Coca-bichinhos
Quando a minha avó materna morreu, eu tinha oito anos e o último presente que recebi dela foi um livro ilustrado chamado A Menina Coca-Bichinhos. Durante o Verão, o meu irmão Jorge e eu brincávamos bastante com a bicharada (seguindo carreiros de formigas e observando ninhos de lagartixas) e, talvez por isso, o livro parecesse tão apropriado. Pois resolvi aceitar o desafio lançado por essa recordação e buscar no dicionário, à semelhança do que aqui fiz já com aves e vegetais, expressões construídas a partir de bichos mais pequenos. O Manel até disse que eu estava com bicho-carpinteiro, de tal maneira andava sempre a levantar-me para ir apontar mais um termo que me ocorria. Eu prefiro dizer que parecia um mosquito eléctrico, o que é, de qualquer maneira, bem melhor do que ser uma mosca morta ou uma barata tonta... Mas, para que conste, há também quem queira ser mosca, ou mosquinha, para poder estar onde não está e ouvir o que por lá se diz (quem esteja em pulgas para saber o que se passa); e quem perca a vergonha ao perguntar sistematicamente o que não é da sua conta e receba o epíteto de abelhudo (e o interpelado há-de queixar-se da perseguição com um «que melga!» ou mesmo «uma autêntica carraça!»). Quem anda desconfiado de alguém e com a pulga atrás da orelha pode também sentir um formigueiro avisador. Os que exigem dinheiro por tudo e por nada são verdadeiras sanguessugas. Os molengas são lesmas. A um garoto armado em adulto, diz-se frequentemente «já a formiga tem catarro». Chama-se verme a alguém capaz de coisas realmente vis. Estar em apuros é também estar em palpos de aranha. As coisas insignificantes são minhoquices. As portas velhas dos elevadores eram conhecidas como lagartas. Um cinema-piolho, expressão hoje desaparecida, era um cinema rasca. Percevejos era o nome dado a um certo tipo de pioneses. Uma sala às moscas está quase vazia. Nada-se mariposa, mas a paixão faz borboletas no estômago. Um certo zumbido dos despertadores é conhecido por besouro. Mulher com as medidas certas tem cinturinha de vespa, mas num vespeiro há normalmente muita maldade junta. Alguém que gosta de livros é uma traça. Popularmente, gafanhotos são perdigotos. No Brasil, grilo é preocupação. Gente com teias de aranha na cabeça é o que mais encontramos por aí e os andarilhos, equipamentos que servem para aprender a andar, também são conhecidos como aranhas ou aranhiços. Sempre adorei um modelo de Volkswagen a que se dá o nome de Carocha. E pronto, acho que já fui coca-bichinhos que bastasse. Qualquer dia dedico-me a animais maiores. Como dizem os irmãos brasileiros: Me aguardem.
Pela minha parte agradeço a referência à traça!
ResponderEliminarAhahah!
Volto a inclinar a coluna perante si, em sincero agradecimento e admiração pelo post.
Tiro-lhe o chapéu!
Depois destes encómios matinais que dispõem bem e são a prova de que também gosto de dizer bem, lembro ainda outras expressões que se usam em comparações animalescas:
- Fazer figura de urso! (má figura)
Comer comida de urso! (levar pancada)
Gordo que nem texugo! (óbvio)
Feder que nem um texugo. (cheirar mal)
Esperto que nem uma raposa... (óbvio)
Ter olhos de lince. (ver bem, ser arguto)
Ser uma águia. (ser muito bom no que faz)
Ser um camelo... (um idiota)
Burro (ou asno). (pouco esperto)
Ter sangue de rã!(ter sangue frio, impassível)
Estar que nem um perdigão na seara. (feliz)
Estar como uma felosa nos figos. (deliciado)
Estar que nem lagarto ao Sol. (consolado)
Que nem cão. (perseguir algo denodadamente)
Como peixe na água. (estar à vontade)
Ser cão de caça. (mulherengo)
Javardo. (bestial, sujo)
Armar em mula. (dissimulado, esconder o que sabe)
Mula. (mulher sabida ou boazona, prostituta)
Cão. (indivíduo de baixo nível)
À cão. (de qualquer maneira, sem pensar)
Cadela. (Prostituta)
Pécora (nome popular de porca). Suja, prostituta.
Ouriçar. (arrepiar)
Amêijoa. (vagina)
Abelhinha. (diligente)
Boi. (homem grande e forte)
Cavalo. (homem alto)
Macaco. (esperto)
Gorila. (esbirro, segurança, guarda-costas)
Baleia. (mulher muito grande e gorda)
Rato. (esperto)
Ratão. (engraçado)
Gata. (jovem sexy)
Víbora. (alguém que semeia a discórdia)
Mãos-de-aranha. (que deixa cair das mãos)
Cabeça de atum. (pouco esperto, desmiolado)
Lebre. (que corre bem, que vai na frente)
Papagaio. (que fala por falar, sem nexo)
Papagaio-de-charneca. (que fala bem mas sem sentido, discurso inútil)
Andorinhar. (mudar muitas vezes de direcção)
Passarinhar. (andar de um lado para o outro)
Galo-doido. (mulherengo)
Mãe-galinha. (mãe protectora, extremosa)
Ter olhos de mocho.(que vê com atenção)
Lágrimas de crocodilo. (falsidade)
Parte de leão. (o maior bocado)
Ufa... há mais!
Saudações animalistas, da Cidade Morena
Que saber! E óptima memória.
EliminarAmigo António, já tirou a oportunidade da Maria do Rosário se dedicar aos bichos maiores! Hoje o dia estava dedicado aos bichinhos! Mas quem sabe se a nossa anfitriã não se lembra de outros maiores?
EliminarSaudações para a terra morena
Peço a gentileza aos Ilustres visitantes que antes de deixarem seus extraordinários comentários, "limpem o salão", removendo os "macacos".
ResponderEliminarNão tenho macaquinhos no sótão, mas não gosto de porcarias ....
Feliz dia a todas as traças e aos ratinhos de bibliotecas.
Mais uma vez, adorei e fartei-me de rir. E fico a aguardar. Há pessoas
ResponderEliminar...por quem esperamos com gosto e uma delas e a rosário.
ResponderEliminarBem, o mosquito eléctrico não pode ser expressão muito antiga... Sei que a antiguidade não é critério, mas quis, mesmo assim, dizer.
ResponderEliminarA propósito das minhoquices (coisas insignificantes), lembrei-me de uma história. Estava eu um dia a assistir a uma sessão no Planetário de Hamburgo. O tema era o contacto com extra-terrestres. O cientista de serviço fez uma exposição das tentativas humanas já empreendidas, no intuito de descobrir vida além da nossa, descrevendo toda a panóplia tecnológica que se lança no Universo. Depois, as explicações possíveis porque ainda não tivemos sucesso, partindo do princípio de que de facto haverá vida além de nós.
Em primeiro lugar, as distâncias. Medem-se em anos-luz, ou seja, um ano-luz é a distância que a luz percorre durante um ano, para nós, já de si inimaginável. Ora, no Universo há galáxias a milhares ou milhões de anos-luz. Mesmo que "alguém" receba mensagem nossa, daqui a mlhões de anos-luz, e resolva responder, quando a resposta cá chegar, talvez já não exista Humanidade. Se calhar, já nem existe o planeta Terra.
Mas a segunda hipótese fascinou-me mais. Apesar da panóplia tecnológica, é possível que, a haver vida, tenha um nível de inteligência tal, que nem perceba que estamos a tentar comunicar. E o cientista usou uma imagem curiosa: quando, no meu jardim, vejo uma minhoca a meus pés, também não me passa pela cabeça que esteja a tentar comunicar comigo!
Moral da história: tudo é relativo, até as minhoquices
Minhoquices é a expressão certa para o que importa não tendo importância:)
EliminarE minerais? Fiquei com a pedra no sapato...
ResponderEliminarInventariou-se aqui muito bicho, mas falta ainda referir o Bicho-careta:
ResponderEliminarindivíduo qualquer = pessoa sem importância = figura vulgar = Zé-ninguém = Anónimo.
Não fosse eu bicho do mato até faria um comentário ....
ResponderEliminarCito um poeta meu conterrâneo…:
Eliminar«Se às vezes traz a verdade
Algum dissabor consigo,
Aquele que das que digo
Não mostrar nunca vontade,
Tenha ao menos por prudência
Paciência.»
(Abade de Jazente, “Verdades Singelas”)
… para singelamente reconhecer que, lá no mato, este prudente bicho-careta mostra paciência.
Gosto mesmo destes textos.
ResponderEliminarE o contributo do extraordinário ALP (pelo que vi ficaram famosas no último dia as iniciais) é magnífico.
O povo português é realmente muito criativo e a veia literária está às vezes onde menos se espera.
Por exemplo, em certas ocasiões, passo uma tarde numa adega ou numa taberna, e venho de lá a sorrir. Não pelo vinho, mas pelas tiradas engraçadas que se ouvem.
Há dias atrás ouvi uma muito divertida:
"Ah, isso do GPS é uma treta! A burra do 'Besteira' até já levava sozinha o dono para casa quando ele se embebedava".
E era verdade. Assisti algumas vezes. Era uma burra com GPS.
Não raras vezes, lá ia ela vagarosamente no seu caminho, enquanto o 'Besteira' dormia na carroça.
Verdadeira tecnologia de ponta dos anos 70.