus, africanos… e onde celebramos milenarmente o Sol, a Lua e os elementos da Natureza Criadora e das Forças que fizeram os Céus e a Terra.
Ah! Amigo João António… quanta água correu nos Tejo, Sado e Guadiana, que de marés subiram e desceram, tantas Luas já mudaram e quantos dos nossos já partiram, desde que no Picadilly enchíamos toalhas de papel de esquemas e rabiscos… de planos e afinal de sonhos, que alguns cumprimos e outros ainda não, mas afinal para nós românticos, que sentido faria viver sem sonhos por cumprir?
Fica-nos afinal a saudade por aquilo que não faremos, e só temos medo que não haja Mar nem Terra bastantes, para tanta coisa que ainda queremos fazer!
Benguela, 1 de Julho de 2014”
Ora, passando adiante e nem de propósito, qual o outro livro que estou a acabar? – e mais do que nunca, recomendo à Cristina Torrão, que sei vai gostar:
“O Filho” – de Phillip Meyer.
Há toda uma semelhança entre o doce ingénuo “Beatriz” e o duro e cru “O Filho”, tanto quanto são diferentes as realidades entre os dois países e culturas, mas olvidar o que foi a acção preponderante dos portugueses no século XIX e o seu contributo para a lenda do Far West! O que é do desconhecimento geral – “OS PORTUGUESES NO FAROESTE (Terra a perder de vista). De Donald Warrin e Geoffrey L. Gomes.
“O Filho” contém esta mística americana do Western, dos pioneiros, e é sem margem de dúvida um Grande Livro – quem sou eu para avalizar ter sido considerado o melhor livro do ano nos EUA?
Foi escrito com indiscutível técnica por um profissional, coisa que o meu amigo João Boavida não é, mas possui a Alma! A alma dos grandes romances, que faz a diferença e de facto projecta a literatura americana para um nível superior que não sei qual é, mas sinto que tem! Só lendo “O último homem americano” de Elizabeth Gilbert se pode compreender melhor este “O Filho”, como depois perceber porque o ligo a “Beatriz”.
Não o sei classificar… Western? Sim, a sombra de Zane Grey ou Louis Lamour mais do que a de Fenimore Cooper pairam sempre, com toques de Fitzgerald atrevo-me a dizer… pois há um saltar de gerações no tempo e na forma, genial na forma como relata e entretece a trama, como liga gerações de pessoas que se entrecruzam e completam ainda que pareçam nada ter a ver, salvo serem da mesma família em gerações distintas, e aqui sobressai a técnica! Mas sempre com alma!
Aconselho… sem margem de dúvidas, e tendo do mesmo autor, “Ferrugem Americana” na prateleira, estou ansioso por o ler!
Saudações leitorais cá da C
edafoclimática
EliminarObrigado Pacheco, estou sempre a aprender - hoje aprendi mais uma!
Pois... parabéns ao JB que escreveu um romance com o meu nome - meu e de muita gente, e a que a paixão de Dante não será estranha:).
Eliminar"É um livro escrito com alma e nenhuma técnica, direi até que ingénuo, no mais puro género naif que a alguns soará como piroso ou desprezível"
o piroso não é desprezível; e o mais puro género naif não tem que ser piroso. Ou tem?
Caro António,
EliminarAinda anda com essa da alma e da técnica? Ficou mesmo incomodado. Mas não tinha ido à pesca e não tinha comido e bebido como um lorde para resolver isso? Então e o salário? Não era o salário que justificava a sua superioridade intelectual? Então mas afinal come, bebe, pesca e mete dinheiro ao bolso, mas continua a sentir-se incomodado? Mas você não tem alma? E não é a alma que importa? Então deixe o resto, homem... Veja as coisas desta maneira: digam do amigo António o que disserem, a verdade é que usa as palavras com rigor. Vê-se que sabe o que é um epicurista, por exemplo...
Incomodado? Não, fiquei a pensar nisso o que é muito diferente.
EliminarComo ser pensante que sou, gosto de reflectir nas coisas, e de compreendê-las, sem o que não conseguiria evoluir e por aí fora, até chegar aos dólares que me permitem fazer coisas de que gosto.
Todavia, parece-me que não sou eu quem ficou incomodado... ficou aí a moer-lhe qualquer coisinha, deu para perceber da sua reacção e mais agora... faça como eu, pense, medite e aprenda, abra-se a outros e novos conhecimentos.
Olhe vou-lhe contar uma coisa que descobri e na minha profissão tem sido muito útil, mas suponho que possa ser transversal para todos:
O saber é como a água! Corre ali na nossa frente... só que umas vezes é como um rio e basta-nos baixar para a recolher, mas outras é como um poço e está lá no fundo, precisamos de uma corda e um balde para a apanhar.
Compreende a metáfora? Estou certo que sim pois me parece ser uma pessoa inteligente, e um dia que desça do seu pedestal é capaz de se tornar bastante melhor e mais interessante, quiçá útil.
Continuarei a falar nesta questão sempre que ache oportuno, para marcar bem a diferença entre quem escreva com a tal técnica ou com alma, e claro melhor os que escrevam com as duas.
Saudações tranquilas e epicuristas, da Cidade Morena
Está certo. Eu, que não voltei a tocar no assunto, é que fiquei incomodado. Realmente, tem razão, consigo aprende-se mesmo muito. Acabei de aprender Lógica, mas do avesso.
Eliminarnão ando a ler (estou com obras em casa, substituição de canalização) e sinto-me um "sem casa", sem espaço e vontade para ler.
ResponderEliminarclaro que vou lendo coisas relativas a trabalhos de investigação, mas nada de romances. :)
A poesia de D. Dinis.
ResponderEliminarAndo a ler o mais recente livro de Mário dee Carvalho, um guia precioso para quem bem quer escrever mass também, et pour cause (não sei fazer itálicos nesta geringonça), para quem bem uqer traduzir.
ResponderEliminarO livro de Kundera está em português a sério, ou faltam-lhe consoantes? Preciso de saber se posso comprá-lo ou se devo esperar pela tradução inglesa.
ResponderEliminarPode ler à vontade. Não o comparei com o original, mas pareceu-me bem.
EliminarBem, segundo o interior da edição o livro já segue o acordo. Portanto é mais um livro que vou comprar em inglês. Não percebo, às vezes a Leya age como se nunca tivesse ouvido falar de capitalismo e de Milton Friedman com a sua teoria sobre o poder de escolha do consumidor. O Book Depository é que agradece.
Eliminar"CANADÁ" - Richard Ford - Grande livro! Estou mesmo à beirinha do fim. São 431 páginas intensas.
ResponderEliminar-Dell Parsons e sua irmã gémea Berner (de catorze anos) estavam longe de imaginar o quanto a sua vida se alteraria no dia em que os seus pais, desesperados, decidem assaltar um banco...-
Foi talvez o melhor livro que li até agora neste ano de 2014, um pouco acima dos outros três que mais tinha gostado (O HERÓI DISCRETO de Mário Vargas Llosa , PARA ONDE VÃO OS GUARDA CHUVAS do Afonso Cruz e de CLARABÓIA do José Saramago).
"CANADÁ" de Richard Ford - BRILHANTE.
Um dos maiores desafios que enfrentei nos últimos anos.
EliminarUm dos maiores desafios que enfrentei nos últimos anos.
EliminarEm que sentido, Francisco?
No sentido em que se trata de um livro com uma complexidade na caracterização das personagens e dos ambientes (também eles, aqui, personagens) e com uma quase ferocidade estilística que obrigam o tradutor a trabalhar no fio da navalha, correndo o risco de desagradar aos dois amos de que é servidor: o autor e o leitor.
EliminarÓ Francisco perdoe-me a ignorância (é que sou mesmo ignorante!) mas só agora vi ali na 2ª. página deste livro, absolutamente magistral, Tradução de Francisco Agarez.
EliminarDeixe-me dar-lhe os parabéns, não li o original mas o meu amigo construiu aqui um grande livro.
Realmente a complexidade destas personagens e dos ambientes é absolutamente fascinante, entranham-se-nos até aos ossos Quando eu leio um livro e consigo ver as personagens e eu vi a mãe dos gémeos-que mulher, que vida mais infeliz, e eu vi o pai dos gémeos que homem mais "distraído da vida", tão diferente da mulher com quem casou e em quem parece nunca ter reparado, nem nos filhos, absolutamente fantástico o seu trabalho. Obrigado Francisco!
E aquele diabólico "homem" Arthur Remlinger - que facínora, desta gente há cada vez mais...enfim personagens e ambientes realmente fascinantes, que adorei.
Há um livro que, de algum modo, tem também personagens e ambientes aproximados "Os domínios da noite" de William Gay (não sei se o Francisco conhece? passou despercebido na nossa praça)
Que sorte teve este autor, tem todas as razões para ter ficado satisfeito, eu, como leitor, só tenho que lhe agradecer vivamente. Mais uma vez obrigado Francisco.
Não conheço o livro que refere, mas sei bem como é fácil um bom livro morrer na praia. Eu próprio já traduzi vários. E há outros que nunca chegaram a ser lançados ao mar na nossa língua. Não me esqueço de um romance admirável (com algumas afinidades com o Canadá) de um escritor indiano de nascimento e canadiano por opção chamado Rohinton Mistry. Chama-se "A Fine Balance" e foi em 1967 (se a memória não me falha), finalista do Booker Prize. Não ganhou e por isso o editor desistiu de o publicar em Portugal. Mas é um romance extraordinário, que os leitores portugueses mereciam conhecer.
EliminarAndei a ler dois livros que “ estavam para ali, tombados, a fraternizar com as bichezas da erva”
ResponderEliminarVamos por partes.
1 - Quando soube que Ana Margarida de Carvalho ganhou o prémio da APE, fiz a minha pesquisa e fiquei a saber que é filha de Mário de Carvalho.
Ora bem: isso é promissor.
Como tal, aprofundei a pesquisa e encontrei um sítio de onde pude descarregar as primeiras vinte páginas de “Que Importa a Fúria do Mar”.
Estava a ler a amostra e, de repente: – “Espera lá! Devo ter deixado para aí em qualquer lado, tombado, a fraternizar com as bichezas da erva (*), aquele livro do Mário que me tem esquecido de ler... Ai como é que se chama? A Sala... quê? Magenta? É isso. (*) ” E depois, com mais calma: – “Em acabando de ler a amostra vou vasculhar a ver se o topo.”
E assim foi. Encontrei-o e li-o.
Mas vamos por partes.
É bem certo: em alguns aspectos tira-se pela pinta, tal pai - tal filha.
Por exemplo, ele, na parte inicial do livro, é: “matas de sobreiral e pinho, lassos os ramos, restos de carumas, pinhas, folhas mortas, copas, gravetos, rumores emergindo do solo num restolhar de sobrevivência”.
E vai ela, nas vinte páginas que tenho: “os tojos, estevas, giestas, o louva-a-deus, o grilo, o sapo... “
Entretanto, parece-me encontrar na amostra dela a ironia que o pai terá, desta vez, deixado de parte (isto relativamente às obras que dele li, que não são todas).
Ironiza ela: “ (...) desilusões de óptica. Aos mortos tiram-se-lhes os óculos, e pronto. / (...) encostam-me, usado antes de agitado, consideram-me dispensável, irrelevante / (...) A boa-nova de todos os dias, a que nos condenou o movimento de rotação do planeta, (...) Amanheceu, grande coisa... “
Já no livro dele me pareceu haver mais desventura que ironia, se posso assim dizer. O bocadinho de ironia que encontro é, talvez, a advertência que o autor nos faz logo na primeira página: «A acção e as figuras deste romance reportam-se a um mundo ficcional de entrada franca, sem chaves ou gazuas. Procurar moldes da vida real para acontecimentos e personagens é ter em má conta a imaginação do autor. Pode ser que ele o mereça, mas não os lesados por equívocos de leitura.» Que é como quem diz ao leitor: – Se estás à espera de ironia, desengana-te, que as vidas falhadas que aqui vou ficcionar prestam-se, desta vez, mais ao pessimismo do que à cumplicidade.
Pronto. Agora, para ter sol na eira e chuva no nabal, só me falta arranjar um exemplar completo do livro de Ana Margarida – e ver se não o deixo para aí, tombado, a fraternizar com as bichezas da erva...
2 -... que era assim que estava também o outro que andei a ler, “Os Imperfeccionistas”, Tom Rachman.
Curiosamente, também aqui nos é descrita a vida dos vários personagens (um a cada capítulo), todos membros da redacção de um jornal falhado, por anacrónico, todos eles em crise, por uma ou outra razão: fracassos amorosos, frustrações profissionais, etc. Em suma: todos entregues a uma desiludida solidão.
Não vou alongar-me, que longo já vai este texto.
Quero apenas fazer referência a uma interessante entrevista do jornal Globo ao autor, na qual anuncia que o seu próximo livro é sobre viver offline, mas com livros.
A propósito destes, diz ele: – “A indústria editorial está em busca de formas de sobreviver digitalmente, e muitas entram em choque com a essência do livro. Por exemplo, e-books com links apenas acabam com o efeito que o livro possui. Não há nenhum outro exercício cultural que exija 25 ou mais horas de pura concentração e envolvimento, que demande tanto da sua mente por um período tão longo. Música, filmes e outros podem afetar tanto ou até mais, mas são experiências diferentes. Acho que a profundidade de atenção exigida por um livro é muito significativa e uma alternativa a nosso modo de vida. Mas não sei se isso torna a existência dos livros ainda mais ameaçada ou uma esperança. Só nos resta torcer.”
Leia, leia, Joaquim Jordão a Margarida de Carvalho. Um livro que terminei agora e que não desmerece do nome Carvalho.
EliminarMas o que me "encheu as medidas" foi realmente o último do Mário o «Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão. Guia Prático de Escrita de Ficção»: ali encontrei puxões de orelhas e conselhos para todos. Ah e já me esquecia, o Breviário das más inclinações do naughty boy José Riço... Direitinho?!
Estou a terminar dois livros. En cas de bonheur, de David Foenkinos, um escritor recentemente galardoado com o prémio Renaudot. É muito popular em França, escreve breves romances que fazem lembrar as comédias ligeiras de Feydeau. Mas não me entusiasmou. O outro livro é sobre a dança no século XX. Dos ballets russos a Pina Bauch e muitos outros. É um livro que me ajudou a contextualizar muitos espetáculos de dança que já vi, a integrá-los em correntes que vêm de longe. No capítulo sobre a dança alemã, que era tão importante desde os anos 1910, percebi como esta arte pode ser tão política como outras: com o Nazismo, os grandes mestres saltaram todos para exílio, seja para os paises livres ocidentais, seja para os países do bloco de Leste. Fascinante leitura.
ResponderEliminarAcabei o último excelente livro do Mário de Carvalho, 'Quem disser o contrário é porque tem razão'. Mais do que um manual de como bem escrever ou traduzir, é também um hino a toda a grande literatura.
ResponderEliminarSe não tinha ainda vislumbrado em mim chamamento algum para escrever (ou traduzir) fiquei agora, depois de melhor perceber a dificuldade com que um escritor 'à-séria' se depara permanentemente para criar os seus escritos, somente com vontade de continuar a ser devorador-leitor.
E com tantas e ricas (porque fundamentadas) análises de alguns clássicos da literatura lá fui desenpratelar dois que tenho mas que nunca li: 'O primo Basílio' do Eça e 'A condição humana' do Malraux (numa tradução do Jorge de Sena!). Já estão na mesa de cabeceira.
Mas não percam mesmo o 'Quem disser o contrário é porque tem razão'.
Boa dica !
EliminarTenho andado a ouvir falar muito (e bem) desse livro, e a sua conclusão acabou mesmo por me decidir!
Levo já uma lista do caraças para comprar em aí chegando... (tá quase!), o pior vai ser depois decidir o que ler e tempo para isso... felizmente as noites são grandes e espero ter bastante lenha arrecadada! Eheheh!
Saudações encalmadas cá da Cidade Morena!
Aterraram hoje cá em casa o prémio leya e a Ana Margarida Carvalho, que tantos comentários mereceu aqui hoje. Como na literatura não sou nada cavalheiro, vou começar pelo sub-25, como carinhosamente passei a tratar mentalmente Afonso Reis Cabral.
ResponderEliminarTambém sou dos que acende a lareira e geralmente não dispenso um chá ou outra bebida, mais na linha da vodka... :)
Uma boa semana a todos,
Rui Miguel Almeida
Depois de os Dias Tranquilos, de K. Oé cujo tema me desencorajou – para já - a leitura do prémio Leya , duas guloseimas de uma assentada: Os Charutos do Faraó e a Estrela Misteriosa (comprei na Fnac há 2 semanas e juro que nunca mais empresto Tintins…). Esta noite vou calar um desejo antigo: Ravelstein , de Saul Bellow .
ResponderEliminarLendo o "O meu amante de domingo", de Alexandra Lucas Coelho.É o primeiro livro que leio desta autora e tem sido uma agradabilíssima surpresa. Conhecia-a apenas dos jornais, e está a ser muito bom descobrir o seu humor fino e assertivo. O livro é uma delícia. Recomendo, portanto. :)
ResponderEliminarO do Kundera será o próxima, certamente. Já o tenho e agora fiquei mesmo com vontade de o ler.
Já vai tarde, mas aqui vai...
ResponderEliminarUm bem velhinho...
Sembéne Ousmane
"Os pedaços de madeira de Deus"
Está muito bom.
Abraço
No programa "Há Memória", RTP Memória, passou a repetição, há dias (creio que quinta-feira por volta do meio-dia), uma entrevista a Nuno Camarneiro, ocorrida antes de ele ter vencido o Prémio Leya de 2012. Nesse programa, o autor já se refere à futura obra vencedora, que estaria então concluída e à espera de ser editada nesse mesmo ano, e levanta o véu sobre o tema e o cenário. Pareceu-me que há mesmo promiscuidade na atribuição do prémio Leya, uma vez que os autores da editora, que trabalham com editores que são responsáveis pela escolha da lista final a avaliar pelo júri, nunca poderiam concorrer. Acho que não preciso de dizer porquê...
ResponderEliminarDe qualquer modo, estas dúvidas ajudaram a editora a vender mais um livro, no sentido de que eu o comprei e acabei de ler ontem. E achei um livro mais ou menos. Não original no tema. não original na escrita. Enfim, um livro mais ou menos e a léguas do outro prémio Leya que li (O Rastro do Jaguar: muito bom). Um livro sem centelha.
Perfeitamente de acordo!
EliminarApesar de não ter lido todos os prémios LeYa atrevo-me a dizer, correndo, porém, o risco de ser injusto, que apenas o RASTRO DO JAGUAR poderá ser considerado um BOM LIVRO, todos os outros são assim assim (dos que li-e foram quase todos) e estão a léguas do RASTRO...
Ó Severino, lê "A rainha do cine Roma" ... outro finalista Leya no ano do Jaguar... não te arrependerás, garanto-te... gostas de Jorge Amado? É um livro esmagador e que nos obriga até a ver as coisas por um novo prisma - o que eu gosto que me aconteça!!!!
EliminarSaudações livrescas cá da Cidade Morena
Boa tarde Ó amigo Pacheco
EliminarJá tomei nota.
Jorge Amado-gostei imenso (mas já o li há mais de vinte anos).
Saudações Saramaguianas do Sul de Portugal (Algarve que alguns imbecis pretenderam transformar em ALL GARVE - era só o que nos faltava...cambada de analfabetos).
Quem tratava deles é aquele patusco advogado do Sócrates que há uns dias vi à porta do Campus da Justiça com um saco de plástico na mão (fui buscar o almoço) - ainda há Portugueses a sério!
Concordo completamente. O prémio Leya, para o valor que tem, deveria ser muito mais exigente e combater esta promiscuidade que, apesar das tentativas da MRP num post passado em desanuviar com afirmações não provadas, continua a ser nítida para quem souber juntar dois e dois. E, já agora, deixem-me dizer que, normalmente, os finalistas publicados são melhores que o premiado. Imagino que também haja, nesta lista, não finalistas bastante bons mas que não estão no gosto dos editores. Isso é mesmo assim, é a lei da vida. Mas daí a dizer, como aqui há uns anos, que nenhum dos finalistas prestava... Imagino que nesse ano não havia nenhum autor vendável, mas tenho muitas dúvidas sobre a afirmação do júri, com eufemismos, de que nenhuma das obras prestava...
EliminarJoão Ferreira