Em desuso

Hoje é dia de falar de palavras e expressões que os nossos jovens provavelmente já não usam e que é importante que apareçam de vez em quando em textos e conversas, para que não morram. Um dia destes, por exemplo, a minha mãe contou-me que tinha ido de escantilhão ao supermercado e que estava cansada porque andara toda a semana numa fona (note-se, tem 90 anos, mas ainda não está a cair da tripeça). Como a arenga não parecia terminar, achei por bem pôr-me na alheta. Há pessoas muito mais novas do que ela que são um pelém (adoro esta, usada frequentemente pelo escritor Mário Cláudio e que me cheira a infância, pois a minha avó paterna aplicava-a a meninos que adoeciam por tudo e por nada, sempre queixosos). Outra palavra que desapareceu do uso corrente – e se calhar ainda bem – é enjeitadinha, originalmente referindo-se a criança rejeitada ou abandonada pelos pais e presente em muitos fados da primeira metade do século XX. Tal como a expressão a esmo, que eu aprecio pela sonoridade estranha e que é hoje quase sempre substituída por «ao acaso», «à toa» ou «indistintamente». Um dia disse a uma rapariga que cortara o cabelo que lhe tinha feito bem ir ao baeta; ficou na mesma, não conhecia a expressão. Por fim, três outras palavras que só as pessoas de alguma idade ainda usam: pífio (já ouvi o professor Marcelo dizê-la a propósito de uma remodelação governamental insignificante); flausina (o mesmo que sirigaita) e capitosa (que vem de capo, cabeça, e significa «obstinada», mas sempre a ouvi designar louras que causam impressão indelével). E pronto, para o mês que vem, há mais.

Comentários

  1. O neo-realismo de novo – “ainda que excepcionalmente...” (1)

    Da porta que dá para o pátio disse para o moço: “Enquanto a tua mãe acaba de brunir, merendas só um cibo, e é quanto bonda, que logo mais, lá na ceia da matança, atestas o bandulho”; e para a mulher: “Já é sol-posto, despacha lá isso enquanto eu vou rachar umas canhotas para o lume”.

    Ela, uma cagalhota sem pescoço, grunhiu-lhe um desprezo. E para o filho, lingrinhas: “Come p’rá frente para engordares, que ele é um lanfranhudo que não sabe o que diz”.

    Estava ela a arrumar os precisos e entra ele com um braçado de lenha: “O tempo agora está senso, mas frio. E choveu, há-de haver poças no caminho. É botar os capotes, calçar as chancas e pés ao caminho”, e, murmurando a si próprio: “A ver se me não esqueço de levar o foxe”...

    ... como se o foxe, a novidade tecnológica de que tanto se envaidecia, fosse assim uma coisa já corriqueira, possível de deixar esquecida...

    Ná! – ele com aquilo queria dizer: “Vou chegar lá com o foxe na mão, assim como quem não quer a coisa, que é por mor de ver aquele pessoal atazanado de inveja...”

    ... ... ...

    (1) «Formas novas podem conter um significado velho; da mesma maneira que formas velhas – ainda que excepcionalmente – podem conter um significado moderno e progressista.»
    António Vale (*) – “Acerca da Génese e da Universalidade da Arte Moderna”, in O Diabo, 28 Abril 1938
    (*) Pseudónimo de Álvaro Cunhal
    ... ... ...

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  2. ah, ah, ah..."louras que causam um impressão indelével". O meu capitoso imaginário obstina-se a desenhar Lorens e Lollobrigidas.

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  3. António Luiz Pacheco15 de outubro de 2014 às 03:49

    A língua portuguesa é riquíssima no que tange à diversidade de termos e expressões!
    E é assim em todos os PALOP. Diria até que precisamente por causa deles.
    Pelo menos enquanto um pantomineiro da cultura não entender que para a simplificar e unificar, se passe a usa apenas um único termo para cada designação, e, com o mesmo fim de a divulgar e tornar acessível acabem as expressões idiomáticas ou que descrevam por outras palavras aquilo que se pretende transmitir!

    Suponho que esta riqueza e variedade, terá a ver com os inúmeros povos com que nos cruzámos e sempre misturámos e dos quais absorvemos tanto traço ou elemento cultural, fosse pelas muitas invasões sofridas desde a antiguidade, fosse pela nossa tendência expansionista e de errar pelo Mundo, nas mais variadas actividades, legítimas ou nem por isso, da marinharia, comércio, agricultura, ciência, etc.

    Ignoro se haverá algum dicionário que reúna TODAS as palavras, termos ou expressões da nossa língua, e se nalgumas se vê a nota “do latim”, “do grego”, era na minha óptica interessantíssimo e um trabalho positivo, dar a indicação ainda se vem do germânico, celta, suevo, árabe, turco, cartaginês, fenício, concani, umbundo, guarani, malaio, cantonês, suaíli, fidjiano… sei lá eu de onde mais!!!!

    E, quem escreve, também me parece que devia cultivar o uso da diversidade e dessa riqueza, sem receio de se tornar “ilegível”, “difícil”, etc. Era um bom serviço prestado *a divulgação da nossa cultura e da língua.

    Saudações idiomáticas da Cidade Morena, para onde parece que “acarretei” a chuva…

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  4. Adorei, mais uma vez. ahahahahahahahahahahah

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  5. Pôr-se na alheta logo me fez lembrar que na popa é um descanso. A enjeitadinha trouxe-me à memória um termo usado por minha mãe quando denegria alguma moça: mondongo. Os meios de comunicação social ignoram o pífio mas quanto a flop é um ver se te avias.

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    1. António Luiz Pacheco15 de outubro de 2014 às 04:52

      Vê... lá está! Mondongo é um termo espanhol! Significa por um lado o bucho ou vísceras, e designa no castelhano uma sopa que será assim como a nossa dobrada!
      Mas também significa roupas velhas e sujas, rasgadas, logo se aplicando a uma pessoa mal-trajada ou desmazelada, é usado em tom de desprezo.

      Ou seja, uma variante de farroupilha!

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  6. Temos um belo livro à vista ! Mais uma meia dúzia de textos com a mesma qualidade literária e estará feito ! E a pedir um bom ilustrador.

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  7. Estupendo. Fenomenal.

    Grato.

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  8. Nos meus tempos de juventude conimbricense, anos 70, usava-se muito o termo encasinação, no sentido de confusão, encasinar, armar confusão, ou vamos encasinar isto tudo, que não sei se é regionalismo ou foi apenas moda nesse tempo. Descobri mais tarde ter grande analogia com o "fare un casino", "ho fatto un casino" italiano. Ainda o uso, e é pelo menos reconhecido na minha familia.

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    1. António Luiz Pacheco15 de outubro de 2014 às 10:50

      Não conhecia o termo nesse sentido... mas a definição de casino é mesmo a de uma casa de reunião para jogar-dançar-assistir a espectáculos, e vem do italiano casino que refere uma casa de campo ou clube. Isto segundo o dicionário da Porto Editora!

      Encasinar não consta dele. Mas encontrei diversas referências a encasinar como sendo sinónimo de abandalhar!

      Há um termo curioso e semelhante, encanzinar, que significa fazer zangar!

      Realmente isto é muito interessante e estimulante!

      A propósito:
      A nossa linha (de caça) de malta da Universidade, fazia umas caçadas à quinta-feira ali pelos arredores de Évora, e como é de perceber, mais do que algum coelho ou perdiz, o objectivo eram mais as galinhas das quintas ou pelos montes, eheheh! O destino era depois o Zé da Lamarosa em cuja taberna nos juntávamos a petiscar o produto da "caça" e a beber uns copos, sempre havendo sessão de fados em que participava o então ainda desconhecido Nuno da Câmara Pereira e o João Braza (aliás João Peitaça!) e outros fadistas de ocasião! O elevado fim cultural justificava o saque das galinhas, patos ou o que calhasse tropeçar connosco... ahahah!
      Bom, certa vez ao abordarmos um monte, com a mira na gorda criação, sai de lá uma velha que nos espantou e gritava furibunda: " Vá d'embora daqui seus malandros! Tunantis! Cuidam qu'ist'éi algum rali ó quêi!" ...

      Pois aí temos uma expressão misteriosa: rali... de rallye? Ainda hoje quando nos juntamos recordamos essa tirada e por mais voltas que déssemos à cabeça, nunca deslindámos qual a razão de ser assim classificados!

      Eheheh!

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    2. António Luiz Pacheco15 de outubro de 2014 às 11:01

      Isto a idade e a memória... era Manel da Lamarosa e não Zé...

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    3. Claudia da Silva Tomazi15 de outubro de 2014 às 11:44

      Olá, Paulo Oliveira aqui no Brasil utilizá-se este termo encasinar que ocasionalmente entende-se que reforça a atitude.

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    4. A noite chegou e resolvi recorrer calmamente ao meu Houaiss. Encasinar não consta de todo mas lá vem encanzinado sinónimo de obstinado, como diz Cláudia por outras palavras, que no entanto associa a encasinado, e também de irado, zangado como bem diz Pacheco. Logo, juntando as duas, talvez o encasinar, encasinado, seja uma corruptela do encanzinado. Para nós, na noite de Coimbra, era bem claro que encasinar era mesmo armar um casino, armar a confusão da qual eramos, diga-se, saudáveis cultores e especialistas.

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    5. Encasinei-a? Ver abaixo o que diz Houaiss.

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    6. De modo algum.

      Em cá, sina: solidão errante

      Errar a nem ter parada; pá rolo! Parole, palavra.

      Coimbra é o melhor de nós, o melhor de mim.

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  9. Não sei se estas palavras estão em desuso, mas continuo a usá-las e a gostar muito delas:

    - barafunda (motim, confusão)

    - sarabanda (aplicada como repreensão, reprimenda, não como dança).

    - sanapismo (nem deve existir no dicionário)

    - traulitada (= sanapismo)

    Façam, os doutos, o obséquio (tb gosto desta) de me deixarem seus esclarecimentos.

    Agradeço.

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    1. António Luiz Pacheco15 de outubro de 2014 às 13:24

      Hum ... sinapismo (não sanapismo) conheço no sentido de remédio ou mézinha!

      Traulitada no sentido de cacetada!

      Mas deixei o dicionário no escritório ... eheheh!

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  10. "De escantilhão"... Não consegui ler mais no doloroso de me deparar com uma expressão recorrente de quem me ensinou esta língua e não viveu para me ver usá-la.

    Obrigada...

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  11. Quando quero usar um termo depreciativo em relação a alguém(em privado , para os meus botões) uso as palavras farragôlas e jimbrinhas. Nem sei se tais palavras existem...
    A minha mãe usa algumas palavras como trogalheira(pateta), garruço(gorro), a minha avó materna usava mercar(comprar). Alguém conhece?
    Fernanda

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