A várias mãos

No tempo do surrealismo, inventou-se em França uma espécie de jogo literário que, apesar da tradução defeituosa (exquis quer dizer de sabor refinado, requintado, e não esquisito), ficou conhecido entre nós como «cadáver esquisito». Um poeta escrevia um verso numa folha de papel, dobrava-a, escondendo o texto, e passava a outro, que fazia o mesmo; no fim, tinham um poema colectivo (e certamente surrealista). Por cá, tivemos experiências baseadas neste princípio do texto a várias mãos, mas com o texto à vista, e lembro-me por exemplo de Alice Vieira, João Aguiar, Leonor Xavier e Rosa Lobato Faria terem participado num livro intitulado Treze Gotas ao Deitar (não me recordo dos outros autores) que, na verdade, era uma só história com cada capítulo escrito por seu autor. Mas parece que agora quinze escritores internacionais de renome foram desafiados a, e aceitaram, brincar ao cadáver esquisito, escrevendo uma pequena história comum. Entre eles encontramos autores mais literários, como Zadie Smith (conhecida sobretudo por Dentes Brancos ou Uma Questão de Beleza) ou Nicholson Baker (um escritor muitíssimo «fora do baralho» que escreveu, entre outros, um livro muito original cuja acção decorre enquanto um pai dá um biberão à filha, Room Temperature) e autores de ficção mais comercial, como David Baldacci (um inventor de thrillers) ou R. L. Stine (o popular criador da série juvenil Rua do Medo, não sei se se recordam, que entrou para o Guinness por ter vendido mais de 400 milhões de exemplares de obras suas). Não consigo imaginar o resultado que isto vai dar, mas tinha alguma piada fazer uma coisa parecida com portugueses que estivessem para aí virados.

Comentários

  1. E em Portugal há outros exemplos, como "os novos mistérios de Sintra" que adorei ler e tem também a participação da Alice vieira. Os policiais escritos a várias maos ficam bastante engraçados, com ou sem cadáveres. Bem...a verdade consiste no facto de sermos todos, sem excepção, cadáveres adiados. Razão pela qual o medo parece sempre absurdo. Pelo menos a mim parece-me. Uma excelente semana. Sem medos e com boas leituras. :-)

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  2. A tradução de "cadavre exquis"por "cadáver esquisito" está óptima. As palavras têm várias acepções e, também em português, 'esquisito' significa 'delicado, requintado, elegante, primoroso'. Pouca gente saberá disso hoje em dia... Mas no tempo em que a expressão foi criada essa acepção era muito mais presente. O meu pai ainda diz "esquisito" no sentido de "requintado".

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  3. Julgo que Duas Águas, Um Rio, escrito a meias entre Ramos Rosa e Casimiro de Brito caia nesta classificação.

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  4. "O Código d'Avintes", do mesmo grupo dos Novos Mistérios da Estrada de Sintra", é uma delícia.

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    Respostas
    1. Aliás, creio poder dizer-se que, com “O Mistério da Estrada de Sintra”, Eça e Ramalho terão sido pioneiros nesta sedutora e divertida arte de escrever a várias mãos.

      Voltando agora ao “Código d’Avintes” – pois não é que justamente hoje foi anunciada a publicação de um livro baseado no estudo de um manuscrito com cerca de 1.500 anos, que estava na British Library, e no qual é confirmado que Jesus foi casado com Maria Madalena, que tiveram dois filhos, etc...?!
      Pois bem: está na hora de convidar os autores desse livro (creio que são canadianos) a virem fazer o lançamento em Avintes, ora essa!!
      E, já agora, que tragam também o Dan Brown, que lhes fica em caminho.

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