Em desuso

Estamos, mais coisa menos coisa, a meio do mês – e prometi brindar-vos todos os meses com um post sobre palavras e expressões que estão a cair em desuso para que se sirvam delas e não as deixem morrer. Devo dizer que tive de suar as estopinhas para trazer aqui coisas que façam mesmo saudades (isto porque, no mês passado, uma leitora deste blogue que conheci no Museu do Fado disse-me que ainda usava todas as expressões que aqui postei – e era bastante jovem; Que topete!, diria a minha avó). Resolvi por causa das tosses cavar então mais fundo (apetecia-me dizer que tive de porfiar, mas se calhar ainda toda a gente usa este verbo). Assim, lembrei-me da palavra rajado (que quer dizer às riscas, conheciam esta?), de entanguido (tolhido de frio), de dadivoso (generoso), de sacripanta (sacrista também está a desaparecer) e de bonifrates (pessoa com um ar ridículo). Descobri também que os mais novos não têm ideia nenhuma do que é flostria (folgança), empáfia (soberba) ou frioleira (insignificância, mas também podia ser bagatela, outra palavrinha curiosamente esquecida das conversas) e que provavelmente já não vão dizer que comeram à tripa-forra, ou andaram de carro na bisga, ou fizeram uma coisa a trouxe-mouxe (de qualquer maneira). Em completa extinção está a expressão a sério, porque infelizmente já miúdos e graúdos dizem à séria, o que é um disparate pegado. E com esta me vou, para o mês que vem há mais.

Comentários

  1. Aqui atrasado, coisa de um mês, estava eu sossegado a fazer horas extraordinárias para escrever “O neo-realismo de novo”, que era por mor de, excepcionalmente, reutilizar palavras e expressões já sem uso no actual realismo.
    Durante coisa aí de uma hora choveu se deus a dava.
    Nisto, cada uma com seu alguidar de roupa à cabeça, calham-me aqui a Aurora, que ia a caminho do lavadouro, e a Maria, que vinha de lá.
    Elas, a ver se escairava , albergaram-se no telheiro aqui por baixo da minha janela, e práli ficaram no treco-lareco.
    – “É preciso dizer Maria em vez de dizer Aurora”(*), iam elas gargalhando e desse jeito fazendo tilintar o pechisbeque que traziam nas orelhas e ao pescoço.
    Mas isto é o vira do Minho, ou que raio é isto?!
    Lá se foi o meu sossego... Eu, que estava já apoquentado com o serviço, e aparecem-me agora estas...
    Debrucei-me na janela e gritei-lhes: – “É preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora”!! (*)
    Cuidando que eu estava a caçoar delas, deitaram as mãos às ancas e iam arrazoar; mas depois, trocando um olhar, lembraram-se do respeitinho que me é devido, e desta sorte botaram sorriso para me exclamarem em coro: – “Até que rima, carago!”
    Neste entretanto tinha escairado. De modos que botaram os alguidares à cabeça e abalaram, cada uma para seu lado, sem dizer água-vai. Excepcionalmente...

    O mais azado talvez fosse, da minha parte, falar-lhes de (*)Cesariny. Mas deixei-as ir na ignorância, não fossem elas julgar que eu estava a armar ao pingarelho, ou a mangar, ou assim.
    ... ... ...
    Nota: – Em calhando andarem aqui por perto de Amarante, recomendo que visitem o Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso, onde podem apreciar uma catita exposição temporária de pintura, desenhos e objectos de (*)Cesariny, a qual se intitula “É preciso dizer PARA SEMPRE em vez de dizer AGORA”.
    Mas vinde asinha, que termina já a 30 deste mês.

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    1. Oh! parabéns! escreveu um texto tão a modos que bom:)) e ainda por cima divulgou a exposição do Cesariny com um título assaz escorreito.

      Das expressões em desuso - e nem creio que no Alentejo desusem - só me estou a lembrar de regionalismos; peço desculpa Rosário por ser um bocadinho ao lado do que pretende ressuscitar. Eis um deles, "estar por cima das azinheiras".

      Já estou contigo por cima das azinheiras (tb ditas azenhêras que dão lenha de zinho)significa que me atazanaste tanto a paciência que já não te posso ver; estou contigo até aos cabelos; ou estou contigo pelos cabelos.

      E não fiquem a matutar que é coisa que não vos assucede na pessoa que é mim.

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    2. O JJ é levado da breca!

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  2. NA CRISTA DA ONDA -esta manhã ouvi o Dr. Júlio Machado Vaz referir que esta é uma expressão também em desuso (estará?)

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    1. Talvez não se use tanto mas as ondas ainda têm crista e ainda há os Mcnamara da vida. Apesar da grande tristura que assola o espírito português o qual já é triste de si mesmo e saudoso de não ter fim, quero crer que alguns estejam lá em cima, nos píncaros. Mas é um momentinho só, que as ondas são assim, enrolam-nos e de repente estamos de cara na areia, todos descompostinhos da silva.

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  3. ClaRo que sabem o que é uma bissetriz (não me desapontem).

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  4. Tenho uma talvez não irrelevante questão para a Maria do Rosário Pedreira: tendo em conta que algumas destas palavras desusadas podem criar problemas de leitura e por isso ser acusadas de 'difíceis,' o que actualmente ninguém quer que os livros sejam, porque vendem menos, que atitude tomaria perante um romancista que enchesse um romance com elas? Por outras palavras, se o jovem Aquilino Ribeiro lhe enviasse Terras do Demo, publicar-lho-ia?

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    1. Caro Miguel,

      Não querendo responder pela nossa anfitriã, inclino-me a julgar que ela publicaria o jovem Aquilino.

      Penso (mas não tenho a certeza) que foi a Maria do Rosário que publicou "O remorso de Baltazar Serapião", o meu livro preferido do Valter Hugo Mãe (na Quidnovi) e foi ela que publicou "A demanda de D. Fuas Bragatela"; que não me canso de elogiar, e que é do Paulo Moreiras.

      Recomendo-lhe os dois, caso não os tenha lido. Vai encontrar inúmeras palavras em desuso, o primeiro até é integralmente escrito num português arcaico.

      Cumprimentos,

      Rui Miguel Almeida

      PS: Joaquim Jordão, adorei o seu texto!

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    2. Publico todos os livros de Mário Cláudio - e está tudo dito!

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    3. Obrigado pelas recomendações; comecei a ler o de VHM, que tinha na minha pilha, logo a seguir. Discordo consigo, o português não tem nada de arcaico, pelo contrário, o vocabulário é corrente, mas a sintaxe é muito interessante, nota-se-lhe um esforço para induzir estranheza. Gosto desse efeito.

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    4. Obrigado pela resposta. Nunca li Mário Cláudio, mas parto do princípio que escreve com um vocabulário rico. Há um livro dele recente, sobre pintores, que me deixou curioso. Tentarei obtê-lo em breve.

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  5. Andar na bisga fez-me lembrar uma pessoa que, como expressão semelhante, usava uma das seguintes, todas começadas por g: ir na gasosa, ir na gáspea, ir na gazua, ir na gazela.

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  6. Pois eu cá... tive um dia de cão!
    Vi-me à brocha, diria que me vi negro para cá chegar!
    Tudo começou por monde de ir carregar um semeador de linhas que me emprestaram, guardado na fazenda Utalala, a uns 150 km daqui, 50 dos quais por uma serventia em mau estado, na linde do Chongorói com o Cubal e depois de passar o Coporolo a vau!
    Ligou-me bem cedo pelas 6 horas o motorista do camião, vindo do Huambo, a garantir que estaria em Catengue pelas 10 horas... vinha numa Canter azul que afinal era um Hanomag branca, e atribuí a possível daltonismo e dislexia esta troca, porém aparecer só às 13 é que já não sei a que se deva, ou melhor, sei mas não digo... moita, carrasco!
    Nanja eu! Olá...
    Linda fazenda... com aqueduto e casinhas semi-destruídas que devem ter sido um encanto.
    Lá carregámos a alfaia, e tocámos de regresso, abrazando antes que caísse um daqueles gravaneiros comuns na presente época que encheria o rio, enlamearia ainda mais a pista e quiçá, nos impediria a passagem!
    Fazia um calor de matar gente e páginas tantas, zacatrás-trás-pás! Um barulhão do mais suspeitoso debaixo do meu carro... que deixou da andar... a cruzeta (cardan) do veio de transmissão obliterada pura e simplesmente! Nada a fazer... e quanto a rede para comunicar, népias!
    Bom, no camião que me seguia vinham apinhados o escanifobético motorista com pinta de apanhado do clima; um ajudante papa-açorda mas de tão escanzelado a cair da boca aos cães, e, uma gorda desgadelhada com ar esgrouviado a quem não logrei utilidade ou usança além de chupar mangas de que se foi locupletando durante as operações de carga e com que enchera além do papo um bojudo saco... Pior, a lambuzice das mangas rebrilhava não só na pele e roupa da avantajada companheira de viagem, como nos bancos e tabliê, de permeio com outras nódoas de origem indefinida mas do mais suspeito, mesmo para alguém encalacrado como era o meu caso... Ir cá fora a levar com a poeira e lama do lavarinto que o camião fazia também não me agradou... Bonde, a calhou passar uma carripana, verdadeiro chaço desconjuntado, a esbarrondar-se toda com buracos no chão por onde se ia vendo o caminho, cujo condutor parou a cuscar o que se dera e anuiu em levar-me, por 500 Kwanzas, até à estrada já perto do Chongorói, onde poderia apanhar machibombo ou candongueiro para Benguela, como sucedeu!
    E lá vim que nem sardinha, amarfanhado numa carrinha Hiace apinhada de professores a queixarem-se dos concursos, baixo salário, falta de condições, das dificuldades na progressão de carreira e efectivação, dos alunos... bem, quanto a isto nada de novo! Custou-me 500 Akz, ou seja fui esfolado pelo anterior benemérito!
    Enfim, lá saltei em terra já às portas da cidade morena, alagado em água, com dores nas cruzes e na cachola, mas vivo... depois apanhei uma mota para o escritório e cheguei à pouco a casa...

    Ufa, como soe dizer-se, se bem que arriscando um termo já em desuso...

    Saudações ancilosadas e apesar de tudo divertidas, desde a Cidade Morena!

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    1. Grande António. Grande texto cheio de vida.

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    2. Ufa, que prosa... Parabéns, António. Mas sabe uma coisa? Os seus textos tiram-me o fôlego. Leio-os sempre mais depressa do que leio os outros. Curioso... E não é pela pressa de chegar ao fim, até porque, quando lá chego, volto atrás e consolo-me outra vez.
      Gostei muito das horas deste dia. A começar pela Rosário, passando pelo Joaquim e terminando, em beleza, por si.

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  7. Fiquei esbaforido, Extraordinário Pacheco. E é a 2.ª vez que me acontece por essas bandas. Na outra foi entre Catumbela e o Lobito, há uma largueza de anos, por ter pedalado entusiástica e desregradamente após ter comprado uma bicla de corrida perto do porto.
    Saudações olissiponenses .

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  8. a trouxe-mouxe, mas uma das da Senhora Minha Mãe...

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  9. Esmerou-se :) Obrigada por esta partilha sempre rica, porque mesmo quando as palavras são nossas conhecidas nem sempre estão a uso. E há algumas tão divertidas que não podem mesmo cair no esquecimento.

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