Guerras de palavras

Deixei passar duas semanas desde o post «Parentescos» – e pode até parecer que quis pensar no assunto (o que não é inteiramente falso) mas, por acaso, não foi só isso. A verdade é que tive um problema com o meu computador profissional durante vários dias e, sempre que punha o endereço do Horas Extraordinárias, aparecia-me um post antigo e, quando a coisa se parecia ter resolvido, o post era o do dia, mas os comentários estavam escondidos. Só quando chegava a casa podia lê-los, mas nessa altura estava demasiado cansada para me meter ao barulho e sabia que provavelmente também os autores dos comentários já não regressariam ao blogue àquela hora. Mas fiquei a matutar em algumas coisas, achando que mereciam, apesar de tudo, uma achega. Então, aqui vai:


 



  1. Os concorrentes ao Prémio LeYa fazem-no sob pseudónimo. Abre-se apenas o envelope do premiado (depois de o júri decidir qual o original vencedor, vai buscar-se o envelope correspondente). A escolha é, portanto, cega. Basta, de resto, o número de escritores desconhecidos que o têm ganho para o comprovar. Depois de aberto o envelope, o presidente do júri, Manuel Alegre, telefona ao vencedor e dá-lhe a boa notícia. Suponho, embora nunca tenha assistido, que conversem ambos uns minutos e que desta conversa surjam elementos curiosos, engraçados ou mesmo dramáticos. A seguir é feita a divulgação oficial, com a presença da comunicação social, que faz perguntas aos jurados sobre a obra e sobre o vencedor. Os jurados respondem. (O tratamento dessa informação é da exclusiva responsabilidade de quem o veicula.) Posteriormente, é publicada a lista de obras finalistas (com o respectivo pseudónimo) no sítio da LeYa. Os finalistas normalmente acusam-se, até para saberem se o seu livro vai também ser publicado (nem sempre é). Todos os restantes originais e envelopes vão para o lixo (não muito depois, porque ocupam quase uma sala inteira e essa sala é precisa). Concordo que os livros vencedores devem valer pelo seu conteúdo, e não por qualquer circunstância relativa ao autor (refiro-me aos comentários sobre o «desempregado» ou «o trineto de Eça»), até porque, quando o júri os escolheu, não sabia se os seus vencedores estavam empregados nem de que família eram. Porém, se a informação veiculada sublinha pormenores irrelevantes, parece-me que é porque não pode falar do que importa – o livro – uma vez que este ainda não foi publicado.

  2. Quanto à minha condição de editora e aos meus autores, coisa que lançou muito azedume entre defensores e atacantes, quero explicar que nunca me achei uma editora de excelência (se o fosse, acertaria sempre – e falho muita vez); que tenho um enorme carinho pelos meus autores e admiro o seu talento, mas que há muitos escritores que não são «autores da Rosário» de que gosto e que considero tão ou mais talentosos do que os meus; que ser «autor da Rosário» é, segundo se leu nos comentários, um pau de dois bicos e, portanto, não necessariamente vantajoso (às vezes os autores que publico apanham por tabela); que, ao contrário do que aqui se escreveu, os meus autores também não são «os mais populares» (a grande maioria, pelo menos, embora alguns autores de quem publiquei os primeiros livros sejam hoje muito populares), até porque normalmente só se é popular ao fim de várias obras, prémios, distinções, etc.

  3. Quanto a este blogue, nunca o anunciei como literário (o prémio que me deram não é da minha responsabilidade e, antes de mim, foi ganho por outros blogues igualmente não literários; talvez seja o nome do prémio, enfim, o que está errado), mas um espaço para falar de livros e de coisas a eles ligadas (como a edição).Se falo mais dos livros que publico do que dos de outras editoras, é também porque as minhas horas extraordinárias são poucas para ler outras coisas além das do trabalho; mas basta ir ao arquivo para ver que já falei de muitos livros que não são da LeYa, omitindo apenas aqueles de que não gostei, porque me parece pouco ético falar mal de livros da concorrência e, por outro lado, o objectivo deste blogue é partilhar horas extraordinárias, e não horas más (aliás, também nunca refiro livros da LeYa de autores de que não gosto, só faço «publicidade» àquilo de que gosto).

  4. Por último: neste blogue há espaço para todos os que quiserem vir, gostem de mim ou não, mas não é preciso – diria eu – insultar ninguém nem perder as estribeiras. Nunca limpo os comentários contra mim, já aqui o escrevi uma vez, mas limpo os que considero demasiado ofensivos para algum comentador, e tive de eliminar um no post que gerou esta minha explicação, porque era mesmo reles.


 


Obrigada, em todo o caso, por me darem assunto para um post (nem sempre tenho ideias boas). E já me alonguei tanto que hoje me vou dispensar de responder a comentários. Até segunda e bom fim-de-semana.

Comentários


  1. Só posso aplaudir de pé. Mas há mais. Num recente encontro de escritores ouvi dizer da Rosário, a quem não conheço pessoalmente, que não é a melhor editora portuguesa: é a única. Fiquei curiosa, confesso. Um abraço e bom fim de semana.

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  2. Um bom post para encerrar a semana e para dar que pensar!

    Se por acaso me sentisse mal em relação à Nossa Extraordinária Anfitriã, ou a algum dos Extraordinários Comentadores, ou desconfortável com algum assunto exposto ou tratado, já teria abandonado este blog (único que frequento).
    Não o fiz, porque me sinto bem!

    Fui conhecendo, ganhando estima e consideração por tantos dos Extraordinários e até já me correspondendo com eles noutros locais.

    Agradeço profundamente a possibilidade que este blog e a sua Extraordinária Patroa me tem dado, enquanto desprezível traça literária que adora livros e ler e falar destas coisas, de poder receber tudo o que aqui venho colhendo, diariamente.

    Por isso me felicito pela existência do Blog, pela férrea vontade e resiliência da nossa Extraordinária Anfitriã e pelo serviço que presta à causa que nos une: a leitura!

    Para mim é um blog de leitura, reafirmo!

    Volto por isso a dobrar a cerviz à sua atitude e como não sou, nem serei certamente seu autor editado, até por não ser escritor, não pode isso ser tomado como bajulação ou tentativa de obter favor.

    Obrigado pela explicação e sobretudo pela preocupação em a dar.

    Saudações privilegiadas e honradas desde a Cidade Morena!

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  3. Vou-lhes contar uma coisa:

    Quando terminei a escrita de um pretensioso romance de fundo histórico em 1400 páginas A4, calhou saber que havia o Prémio Leya, que garantia a publicação do vencedor ou de algumas obras concorrentes e achadas capazes para tal...

    Entendi que seria uma forma de tentar a publicação - nunca me ocorreu vir a ganhar o prémio, mas confesso que sonhei despertar a atenção da editora...

    Com a minha habitual veia vencedora em tudo que meta premiações, salvo nas competições desportivas onde por mérito obtive algum destaque, pois não houve nesse ano vencedor!
    Não houve, por falta de qualidade das obras a concurso! Como foi bem expresso!
    Até aceitei, pois o romance vencedor no ano transacto, "O rastro do Jaguar", foi dos melhores livros que já li! Igualá-lo estava fora de questão, entendi eu.

    Ora, portanto essa falta de qualidade foi extensiva ao meu pobre e triste romance... coisa que tive de encaixar como outro malogros e desaires na vida encaixei, fossem eles cornadas, coices da minha .458 Magnum, pancadas do mar, temporais, falência,divórcio, desgostos, enganos, derrotas e desilusões várias, tantas e tamanhas!...

    Por isso declaro que não me sinto de modo algum ofendido ou traumatizado com o Prémio Leya, e, se invejo os vencedores é porque escrevem bem!

    Leio os romances editados pela Leya, com ou sem concurso como falo com a minha ex-mulher, como me levantei e fui de novo à cara, como refiz a minha vida, como fui visitar amigos à cadeia...

    É a vida! E é sobretudo estar vivo... ora se eu já morri por 3 vezes, quem sabe ainda para o que estou guardado, pois algo ou alguém decidiu por estas 3 vezes que não chegara a minha hora!
    As razões para isso... bom um dia as saberei ou talvez nunca, mas até podem ser tema para um livro, que venha a ganhar o Prémio Leya!

    Ahahah!

    Saudações fim-de-semanescas da Cidade Morena!

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    1. Critiquei-o por aplaudir alguns comentários acerca do texto "parentescos", mas, por uma questão de justiça e porque não deve ser apenas a irritação a mover-me, elogio-o hoje pela coragem de assumir as suas derrotas. Não é para todos. Acredite quando lhe digo que, embora não concorde com a maior parte das coisas que escreve (especialmente quando fala de política), leio-o sempre com prazer.

      Saudações fim-de-semanescas para si também.

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    2. Minha Senhora:

      - A vida, e a educação que recebi, ensinaram-me a apeitar e a aceitar os desaires... e a continuar.
      Creio que somos assim, nós os portugueses.
      Maldizentes sem dúvida, invejosos absolutamente, mas também generosos e solidários na desgraça.

      Entendo as suas palavras como um elogio que lhe agradeço e realço a honestidade de que dá provas.

      É por isso que considero um privilégio ter acesso a este blog e poder nele conviver com pessoas de elevado nível, mesmo que discordantes, o que é ainda mais Extraordinário e saudável!

      Receba os meus cumprimentos distinguidos e dominicais cá da Cidade Morena onde faz um calor de abrasar!

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  4. Gostaria apenas de dizer uma coisa em relação ao prémio Leya: prefiro o formato deste ano, em que o vencedor é anunciado em Outubro e publicado logo a seguir. Percebo que para a Leya é até melhor, porque aproveitam o Natal, mas sinceramente, prefiro assim a que o vencedor veja a publicação "congelada" até à Páscoa.

    Mantenham estes timings!

    Bom fds a todos,

    Rui Miguel Almeida

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  5. clap, clap, clap! (não sei a onomatopeia portuguesa para palmas...)

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  6. Aprecio bastante a boa disposição do Pacheco. É um amigo anti-stress.

    ABC

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  7. Totalmente de acordo! Agora há a moda de criticar prémios literários sem ter lido os livros. Que se diga mal se for necessário, e eu acredito que a função do blogger não é só dizer bem (embora perceba que a Maria do Rosário, pela sua posição, o prefira fazer), mas que se leia antes! Não vamos cair na armadilha de criticar a sociedade que valoriza a superficialidade e depois fazer o mesmo. A obra que fale por si.

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  8. Quem não se sente não é filho de boa gente.

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  9. E eis que neste silêncio em que me encontrava dou por mim a bater palmas.

    Resposta com muita graça e finesse.

    É por isto que venho aqui: para falar de livros e autores, tentando manter-me actualizado enquanto leitor. Nunca para lavar roupa suja e verbalizar o meu despeito que, existindo muitas vezes - porque sou humano e tenho defeitos - não é direccionado a quem tem talento e consegue materializá-lo.

    Um abraço a todos.

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  10. (quase que me apetecia comentar também com pontos...)

    venho aqui porque se fala de livros, de escritores, etc, ou seja, mesmo que não existissem prémios, este era e é um blogue de Literatura, quase sempre bem frequentado.

    até podemos discordar, sem que isso implique outra coisa, além do facto de termos direito à nossa opinião (mesmo que esteja errada).

    e eu gosto que este blogue seja de Literatura e de Liberdade, graças à Rosário e a todos nós que gostamos de fazer "horas extraordinárias" aqui.

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  11. Li hoje passagens do novo leya. QUe fraquinho...

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  12. É evidente que o júri não sabe nada do vencedor antes de abrir o envelope. Isso nem merece discussão.
    No entanto, na minha modesta opinião, não deveria ter sido veiculado o parentesco com o Eça. Foi uma coisa extemporânea.
    Vir a saber-se a posteriori teria sido mais benéfico para todos, inclusive (sobretudo?) para o vencedor. Não havia nechechidade, como diria o Diácono Remédios.
    Creio que o júri deveria repensar a forma de divulgação do vencedor, fazendo-o apenas através de um comunicado, bem pensado e onde se pesassem os prós e os contras do que se comunica.
    Por que não dizer apenas o nome do vencedor e os critérios que presidiram à escolha da obra?
    Até porque eu não sei se o autor quererá ver o seu anonimato ser de repente alterado, revelando pormenores nem sempre relevantes.
    Seja como for, referirem que era trineto do Eça, pareceu-me contraproducente.
    Mas isto é um provinciano a falar, claro.
    Aquele abraço beirão para todos os extraordinários e votos de um prodigioso fim de semana!

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  13. Muito sinceramente não percebo qual o problema da questão do parentesco. Tal como quando um actor é filho de actores esse facto é referido, se o rapaz é descendente do Eça, porque é que isso não haveria de ser referido? Eu, pelo contrário, acho que a Leya faz um papel óptimo na promoção dos vencedores. Talvez por conhecer os meandros do mundo da comunicação, parece-me óbvio que se a promoção não fosse feita desta forma seria mais um livro a morrer nas prateleiras sem ser comprado. Para isso basta ver outros prémios, onde só há o comunicado, e lá há 1 ou 2 pessoas mais atentas que vão comprar o livro, mas depressa se cai no esquecimento. Numa altura em que todas as semanas é anunciado um novo prémio, dizer "fulano ganhou" não basta! A comunicação para ser eficaz tem de ser diferente.

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  14. Já disse aqui que acredito na honestidade dos concursos. Mas, se imaginarmos que algum concurso literário premeei por qualquer outra razão que não a qualidade, pergunto quanto tempo se aguenta o autor premiado e com que cara fica o júri...

    Quanto à Rosário, que só conheço daqui, suponho que todos temos que lhe agradecer a divulgação que efectua, e a tarefa de um post por dia, coisa que não é tão fácil como possa pensar-se. E exige tempo, esse bem precioso que gastamos sem medida.

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  15. Claudia
    Nem a do alecrim e manjerona?

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  16. Como tenho andado ausente desta «casa», tive de recuar ao texto que deu início à polémica e aos comentários respetivos para perceber tudo isto. Estou atónita! Não seria preciso esta «achega», mas ainda bem que a fez. Duvido é que ela seja entendida por quem a mereceu. E é uma pena que não se fale aqui algumas vezes de livros menos bem conseguidos escritos por comentadores deste blogue, porque até os há. Inveja e mesquinhez a estragar este ambiente de partilha é que não pode ser. Continue o seu bom trabalho e, quanto ao resto, o tempo vai acabar por o varrer para a berma do caminho.
    Já encomendei o livro vencedor deste ano. Como quase sempre, pouco me interessa o escritor (ou os seus parentes). Mas confesso que fiquei fascinada com o seu sorriso e o ar tímido, tão pouco estrela, como aliás me pareceram também o «desempregado» João Ricardo Pedro e a «emigrante» Gabriela Ruivo Trindade.
    Quanto ao prémio, convém não esquecer que, se o livro for bom, vai vender lá fora também, e há os livros finalistas que também vendem.
    Apenas me resta desejar que o livro seja mesmo bom, sobretudo para me poder deliciar com a leitura de mais uma obra premiada pela LeYa.

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