Ler sempre

Durante doze anos, trabalhou em minha casa uma senhora que não sabia ler. Arranjávamos sempre forma de comunicar através de objectos, porque eu não lhe podia deixar um bilhetinho a pedir que me fizesse a cama de lavado ou me apanhasse a roupa do estendal; mas encontrávamos códigos em que nos entendíamos e tive pena quando ela deixou de poder ajudar-me porque éramos (ainda somos, porque a visito frequentemente) cúmplices e amigas. Ela confessou-me muitas vezes que teria adorado ir à escola e eu ofereci-me para lhe ensinar as letras, mas respondeu-me que, naquela idade, já não valia a pena. Pois leio um interessante artigo no Público, no qual se diz que a aprendizagem da leitura se pode fazer em todas as idades e que, seja em que idade for, ela melhora o desempenho visual dos novos leitores, permitindo-lhes até detectar diferenças entre objectos de qualquer género, e muito mais depressa do que acontece aos analfabetos. Ao que parece, quando aprendemos a ler, o nosso cérebro reorganiza-se e essa reorganização acontece independentemente da idade de quem está a aprender e da língua que fale. E a literacia, segundo os autores do artigo científico referido no jornal, tem como efeito imediato o aumento do rigor na discriminação de objectos semelhantes, por exemplo, ou a capacidade de reconhecer imagens num espelho – coisa, ao que consta, mais difícil para os iletrados. Já sabíamos que a leitura era boa para a saúde e a alma, mas para os olhos é mesmo uma novidade!

Comentários

  1. ...eh pá, então começo a entender porque é que nesta terra são só ceguetas, pois se a grande maioria destes malacuecos que por aí pululam, nomeadamente os que nos governam e os donos disto tudo, são absolutamente incapazes de escrever e muito menos de ler (compôr uma frase é trabalho hercúleo)...

    Aqui há cerca de dois anos falava eu nos transeuntes quando um jovem mabeco (licenciado em Economia) se vira para mim: mas o que é um transeunte...
    .. raspeja-te ...

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    1. Excelente exemplo do transeunte. Há muitos que sabem ler as letras, mas a falta de mais leituras dificulta a cultura geral e um maior conhecimento dos mais diversos interesses que existem no mundo.
      Lá por tirarmos uum curso financeiro ou de engenharia, vale sempre a pena conhecer a beleza da poesia, os nomes das árvores, dos peixes, da geografia... Aprender a ler é o princípio de um vasto universo.

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  2. Claudia da Silva Tomazi18 de dezembro de 2014 às 04:01

    Lindo é o jacaré!

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    1. Mas estás mesmo a falar a sério, Cláudia Tomazi?

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    2. Claudia da Silva Tomazi18 de dezembro de 2014 às 04:56

      Sim, ASeverino. Lindo é o jacaré.

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    3. Vou então ter de me concentrar...

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    4. Lindo é
      o jacaré.

      Rima, e tudo.
      Só pode ser verdade.

      (... e mais isto, e mais aquilo,
      lindo é o crocodilo.)

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  3. Não só isso, como também nos torna pessoas melhores, mais empáticos. E até há quem esteja a investigar as diferenças entre ler literatura e ler ficção «popularucha». http://revistafabulas.com/2014/12/16/a-ciencia-confirma-que-ler-ficcao-torna-nos-pessoas-melhores/

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    1. Se um cientista de meia-tigela qualquer diz que torna, é porque torna. Se quanto mais se lê, melhor se é, por que é há tantos escritores (à partida lêem mais do que a média) cujo carácter ou a simpatia deixa algo a desejar...

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    2. Um canalha analfabeto será sempre um canalha analfabeto, assim como um canalha letrado será sempre um canalha letrado. A diferença encontra-se, na maior parte dos casos, no estilo da canalhice.

      ABC

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  4. As minhas duas avós eram analfabetas. Os avôs näo, mas um deles aprendeu a ler já adulto, por ele. Conclusäo: dos quatro, só um frequentou a escola e o liceu.

    Quando soube que a minha avó transmontana näo sabia ler, andava na primária e fiquei täo impressionada, que tentei ensiná-la, com a ajuda do meu livro da primeira classe. Näo consegui nada. Aquilo que parecia täo fácil, para mim, revelou-se um quebra-cabecas para ela. Além disso, por cada imagem, contava uma história, sem tomar atencäo às letras que eu lhe indicava. Por exemplo: às palavras "piu piu piu", havia uma ilustracäo com pintainhos e ela logo me comecou a contar quem, na aldeia dela, tinha mais galinhas e pintainhos e como os tratava e isto e aquilo; à palavra "pipa" (com a ilustracäo), quis logo dizer quem tinha mais vinho, qual o melhor, quantas pipas este e aquele tinham produzido, etc. Enfim, desisiti...

    A minha outra avó aprendeu a ler alguma coisa com a ajuda do marido, mas tinha muita dificuldade em ler legendas na televisäo. Muitas legendas li eu em voz alta, quando ela me pedia! Filmes inteiros. Comecei a fazê-lo com sete ou oito anos. Foi um bom treino!

    Desculpem o teclado.

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  5. Curioso, isso. Há uns dois anos, na Gulbenkian, uma inglesa que estuda problemas, características e relações entre quem lê e escreve e quem não, uma das coisas que vincou foi exactamente que existe um timing para aprender a ler. Disse ela que, como toda a gente sabe, não significa que, mais tarde já não se possa aprender. Mas frisou que como a aprendizagem da leitura e escrita se processa por norma numa idade em que as estruturas cerebrais estão em formação e desenvolvimento, elas ampliam-se bem mais do que se não haja as duas coisas. Mais, provou que o desenvolvimento cerebral de quem aprende a ler na adultícia perde bastante para as conexões nervosas que se geram na criança. Faz algum sentido. Mas desconhecia isto.

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    1. Mas atenção que ainda me lembro muito bem da minha Mãe me falar nas escolas dos adultos e havia muitas e as pessoas aprendiam e não me apercebi que houvesse assim tanta dificuldade...
      não havia era psicólogos...para depois fazerem as mais variadas análises (a grande maioria tretas-com papas e bolos se enganam os tolos)

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    2. Pois Severino, pode até ser. Eu também me lembro das escolas de adultos. Mas a senhora era pedagoga e ligada à neurologia, suponho: e conferenciava sobre leitura e escrita. Por muito que não queiramos, embora seja um benefício enorme aprender mais tarde - e não julgo que alguém em seu tino o desmereça - há danos colaterais sim. E até mais ou menos óbvios. O que me espantou um pouco foi ela provar que o desenvolvimento que a aprendizagem gera na idade adulta é mais pobre, em virtude de ocorrer, digamos, fora da idade. Eu ingenuamente julgava que fosse pelo menos igual dado que se aprendia a mesma coisa. Ou até que fossem mais amplo, porque a experiência de vida é bastante maior.

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  6. "Ao que parece, quando aprendemos a ler, o nosso cérebro reorganiza-se e essa reorganização acontece independentemente da idade de quem está a aprender e da língua que fale."

    Mas a plasticidade do cérebro diminui com a idade. E apesar de ser melhor aprender a ler tarde do que nunca, as capacidades adquiridas com a aprendizagem da leitura (nomeadamente, uma maior facilidade de reorganização espacial do mundo que nos rodeia) desenvolvem-se muito mais quando aprendemos a ler numa idade óptima (ali entre os 5 e os 9 anos). Não é a mesma coisa aprender a ler com 50 anos ou com 6 anos. Um livro maravilhoso para perceber isto: "A Arte de Ler", de José Morais.

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