Envenenados

Muitos dos autores de ficção que publiquei ao longo da vida eram também poetas. Alguns, aliás, já eram poetas antes de se terem tornado ficcionistas (José Luís Peixoto e valter hugo mãe, por exemplo). Diz a crítica que é difícil jogar nos dois lados com o mesmo nível – e talvez por isso uma das artes impere sobre a outra, fazendo com que determinado autor seja sempre conhecido ou como poeta ou como prosador (Saramago foi um romancista de excepção, mas a sua poesia não é muito difundida). Em todo o caso, não convém generalizar: acabo de ler O Uso dos Venenos, uma colectânea de poesia de José Carlos Barros, e não a acho nem superior nem inferior ao romance que dele publiquei no ano passado – Um Amigo para o Inverno – que foi finalista do Prémio LeYa em 2012. Vejo entre os dois livros pontos de contacto inequívocos, uma ligação às origens, à ruralidade, à memória. Até alguns objectos e palavras se cruzam nos dois volumes. Pedro Mexia, numa crítica ao poemário, fala de uma reunião de textos «com uma tonalidade humanista e melancólica que não teme o poético». Um exemplo, para que fiquem a conhecer melhor:


 


Ruína


 


Guardava a casa, o lume intemporal, como outros


guardam uma língua ou escondem da usura


alguns aspectos de uma biografia. Guardava a casa


como se não houvesse mundo além da escaleira


 


ou ao mundo não fosse dado entrar atravessando


a porta. É difícil compreender agora que a ruína


possa começar assim pelo lado de dentro, do interior


dos objectos que se chegou a supor imperecíveis.

Comentários

  1. Gostei do romance Um Amigo para o Inverno.
    Raramente leio poesia (não sou perfeito). O meu cérebro é totalmente narrativo.

    ABC

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    1. António Luiz Pacheco22 de outubro de 2014 às 03:32

      Interessante a sua justificação!

      Eu raramente leio poesia... na verdade não sou apreciador do género, só não sei porquê!
      No entanto intriga-me e questiono-me... pois presumo-me de ter gosto estético e artístico!
      Sei perfeitamente porque não gosto de certos quadros ou peças musicais, de esculturas ou textos... mas a poesia continua a ser para mim um mistério!

      Gosto de alguns poemas, sim... por exemplo li a lírica Camoniana, e toda a obra de António Gedeão e boa parte da de Pessoa pois considero ambos algo mais do que poetas, muito mais... logo as suas obras não as leio como poesia e sim como filosofia, ou discorrer...
      Conheço algumas obras de poesia de que gosto, uns porque me foram apresentados no liceu e outros que fui descobrindo ao calhar, tropeçando neles e alguns até sendo surpresa ou inesperados, gosto pontualmente de um Botto aqui, um Cesário ali, uma Tomazi acolá, um Sena... bastantes de Régio, etc.

      Continuo a interrogar-me porque é que não gosto de poesia, ou melhor não me interessa... será pela narrativa? Pela abstração? Pela incompreensão ou falta de sensibilidade?

      Este poema que a Nossa Extraordinária Anfitriã aqui trouxe é o exemplo exemplar que exemplifica aquilo que nem aprecio, nem me parece ser poesia... e assumo a minha incapacidade!

      Quando li a sua "justificação". de ser demasiado narrativo, fez-se-me assim uma luz... será?

      Daí lhe pedir que esmiúce um pouco a coisa... e creio que tem tudo a ver com o tema de hoje, como com o espírito Extraordinário destas Horas, que são dedicadas à leitura, sendo que aqui venho também para me cultivar e aprender...

      No seu livro sobre o Buçaco, inclui a poesia... claro e como não, aliás bela. Portanto não lhe será totalmente indiferente.

      Se se quiser dar ao trabalho de me esclarecer, agradeço desde já!!!!

      Saudações poético-descritivas da Cidade Morena!

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    2. Ah ah ah. Isto fez-me lembrar uma grande amiga minha, que adora lasagnas, tostas mistas, pizzas, massas cheias de queijo, tiramisu, mas mantém que não gosta de queijo. Caríssimo António Luiz Pacheco, se gosta de uns do Pessoa, Régio, Sena, Camões, Botto, etc, então é definitivo, gosta de poesia. Se eu tivesse oportunidade mandava para a Baía dos Elefantes um livrinho de Nazim Hikmet. Aposto que ia apreciar. Abraço. G.

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    3. António Luiz Pacheco22 de outubro de 2014 às 04:05

      Podia mandar sim... que eu ia gostar!

      E como o entendo perfeitamente e à sua saudade... lá está uma poesia com sentido, que faz sentido e se compreende exactamente:

      Nesta hora tardia
      de uma noite de outono
      estou repleto de suas palavras;
      palavras que são eternas como o tempo e a matéria,
      nuas como o olho,
      pesadas como a mão,
      e brilhantes como as estrelas.

      Os turcos serão como nós, Mediterrânicos, melancólicos, sonhadores, poetas e fatalistas, saudosistas!

      Um abraço melancólico da Cidade Morena

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  2. Bom dia a todos. Tem pouco a ver com o tema de hoje, mas gostava de saber se a nossa extraordinária anfitriã tem a sua poesia traduzida em italiano. Obrigado

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    1. Obrigada pelo interesse. Tenho um livro todo traduzido (A Casa e o Cheiro dos Livros) e muitos poemas de outros livros traduzidos em revistas literárias. Dois organizadores de antologias em Itália pediram-me poemas para as integrar há pouco tempo, por isso terei ainda mais. Se quiser, deixe o seu contacto de e-mail.

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  3. Eu leio poesia diariamente, ou quase, e o que procuro nela são coisas tão concretas quanto possam ser o lume intemporal, ou objetos supostamente imperecíveis. Assim sendo, gostei muito do poema transcrito.

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  4. Cá para mim, a diferença não é entre poesia e narrativa, mas entre poesia e prosa.

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    1. Maria Almira, concordo com o que diz. Contudo, no contexto da minha asserção, não posso escrever "o meu cérebro é totalmente prosaico". Ainda não chegou a esse estado.

      ABC

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    2. Talvez: o meu cérebro escreve em prosa...

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  5. RARAMENTE LEIO POESIA. O MEU CÉREBRO É TOTALMENTE NARRATIVO

    Pede-me o amigo Pacheco para explicitar esta minha afirmação. Não percebi a sua dúvida, por isso vou fazer um exercício de interpretação da leitura que fez das minhas palavras.

    Pensou o ALP, de pé atrás: «Conheço o ABC “escritor”, é bem capaz de escrever uma coisa e dizer outra. Ele, de facto, raramente lê poesia, porque a maior parte do que lê é tudo menos poesia. Por outro lado, o que o seu cérebro lê em muitos poemas é narrativa com laivos poéticos, não descortina neles a tradicional poesia ou um corpus verdadeiramente poético.»

    Amigo Pacheco, lamento desiludi-lo: desta vez escrevi com a maior inocência.
    Raramente leio poesia porque só tenho uma vida e prefiro enchê-la com narrativa, que é o género literário que encaixa na minha estrutura mental e que me dá bastante prazer. O que não quer dizer que não seja capaz de ler poesia e de analisar um poema como quem desmonta e reconstrói um relógio.

    Para terminar, brindo-o com um “poema” que acabei de elaborar, contrariando assim a boa disposição narrativa do meu cérebro:

    Eu não amo a poesia.
    Eu amo as palavras
    porque antes de serem poema
    eram cintilações de cristal
    que eu via.

    ABC

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    1. António Luiz Pacheco22 de outubro de 2014 às 05:30

      Mas não me desiludiu mesmo nada!!!!

      Muito pelo contrário, pois me explicou clara e perfeitamente o seu pensamento, aliás que foi o que me pareceu, e atrevo-me a dizer que com o qual me identifico!

      Gostei muito da sua explicação e do remate, pois de facto é do que gostamos das palavras!

      Vale sempre a pena vir aqui, remato eu!

      Um abraço palavroso e esclarecido, desde a Cidade Morena!

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  6. Cá para mim, não há nenhuma relação hierárquica entre a poesia e a prosa.

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  7. eu gosto das duas.

    leio poesia e prosa.

    escrevo prosa e poesia.

    claro que a prosa acontece de uma forma mais natural.

    e também leio mais prosa (adoro ler romances - já ensaios, nem por isso, mas tem de ser...).

    ou seja, não acho que exista qualquer incompatibilidade. quem escreve não gosta de prisões (por isso é que também pode escrever teatro ou ensaios...). claro que há um género que é a sua "pele".

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  8. António Luiz Pacheco22 de outubro de 2014 às 05:48

    Realmente... talvez do que goste é das palavras!

    Quem não gosta de frases bonitas, bem elaboradas, com arte e saber, para transmitir imagens ou pensamentos, ideias e ideais?

    Mas isso não é apanágio da poesia... há prosa lindíssima, ou poética, portanto!

    Para mim a poesia não será portanto o compor de uma frase com palavras apenas bonitas, têm de encaixar naquilo que é o meu conceito de poesia, que deve ter uma forma e um sentido. Talvez seja errado, talvez limitado, mas é a forma como a sinto, concluo.

    Saudações satisfeitas , da Cidade Morena

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  9. I giusti

    Un uomo che coltiva il suo giardino, come voleva
    Voltaire.
    Chi è contento che sulla terra esista la musica.
    Chi scopre con piacere una etimologia.
    Due impiegati che in un caffè del Sud giocano
    in silenzio agli scacchi.
    Il ceramista che intuisce un colore e una forma.
    Il tipografo che compone bene questa pagina
    che forse non gli piace.
    Una donna e un uomo che leggono
    le terzine finali di un certo canto.
    Chi accarezza un animale addormentato.
    Chi giustifica o vuole giustificare un male
    che gli hanno fatto.
    Chi è contento che sulla terra ci sia Stevenson.
    Chi preferisce che abbiano ragione gli altri.
    Tali persone, che si ignorano,
    stanno salvando il mondo

    Jorge Luis Borges

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  10. Porque não assim:
    “Guardava a casa, o lume intemporal, como outros guardam uma língua ou escondem da usura alguns aspectos de uma biografia. Guardava a casa como se não houvesse mundo além da escaleira ou ao mundo não fosse dado entrar atravessando a porta. É difícil compreender agora que a ruína possa começar assim pelo lado de dentro, do interior dos objectos que se chegou a supor imperecíveis.”

    Trata-se de um pensamento poético, não de uma poesia.

    A prova dos nove do que é (ou não) poesia faz-se do seguinte modo: retira-se o arranjo do texto em estrofes e vê-se o resultado. Se essa ação não comprometer a beleza do texto, então não é poesia. É prosa poética.

    Façam o mesmo exercício com Camões ou Pessoa. Aí a eliminação do arranjo poético fere a leitura do texto e o prazer que dessa leitura retiramos.

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    1. António Luiz Pacheco22 de outubro de 2014 às 10:36

      Ora aí está... grande e Extraordinário Artur!
      Agradeço ainda mais esta lição!

      Um abraço métrico cá da Cidade Morena!

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    2. Abraço também para si, Extraordinário Pacheco que tanto nos ensina, nos sugere e nos ilumina todos os dias !

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    3. Em Camões, em regra, o verso vai até às dez silabas -- a que acresce a acentuação na segunda, na sexta e na décima sílabas. Há ainda a questão da rima... Ora, obviamente, estendendo os versos até à margem da página -- nota-se logo que algo está errado. Isso não acontece aqui, em que não há métrica nem rima. Mas é óbvio que ao estendê-lo, como fez, o poema perdeu a suspensão que existia nas duas quadras de origem; perdeu o sobressalto, perdeu em ritmo, perdeu equilíbrio. Penso que "atravessando/ a porta" é completamente diferente de "atravessando a porta". Mas isto sou eu a dizer... Obrigado, abraço. JCB

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  11. De facto (faz) sentido Saramago ser mais conhecido fora de Portugal, dir-se-ía a velha máxima: santo da casa lavado no vinagre...

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    1. António Luiz Pacheco22 de outubro de 2014 às 10:39

      Olá Extraordinária Cláudia:

      Dizemos por cá, que Santos de casa não fazem milagres, o sentido será o mesmo... mas parece-me mais claro. Essa expressão de lavados no vinagre nunca tinha ouvido!

      Saudações balsâmicas mas não avinagradas desde a Cidade Morena.

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  12. Ó Pacheco, ó Extraordinário Pacheco, não me venha dizer que não gosta de Poesia. Não acredito. Sei que gosta, e muito. Dou-lhe alguns exemplos:

    Há poesia no sorriso de uma criança, na lágrima caída de um olho já cansado e velho; há poesia no alvorecer e em uma noite branca de luar. Também a vejo em um campo de flores bravias ou em uma duna "perdida" no deserto.
    Há poesia (e muita) nessas suas Praia Morena e Baía Farta.
    Há Poesia na Vida. A Vida é uma Poesia, ainda que, por vezes, seja desritmada e "desrimada", cruel e tormentosa.

    Bem espero que a sua Vida-Poesia seja alegre e feliz, sempre.

    Ó Pacheco, concorda?

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    1. António Luiz Pacheco23 de outubro de 2014 às 03:46

      Tenho que concordar ó Extraordinário e Poético anónimo... rendo-me à beleza dos argumentos esgrimidos!

      Porque realmente, sem poesia como seria a vida?

      Saudações rendidas, da Cidade Morena!

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    2. :)

      (Falando para meus botões: o Pacheco é um Extraordinário Poeta!)

      :)

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