O que ando a ler
Ando a ler quase apaixonada, com muito medo de que chegue ao fim, o mais recente romance de José Luis Peixoto, de seu nome Galveias, que é, aliás, a terra natal do autor. Razão de sobra para que ele saiba do que fala, evidentemente, razão de sobra para que queira homenageá-la nas páginas deste seu romance maduro e fulgurante. Personagens verdadeiramente únicas – desde o Miau, o deficiente que cresceu e continua sendo um menino, até aos motoqueiros enamorados dos seus veículos, as putas que também são padeiras, o carteiro com segredos em África, a professora do Douro que diz palavrões ao lado da freira e, claro, os cães, que aqui desempenham papéis de luxo, quase de gente. Todos estes e mais alguns assistem, com comoção e de roupa interior, à coisa sem nome que atravessa a vila numa noite e faz chover um dilúvio, abre cratera grande e torna o sabor do pão sulfuroso a partir de então. Mas se calhar Galveias já estava carregada de infernos, porque cada um tem as suas trevas particulares, quase sempre mais escuras do que as do vizinho, mas lindas lindas na mão do escritor que atingiu aqui a maioridade. Por muito que alguns se irritem com o seu sucesso (a carne é fraca) ou, mais estúpido ainda, com piercings e tatuagens braços abaixo, por favor não vão atrás de cantigas de maldizer, Galveias é seguramente um dos melhores romances do ano, um caso sério na literatura portuguesa. Para vosso benefício, não o percam. Eu só tenho pena de que chegue ao fim.
Parece ser um romance para eu ler, sim... e não duvido nem da qualidade nem da sua óbvia capacidade para o qualificar, a despeito de termos gostos diferentes na especialidade, mas se calhar na generalidade nem por isso!
ResponderEliminarO que ando a ler...
Li mais um excelente romance do Agualusa: "A rainha Ginga".
Gostei, gostei muito! Reforça a minha opinião de que este é o escritor da Lusofonia! Pois tendo a particularidade de percorrê-la através dos seus países, consegue escrever e tem escrito sobre e em toda ela, nos mais variados temas!
Além do mais, ele pratica algo que muito me agrada, que é pôr os seus personagens a falar de uma forma credível, como deviam falar! Observando a época, as circunstâncias, a erudição e o meio social... é um detalhe que a maior parte dos autores despreza ou são insensíveis, mas a mim me agrada muitíssimo! Identifico-me e mais facilmente consigo "ver" ou meter-me na pele do personagem.
Agora comecei a ler "O filho", de Philipp Meyer.
Parece-me ser um grande livro, tanto na forma e conteúdo, pois gosto da sua escrita e do tema em particular, quanto em termos volumétricos e bem ao contrário do que agora é moda que são os romances curtos... talvez porque têm pouco para contar... este parece que tem muito, e é assim que eu gosto!
Para mim, um livro é como um amigo e deve estender-se em páginas, acompanhar-me por algum tempo de forma a dar tempo de me ligar a ele e aos personagens, para me deixar saudades. É assim como os velhos amigos, os outros de fresca data e impressão ligeira não ficam nem na memória nem no coração da mesma forma!
- A Extraordinária Cristina Torrão é capaz de gostar também! Fica o aviso!!!!
Saudações livrescas da Cidade Morena!
Obrigada pela lembrança e sugestão!
EliminarIsto de ter aqui um extraordinário leitor e crítico como o ALP não é para todos os blogues.
EliminarTendo eu um problema grave de gostar de quase tudo (consequência porventura de sendo filho de militar por ter sido incrustado de disciplina do mesmo teor), independentemente dos estilos, temáticas e recursos, tenho a noção, pela rapidez com que devorei a Rainha Ginga (salvo seja), que o Agualusa escreveu um dos livros mais interessantes dos escritos por autores nacionais dos últimos tempos. Obviamente que a temática ajuda muito, sendo particularmente pouco "explorada" ao trazer à baila um mundo Africano pouco conhecido.
Que bom que chegou este dia!
ResponderEliminarAndo as turras corrigindo um (sugestivo) escritor de ficção que trás enunciado o e-mail para contactar o leitor em tirar dúvidas e, (obviamente) desenvolver o assunto do livro.
Estou a citar John Casti e o seu "Colapso de Tudo" no Brasil sob o selo da Intrinseca.
GOODBYE, COLUMBUS E CINCO CONTOS - Philip Roth- Um dos dois únicos livros do autor que ainda não tinha lido (FACTOS é o outro) e que curiosamente foi o livro de estreia do escritor norte-americano e que esteve inédito em Portugal, até 2012.
ResponderEliminarNesta excelente novela de estreia de Philip Roth está aqui já toda a sua maneira (nua e crua) de escrever e estão já os temas centrais que vão torná-lo reconhecido: uma relação complexa com a herança judaica e os problemas de classe e de integração social.
Deixei já para trás VITOR HUGO e outros escritores da minha iniciação à leitura, quiçá até Paul Auster, sendo nesta fase Philip Roth um dos meus autores preferidos a par de Saramago, Joyce Carol Oates.
O "Galveias" já cá canta, há uns dias. Li algumas passagens para agradar aos olhos.
ResponderEliminarLeio, em simultâneo, "Para onde vão os guarda-chuvas", de Afonso Cruz, e "Rio que sobe a calçada", do extraordinário amigo João Madeira.
ABC
Ando a Ler_26
ResponderEliminarO muito que, sobre as “Ficções” de J.L.Borges, já se escreveu e repetiu com umas vírgulas de diferença, só por si dava uma nova Biblioteca de Babel.
Se fosse eu o Pierre Menard, em vez de escrever de minha lavra “um” Quixote que coincidisse, palavra por palavra e linha por linha, com o de Cervantes, teria dedicado as minhas capacidades a escrever “umas” Ficções que ficassem, letra por letra, vírgula por vírgula, como as de Borges.
Tal empreendimento ter-me-ia dado o prazer de presentear os leitores com frases como estas:
“(...) um homem bastante velho. Os muitos anos haviam-no reduzido e polido como as águas a uma pedra ou as gerações dos homens a um refrão.”
“(...) As coisas duplicam-se em Tlon: propendem simultaneamente a apagar-se e a perder as particularidades, quando as esquecemos. É clássico o exemplo do umbral que perdurou enquanto um mendigo o visitava e que se perdeu de vista com a sua morte. Às vezes alguns pássaros, um cavalo, salvaram as ruínas de um anfiteatro.”
“(...) Depois reflecti que todas as coisas nos acontecem precisamente, precisamente agora. Séculos e séculos, e só no presente ocorrem os factos: inumeráveis homens no ar, na terra e no mar, e tudo o que realmente sucede, sucede-me a mim...(...)”
“(...)Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma ideia cuja exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e apresentar um resumo, um comentário (...)”
“(...) Repito-o: basta que um livro seja possível para que exista. Somente está excluído o impossível. Por exemplo: nenhum livro é ao mesmo tempo uma escada, ainda que, sem dúvida, haja livros que discutam, neguem e demonstrem essa possibilidade e outros cuja estrutura corresponda à de uma escada.”
...
Vi algures que, desde criança, Borges lia ao acaso dicionários e enciclopédias. Segundo o seu amigo Alberto Manguel, ele sempre confiou no “acaso ordenado de uma enciclopédia”.
Isto é – e foi o próprio Borges que o afirmou: “A um gentleman só podem interessar as causas perdidas.”
(O exemplar que tenho andado a reler é edição de 1969 da Livros do Brasil. Foi-me oferecido por um amigo no Natal de 1984. Ele, muito apropriadamente, escreveu esta dedicatória: “Sem dedicatória alguma especial”).
Já li Galveias e até já o tenho autografado, fui à sessão de apresentação na Bertrand da minha aldeia. Sim, eu sou daqueles que considera JLP um GRANDE escritor (mas espero que não repita a "gracinha" de Dentro do Segredo).
ResponderEliminarParece-me que Galveias é diferente dos outros romances de JLP na sua estrutura, porque pega numa personagem e conta a sua história, muitas vezes "abandonando-a" de seguida, para encadear a acção noutra. Por vezes uma personagem aparece, completamente secundária e, mais à frente no romance, tem o seu "tempo de glória", para depois desaparecer. Eu gostei muito do Padre, mas o livro tem um naipe grande de personagens muito bem conseguidas, estou agora a lembrar-me dos irmãos que não se falam há 50 anos.
Para mim, JLP é um grande autor, dos meus favoritos da literatura portuguesa da actualidade. Não sei se gostei mais de Galveias ou de Livro, o romance anterior, mas talvez o meu preferido continue a ser Nenhum Olhar.
Não sei se é verdade ou não, mas parece-me que JLP é o escritor de sucesso (por sucesso não entendo número de livros vendidos, mas qualidade literária) mais popular junto do público. Mais que Gonçalo M Tavares, Valter Hugo Mãe e Afonso Cruz. Na apresentação do seu livro ele referiu que a editora arriscou uma tiragem de 30.000 exemplares, o que lhe pareceu excessivo.
Tenho ideia que José Rodrigues dos Santos vende muito mais que isso, mas tenho sérias dúvidas que os romances actuais de António Lobo Antunes cheguem sequer lá perto. Sendo números apenas isso mesmo: números, acredito que JLP provoque muitas invejas no meio literário cá do rectângulo.
Quanto ao que ando a ler, "forço-me" por ir conhecendo nomes que ainda são lacunas nas minhas leituras, neste momento delicio-me como "Lucialima" de Maria Velho da Costa. Uma grande descoberta!
Uma boa semana,
Rui Miguel Almeida
Estou a acabar "A Mulher Louca", de Juan José Millás. Lê-se muito bem mas às vezes entra em brincadeiras demasiado infantis relacionadas com o cerne do romance, uma mulher perseguida pelas palavras. De qualquer modo, sem ser tão excepcional como por aí se apregoa, um óptimo livro.
ResponderEliminarKenzaburo Oe. Dias Tranquilos e também tenho pena de que cheguem ao fim.
ResponderEliminarPermito-me reiterar o que diz o Rui Almeida - que a gracinha "DENTRO DO SEGREDO" não se repita; a mim, este embuste/logro/lixo (DENTRO DO SEGREDO) deixou-me de pé atrás relativamente ao escritor e sem vontade de o voltar a ler mas, perante o que agora leio sobre GALVEIAS, terei de dar um passo atrás (se até o meu SPORTING teve uma noite má...)
ResponderEliminarÉ sportinguista, Severino? É dos meus!
EliminarEu ando ainda a ler "A Esmeralda do Rei", de Paulo Pimentel, e a aprender muito sobre a época de D. Sancho. De destacar a sensiblidade do autor, que consegue pôr-se na pele de uma mulher, coisa rara em escritores homens.
estava a ler "Vida Privada" de Jane Smiley mas interrompi a leitura para começar, "Que Importa a Fúria do Mar", de Ana Margarida de Carvalho.
ResponderEliminarLá terei de ir para uma grande superfície ler as primeira cinquenta páginas. ;)
ResponderEliminarMas este mês promete com o «Pão e Vinho» do Paulo Moreiras. E os próximos da Maria Teresa Horta e do Gonçalo Tavares.
E o LETRAS SEM TETRAS (O NOVISSÍMO DE MÁRIO DE CARVALHO)?!
Ontem sentado no sofá circular de uma (novamente) grande superfície tive oportunidade de ler as primeiras setenta páginas deste livro de Mário de Carvalho.
Um "manual" completíssimo para todos os putativos candidatos à escrita, ou mesmo para os já não putativos, mas que sabem que a escrita vai subindo degraus, estando lá escrito preto no branco, embora nem tudo seja só branco ou preto, por este decano: não podemos gostar de tudo!
E isso significa, explicitando, que estamos, mesmo sendo contra eles, irracionalmente, sem o sabermos, cheios de pré-conceitos horríveis.
Mário de Carvalho como um dos decanos da escrita ficcional cumpre o papel de "deslindador" dos diferentes estágios dessa coisa de ser escritor. E percebe-se que o modo como percepcionarmos cada um dos seus capítulos deste «Quem disser o contrário é porque tem razão - Letras sem tretas, guia prático da escrita de ficção», poderá ser um indicador mais ou menos fiável perante a sua capacidade de compreensão de alguns dos dilemas, enigmas e perplexidades do ofício descritos.
Um livro muito útil que, não sendo um elucidário de escrita criativa, exigirá do putativo candidato sempre mais do que uma leitura.
Como aliás a visão que devemos ter de cada autor, sem limares ou barreiras de qualquer espécie que nos pareçam marcas ou tatuagens do autor.
limo, limares.... limiares ehehh!
EliminarTinha de ler o Alabardas do Saramago, mas, para já, não me está a parecer nada...
ResponderEliminarConfesso que ainda não tive uma epifania ao ler o Peixoto. Mas vou insistir. O defeito será meu e poderá passar com o "Galveias".
ResponderEliminarEstou a meio de “Leão, o Africano” do Amin Malouf. É uma vivíssima enciclopédia da civilização muçulmana no início da sua decadência, um tempo contemporâneo com o Renascimento. O protagonista deste romance nasce em Granada poucos anos da expulsão dos mouros e judeus de Espanha, cresce em Fez e sei que, mais adiante do que página em que vou, viverá quase uma década em Florença. O livro cruza as caraterísticas culturais de muçulmanos, cristãos e judeus, sempre na perspetiva islâmica. O Maalouf é um exímio contador de histórias, para mim só comparável, quanto à naturalidade como o enredo se vai desenrolando, ao Vargas Llosa. Já tinha ficado deslumbrado pelo seu “Samarcanda”. E seguramente lerei mais Malouf quando acabar o “Leão, o Africano”.
Robert Byron, A Estrada para Oxiana (Tinta da China)
ResponderEliminarSobre JLP, aproveito para citar um cronista a falar do Acordo Ortográfico:
ResponderEliminar"Uma certa pronúncia, sintaxe ou um nível moderado de obtusidade não são por si necessários ou suficientes para perceber quem quer que seja. Inversamente, posso dizer que quando não percebo uma pessoa (chamemos-lhe por razões simbólicas Professor Malaca Casteleiro) uma transcrição ortográfica diferente daquilo que diz, uma reinterpretação daquilo que diz noutra pronúncia, ou uma neuro-operação que altere os níveis de obtusidade (chamemos-lhe por razões simbólicas operação Professor Carlos Reis) não melhoram em nada a minha compreensão. Em ambos os casos a experiência é comparável a ler um romance de José Luís Peixoto num livro de capa azul e num livro de capa amarela e já agora em qualquer ortografia: temos sempre a mesma vontade de rir, e nunca se percebe bem."
JLP é isto, sem tirar nem pôr. É pena que haja autores estúpidos, mas só os há porque há leitores estúpidos.
Já agora, o link da citação:
Eliminarhttp://formadevida.org/simposioao/
Li há dias dois bons autores chilenos: Hernan Rivera Letelier (A Contadora de Filmes) e Luis Spúlveda (O Velho que Lia Romances de Amor), este bem superior ao primeiro. E agora comecei um autor francês de enorme sucesso em França (inclusive no teatro): David Foenkinos (En cas de bonheur), sobre o casal e o as relações adúlteras. As primeiras 50 páginas são um primor. Não sei se este francês é conhecido em Portugal.
ResponderEliminarCom esta forte recomendação, não pode escapar, mas entretanto iniciei-me no Modiano, o do Nobel e do Café da Juventude Perdida, ainda sem impressão conclusiva, bem escrito claro, de roda dos cafés da Rive Gauche, onde ele se deve ter perdido também.
ResponderEliminarAcabo de acabar o 'Stoner' de John Williams, uma depurada descrição da contida passagem pela vida de um prof universitário. É um livro genial, mas é um murro no estômago.
ResponderEliminarE acabo de também começar 'O filho' do Phillip Meyer'. Os primeiros capítulos lá pelo Texas fazem lembrar um pouco o Cormac McCarthy, também pela violência e a sua banalidade e o espírito de sobrevivência humano que vem lá dos nossos primórdios animalescos . Promete, e é um belo calhamaço.
O livro Galveias é o que mais quero ler depois de Caminho como uma casa em chamas. Zé Luis Peixoto é um dos poucos que sente e escreve o que penso dizendo-o bem melhor que eu seria capaz. Acho que tem como Cesário o dom de ser um camponês que caminha pela cidade. Qualquer coisa profundamente boa na sua prosa vem das Galveias e do seu mundo rural. Qualquer coisa de muito autêntico e honrado que passa para a escrita.
ResponderEliminarFico tão contente por ele!
Estou lendo o último de Lobo Antunes, claro.
Mas qual camponês a caminhar pela cidade? Que raio de ideia é essa do Cesário? E comparar o JLP ao Cesário? Isto é a sério? Não há vergonha?
EliminarCesário Verde
EliminarAo entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai
andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema III"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Não sei se respondi à sua questão provocatória:)) porque acho - acho sempre muita coisa - que me esteve provocando. Quanto a comparações, peço desculpa, mas farei as que me aprouver. Aqui ou em qualquer outro lugar. Se me apetecer fazê-las. E desde que não sejam ofensivas. De toda e qualquer maneira, foi o que pensei quando conheci - de ler - o Zé Luís, autor de quem me julgo aparentada não na verve nem no sangue.
Um bom dia para si
Isto é que é crítica literária da fina. O Caeiro escreve uns versos e o resto das pessoas passa a olhar para o Cesário como ali vem. E nunca mais lêem o Cesário sem pensar nisso. Enfim...
EliminarQuanto à comparação, tem toda a razão. Pode fazer as que quiser. Não disse que não podia; disse que era vergonhoso que o fizesse. Tal como pode andar aos gritos pela rua a dizer que o peixe-espada é o culpado da crise imoobiliária. Pode fazê-lo, mas causa embaraço aos outros. E ao contrário do que pensa, até pode fazer comparações ofensivas, como é, de resto, o caso. Está no seu direito de dizer o que pensa, desde que compreenda que tudo o que diz acarreta a responsabilidade de se tornar público. E ao tornar-se público passa a poder ser comentado, o que significa que outras pessoas possam dizer aquilo que pensam do que disse. Uma das coisas, portanto, que implica a sua opinião é a consequência de ser uma opinião estúpida. Só a ideia de falar de JLP como escritor e de arrumar os livros dele nas mesmas prateleiras onde se arrumam Dickens ou Eça é francamente ofensivo. Compará-lo a Cesário, porém, ultrapassa isso. Perdooe-me a franqueza, mas é como comparar um carrinho de supermercado a um fórmula 1. Até podem ter a semelhança de terem rodas, mas a semelhança fica-se por aí. Só na cabeça de quem não sabe nada de literatura é que é possível juntar estas duas coisas.
É curioso...não me lembro de ter dito que sabia de literatura. Admito até não saber muito; nada, já é hipérbole. E tudo que diz, não sei se o pensou, reverte também contra si. Afinal quem se pensa para assim denegrir as minhas opiniões. Se podemos comentar não o fazemos sem pensamento (que pouco fazemos ou sentimos sem ele).
EliminarNão arrumo José Luís Peixoto com Dickens ou Eça. Alíás, não arrumo ninguém com ninguém. O facto de estarem lado a lado não os mistura. Cada um é um. E único. Estou-me nas tintas para a sua comparação entre automóveis de fórmula um e carrinhos de supermercado, que aliás não coaduna. Sabe, se quisermos - todos nós - podemos ser bem desagradáveis por escrito. Eu posso até dizer algumas estupidezes, mas afrontar os outros não cultivo. E não vou responder-lhe mais neste post. Reitero a opinião de que me tomou de ponta porque sim. Sem mossa.
Oh, é verdade, tem razão, eu gosto muito do Zé Luís, sinto nele esse camponês que anda em liberdade pela cidade, que vive nessa agudeza estranha de tentar conservar a integridade rural em que foi criado. Entendo-o, quer o quê?! Ok, não quer nada; queria que eu não tivesse dito. Mas disse. E mantenho. Contra ventos e marés.
PS: bom... comparei duas pessoas da escrita; o senhor limitou-se a alhos e bugalhos ainda que eu goste dos peixes-espada, são-me simpáticos bichos, assim compridinhos.
E uma opinião não é estúpida porque alguém a diz assim; mas por sê-lo ou não em si mesma, pelo sentido que tem ou lhe falta. Há muito facto e gente de que discordo sem por isso lhe apôr o epíteto. Que é extremamente desagradável.
O mau génio não é uma doença incurável, sabia?
A avó do Antunes, que era um amigo de infância, também era única. E até fazia versos. Com muita pena minha, não chegou às grandes livrarias e não pôde ser comparada a Cesário por pessoas que acham que ser único é critério suficiente para se ser escritor.
EliminarCaso não tenha percebido, estou a insinuar que o argumento de que JLP tem méritos literários porque é único é estúpido. E não é estúpido porque sim. É estúpido porque não há ninguém que não seja único, e nem todos somos escritores. É aqui que está o problema, não propriamente na parolice de achar que JLP é um camponês que anda pela cidade e é parecido com Cesário.
Vivam todos os Extraordinários!
ResponderEliminarEste é talvez o meu post favorito do mês...
Vale de facto a pena vir a este blog, onde se conversa, aprendo e eventualmente se trocam saberes e experiências.
Aprendi que J.L.Peixoto, que usará piercing e tatuagens (uma tentativa de se camuflar em urbano? Assumpção de uma modernidade tardiamente recebida? Ou mero selvagismo cultural que afirme ruptura?) é um rural, um aldeão... o que mais aguçou a curiosidade em ler o Galveias!
Também outro Extraordinário está a ler "O filho".
Vamos no fim do mês ter certamente uma interessante conversa sobre ele... estou a gostar!
Sobre este Philipp Meyer, quem leu "Ferrugem americana"? É um dos inumeráveis livros que comprei e tenho para ler... assim ainda tenha anos de vida, eheheh! Foi comparado a Cormac McCarthy, no que me parece concordo. Pelo menos neste "O filho", porque em "Ferrugem" temi que ele estivesse mais para Faulkner e por isso atrasei a leitura, dado a impenetrabilidade do todavia genial Faulkner, pedir balanço, tempo e paciência... Se calhar cometi um erro de avaliação?
Bem hajam todos, boas leituras, saudações Extraordinárias desde o Planalto Central - encontro-me no Huambo!!!!
Ó Pacheco, bom dia
EliminarLi "A FERRUGEM AMERICANA" e gostei.
Mas, na minha modesta opinião, Philipp Meyer, diferente muito diferente tanto de Cormac McCarthy como de Faulkner. "ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS" do Cormac foi do melhor que li até hoje, tal como "A ESTRADA" e "SUTTRY", mas estes dois últimos de leitura muito pesada e muito difícil, daquela que nos obriga a "bater com a cabeça nas paredes" -mas gostei-.
Do Faulkner não posso falar pois apenas li "A RECOMPENSA DO SOLDADO" e à página 100 larguei-o (e quando isto acontece raramente lhe dou uma 2ª. oportunidade).
Diria que Philipp Meyer terá mais a ver com (o excelente) John Steinbeck.
Viva lá Severino!
EliminarOra ainda bem que dizes uma coisa que já cá me andava a parecer, sim... a semelhança a Steinbeck!
Sabes, o Faulkner é um génio da palavra escrita. sem qualquer sombra de dúvida... mas muito difícil de ler pela forma como faz a teia e por vezes até parece nem fazer sentido... é assim como o Lobo Antunes... são para mim muito complicados de ler.
Abraço cá do Planalto Central!
acho piada à poesia do JLP. e acho que (ele) devia ter ficado por aí.
ResponderEliminarMas ó José Luís "O LIVRO" é um livro razoável!
EliminarUm bom escritor sem dúvida, como toda a gente que escreve muito atinge às vezes a excelência e outras não chega tão longe. Gosto dele desde o primeiro livro (morreste-me). Sei também que procura corresponder com muito carinho aos convites que lhe fazem e é sempre muito amável, escreve autógrafos com cuidado e respeito pelo leitor.
ResponderEliminar~CC~