Palavrinhas

Certamente se lembram de que, antes das férias, prometi trazer uma vez por mês para este blogue palavras que estão tristemente a cair em desuso – na escrita, claro, mas sobretudo na oralidade, principalmente por desconhecimento dos mais novos. Decidi, assim, que o meio do mês é uma data boa para o fazer e, portanto, as palavrinhas giras de Setembro – quase todas com carga negativa – aqui vão: a primeira é «badameco» (eu uso e abuso porque a encontro mesmo expressiva), que se aplica a fedelhos malcriados, gente pretensiosa e também zés-ninguéns, e deriva da expressão latina «vade mecum», que significa «vem comigo» (gostamos, pelos vistos, de andar mal-acompanhados).


A segunda é «matarruano», o mesmo que labrego, mas com um toque mais ofensivo e cuja origem é desconhecida, mas pode vir de «mato», onde viveriam os não civilizados, os simplórios. A terceira é «moscambilha» (parece que é até mais correcto dizer «mescambilha»), que bem pode ser usada nos tempos que correm a respeito de certos políticos e banqueiros, pois quer dizer «trapaça» ou «tramóia». Segue-se-lhe «valdevinos» (a minha avó usava o termo a respeito do meu irmão mais velho, que era um pouco estroina) e que descobri vir de «Balduíno», nome comum de personagem de novelas de cavalaria, alguém certamente «saído da casca» (eis outra expressão que também já quase ninguém usa e as minhas professoras adoravam). Por fim, a única que ainda creio ser dita por alguns dos jovens – «ribaldaria» (estava convencida de que o primeiro I era um E, devo dizer), que todos aqui certamente sabem o que quer dizer e que vem do francês ribalt, malandro (mas uma malandrice não é nada ao pé desta ribaldaria). E pronto, por hoje chega. Usem, por favor, estas palavras para que não morram. Para o mês que vem há mais.

Comentários

  1. É estranho, tenho quarenta e um anos, já não serei propriamente jovem, mas uso estas e outras palavras no meu dia-a-dia. Daqui a mais incomum será "moscambilha", de resto todas me são bastante conhecidas e cresci ao ouvi-las e oiço-as de pessoas mais jovens do que eu. Não creio que, pelo menos estas, estejam assim tanto em desuso. Será mais das zonas de Portugal.

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  2. uma das melhores coisas que retiramos nas nossas visitas a aldeias do interior, são as palavras que ainda são usadas, não só dos objectos do seu dia a dia como da vida...

    muitas vezes precisamos de ajuda, para saber o seu verdadeiro significado. :)

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  3. [Segui as indicações da Rosário ("Usem, por favor, estas palavras para que não morram") e creio que as usei todas.]
    Veio o 25 de Abril, depois o 11 de Março, chegou quente o Verão do Companheiro Vasco. Cravos e punhos erguidos, barbaças aterradoras. Muita gritaria para que a Verdade penetrasse nos ouvidos empedernidos dos matarruanos: o povo unido jamais será vencido! Na vanguarda, o sr. João: chegara a hora da mudança. E avançava projecto emancipador: uma cooperativa agrícola, onde os camponeses recebessem atempadamente a justa paga do seu labor, sem distinção entre pobres e ricos.
    Defendia a ideia no café, no largo, respeitosamente escutado — afinal era o senhor João, proprietário de muitas terras, empregador de servos —, mas, mal virava costas,
    — O que ele quer sei eu!
    Sabiam. Sabiam desse saber de experiência feito que toda a gente é feita da mesma massa, a querer tudo para si, nada para os outros. Que Deus fez torto o Mundo e não há Messias que o endireite. Que o homem é o ladrão do homem. Bastava ver a ribaldaria em que, derribado o regime de Marcelo Caetano, o país mergulhara. Alferes imberbes eram promovidos à capitães, a majores, e eram esses badamecos que agora nos governavam. Não que negassem razão ao sr. João. Bem sabiam que na agricultura o lucro é sempre, e só, dos intermediários. E o que penavam para receber o dinheiro do vinho vendido, esmolando adiantamentos junto dos compradores, figurões da terra, os quais pagavam quando e como queriam?
    Mas no minifúndio os camponeses têm dupla personalidade, simultaneamente proprietários e assalariados; cuspiam nas mãos, como se nelas segurassem o cabo da enxada, empurravam a boina para o alto da cabeça, acenavam afirmativamente, sim senhor, uma cooperativa é coisa boa, isso é que nos resolvia as coisas, mas mal o sr. João virava costas costas lá vinha
    — O que ele quer sei eu!
    Desconfiavam dele. Era ateu. Desconfiavam da sua conversa: Jesus, dizia, foi o primeiro comunista. Desconfiavam da família: um tio, republicano velho, estivera envolvido nos motins contra Salazar e, murmurava-se, em morte de homem. Um irmão, desertor, esteve fugido em França. Era do MDP/CDE. Para os camponeses — comunista, como sempre tinham suspeitado.
    A cooperativa avançava, empregava até retornados de Angola na abertura dos alicerces:
    — Já arranjaste trabalho?
    — Ando na construção da adega dos comunistas!
    Nunca passou das fundações. Matou-a a caça aos comunistas, no Verão Quente de 75. Pouco importava se eram militantes ou meros simpatizantes. O ódio ancestral ao jacobinismo, aos pedreiros livres, aos ateus, renascera com as ocupações de terras no Alentejo, e os mais raivosos eram aqueles que de seu pouco iam além dos sete palmos que nos esperam no cemitério.
    A cooperativa, que comprara uvas, não as pagava: o vinho, dizia o sr. João, não escoava, perdidos os mercados africanos com a descolonização. Mas tinha esperança na ajuda revolucionária:
    — A União Soviética vai comprar o nosso vinho!
    Não fazia diferença o serem vermelhos — contanto que o bebessem. E durante algum tempo sonhou-se largo, seriam muitos milhões de bêbedos eslavos a trocar o ruim vodka, que tanto mal faz à saúde, pelo nosso tinto — quem sabe se graças a ele se operaria um dos milagres de Fátima, a conversão da Santa Russia! Mas os tempos não estavam para milagres, a fraternidade revolucionária era mera propaganda. Os russos não nos compraram o vinho.
    E numa noite homens revoltados, desconfiados de mescambilha, pintaram em letras vermelhas no muro da casa do sr. João:
    "Pequeno Cunhal
    Paga as uvas do pessoal!"
    JCC

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  4. Eu uso algumas destas palavras. Gosto em especial dos badamecos e dos matarruanos...
    Um abraço
    Carla Pais

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  5. Ainda uso uma ou outra, e sim, de facto não as encontro com facilidade nos media ou em livros...
    Caíram em desuso...

    Popularmente diz-se "rebaldaria" e eu julgava que era assim, mas afinal não é!

    "Saidinho da casca" é a expressão favorita da minha irmã mais velha quando ralha com os netos sobre as suas sempre discutíveis iniciativas...

    Aqui no Bairro, "matarruano" é sinónimo de ser bruto, estúpido e no geral pouco esclarecido de idéias - também se diz "trongo", embora trongo seja alguém também de mau-carácter...

    Será que os adeptos do AO que o defendem por acharem que "simplifica", defendem que se deixem de usar sinónimos? Ou seja, eleger a que seja mais usada (sobretudo no Brazil) e eliminar as outras?

    Eheheh! Sei que não passo de um badameco, mas não resisti a dar esta alfinetada à referida moscambilha, como matarruano que sou mas saidinho da casca, sem ofensa. Acho que o AO vai ser uma ribaldaria, pois nasceu torto e fruto da opinião de alguns valdevinos irresponsáveis!

    Saudações nubladas e pingadas do Bairro!

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  6. Matarruano ou PARRECO, a intenção era a mesma.

    FLAUSINA - beldade a quem os galãs (das sete e meia) assobiavam.

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    1. Parreco não tem grande graça, concordando a fonia com o significado. E flausina também, é uma palavra agradável que não sei porquê me lembra garotas com cinturinha de abelha:)

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  7. Juraria que ribaldaria era com "e", valdevino terei ouvido uma única vez há muitos anos e moscambilha não conhecia de todo.
    Quanto ao badameco, dei por mim a pensar na razão de ser tão expressivo, creio que as palavras começadas por "b" e "p" têm uma sonoridade que combina com um sentimento de desdém, talvez pelo gesto labial, que parece projectar um pouco de desprezo. Pergunto-me se não haverão outras letras ou ditongos que casem com um determinado sentimento...

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    1. Haverá, haverá outras sim...
      Correção com todo o amor que sabes que tenho por ti.
      Beijo da mana

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    2. Estaria grato por qualquer correcção, mas assim com amor ainda mais! Beijo.

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    3. Ehehehe estes teclados modernos precisam mesmo de ser corrigidos... A mana (que adorou esta declaração de amor encapotada).

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  8. Conheço todas e ainda poderia aqui deixar mais algumas, mas poderão eventualmente fazer parte da próxima lista da MRP e é melhor não escancarar:)

    Beijinhos
    Cláudia Moreira

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  9. Deixo uma fonte riquíssima de palavras a cair em desuso: o livro As Aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira. Estou a lê-lo agora aos meus filhos e é um festival de "palavras difíceis"!

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  10. Já a sigo há uma série de tempo, depois de o meu marido a ter ouvido numa conferência e ter ficado fascinado com a maneira como expôs o tema ( neste momento não me lembro qual ) e depois me ter mostrado via internet, e também eu ter gostado imenso.

    Acho o seu blog muito interessante a começar pelo nome que lhe deu .
    Como adoro ler, e estou sempre a fazê-lo ( às vezes 2 livros de cada vez) acho que este blog me ajuda a conhecer o que vai saindo ou aguça-me a curiosidade para ler certos livros de que fala.
    Como também gosto de escrever criei um blog quando a minha filha não entrou na universidade,por decimas, e pediu para ir estudar para fora. Isto foi há dois anos e eu quis partilhar essa experiência com pais na minha situação.
    Gostava muito que visitasse no meu blog que é:

    http://agorasoumaminka.blogs.sapo.pt/

    E veja um post que tenho sobre um livro que adorei:

    http://agorasoumaminka.blogs.sapo.pt/arroz-de-palma-sugestao-da-maminka-8546

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  11. A TRÍADE SALOIA Casino Estoril Sol III
    No caso da farsa do despedimento coletivo do Casino Estoril,passam já quatro anos sem fim à vista por atraso da justiça a maior parte das pessoas estão na miséria e vão inevitavelmente por falta de ordem económica entrar em pobreza profunda este é o maior espectáculo de drama deste Casino Estoril.

    Agora anda no meio dos MÉDIA para limpar a imagem,,,,,,

    http://revelaraverdadesemcensura.blogspot.pt/

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  12. Esta secção do blogue bem que poderia intitular-se “Em Busca do Termo Perdido” (*)

    Um conterrâneo meu, regressado pela primeira vez de França para passar férias na aldeia depois de ter emigrado, contava, entusiasmado, peripécias que por lá tinha vivido.
    Uma delas:

    «- Eu a ver nitidamente que era queijo, e o gajo a ateimar que era fromage !!!»

    Cá está!: este termo “fromage” havia caído em desuso desde os tempos de Eça.
    E o tipo recuperou-o. Com tanto sucesso que, durante anos e anos, nós, a malta, repetíamos esta frase a propósito de tudo e de nada.
    E eu, como se demonstra, ainda hoje não deixo escapar uma ocasião para o meter na conversa.

    (*) – Também ficava bem “À la Recherche du Mot Perdu” – até mais elegante…

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    1. Desculpem lá, isto sou eu a tentar recuperar o meu franciú porque vou prá semana a Paris conhecer o meu novo neto, nascido há poucos dias.

      De presente vou levar-lhe um "migalheiro" com algumas moeditas, para que os pais, em-no chocalhando, o vão habituando desde miúdo a ir amealhando as migalhas.

      Agora só me falta descobrir como é que os franceses diziam migalheiro antes de adoptarem "magot".

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  13. Badameco, uso e abuso - há por aí tamtos! Badamecas, também. E quando alguém se arma ao pingarelho é uma formiga com catarro.

    Continue, Maria do Rosário. A língua portuguesa de pindérica não tem nada.

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  14. Tanto e não tamto , desculpe.

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  15. Moscambilha é uma excelente palavra que desconhecia.

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  16. Recordar palavras em desuso é interessante e útil, defesa de património, tudo bem! Mas muitas destas palavras estäo carregadas de preconceitos e refletem juízos muito duros que fazemos dos nossos semelhantes. Quem se pode reservar esse direito?

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  17. "R(e)baldaria", "badameco", e "saído da casca" ouço muitas vezes.
    "Valdevinos" só conheço de ver em livros.
    "Moscambilha" é completamente nova para mim e "matarruano" também seria se o meu avô não a usasse frequentemente (como sinónimo de "fulano").

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  18. Sempre usei moscambilha e as outras mas eu gosto destas palavras antigas. Já andei à procura depois de ler este texto mas não encontrei nada que explique a razão de ser mais correto dizer 'mescambilha'. Porque é?

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