Primeira e última

Há mais de dez anos, publiquei um livro de um então jornalista do Expresso, Orlando Raimundo, baseado num grupo de reportagens que ele escrevera para o jornal e cujo denominador comum era Marcello Caetano. O ensaio central dessa obra contava uma história pouco conhecida: a da sua filha Ana Maria que, por causa da doença nunca publicitada da mãe, teve de fazer as vezes de Primeira-Dama ao lado do pai, renunciando a uma vida própria e até a um casamento que já estava agendado. Mas nessa altura Orlando Raimundo não disse tudo o que sabia e, com o tempo, investigou também sobre outros assuntos directamente relacionados com o último Presidente do Conselho do Estado Novo, refazendo a obra e acrescentando-a de forma significativa, de modo a torná-la um ensaio biográfico de Marcello Caetano muito vivo; nele aprenderemos tudo sobre as suas origens, as ajudas que recebeu no período de formação (de um homem de esquerda, o que é muito curioso), a história de amor com Teresa Barros – a mulher que sofria de um distúrbio grave –, o grupo de pressão que o ajudou a chegar ao poder e também o seu posicionamento em relação a África e à manutenção das Colónias. Com uma linguagem simples e factos pouco conhecidos da maioria do público – como a identidade do noivo de que Ana Maria Caetano teve de desistir –, A Última Dama do Estado Novo e Outras Histórias do Marcelismo é uma obra fundamental sobre a nossa história recente.


 


Comentários

  1. Parece-me um livro na linha d "AS MÁSCARAS DE SALAZAR" e no "BOTEQUIM DA LIBERDADE", do Fernando Dacosta ; dois livros interessantes, quase cor de rosa, sobre duas figuras tão diferentes (Salazar e Natália Correia) e tão controversas, com capítulos curtos e que se lêem muito facilmente; creio que o senão (será um senão?) é o facto do autor quase endeusar os visados. No entanto, pelo que li, Natália Correia respeitava menos o ser humano do que Salazar...pareceu-me uma figura detestável (a Natália), que tinha criados para tudo e se não os tinha pedia-os emprestados... e que dava mais valor ao seu cão de estimação do que a uma criada...
    Talvez ORLANDO RAIMUNDO não tenha caído no exagero do Fernando Dacosta , daí a minha curiosidade sobre este novo livro sobre Marcelo Caetano.

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    Respostas
    1. Caro ASeverino,

      Este livro nada tem de cor-de-rosa, garanto-lhe. Embora seja bastante acessível, é também bastante sério - e mesmo a parte sobre Ana Maria é tudo menos cor-de-rosa.

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    2. Nunca tive dúvidas Maria do Rosário, nem tampouco os dois livros que citei o são (cor de rosa), foi talvez uma maneira de dizer, de salientar a facilidade de leitura dos mesmos e até de mencionar "a literatura fácil" sem, contudo, deixar de ser séria.

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  2. fico feliz, até por Orlando Raimundo ter sido meu professor (dos bons...) no Cenjor.

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  3. Provavelmente pareço reaça, mas tenho simpatia por Ana Maria e por Marcelo Caetano. E deve ser interessante saber mais sobre eles.

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  4. Acho sempre fascinante as vidas que estão por detrás das figuras públicas. Afinal, vidas como todas as outras, cujo fim, em 99% dos casos, é bem amargo. E é isso mesmo que é fascinante.

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  5. De acordo com as Extraordinárias Beatriz e Cristina... partilho desse fascínio de saber o que está por trás do homem ou da mulher...
    Provavelmente vou comprar e ler ainda este livro que deverá ser o espelho de uma época que me diz muito e trás boas recordações!

    Vou-lhes contar: conheci e frequentei uma ala da família Caetano, pois fui e ainda sou, amigo da filha do seu irmão que era locutor na RTP e vivia em Paço d'Arcos... fomos colegas no liceu de Oeiras e pertencíamos ao mesmo grupo do Picadilly. Por vezes aparecia a sua prima, filha da Ana Maria... eram e são uma gente encantadora, muito educada e culta. Os Extraordinários que sejam meus amigos facebuquianos se calhar já viram alguns comentários partilhados com ambos - Manoel Caetano, a filha e o marido que é um pintor e desenhador fabuloso!

    No entanto não tenho nenhuma simpatia pessoal pelo dr. Marcelo Caetano... faltou-lhe decisão e golpe de asa, teve tudo na mão - sobretudo a pacificação da guerra do Ultramar e uma solução pacífica que teria sido, essa sim, uma "descolonização exemplar"- e não sei nem nunca saberei porquê, deitou tudo a perder... e manteve a PIDE e a censura.

    Saudações nostálgicas do Bairro!

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