O da Joana
O da Joana é um pequeno livro de Valério Romão, autor que é considerado pela crítica um dos mais promissores ficcionistas da actualidade e esteve presente já por duas vezes na revista Granta com textos de sua autoria. Mas a expressão «o da Joana» ou «Isto não é o da Joana» é, segundo leio recentemente na Revista do Expresso, uma expressão bastante antiga, normalmente aplicada a um lugar terrivelmente desarrumado ou a um comportamento desajustado ou, por assim dizer, indecoroso. Pois parece que a dita expressão está ligada a Joana de Nápoles (Joana I, condessa da Provença) que, acusada de conspiração com vista à morte do marido, se terá refugiado depois em Avignon, cidade papal, no século XIV. Aí terá aprovado um decreto que regulamentava os bordéis, do qual fazia parte a colocação de uma porta bem visível por onde todos pudessem entrar e sair (e deviam entrar e sair muitos, gerando confusão). Esses bordéis ficaram então conhecidos como «paços da mãe Joana», dando mais tarde origem a «casas da Joana», ou simplesmente, «os da Joana» e, por isso, apesar de se ter perdido a conotação sexual, não se perdeu a de sítio onde há confusão e mau-comportamento. Para que saibam, o livro de Valério Romão nada tem que ver com esta história – embora aproveite a graça da expressão – mas com uma Joana grávida a quem acontece um terrível percalço. É o segundo volume da trilogia «Paternidades Falhadas», iniciada com Autismo, muito aplaudido pelos críticos.
No Alentejo usa-se muito a expressão " da " ou "de" no sentido de indicar posse:
ResponderEliminarPor exemplo: " da Joana" significaria que aquilo que se fala pertence à dita... ou indo-se a casa ou à loja, ou terra dela dir-se-ia: "Vou à da Joana", em vez de "vou a casa da Joana", ou "vou ter com a Joana", ou "vou ver a Joana".
No fundo creio que é o que pretende dizer o título, que se vai falar ou tratar dos assuntos da Joana.
De onde é natural o autor referido? Só por curiosidade...
Saudações curiosas da Cidade Morena.
O autor tem ainda um pequeno livro de contos intitulado "Facas", também excelente. Os três livros são muito intensos e duros. Mas todos belíssimos!
ResponderEliminarFacas na cidade! Livro de contos...
ResponderEliminarJá sei quem é... nasceu em França, mas pelo nome pensei que fosse do alentejo... e se calhar a família é.
Mal comparado, fez-me lembrar ontem o Jorge Jesus depois da derrota do Benfica em Braga, quando aplicou a palavra fezes-as em vez de fê-las, (e que tem sido imensamente "glosado"); é que fezes é uma palavra que se usa muito (pelo menos no Alentejo) para expor situações de preocupação, situações de aperto. Deste modo, JJ aplicou (sem querer) uma palavra que se encaixava perfeitamente no contexto (derrota da sua equipa).
ResponderEliminarRegionalismo de "pinta" lisboeta...
EliminarVêze-as? Fizésteze-as pága-zas...
Ahahah!
Faz-me lembrar o outro:
Dê-me dois pões, faz favor!
Não é pões é pães!
Ora... são opiniães...
Não se diz opiniães e sim opiniões!
Ora tá a ver? Dê-me lá mazé os dois pões!
Eheheh!
Saudações opinativas cá da Cidade Morena!
O Benfica perdeu???
EliminarQue boa notícia, obrigada, ainda não sabia!
Gosto de (feliz(es) coincidência).
ResponderEliminarE, quem não gosta?
Curioso, tenho ouvido falar muito bem de Valério Romão e já encomendei "Autismo". Com este post fiquei ainda com mais vontade de descobrir este autor.
ResponderEliminarUma boa semana,
Rui Miguel Almeida
O conto “À medida que fomos recuperando a mãe” é uma verdadeira obra-prima. É o tal que foi publicado na Granta original inglesa e também na portuguesa. É uma história horrenda de uma família despedaçada pela perda da figura central – a mãe – e o modo como essa perda vai sendo, muito doentiamente, compensada até que a família atinge um equilíbrio patológico. O modo como é descrita esta dinâmica familiar pelo Valério Romão é prodigioso. À medida que vamos lendo o conto, intuímos, mas não queremos aceitar, o caminho terrível que aquela família vai percorrer para que consiga a sobrevivência. Uma joia sobre o luto, a perda, a família disfuncional e as suas compensações patológicas. Para além do seu incrível valor literário, este conto devia servir como peça-chave em cursos de psicopatologia familiar. Já o “Autismo” não me deslumbrou da mesma maneira.
ResponderEliminarAtenção que não vou adjectivar e menos avaliar!
ResponderEliminarEste escritor, pelos temas quase obsessivos sobre que recai a sua escrita deve ter sido marcado pela tragédia... ou então há ali uma tendência qualquer, para a desgraça familiar, a que eu por vezes me refiro como produzindo a tal escrita negra, deprimida e deprimente.
É um género literário, com os seus cultores e apreciadores. Digo isto sem ofensas nem desprezo... estou apenas a constatar.
Não faz o meu género, independentemente de escrever muito bem.
Saudações luminosas da Cidade Morena.
Atenção que não vou adjectivar e menos avaliar!
ResponderEliminarEste escritor, pelos temas quase obsessivos sobre que recai a sua escrita deve ter sido marcado pela tragédia... ou então há ali uma tendência qualquer, para a desgraça familiar, a que eu por vezes me refiro como produzindo a tal escrita negra, deprimida e deprimente.
É um género literário, com os seus cultores e apreciadores. Digo isto sem ofensas nem desprezo... estou apenas a constatar.
Não faz o meu género, independentemente de escrever muito bem.
Saudações luminosas da Cidade Morena.
Li ambos, são de uma crueza brutal. Bem escritos, tristes, mas reais.
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