Passarinhar

Como há uns tempos os Extraordinários se divertiram com um texto que aqui publiquei sobre «vegetarianismo linguístico», resolvi voltar à carga e dizer que, para evitar os males da carne vermelha, sempre podemos recorrer às aves e fazer, na mesma, um brilharete lexical. Senão, vejamos: No galinheiro de um estádio de futebol, pode ser triste um adepto ver perder a sua equipa por causa de um frango – é, na verdade, um galo se isso acontecer e até o pode deixar com pele de galinha; pior ainda é se, à saída, está a chover e chega a casa um pinto. Se assim for, mais vale à mulher, que é uma gralha, calar o bico (antes que ele lhe corte o pio), comer como um pisco e a correr a sopa a ferver (o que vale é que tem goela de pato) e ir deitar-se com as galinhas para evitar discussões (já tem penas que cheguem). O seu vizinho, um pato-bravo da habitação clandestina, casado com uma perua de nariz aquilino com a mania das grandezas, queria multiplicar a fortuna, acreditou na galinha dos ovos de ouro (foi um pato), contou com o ovo no cu da galinha, mas o negócio trazia água no bico e, afinal, acabou depenado (mais valia um pássaro na mão, disse-lhe a mãe, uma pata-choca com pés de galinha debaixo dos olhos). Por sua vez, o sobrinho, um borracho que tinha o hábito de se pavonear por aí, verdadeiro galifão, pôs-se a galar a pombinha do andar de cima, que era o patinho-feio do prédio, papagueou-lhe uns poemas de amor, ela derreteu-se, caiu que nem um patinho, mostrou-lhe a passarinha (no Norte seria o pito) e agora vem aí a cegonha – e tomara que a rapariga seja uma mãe-coruja, porque o rapaz é um galo doido, capaz de a trocar por uma pega à primeira oportunidade (estes galarotes deviam era morrer como tordos, comentou a mãe da desonrada). Gostaram? Estou a tornar-me uma ave rara, mas escarafunchar nos dicionários é ou é não o ovo de Colombo?

Comentários

  1. Saboroso aviário de palavras.

    ABC

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  2. Ah mas disse-me um passarinho que se a equipa dele ganhar, chega a casa inchado que nem um perú e até os cacarejos da mulher lhe parecem o mais belo trinado.
    ;-)
    Antonieta

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  3. Houvesse mais decência na capoeira das palavras e outro galo cantaria...

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  4. "pilha-galinhas". "grande melro". " inchado como um perú"."mãe galinha" "armado aos cucos". "passareta". "penugem no entre pernas" "fera de bico amarelo". " cair que nem um tordo"."A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha". "grão a grão enche a galinha o papo"."cortar as asas"."Gaivotas em terra tempestade no mar". "omeletes sem ovos"."dormir com as galinhas".
    ... Não tem fim!
    Termino com a grande questão filosófica: " Quem apareceu primeiro? O Ovo ou a Galinha?"
    ...
    Dou um alvitre para uma nova incursão neste lado das palavras... Alcunhas.

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  5. Como uma andorinha não faz a primavera, à semelhança da 1a experiência vai haver desenvolvimento. Ou não fossem cá uns passarocos alguns dos Extraordinários.
    O 1o capítulo foi A Horta, o 2o O Aviário, o 3o já foi alvitrado como As Alcunhas, mas poderíamos manter-nos nos reinos vegetal e animal e avançar com O Jardim, O Zoo.
    Palpita-me que o Extraordinário Pacheco nos trará achegas, não espantemos a caça.

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  6. Já que estamos numa de linguagem do Norte, cá vai uma anedota do Nuorte:

    Uma Mulher de Bigode (daquelas que ninguém f...) vai ao médico.
    - Ai, Sótor... Dói-me o peito.
    - Tome esta receita... De certeza que tudo ficará resolvido.

    Segunda Consulta.

    - Ai, Sótor... Dói-me o peito.
    - A outra receita não funcionou? Tome esta receita... De certeza que tudo ficará resolvido.

    Terceira consulta.

    - Ai, Sótor... Dói-me o peito.
    - Mmm... Minha senhora diga "Cabrito", por favor.
    - "Cabreito", Sótor.

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  7. Claudia sem o tomazi (ficou a asa)9 de outubro de 2014 às 03:48

    Retorno: Sô dotor ? Curiosa burrice.

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  8. Adorei, de novo. E creio que já posso começar a "cantar de galo". É que, tendo "acordado com as galinhas", constatei que tinha as orelhas vermelhas. Decerto alguém de mim se recorda, decerto por me achar digna de ser "dona da capoeira".

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  9. Um texto delicioso!
    Devia ser dado nas salas de aula, tal como o do «vegetarianismo linguístico».
    A nossa língua é um património extraordinário.

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  10. António Luiz Pacheco9 de outubro de 2014 às 06:32

    Ahahah!

    Extraordinário... pois é o que tenho para dizer!

    Realmente estas expressões todas são uma delícia linguística...

    Aqui no Ribatejo e no Alentejo, quando alguém está com o "grão na asa" por ter bebido um copo a mais e apresenta aqueles típicos olhos pequenos e vermelhos, diz-se que está com olhos de milheirinha (um passareco fringilídeo também conhecido por chamariz) ou com olho de perdiz cantadeira...

    Também se usam para expressar satisfação, felicidade ou bem-estar expressões como: "Parece uma felosa nos figos" ou "está que nem perdigão na seara".



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  11. Está genial, Maria do Rosário...hahahahahahhaha

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  12. Boa noite,
    aqui vão uns ditados populares que versam sobre o tema.
    Ao afortunado, até os galos põem ovos.
    Cada passarinho gosta do seu ninho.
    Aves da mesma pena andam juntas.
    Dos Santos ao Natal, vai um salto de pardal.
    Em casa do Gonçalo, mais manda a galinha que o galo.
    Galinha de campo, não quer capoeira.
    Quando um pobre come galinha, um dos dois está doente: ou o pobre ou a galinha.
    Se as andorinhas partirem em outubro, seca tudo.
    Os adágios populares são pérolas de sabedoria.
    Fernanda

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  13. Acordei com os passarinhos e só agora li este texto de encantar. Não é este elogio um arrastar de asa à estimada Rosário, acreditem.
    Para quem o lê, parece canja, mas não é, não. Saiu da pena de quem sabe ...

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